Serendipity

2 O dia em que o soldado retornou ao lar - Parte 1.


Notas iniciais
Eu tentei fazer um único capítulo, mas ele ficaria muito extenso, então aí vai a primeira parte pra vocês! Me digam o que pensam a respeito, essa fic é bem diferente das outras por aqui, quero saber o que estou fazendo de errado, viu? Caso alguém seja acanhado, é só mandar através de mensagem particular. Boa leitura!

"Sem o amargo, o doce não seria tão doce"


Ela gritava, gritava tanto que Rachel julgava que ela ia acordar a vizinhança inteira com seus agudos. “É, até que eu tinha uma boa garganta quando era mais nova. Ah não, o que eu estou dizendo, eu tenho uma excelente garganta até hoje.” Ela pensou convencida.

– Quem é você e o que você está fazendo dentro do meu quarto? – A Rachel mais nova encarava boquiaberta sua sósia mais velha. – Você é irmã da Shelby ou algo assim...? Porque se for, diga a ela que estou bem e que desejo bons votos a ela e a Beth, mas saia daqui imediatamente.

– Ok. Eu sei que isso vai ser difícil e você não vai acreditar no que eu vou dizer, até porque eu mesma não acreditaria se fosse você. – Ela riu da própria ironia. – Mas você precisa me escutar, sem gritar ou me interromper. Eu sei que vai ser difícil pra você.

A Rachel mais nova ainda visivelmente abalada sentou-se numa cadeira próxima a entrada do quarto. A Rachel mais velha respirou fundo e soltou todo o ar de uma vez, anos de teatro musical ensinaram que essa é a forma mais simples e eficaz de deixar o ar fluir para o cérebro e conseguir tomar boas decisões. Ela provavelmente tinha esquecido isso nos últimos meses, principalmente em suas discussões com o marido, entretanto.

– Eu sou você.

A mais nova arregalou os olhos e tentou controlar a risada que ameaçava sair.

– KURT!!!! – Ela gritou. – Ok, Kurt, já chega, pode aparecer. Essa brincadeira não teve graça nenhuma.

– Rachel. – A mais velha falou séria. – Não me faça usar o meu tom sério com você. Eu sou você, você é eu. Ou algo assim. É difícil digerir a história toda, ela também não faz sentido algum pra mim, mas eu vou te contar o que eu sei. Se é verdade que existem universos paralelos e que é possível acessá-los e em cada um deles as coisas ocorrem de maneira diferente, é possível que nós duas sejamos a mesma pessoa vivendo em tempos diferentes. Como num filme com finais alternativos diferentes.

– Mas se você sou eu no futuro... isso implica que eu agora não existo e sou apenas uma projeção sua? – Ela questionou confusa. – Porque então eu diria que isso não faz sentido. Eu sou real, eu lembro do meu dia de ontem, eu tenho uma vida, eu tenho aulas daqui a algumas horas... isso não pode ser de mentira.

– E não é. – A mais velha respondeu. — Todos esses universos coexistem. A existência de um não altera o curso do outro. O que eu não sei é porque eu vim parar aqui.

A Rachel mais nova parecia pensativa agora.

– Espera aí. Você não pode ser eu em outro canal, outro universo, estrela ou sei lá o que. – Ela argumentou segura de si. – Eu jamais me interessaria por uma teoria sem pé nem cabeça como essa de universos alternativos.

A Rachel mais velha assentiu, como se esperasse que seu eu mais novo respondesse daquela maneira.

– Eu já sabia que não seria fácil provar pra você que eu estou com a razão, como sempre , aliás. – Ela sorriu, vendo a outra virar os olhos. – Quando eu era você, eu também não tinha interesse, mas veja só, Blaine presenteou meu marido com um enorme livro de física quântica. Eles assistem um seriado que retrata isso juntos e eu lia algumas páginas quando podia.

A Rachel mais nova pareceu levar um choque diante da palavra “marido” e ao ouvir a outra citar Blaine, mas ainda assim manteve-se arredia. Por mais que a estranha com aquele papo pra lá de maluco fosse parecida com ela, tudo ainda podia ser uma armação de Kurt. Saber o nome de Blaine não garantia que ela era realmente o seu eu do futuro.

– Eu sei que você não acredita em mim, Rachel. – A mulher mais velha disse quase lendo seus pensamentos. – Mas te conhecendo melhor do que ninguém, sei que você quer muito acreditar em mim. Eu vou te dizer algo que você nunca contou a ninguém, nem Finn, mas que você vai contar hoje ao Brody, que eu contei há anos atrás ao Brody nesse mesmo dia.

– Você está enganada... não há nada que eu não tenha contado ao Finn e eu jamais contaria a Brody algo que Finn não saiba. – Ela disse como se aquilo fosse o maior absurdo que já tinha ouvido.

– Você não só vai contar a ele, como vai cozinhar pra ele. – Ela assistiu seu eu mais novo abrir a boca em descrença. – Mas vai ficar horrível, porque você não quer cozinhar de verdade pra ele e bem você vai contar aquilo que ninguém sabe, ele vai te contar algo ridículo sobre garotas gostosas, porque é o único assunto que ele entende, você vai fingir achar graça e vocês vão se beijar.

– Desculpe-me mas a Senhora é louca, Brody é um amigo, eu não sei como você entrou aqui, se isso é uma brincadeira do meu amigo, mas uma coisa eu digo, você vai sair daqui AGORA. – A Rachel mais nova apontou a direção da porta para a mais velha.

A mais velha parou na porta e tornou a olhar para a sua eu do passado, ou seria presente? Nem ela sabia mais.

– No jardim de infância, eu recebi minha primeira carta de amor de um garoto chamado Tony. – Ela dizia com calma, assistindo o crescente espanto no rosto da outra. – Eu corrigiu todos os erros gramaticais e...

– Devolveu pra ele. – A Berry mais nova completou, agora crédula.

– OH MEU DEUS! Como é possível? – Ela disse exasperada, trazendo a mais velha pela mão para sentar-se na cama.

–Eu não sei, mas teremos que achar um jeito. – A Berry mais velha disse pensativa. – Eu não posso ficar presa num tempo que não é meu.

– Er, eu...

– Pode perguntar o que quiser sobre o meu futuro. – Ela assentiu, lendo os pensamentos da outra novamente. – Quer dizer, seu futuro. Nosso futuro.

A Rachel mais nova mordeu o lábio inferior, visivelmente desconfortável.

– Você disse sobre seu marido e Blaine assistindo algum seriado... – Ela murmurou.

– Ah, claro! Vê quer saber que seriado é? – Ela caçoou.

– Não. Óbvio que não. – Ela respondeu rapidamente. – Eu quero saber quem é o seu marido. Er, meu marido. Nosso?

A Rachel mais velha riu alto.

– Quem você acha? – Ela sorriu serenamente.

– Finn? – Ela arriscou, com medo que a resposta fosse negativa.

– É claro. – A outra tranquilizou-a, pegando em suas mãos. – Ele é um idiota às vezes, totalmente troglodita, deixa as toalhas jogadas na cama, garrafas de cerveja no sofá, grita por pouca coisa, está frio nos últimos tempos, mas você não consegue viver sem o sorriso atravessado, as mãos grandes, os braços fortes, a presença dele no teatro em cada novo musical que você estrear, o modo como ele cuida das crianças, quando ele te surpreende. Você o ama e nunca deixará de amá-lo e você sabe disso mesmo nos momentos de crise.

A Rachel mais nova sentiu os olhos salpicarem com lágrimas quentes que ela vinha guardando há dias. A simples lembrança de Finn, mesmo que não fosse o seu Finn, mesmo que fosse o Finn de outra pessoa, o Finn dessa Rachel mais velha que conversava com ela agora.

– Você o ama e você nunca deixou de amá-lo – A estudante disse.

A mais velha confirmou com um aceno de cabeça.

– Sim, eu o amo, mas eu não tenha ideia de como o encontrarei novamente. – Ela disse limpando as lágrimas da mais nova. – Eu nem sei se isso é um sonho.

– Onde você estava antes de vir pra cá? – A mais nova questionou.

– Eu estava na minha cama, junto com Finn – Ela assistiu seu eu mais novo morder o lábio inferior. – Não precisa ter ciúmes, não é como se o meu Finn fosse o seu, não é traição. Retornando, eu estava na cama após a ceia de Natal.

– Certo. – A mais nova refletiu. – E não houve nada de diferente entre os eventos do seu dia até a hora em que você foi pra cama?

A mais velha pensou por alguns instantes e então percebeu um fato que não havia tomado consciência ainda.

– Ah não. Oh, meu Deus! – A Berry madura começou a circular pelo quarto em pânico. – Não pode ser, não é possível, diz que é mentira, por favor.

– Você está fora de controle! – A mais nova seguiu-a com o olhar. – Por favor, acalme-se.

– Você não entende... – Ela suspirou, sentando-se novamente na cama que já fora sua. – Eu e meu marido, Finn, nós discutimos antes de dormir, dissemos coisas horríveis um ao outro e ele me disse que desejava não ter se casado comigo mesmo me amando e eu, eu... fiz esse pedido antes de dormir, que nós não tivéssemos nos casado e por isso agora eu estou aqui, o destino está me dando uma chance de mudar o que eu quero... Mas se eu mudar alguma coisa e meu casamento com Finn jamais tiver existido, então meus filhos também não terão existido e minha vida não será a mesma. EU NÃO QUERO ISSO.

A mais nova encarava seu eu mais velho boquiaberta. Seus olhos arregalados davam sinal de quanto abalada ela se encontrava. Tomando coragem, ela perguntou:

– Eu tenho filhos? – Seus olhos brilhando.

– EU tenho filhos. – Respondeu a mais velha. – Nina e Christopher. Você ainda não está no meu tempo. Olha, você precisa me ajudar se deseja que eu vá embora e sua vida volte aos trilhos.

A mais nova assentiu balançando a cabeça dramaticamente.

– Mas o que eu tenho que fazer pra te ajudar?

A mais velha pensou por alguns segundos, antes de encarar sua eu do passado e responder:

– Você tem que me ouvir, acreditar no que te contarei sobre o seu dia de hoje. – A outra parecia temerosa. – Confie em mim, eu já vivi tudo o que você vai viver hoje.

– Certo, estou ao seu dispor pra ouvir e fazer o que você me mandar. – Ela assentiu.

A Rachel do futuro passou uma longa hora explicando para a Rachel do passado como seria seu dia. Explicou sobre a transformação em seu visual que Kurt iria propor, sobre o encontro com Brody e como ela tomaria a iniciativa de convidá-lo para jantar com ela, contou também sobre o fatídico beijo e a chegada abrupta de Finn. A Rachel mais nova escutava perplexa as palavras dela mesma no futuro. Parte dela estava feliz pelo retorno de Finn, mesmo que ainda estivesse magoada por ele não ter dado notícias, durante todo aquele tempo.

– Eu não vejo problemas em você pegar umas belas roupas da Vogue.com, mas não convide em hipótese alguma o Brody para vir aqui. Ok? Eu acho que posso tentar resolver os erros do passado, se foi me dada essa oportunidade e embora você não saiba, acredite em mim, Brody não é apenas um erro do passado, ele é provavelmente o maior deles.

A Berry mais nova repassou mentalmente as coordenadas da mais velha.

– Eu confio em você. – Ela sorriu segura. – Se você diz que Finn estará de volta hoje, eu confio que ele estará.

– Sim, mas ele está muito abalado por coisas que aconteceram. – A Rachel do futuro acrescentou. – Então prometa que será cuidadosa, ele precisa muito de você.

– Certo, eu prometo. – Ela deu um amplo sorriso pra sua versão mais velha. – Posso dizer uma coisa, er, Senhora Berry?

– Claro. – Ela devolveu o sorriso.

– Você é linda. – Disse a mais nova com sinceridade.

– Você também. – Ela abraçou sua versão mais nova. – Nunca permita que alguém faça você pensar o contrário.

Dizendo isso a Rachel do futuro ia saindo, quando a sua versão do passado questionou para onde ela iria. Ela lhe respondeu simplesmente dizendo que deveria aproveitar um pouco do dia em Nova York antes que pudesse descobrir o que de fato estava acontecendo e se havia como modificar. Sua eu mais nova assegurou-lhe que ela podia voltar para o apartamento caso algo desse errado e ambas inventariam para Kurt que ela era sua tia, o que não seria difícil, uma vez que elas tinham o dom nato de persuadir as pessoas.

Dito e feito, a Rachel do futuro deixou o apartamento, encarregando sua eu mais nova e menos madura de resolver o seu futuro... ou seria presente? Ela não estava mais tão segura.

Sem saber ao certo onde ir, já que Nova York parecia mais assustadora para uma viajante do tempo, ela dirigiu-se até o Sardi’s e com o dinheiro que a Rachel mais nova a emprestou, ela conseguiu pagar uma xícara de cappuccino e alguns croissants, ela precisava pensar e nem lugar seria melhor que aquele para colocar seus pensamentos em ordem.

O que ela faria agora? E se seu plano fracassasse e ela não conseguisse voltar ao seu universo. O universo onde seus filhos e seu marido esperavam por ela... Pior, e se esse mundo, o mundo que ela conhecia e amava não existisse mais e ela fosse obrigada a assistir sua própria vida como em um filme? E se ela fosse forçada a viver numa realidade alternativa sem as pessoas que amava, sozinha e sem esperanças?

Ela não percebeu a entrada abrupta de uma pessoa no restaurante, perdida em seus próprios lamentos.

Quando tornou a olhar para cima, enxugando as lágrimas que caiam teimosas por suas bochechas, ela então o viu.

Ela quis gritar e correr ao seu encontro, mas ele parecia muito cansado, como se tivesse tomado um trem de horas.

Mas se essa era uma chance para ela recuperar as coisas perdidas e consertar as coisas que tinham dado errado, por que diante dela estava o seu Finn? O Finn que viera do mesmo universo que ela?

Sem pensar em mais nada, exceto na presença dele ali, ela gritou:

– FINN!


Notas finais
Reviews?