Serendipity

2 Apresentações


Notas iniciais
vim aqui te desejar uma ótima leitura e espero que goste ♡ deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie

Talvez ele estivesse ficando louco. Era bem possível, na verdade.

Seus amigos com certeza concordariam; bom, pelo menos Kookie, sem dúvida. Se Jimin tivesse contado o que estava prestes a fazer, ele e Jungkook teriam outra daquelas discussões sobre fazer coisas sem pensar e por pessoas que nem sequer sabia se podia confiar, como acontecera quando voltara ao bar para procurar o menino estranho. Jimin tinha certeza de que ele seria contra, e como estava disposto a continuar mesmo assim, nem se preocupou em contar a ele ou Taehyung, o qual se mostrara surpreendentemente neutro em relação a tudo isso. Quer dizer, ele o aconselhara a não ir sozinho, mas não especificamente a não ir.

Independente de qualquer coisa, Jimin não podia mais voltar atrás quando desceu na estação do metrô próxima ao endereço que se lia no pedaço de papel rasgado em suas mãos.

A bolsa tiracolo cheia de livros e papéis da universidade pesou em seu ombro, e ele estremeceu um pouco ao sentir o vento frio de final de outono – por enquanto, poderia usar aquele cardigã azul-claro e aquelas calças jeans surradas, mas logo teria de escolher peças mais pesadas com a chegada do inverno que se aproximava. Jimin pôs a máscara sob o nariz e a boca e passou a caminhar pelas ruas vazias; viu casas, majoritariamente, e alguns prédios baixos. Uns mostravam cores divertidas e esculturas nas entradas, mas a maioria tinha tons cinzentos e sem graça, desbotados e descascados com o tempo. Um homem encarou Jimin de uma janela, e ele desviou o olhar, tentando se concentrar nos números das casas. Viu o nome da rua que estava escrito no papel numa placa e, então, entrara lá, mas não havia visto ainda o número certo. Moveu o olhar dos muros das casas para o papel, começando a ficar nervoso – será que estava mesmo no lugar certo?

De repente, avistou o número, quase tropeçando na calçada. Olhou do papel para o muro, ainda sem acreditar muito. Era um prédio pequeno, cinzendo e velho – as paredes estavam manchadas e descascadas pelo tempo, o muro já tinha inúmeras pichações. A maioria das varandas mostrava roupas penduradas, algumas plantas também, e ele podia ouvir alguém, no térreo, cantarolando algo unido ao som de folhas sendo arrastadas. Engoliu em seco quando percebeu os latidos e alguns gritos ao longe, mas era o lugar certo… ou pelo menos, assim Jimin esperava.

Estava a ponto de dar o primeiro passo para subir os pequenos degraus e tocar a campainha quando ouviu alguém se aproximar na calçada, virando automaticamente a cabeça para olhar. Do jeito que estava apreensivo, imaginou mil coisas – de um policial para levá-lo por algo que não tinha feito a um bêbado que iria arrumar confusão – naquele único segundo que levou para reconhecer a pessoa em questão. Mesmo com toda a sua imaginação, a opção mais óbvia falhou em passar por sua cabeça.

Suga.

De capuz azul-escuro e máscara cobrindo o nariz e a boca, o menino esguio e alto caminhava de um jeito estranhamente interessante. Jimin sentiu um nervosismo quase imperceptível emanar dele, mesmo que tentasse escondê-lo nos mínimos gestos; nas mãos escondidas nos bolsos do casaco vermelho, que revelava uma blusa cinza por baixo; no assovio abafado pela máscara e na tentativa de olhar apenas para o chão à sua frente. Jimin viu-se incapaz de se mover, apenas observando-o se aproximar cada vez mais e esperando que o notasse ali. E, ao levantar o rosto despreocupadamente com um molho de chaves em mãos, Suga notou, arregalando os olhos e parando no mesmo instante, apavorado como se tivesse visto um fantasma. Jimin tentou não se sentir ofendido.

— O que merda você está fazendo aqui?! — Foi o que Suga exclamou, arrancando a máscara fora e surpreendendo Jimin – não pela frase, e sim pela altura da voz. Parecendo também perceber, o mais alto olhou rapidamente para o prédio e voltou a falar, abaixando o tom. — Posso saber por qual excelente motivo você continua me seguindo? Vou acabar tendo que chamar a polícia, riquinho.

Jimin tentou não ceder.

— Polícia? Enquanto está envolvido com aqueles caras do bar? Acho que você prefere ficar longe das autoridades — Rebateu, usando a única – possível – arma que tinha contra o outro. Distraidamente, notou que o único vestígio remanescente em seu rosto da briga daquela noite era um curativo numa das sobrancelhas e uns resquícios de hematomas nos olhos, mas nada demais. Suga estreitou os olhos, aparentemente sem acreditar no que ouvia.

— Você não sabe de nada — Disse, apenas, virando-se para subir os degraus. Jimin se apressou para acompanhá-lo. — Nem, no mínimo, sobre esse endereço, então os jeitos pelos quais pode ter descoberto são um tanto quanto suspeitos.

— O que eu sei é que você deixou uma quantidade suspeitosamente grande de dinheiro comigo no outro dia, e minha mãe não criou um caloteiro. Então, vim devolver — Disse Jimin, chamando a atenção do mais alto, que voltou-se para ele quase – quase – sorrindo. — Ah, e tinha um papel rasgado no meio das notas, foi assim que eu descobri esse lugar.

Os olhos de Suga pareceram brilhar por uma fração de segundo, e ele não estava mais sorrindo – se é que em algum momento estivera. Parecia ter entendido como Jimin chegara lá.

— Não importa, filhinho da mamãe — Provocou Suga, fazendo a paciência de Jimin diminuir em três níveis. Mas ele não deixou transparecer. — Agora suma daqui antes que escureça.

Vendo o outro pôr-se a se afastar novamente, Jimin se apressou em pegar o dinheiro dentro da carteira, impaciente.

— Então ao menos pegue a droga do seu dinheiro!

No instante em que Suga ia virar-se para responder, uma voz surgiu de dentro do prédio ao lado do som de chaves girando e metal se arrastando em metal.

— Olha só, quem é vivo sempre aparece! — Bradou uma mulher baixinha, uma vassoura em mãos e um pano segurando os cabelos negros. Ela era um pouco gorda, usava uma bermuda jeans suja de tinta e uma camisa suada, e olhou para Suga com uma expressão sorridente mas ao mesmo tempo analisadora. De repente, mudou esse olhar para um convidativo e alegre para Jimin, que não sabia onde se enfiar. — Ah, e trouxe companhia dessa vez!

— Não é companhia. E ele já estava de saída — Afirmou Suga, impossibilitando Jimin de tentar contestá-lo. Então, apenas guardou a carteira de volta na mochila e virou o rosto para a mulher, tirando a máscara e mostrando o sorriso mais educado que conseguiu pôr no rosto.

— É verdade, senhora, preciso mesmo ir — Disse, sentindo o olhar fulminante do mais alto deixá-lo, mesmo que relutante. A mulher fez um gesto amplo com as mãos, dando dois passos rápidos para passar do portão.

— Menino, “senhora” foi minha amada mãe, pode me chamar de Soo! Ah, gostei do cabelo, por sinal — Ela pôs a mão larga no braço de Jimin, puxando-o com ela para dentro do pátio, cheio de plantas e ervas daninhas crescendo por entre as pedras do chão. — E você vai entrar um pouco, faz tempo que Yoongi não trás amigos aqui.

Jimin olhou para ela, confuso, mas logo arregalou os olhos e direcionou-os para o menino que caminhava irritadiço ao seu lado. Agora tudo fazia sentido – sabia que não tinha como alguém nomear o próprio filho de Suga.

O mais velho revirou os olhos, tocando o braço da mulher, que agora Jimin desconfiava seriamente ser sua mãe.

— Pare de besteira, ele tem de ir emb...

Ela bateu na mão dele com a própria, fazendo-o parar a frase instantaneamente. Agora Jimin tinha certeza; ela era mãe dele. Somente uma mãe para conseguir calar a boca daquele ser insuportável.

— Besteira, não vai demorar nada. Vou apenas servir um lanchinho, deixei Holly cozinhando uns biscoitos lá em cima.

Suga – Yoongi – suspirou, passando a mão na parte de trás da cabeça.

— Holly não cozinha, mãe… — Murmurou, mas não parecia querer convencê-la, apenas desistindo de contrariar a mulher engraçada que agora os guiava escada acima. Bom, não era como se algum deles tivesse tido chance – Jimin não mais era puxado por ela, mas sentia que se tentasse voltar levaria, no mínimo, uns três gritos diferentes. Então só parou de pensar muito e seguiu-os até chegarem no segundo andar, entrando numa das duas portas logo atrás de Yoongi.

Adentraram num apartamento pequeno, cheio de bugigangas penduradas no teto, fotos grudadas nas paredes – manchadas e descascando-se em alguns pontos –, estantes carregadas de livros e papéis por todo o recinto e um tapete roxo e vermelho surrado no centro da sala. Jimin manteve o sorriso curioso no rosto ao passar os olhos pela varanda – onde viu muitas roupas penduradas para secar – e pela mesa de jantar, depois da qual se via um apenas corredor e a porta da cozinha. Soo foi direto para lá, seguindo a trilha de fumaça transparente que vinha de lá, tagarelando como estivera fazendo antes; e Jimin se assustou momentaneamente ao ouvir latidos perto de seus pés – um cachorro marrom que parecia um poodle se aproximara correndo e abanando o rabo felpudo.

Essa é Holly — Introduziu Yoongi, agachando-se e segurando o cachorro – ou melhor, a cadela – em frente a Jimin, acariciando-a e sorrindo. Jimin, enfim entendendo de quem eles haviam falado mais cedo, riu levemente e se abaixou para fazer carinho nela, que lambia Yoongi no rosto.

Por um brevíssimo instante, as mãos dos dois meninos se tocaram, e Yoongi o olhou, a expressão mudando de repente. Pareceu lembrar-se de que era Jimin que estava ali, que não o queria por perto, que em todas as outras vezes que estiveram juntos nada deu certo.

Yoongi levantou-se, sem dizer mais nada. Era impossível ler o que estava sentindo por baixo daquela grossa camada de olhares firmes e voz áspera que o separava do mundo das pessoas socialmente acessíveis. Jimin ergueu-se também, caminhando até perto dele, mesmo que relutante. Olhou ao redor, vendo o ventilador de teto balançar e fazer barulho e as cortinas coloridas da janela dançarem com o vento.

— Você mora aqui, hyung? — Indagou, sem olhar para o outro.

— Não — Respondeu Yoongi, inexpressivo. — Ela mora.

Ele indicou a cozinha com o queixo, no momento em que Soo xingou alto logo depois de ouvirem algo estridente cair no chão. Yoongi balançou a cabeça, pondo as mãos nos bolsos do casaco. Jimin moveu o olhar várias vezes, mordeu o lábio, mexeu na cutícula das unhas, tudo enquanto pensava se continuaria a insistir. Finalmente, decidiu que sim: não iria tão longe para fracassar.

Estendeu a mão, cheia de dinheiro, para Yoongi, que a olhou confuso.

— Por favor, só aceite logo — Pediu Jimin, que viu o outro exalar outra vez, alternando o olhar das notas para o rosto dele. — Isso é seu. É muito simples.

Depois de alguns segundos a mais de hesitação, Yoongi pegou o dinheiro de qualquer jeito, no mesmíssimo segundo em que a voz de sua mãe se tornou mais alta ao que ela voltou à sala, com uma bandeja fumaçante em mãos. Ela os olhou, parando no meio de uma frase, como se os tivesse pego num ato ilícito. E, a julgar pela rapidez que Yoongi pôs o dinheiro no bolso, realmente parecia ser. Jimin teve de se reafirmar interna e silenciosamente que não era um traficante nem nada do tipo.

— Ok, aqui estão, biscoitinhos à moda da casa! — Disse Soo, animada, pondo a bandeja no centro da mesa, e de súbito Jimin sentiu-se faminto. — Fique a vontade, cerejinha, pode comer quantos quiser.

O menino duvidou por um segundo se ela estava se referindo a ele, mas não teve muita opção quando foi deixado sozinho na sala com os biscoitos – e Holly, deitada no tapete coçando a orelha com a pata –, já que Yoongi e sua mãe foram para a cozinha, aparentando falar baixo. Jimin pegou um biscoito e mordiscou, sentindo o sabor adocicado de canela preencher-lhe os sentidos, pegando mais um e passando a caminhar lentamente pela sala. Viu listas e nomes fora de contexto, pinturas infantis e fotografias antigas – não pôde evitar sorrir ao ver um jovem Yoongi rindo largamente enquanto corria com Holly por um campo, dois adultos atrás dele também sorridentes. Reconheceu a mulher como Soo, e o homem ao lado dela devia se tratar do pai de Yoongi.

Sem querer, Jimin conseguiu captar pedaços da conversa dos dois no outro cômodo, conforme o tom das vozes foi aumentando.

— Como você tinha todo esse dinheiro e não trouxe para mim, Yoongi?! — Reclamou Soo, tentando manter a voz num sussurro e claramente falhando. Jimin automaticamente desejou estar em outro lugar.

— Eu ia trazê-lo, me escute…!

— Não, me escute você! — Devolveu a mulher, e pelo que parecia a primeira vez Jimin notou Yoongi obedecer. — Eu trabalhei duro, mais do que você ou o imprestável do seu pai jamais trabalharam, e essa merda de país nunca vai me deixar ganhar meu próprio dinheiro. Então, eu espero que você, como meu único filho, ajude a pessoa que te pôs no mundo pelo menos nisso!

— E que tal me dizer onde está o imprestável do meu pai? Hein? — Bradou Yoongi, não mais preocupado em fazer silêncio. Foi ouvido o som de louça batendo uma na outra levemente; Soo estava ignorando-o fazendo outras coisas. Jimin, agora, se apoiava numa das cadeiras, as mãos suando como reflexo do quão desconfortável ele estava. — Ah, você não sabe. Você não sabe porque ele saiu ontem à noite e não voltou nem deu notícias. Mas é claro que nós sabemos que ele está num bar, bebendo até que esqueça do desperdício de espaço que é, e provavelmente traindo você também!

— CALE A BOCA! — Berrou Soo, as louças fazendo um barulho estridente ao caírem no chão e assustarem Jimin, que agora olhava para a porta da cozinha, em vão. Não conseguia ver nenhum dos dois, e não soube se alguém estava machucado – ficou tão aflito com a possibilidade que chegou a impressionar a si mesmo.

Mas logo suas dúvidas foram respondidas quando Yoongi saiu de lá, marchando em direção à porta, escancarando-a numa fração de segundo. Jimin não moveu um músculo ao que o outro olhou diretamente para ele, os lábios rijos e a veia no pescoço mais visível do que nunca.

— Vamos — Ordenou, e Jimin não precisou ouvir uma segunda vez para obedecer. Caminhou apressado até ele, parando na saída, em dúvida. Virou-se para dentro outra vez, tentando fazer-se ouvir.

— Foi bom conhe…

— Esqueça — Cortou Yoongi, puxando o outro pelo braço com um estalar de língua. A cadelinha choramingou, abanando a cauda perto deles. — Tchau, Holly.

E a porta se fechou com um estrondo. Yoongi, largando o braço de Jimin, começou a descer as escadas com pressa. O outro menino fez o mesmo, tentando manter o passo até chegarem ao pequeno pátio do prédio e, depois, ao portão, o qual Yoongi teve de destrancar com uma das chaves no molho que Jimin vira mais cedo. Passando primeiro e depois deixando Jimin atravessar, ele fechou o portão atrás deles e não se preocupou em trancar de volta.

Passaram a andar pela calçada, e o menino mais novo não sabia se seguia ao seu lado ou não; Yoongi caminhava rápido, quase dois passos à sua frente. Ele não mostrara sinais de que estava com raiva de Jimin especificamente. Bom, ele sempre parecia irritado com tudo, de qualquer modo.

Então, Jimin tentou.

— Você está b…

— Estou ótimo — Respondeu Yoongi, rispidamente, sem olhá-lo. Suspirando e movendo o rosto para as próprias mãos, Jimin voltou a falar, mais baixo dessa vez.

— Desculpe por isso. Eu não pensei antes de vir, e…

Uma risada o interrompeu no meio da frase, e teve de erguer a cabeça para acreditar que Yoongi estava realmente rindo, balançando a cabeça. Foi a primeira vez que Jimin o viu rir de verdade, e percebeu que seu rosto se arredondava mais quando ele ria. Yoongi olhou para ele, exalando e balançando a cabeça.

— Não foi sua culpa. Minha família é essa bagunça todos os dias — Disse, simplesmente, pondo as mãos nos bolsos. — E obrigada por trazer o dinheiro, realmente não pensei que fosse fazer isso. Você me surpreendeu, riquinho.

A lembrança da discussão entre mãe e filho sobre aquele dinheiro passou pela mente de Jimin por alguns instantes, trazendo toda a confusão sobre aquilo à tona. Mas, por incrível que pareça, Jimin sorriu. Mesmo com o apelido irritante e o tom metido do menino, foi incapaz de impedir o sorriso teimoso de dançar em seu rosto.

Fazendo um movimento de cabeça, Yoongi o chamou.

— Vamos, a estação é por aqui. E você vai acabar se perdendo se eu deixá-lo sozinho.

Depois de parar dois segundos para pensar, Jimin voltou a andar, dessa vez realmente ao lado dele. Alguns passos e instantes silenciosos depois, ele olhou para o mais alto, com uma sobrancelha erguida.

— Então… Suga?

O menino moreno sorriu de lado, balançando a cabeça.

— Eu nunca disse que meu nome era esse.

— E eu nunca lhe disse meu nome, mas você não ficou achando que fosse algum tipo de apelido estranho — Devolveu Jimin, somente constatando aquilo de fato quando verbalizou a frase. Parecia que haviam passado por tanta coisa e, mesmo assim, não sabiam nem sequer os nomes um do outro. Mas, no fim das contas, ele lembrou a si mesmo, não havia nada que justificasse isso.

Surpreendentemente, Yoongi o olhou com um olhar divertido e sobrancelhas arqueadas.

— Será mesmo, Chimchim?

Jimin arregalou os olhos, sem conseguir conter uma risada incrédula quando pôs uma das mãos no rosto. Lembrou-se de todas as vezes durante aquela primeira noite em que Taehyung ou Jungkook o chamaram por aquele apelido, e de súbito percebeu que, na maioria delas, Yoongi estivera ao lado, perfeitamente ao alcance para escutar.

Quando abriu novamente os olhos, ainda rindo e sentindo as bochechas queimarem de vergonha, viu o fantasma de um sorriso e os olhos do menino alto, e subitamente teve consciência dele. A rua estava escura, quase não havia postes, mas Yoongi parecia brilhar à sua frente, incandescente do que qualquer lua. E, por alguns instantes, só existiu aquilo no mundo – eles, o silêncio e o céu estrelado acima dos dois.

Yoongi pigarreou, movendo o olhar; Jimin fez o mesmo, piscando, e tentou mudar o ar que de repente tornara-se constrangedor.

— Bom, então nós nunca fomos devidamente apresentados — Disse, estendendo a mão direita. — Park Jimin. Eu sei que é um prazer me conhecer.

Yoongi ergueu uma das sobrancelhas, mas segurou a mão estendida do menino mesmo assim.

— Min Yoongi. Nem tanto quanto pensa.

Jimin, ainda sorrindo, voltou a segurar a alça da bolsa que pesava em seu ombro. Os dois se aproximavam da estação. Já estava quase completamente escuro e, com certeza, muito frio. Os lábios de Jimin começavam a tremer; ele podia ver a nuvem branca de ar se formando à sua frente toda vez que expirava.

Chegando à estação, eles sentaram-se num banco, e ouviram um gato miar em algum lugar debaixo deles. Yoongi puxou algo do bolso, e Jimin viu uma luz rápida piscar, percebendo que se tratava de um isqueiro a acender o cigarro na boca do menino, que soltou a fumaça no ar. O mais novo tentou – acredite, ele realmente tentou – não fazer uma cara de nojo tão explícita ao falar.

— Não pode acender isso em outro lugar? Odeio cheiro de cigarro.

Yoongi soltou uma baforada bem no rosto do outro, recebendo reclamações e socos no braço como resposta.

De repente, o gato cujo miado havia sido ouvido instantes antes apareceu, esfregando-se na perna de Yoongi e claramente querendo carinho.

— Tá vendo? Ele gosta de mim — Provocou o mais velho, acariciando a cabeça do gato malhado. Jimin se juntou a ele, passando a ponta dos dedos nas costas do bichano – suas manchas eram variadas, indo de marrom muito escuro, passando por um amarelo claro e terminando em branco.

— Isso é porque vocês têm muito em comum — Rebateu, fazendo Yoongi soltar um ruído seco ao que o gato se afastou. O mais velho, dando uma tragada, ergueu-se, ficando logo à frente da luz que iluminava o rosto de Jimin. Segundos depois, ele notou outra vez aquela cicatriz na lateral do pescoço de Yoongi, não podendo evitar lembrar-se daquele dia que a vira tão próxima do próprio rosto. Lembrar-se de como, tão inesperada e subitamente, o menino estranho e desconhecido se pusera entre Jimin e os caras que os ameaçavam, não deixando ninguém duvidar de que estava se arriscando por ele. De que estava protegendo-o.

Jimin queria perguntar. Queria perguntar de onde se conheciam, se é que se conheciam de verdade, pois havia sido aquele o motivo para aquela história toda, para início de conversa. Sim, o motivo para aquela sensação que sentia toda vez que se aproximavam, essa lembrança vaga e turva de já terem se visto antes. Um eterno déjà vu que o menino não aguentava mais cultivar, entretanto, não conseguiu reunir coragem suficiente para perguntar, tampouco.

O vento passou por eles e Jimin sentiu um frio subir a espinha, puxando as mangas do cardigã para cobrir as mãos. Ouviu um trem se aproximar, e Yoongi virou-se para ele lentamente.

— Esse é o meu. Tenho que vazar — Disse, simplesmente, tragando mais uma vez o cigarro. — Se cuide, riquinho.

Não sabia por quê, mas Jimin esperava que ele dissesse ou fizesse outra coisa. Algo em sua postura denunciava isso, mas muito provavelmente era só sua paranoia. Então, sorriu.

— Você também, badboy.

Acenando com a cabeça, o menino de cabelos escuros caminhou em direção às portas do metrô, deixando Jimin com suas indagações. Se perguntava o porquê de ter um medo inexplicável de deixá-lo se afastar, como se fosse perdê-lo para sempre se o perdesse de vista.

E isso, por um motivo que ele desconhecia, o aflingiu de um jeito que o fez sentir o peito incomodá-lo com uma dor aguda e profunda ao observar o trem se afastar, adentrando no desconhecido da noite.

Notas finais
ps: não usei o nome real da mãe do yoongi, até porque essa personagem não foi baseada em nada nela. então não tem nada a ver, nem o pai. ps2: sim, Holly é macho na vida real, mas eu sempre imaginei sendo fêmea, e agora ficou assim na minha cabeça e é assim que vai ficar na fanfic rs ps3: esse gatinho já apareceu em um certo mv de uma certa música... obrigada por ter chegado até aqui, eu nem te conheço e tu já tens um lugar no meu coração ♡ ei, fique com vergonha não, valorização é muito importante pra quem escreve, deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie