Notas iniciais
Final chapter, tã dã dã dãããã

Chapter 5

– Você já parou para pensar... como lesmas acasalam? – ele perguntou, divertido.

– Deus, não, porque eu faria nisso? – ri.

– Eu já vi um vídeo, quando estava no ensino médio. Foi uma das coisas mais fascinantes que já vi. – tomou um gole da minha caneca de Star Wars.

– O que pode ser mais fascinante que isso, não é mesmo? – eu estava bem ocupada devolvendo as ironias.

Ele obviamente escolheu minha caneca de Star Wars. Ela tinha o formato do capacete do Darth Vader, eu também adorava ela. Acabei ficando com a minha laranja com pôneis estampando. Fiz café demais, mas ainda estávamos apenas na nossa segunda caneca. Ele pôs leite e mel, o que foi normal e não me incomodou. Eu pus apenas açúcar. Muito açúcar. Meu café era um horror para diabéticos.

Não sei há quanto tempo estávamos ali, mas o céu começava a adquirir aquela tonalidade esquisita que anuncia o dia. Daqui menos de uma hora o sol nasceria. E tínhamos tanto café no corpo que dificilmente dormiríamos, então foi de comum acordo silencioso continuar aquele papo.

– Você já reparou nessa cor do céu? É como se fosse bem gradual, sair do negro e ir caminhando para o azul claro. – apontei o céu.

– Não é como se eu me preocupasse muito com o céu de um lugar tão aberto quanto lá fora. – ele fez um muxoxo.

– Ah, tá. Lugares abertos.

– Abertos demais.

– Mas você não olha nunca a paisagem?

– Em imagens. Parece bem bonito mesmo, mas não consigo apreciar quando estou lá. – ele acenou para fora. Estávamos sentados um de frente para o outro, ao lado da varanda que permanecia com a porta fechada. – É péssimo ter esses problemas. Você sempre perde algo que todo mundo parece curtir muito.

– Mas consegue ver beleza em outras coisas, por exemplo, uma estante muito bem organizada. – dei um sorrisinho por sobre minha caneca. Ele gargalhou e o ronco, risada, espirro dele ecoou um pouco pelo recinto pequeno.

– Um computador muito bem construído.

– Passamos nossa vida tentando fazer mais para nos agradar, ao invés dos outros. Isso deveria ser louvado. – quase terminei o café em um gole grande.

– Isso foi meio Clube dos Cinco? – ele fez uma expressão gozada.

– Ótimo filme de fúria adolescente. Apesar de não sermos adolescentes mais, haha.

– Eu sempre quis ser o Bender. – sua voz ficou nostálgica. – E, tecnicamente, há quem considere adolescência até os 21 anos. Algumas leis, tipo a da bebida. – ele criticou.

– Inferno, não. Adolescência, época traumática. Deixe-me feliz por ter passado disso, mesmo que algumas pessoas não concordem com isso.

– Posso ter dar essa brecha. – sorriu torto.

O silêncio chegou e permaneceu, mas não nos deixou loucos e desconfortáveis. Um encarava um ponto específico, eu pensava sobre aquela noite absurda, talvez ele pensasse o mesmo.

– Uma vez eu tive uma crise tão forte que meus pais me internaram. – comentei. – Meus pulsos ficaram enfaixados por um bom tempo, mais para eu não reincidir. Inclusive meus braços tiveram que passar um tempo presos à cama. – não sei bem porque eu estava contando aquilo, talvez a necessidade de desabafar com alguém que não estava me analisando por cada hora paga. E fui recompensada com um olhar compreensivo.

– Já passei alguns meses trancado em casa. Inclusive isso me atrasou na faculdade, para variar. Eu simplesmente não conseguia e não queria sair. Sinto que o mundo não tem muita coisa para me atrair para fora, sabe. – deu de ombros.

– Eu saio e faço coisas, mas é tudo tão metodicamente planejado que não sei se sou atraída para fora ou se apenas sigo a multidão por ser o certo a fazer. Para me encaixar. Isso não é completamente frustrante? – bufei.

– Eu nunca tive ilusões de me encaixar.

– Eu tive. Tenho. – me afundei no chão.

– Ei, cada um com suas ilusões, não? Eu me iludo achando que vou mudar o mundo sem precisar participar dele. – apertou meu joelho, tentando me confortar.

– Como isso seria exatamente? – mudei para algo mais leve. Ele apenas balançou a cabeça, achando aquilo ridículo.

– Algum tipo de programa ou tecnologia que revolucionará. – apertei sua mão sobre meu joelho.

– Até que não é idiota. – ele ficou encarando nossas mãos e sua respiração acelerou. – Toques? – perguntei.

– Algo assim. – fui tirar minha mão, mas ele resmungou que não. – Temos que enfrentar essas coisas, não?

– Isso não soa como tortura? – agora eu estava louca para tirar minha mão.

– A mudança é possível. Se não, pelo menos atenuada. A gente deve tentar. Sempre. – sua mão livre foi para seu cabelo, tentar trançar com uma mão só.

– Hum, Sam, acho que...

– Calma. Tá tudo bem. Está ficando tranquilo. – ele desistiu e ficou só bagunçando os cabelos. Daqui a pouco eu iria pegar o pente e arrumar aquilo, infernos.

Foi um momento suave. Vê-lo acalmando também me ajudou a me acalmar por ele. Aquilo poderia dar certo. Reprimi com muita força o desejo de pentear seus cabelos e correr lavar nossas canecas. Poderíamos tentar de verdade. Nada de ficar só confiando em terapias, falar poderia resolver muitas coisas, mas não gerava ação concreta. A coisa cabeluda e complicada chamada força de vontade era o último ingrediente para fazer as coisas funcionarem. Eu teria que parar com os “talvez”.

Aquilo seria tão tortuoso e difícil.

Finalmente Sam soltou uma última respiração profunda, olhando para nossas mãos juntas sem muita dor dessa vez.

– Fiz mais avanços nessa noite que em meses com psiquiatra. – ele roncou, riu, espirrou, aquela coisa maluca.

– Tenho que concordar também. Doutora Tara surtaria. – compartilhei o riso.

– Tara? Doutor Ewan, prazer.

– Igualmente. – apertei sua mão e soltei.

Então comecei a pensar que poderíamos fazer aquilo juntos. Não todos os dias, mas, enfim, não perder contato. E aquilo era horrível, angustiante e me agoniava. Era uma mudança na rotina perfeitamente construída. Era algo que eu tinha medo de levar adiante. Era algo impossível de ser previsto, o que poderia ocorrer dali. E eu corria um sério risco de infartar precocemente pensando nessas coisas.

– Você acha que tem como isso dar certo? – joguei, impulsivamente, o que não era do meu feitio nunca. Ele pensou um instante.

– Nunca vamos saber se não tentarmos, não é?

– Mas me diga algo concreto, alguma certeza, pelamor. – agarrei sua mão de novo, com força.

– Garota cujo nome ainda não sei... – ele deixou um ronco escapar, se aproximando.

– Charlie. – soltei num ganido.

– Charlie?

– Melhor que Charlize.

– Uau, sério?

– Meus pais, culpe-os. – falei, irritada.

– Charlie, não precisa ter medo do desconhecido.

– Mas como não se ele é desconhecido e eu odeio desconhecido? – eu ia bater minha caneca na minha cabeça, juro.

– Charlize.

– Vou meter a caneca em você se me chamar assim.

– Droga, garota. – ele fechou os olhos como se tomasse coragem e me beijou.

Tá, foi uma coisa muito esquisita e durou 2 segundos no máximo. Apenas um encostar de lábios. Ele se levantou e começou a pular de forma dolorosa na minha frente. O que diabos ele estava fazendo? Ah, tentando lidar com a aversão a toques com outras pessoas, talvez? Mas porque aquilo de antes? O que diabos...?

Puxei ele para o chão de novo e ele caiu esborrachado. Corri para trançar seu cabelo de novo, a maioria das tranças anteriores tinham sido desfeitas. Ele ficou apenas abraçado em si e com a cabeça baixa, à minha mercê. Dessa vez todo seu cabelo ficou cheio de tranças pequenas. Um rastafari bem ruim e frouxo, mas ficou bem estético e diferente.

– Foi muito corajoso, mas não me use mais para superar seus medos. – sussurrei, terminando uma trança com força.

Observei o céu lá fora saindo do cinza e mudando lentamente para o azul ciano. Uma luz alaranjada já começava a aparecer. Quando voltei para ele, o mesmo me observava com uma expressão concentrada.

– Preciso ir. – soltou.

– Okay. – nos levantamos juntos.

Peguei a chave e abri a porta de vidro da varanda. Um ar gelado da manhã entrou, me fazendo arrepiar. Ele não pareceu sentir muito. Sam saiu pela porta.

– Eu não te usei. – ele falou, me olhando de forma firme e séria. Acreditei em cada palavra, me sentindo meio esquisita por dentro. A manhã não pareceu tão fria quanto antes.

– Vou te ver de novo? – perguntei, curiosa e com o sentimento dúbio de querer e não querer aquilo.

– Talvez. – ele olhou o chão e um sorrisinho brotou antes de me olhar novamente. – Ainda tenho muitos apagões para sofrer. – devolvi o sorriso e ele se virou, andando descalço e com roupas femininas pela rua vazia.

O céu já estava bem claro já, os postes começavam a apagar, mas continuei a observar sua silhueta magra andando de forma engraçada pela rua. Um andar de pinguim, como minha mãe definiria. Charmoso, talvez esquisito, mas charmoso, eu diria.

Já estava me preparando mentalmente para lavar as canecas só às 10h da manhã, pronta pra lutar contra os instintos da compulsão. Afinal, tinha deixado os pratos para lavar depois de forma deliberada e muito controlada. Só de pensar naquilo já me deixava muito tensa. Pratos sem lavar na pia. Um horror mesmo. Mas superável. Eu tinha um bom objetivo para aquela semana. Nada de estantes arrumadas duas vezes por semana. Ou guarda roupa com roupas separadas por cor e definição. Ou sapatos por tamanho e cor. Ou mesmo músicas guardadas em ordem alfabética e informações completas sobre.

Acho que era muito. Um caminho meio longo. Talvez muito longo. Não, bem longo para alguém com TOC. Mas vamos aos poucos, Charlie.

Fechei a porta, dessa vez não trancando. Vai que algum garoto esquisito queira se refugiar no meu tapete de novo.

Notas finais
Apesar de tudo foi bom escrever essa shortfic. Pequena, rápida, meio que me desafiei a escrevê-la e concluí-la em menos de uma semana (devido à toda sorte de problemas eu sou meio ruim com frequência de postagem, sorry). Então fico feliz por isso. Eu imaginava um final diferente ou um pouco mais mágico, mas eu escrevi isso, né? Oqhondlkjanml Gosto do fluxo de pensamento, curto acreditar que se tu escreveu assim, se teu inconsciente jogou aquilo, deveria ser mantido. É o correto, como meu cérebro diz. Tá, parei com as nóias. Vou tomar umas água com açúcar pra lidar com a crise aqui. Obrigada por terem lido toda essa maluquice. Au revoir e até à próxima c:
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!