Quando sentava em frente ao meu computador, visualizei o facebook. Nada demais. O momento do tédio moderno. No passado, leria uma revista ou um livro, hoje, a informação circula loucamente e somos, nós, a ditar se vale a pena digerir ou não tal assunto. No entanto, vi uma foto marcada de uma amiga que me intrigou. Era uma selfie do grupo de amigas x dela que não conhecia. Achei estranha uma parte da foto, era bem borrada mais perceptível aos olhos treinados de um relacionamento longo. Era desfocada e nítida (será que é possível?), meu namorado de longa data beijando outra? O que pensar?

Salvei, ampliei e pensei em dizer que meus olhos estavam cansados. Inegável e burrice da minha parte mentir tão mal pra não me machucar. Como assim? Merecia ser tratada deste jeito tão vulgar e vil? Não tinha dúvidas. Era ele. Em seu melhor perfil (é de lado) com uma mulher aparentemente muito bonita. Os dois parecia trocarem carícias bem explicitas e totalmente indiscretos. Vi sua mão pousar delicadamente em sua cintura com uma ternura nunca compartilhada comigo. Um sorriso das primeiras semanas de namoro, caloroso e verdadeiro. E um beijo dada pela “garota de sorte” em seu rosto, jogando na minha cara que era ela a paixão sincera dele. Ridículo. R-í-d-i-c-u-l-o!

O que fazer? Sair daqui. Não tenho renda para me sustentar e seria humilhante voltar nas asas da mamãe e do papai. Talvez eu passe uma temporada em casas de amigas até me assentar financeiramente. Ok. Sem moradia não serei. Ok. Ok. Começar a arrumar a mala e meus objetos mais preciosos. E as memórias de nós dois? Fingir que foi um sonho bom ou guardar na caixinha de pandora? Será que nesta caixa haveria esperança? É melhor ser racional por agora.

Como começar a conversa? Falar o que eu vi e me dizer o porquê de não ser homem suficiente para dizer que o amor por mim acabou e queria um fim? Por quê? Por que mentir pra mim? Não sou louca ao ponto de surtar por tão pouco. Não o amo do mesmo jeito também. Acho que me conformei com nossa amizade e fingi sermos um casal feliz. Idiotice da minha parte, eu sei.

Escutei a porta. É ele. Corro até a porta e vejo-os, ele e a mesma garota da foto, espantados com minha presença. Olhei no calendário, hoje é quarta-feira, dia que fico mais tarde no trabalho. Dei aquela risada sarcástica “pegue-os no flagra”. Que bonito da parte de vocês, poupando-me da dor. Ouvi um grito, olhou-me com tamanha fúria “você não deveria estar aqui! Sua louca! Terminamos já faz 10 anos! Continua perseguir a mim e minha esposa! Não vê que ela espera um filho de mim!” Fiquei espantada com tamanha mentira. Ri. Ri mais alto ao ponto de perder a voz. Era mais idiota do que pensei. Acha que acreditaria em suas palavras? Tenha dó.

Sai da casa e reparei que nada ao meu redor era meu. A casa era estranha. Não me lembrava dela. Era um lugar diferente até a energia era estranha. Senti uma náusea. Quem eu era? Vi uma poça e meu reflexo. Foi horrível, não acreditei. Parecia uma velha de aproximadamente, 50 anos, suja, enrugada e com olhar vazio. Tateei meu rosto para afastar a imagem, pior, era pura realidade. Cai, gritei e chorei. Mentira. Não pode ser. Cadê a garota sonhadora com futuro promissor?

Depois, cai em meu próprio pesadelo. Terminamos, mas não aceitei. Comecei a persegui-lo e ameaça-lo. Inventava mil estórias para voltarmos. No fim, pediu uma medida cautelar e falou “a próxima vez, te interno no manicômio!” Dito isso, fiquei um bom tempo lá. Cada vez mais triste ao ponto de perder o contato com o mundo externo. Fugi quando achei que tinha um pingo de sanidade para encontra-lo e recomeçar. Reparei que tudo mudou menos o ultimo endereço. Invadi sua casa e imaginei que tudo era meu.

Enlouqueci ao imaginar meu futuro sem prosperidade e apaguei meus sentidos. O que aconteceu comigo já não sei.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!