Serendipidade
5 Jaguadarte
Notas iniciais

Estaria ele falando sério? Em hipótese alguma iria contestar seu noivado com a sua noiva à minha frente. Somente anelei desejando que minha expressão não estivesse muito evidente.
— Gostariam de entrar? — perguntei atentando a Frederich, ignorando um pouco sua teatral noiva. Ambos negaram com a cabeça, um sorriso adornava os lábios de Santa Heart. Frederich, por sua vez, apenas estreitava os olhos demonstrando seu desconforto no lugar. — Presumo que estejam ocupados? — perguntei observando Santa sair da minha residência e encaminhar-se à saída.
— Estávamos ocupados com os preparativos do casamento! — respondeu Santa com animação e uma modesta pontada de orgulho. Encolhi-me. Sua conduta murava em questão de milésimos. — Eu e o Freddie iremos nos casar daqui a um mês! — ela sorriu puxando Frederich para perto de si.
— Desculpe, Alice. Viemos aqui só para a Santa te conhecer. — Frederich por fim se pronunciara, mas sua voz estava um tanto mórbida, como algo de ruim estivesse prestes a acontecer. — A Duquesa de Cheshire pediu para te avisar. Ela pediu para você ir ao campo azul de flores... — ele falou. Logo após engoliu em seco. — Sozinha. Boa sorte, Peu Fou! — ele findou despedindo-se. Santa Heart não fizera questão de fazê-lo, lançou-me um olhar dissimulado e ameaçador.
Até as duas figuras conhecidas saírem da minha visão, eu permanecia observando sorrateiramente pela janela redonda. Definitivamente, Santa Heart não havia gostado de minha pessoa. No espaço todo daquele pequeno diálogo, fui capaz de ver através da sua ‘máscara’ de emoções. Deveria ter algum argumento, pelo menos, concreto para comportar-se assim? Pensava que não. Estas eram uma das poucas preocupações minhas. Apenas desejava retornar a minha casa mais rapidamente.
Arrastei-me pela cabana em direção ao pequeno cômodo que reluzia pelas brechas das janelas. Puxei de lá algo bem curioso.
Uma blusa azul. Um colete preto. Uma calça preta.
Seriam vestes para a Alice que eu deveria ser? Suspirei levemente e olhei-me uma última vez no espelho até colocar meus pés para fora do âmbito.
[...]
— Oh, Alice, a Marcada! — saudou a Duquesa de Cheshire com um chapéu escondendo suas madeixas vermelhas. — Fico satisfeita por Frederich ter te avisado corretamente. — ela diz fazendo sinal com a cabeça para aproximar-me. Aproximei-me com rapidez e tratei logo de sentar-me naquele campo amontoado de flores azuis.
— Duquesa, não gostaria de ser grossa... — inalei normalmente. — Mas por que me chamou? — indaguei levantando meu olhar para ela.
— Está na hora de prepara-se para a batalha. Ou pelo menos, saber no que é boa. — ela disse sentada em um pequeno trono em volta das flores. — Ser a Marcada já é um grande bem, mas você deve ter outras habilidades. — um arrepio passou por minha coluna após ela frisar a palavra ‘deve’. — Alice, a Rainha de Copas está ficando sem poder, sua fonte de poder. O cetro não estava mais adiantando muita coisa. — ela revelou escondendo o olhar de mim. — Os sequestros estão mais frequentes. Ela está alimentando-se das vidas de nosso povo! Enquanto ela não for derrotada irá permanecer assim. Ela está atrás de mim. Ela está atrás de nós. Sou a feiticeira de Wonderland e você é a guardiã de Wonderland. — ela suspirou e puxou uma miniatura de cetro dourado.
— Duquesa, você não poderia fazer um feitiço para evitá-la? — indaguei.
— Alice, estou perdendo poder. Minha capacidade com a magia está adormecendo. Meus feitiços estão tornando-se embaralhados. Creio que Frederich já contou-lhe, mas faço a proteção de Wonderhood e de uma boa parte de Wonderland. Antes de você vir, todo meu feitiço de proteção para Wonderland foi rompido. Ainda não sei por que, mas a cada dia percebo que estou ficando sem forças. — uma singela lágrima brotou de seu olho esquerdo. — Não posso combater a Rainha de Copas sozinha. Devemos fazer isto juntas! — ela não conseguiu se conter. Abraçou-se fortemente e beijou meus cabelos. — És minha única esperança. — ela moveu o cetro como um maestro comandando uma orquestra. — Mostre-me suas habilidades! — ela gritou.
O campo azul de flores tornou-se frio e uma nuvem cinza tomou toda claridade ali presente. Seria o campo mesmo? Estava tão distinto e tão melancólico.
— Duquesa? Duquesa? Duquesa? — perguntei aumentando meu tom de voz. Nenhuma resposta eu obtive apenas um grande estrondo. — Ajude-me! — gritei abraçando meus joelhos.
— Alice! Estou aqui. Estamos apenas em uma simulação, mostre suas habilidades! — ela exigiu.
— Como? — perguntei empertigando-me em busca da Duquesa de Cheshire. Um riso tétrico ecoou pelo campo e do interior das árvores saíram dríades temíveis com os rostos em borrão.
— Não as deixe se aproximar. Cuidado e boa sorte! — finalizou a Duquesa com delicadeza e cautela na voz.
Tentei me refugiar das dríades nas árvores, mas elas saíam de lá. O local ficou frio e mais escuro. Procurei em meus bolsos algo para ajudar-me, mas ali não havia coisa alguma. Cada vez mais as dríades aproximavam-me de mim com os rosto de borrão e suas mão carregando instrumentos cortantes. Gritei quando um desses instrumentos passou de raspão em meu rosto. Uma pequena camada de sangue escorria em minha bochecha, chutei uma das dríades quando agarrou meu braço. Elas sussurravam meu nome diversas vezes causando naquele lugar um terrível barulho. A determinada dríade continuou com sua mão esquerda pressa em meu braço, ela fincava em meu pulso suas unhas cortantes e eu gritava de dor. Com bastante determinação e força, pude libertar-me de suas unhas deixando em meu pulso as marcas vermelhas de suas unhas.
— Socorro! Duquesa! — gritei correndo para longe da aglomeração de dríades lúgubres. — Ajude-me! — pedi enquanto parava para respirar.
Uma espada jazia em cima de uma pedra escura e suja. Com as pernas latejando de tanto correr, consegui capturá-la, com dificuldade de levantá-la pelo seu estimado peso. A espada era trabalhada com pedras bem vermelha de rubi e boa parte do seu interior e exterior era feito de um bronze bastante forte. Após muita luta conseguia ergue-la e tentar manusea-la com sabedoria.
Inicialmente quando uma dríade aproximou-se de mim não consegui golpea-la, ela por sua vez conseguira transferi um golpe certeiro em meu abdômen, onde ali mesmo uma mancha escarlate tomou conta de minhas vestes. Uma dor aguda abrangeu meu corpo. E em um acesso de raiva consegui revidar com rapidez. Levantei a espada com somente a mão direita e em um rápido movimento na diagonal fiz um estrago no corpo da dríade. Ali mesmo ela caiu em sua própria poça de sangue.
Observando o horror de longe, algumas dríades voaram para cima de mim. Minha visão parecia está aguçada demais, conseguia enxergar os movimentos dela em cada milésimo. Dei-me conta só depois, quando se restavam três dríades no campo. Elas correram feito uma matilha de lobos. Deixando-me só com os corpos das dríades e a espada.
A escuridão dissipou-se como fumaça, na névoa do campo um vulto tomou forma. A Duquesa de Cheshire estava de pé batendo uma mão contra a outra, aplaudindo.
— Pois bem, surpresa eu estou. Sua capacidade de guardiã é bastante notória. Apenas não esperava que após seu encontro com a espada de Copas você iria desabrochar como uma flor. Parabéns, guardiã Alice! — a Duquesa concluiu aproximando-se de mim, e tomou a espada em suas mãos. — Esse é o seu amuleto. — ela sorriu enquanto analisava a espada em suas mãos. Ao piscar os olhos a espada encontrava-se em um tamanho mínimo. Ela era um pingente. — Tome. — a Duquesa disse e pôs em meu pescoço a espada.
[...]
— Alice, querida, suas vestes estão em estado deplorável. Vá trocar-se! O jantar será servido no pavilhão daqui a... — ela puxou dos bolsos de seu vestido um relógio de bolso. — Dez minutos! Vejo-te daqui a pouco, guardiã! — ela sorriu para mim e se foi.
Não senti dificuldade alguma ao localizar-me em Wonderhood. O lugar ainda reluzia uma luz amarela forte, mas algo diferente estava acontecendo. Um vislumbre estranho alertou-me de algum ocorrido curioso. Senti enjoo e tontura rapidamente, dessa forma achei refugio em minha cabana. O terror deu-se inicio logo que fechei a porta atrás de mim. Tratei de empurrar o sofá para trás da porta, dificultando o acesso. Fechei todas as cortinas e apaguei as velas. Gritos enchiam o lugar de ecos. Pedidos de socorro. Choros. E ordens eram dadas.
Pelo canto da janela espiei o movimento lá fora. Eles estavam vestidos de vermelho e preto, com chapéus pontudos, carregavam com si tochas acesas. E a escuridão tomou conta de minha visão depois de um tempo.
Jaguadarte
“Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!”
Ele arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do homundo
Na árvore tamtam ele afinal
Parou um dia sonilundo.
E enquanto estava em sussustada sesta
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrefliflando através da floresta,
E burbulia um riso louco!
Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, pra trás, pra diante!
Cabeça fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.
‘Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, hominino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!’
Ele se ria jubileu.
Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas
E os momirratos davam grilvos."
Dali levantei-me em um local estranho. Todos não paravam de andar para os lados. Frederich olhou de soslaio e puxou-me da cama.
— Vamos! Não temos tempo. O Coelho Branco nos espera! — ele disse andando com passos deliberados pelo extenso corredor que apareceu quando Frederich abriu a porta. — O Jaguadarte raptou Santa e a Duquesa de Cheshire. Temos que nos organizar para trazê-las de volta.
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