Sereia
1 Capítulo 1
Anoitecia. Era terça-feira e Magali se apoiava contra a parede na esquina de uma viela. Na outra esquina estava a grande padaria do pai de Quinzinho, uma das mais chiques da cidade e, pra falar a verdade, a coisa mais relevante no bairro do Limoeiro para um visitante.
Ela conhecia todos os empregados da padaria, e às vezes um deles saía pela pesada porta de metal pra tirar o lixo, geralmente uma faxineira. De dentro da porta saía o calor da cozinha e o cheiro, que mesclava doce e salgado, pãezinhos franceses e pizzas. Antigamente, só o cheiro da padaria lhe fazia gastar toda a mesada e ainda filar alguns doces com Quinzinho. Hoje em dia ela já estava acostumada, enjoada até. Mas o cheiro lhe dava uma sensação de conforto, nostalgia.
Quim saiu depois de vinte minutos de espera. Ela sabia dos seus atrasos, e saía de casa sempre quinze minutos depois do combinado. Ele sempre ficava enrolado com papelada da administração, um bolo de encomenda, perguntas dos funcionários. Ela já estava acostumada. Na padaria não existia final de semana ou feriado, nem férias. Nas vezes em que viajou com o namorado, ele planejou o evento meses antes. Nas viagens com a turma frequentemente ele desistia de ir no último minuto. Nas primeiras ela se recusava a ir sozinha, mas hoje em dia não se importava. O mesmo com passeios. Chegou a perder vários programas porque ele sempre saía atrasado ou precisava trabalhar na única folga que tinha na semana. Hoje em dia nem chegava a comentar com ele, simplesmente convidava as amigas. Era normal pra ela, já estava acostumada. Estava acostumada a se reunir com as amigas solteiras. Estava acostumada a ter crushes e comentar com elas como se um dia pudesse ficar com eles. Estava acostumada a ter crushes em professores e Quim não se importar. Estavam acostumados.
Ele saiu, finalmente. Cheirava a baunilha e colônia masculina. Estava cheio das desculpas, como sempre, e ela estava, também, acostumada com isso.
—E então, o que você quer fazer agora? — ele perguntou
—Hm… Não sei.
—Você não tinha comentado de uma peça?
—Fui com a Isa.
—E aquela exposição em que você me marcou?
—Aah… Terminou semana passada. Fui com a Marina sábado passado.
—E a pista de gelo no shopping?
—Já tiraram, a Mônica me contou ontem.
—Você não foi? — ele se preocupou.
—Fui sim, toda a turma foi nesse final de semana.
—Entendi. — ficaram em silêncio. Ela viajava um pouco, lembrando dos amigos. Ele queimava os neurônios pra pensar em algum programa. — E no cinema, tem algo de novo?
—Ah! Acho que o novo filme da Marvel já estreou.
— Vamos lá ver? — ele sorriu, orgulhoso.
— Claro.
— Viu, eu sempre arranjo um programa pra gente.
Ela sorriu amarelo e lhe deu um beijo na bochecha pra disfarçar. Haviam perdido a conta das vezes em que assistiram filmes em casa, entediados, chateados um com o outro mas sem ânimo de começar uma discussão. Nada mudaria.
Quando o filme terminou, se sentaram em frente a uma sorveteria. O filme havia sido interessante, mas Magali se pegava pensando como os programas com seus amigos tinham mais graça. Não gostava de pensar assim. Não podia comparar seu namorado com seus amigos, os meninos palhaços e atrapalhados, as meninas engraçadas e sinceras, um pouco fofoqueiras; com a seriedade e insegurança de Quim. Ele era bom e inteligente, mas muitas vezes não se sentia muito bem entre a turma. Talvez por todos terem mais intimidade entre si do que com ele. Ele parecia mais alguém de fora, o-namorado-da-nossa-amiga, do que alguém que realmente cresceu com eles.
Já Quim parecia preocupado. Não tomou sorvete nem sugeriu uma pipoca, como costumava fazer. Magali não havia comentado nada, mas observava suas mãos inquietas. Como ele parecia piorar desde que se sentaram, resolveu interceder.
—Tá pensando em quê? — perguntou como quem não quer nada, brincalhona. Ele se assustou, guardou as mãos, tirou de novo, passou no cabelo, começou a estalar os dedos.
—Na-nada, meu amor. — ficaram em silêncio, ela o sondando. Ele desistiu. — Eu ando planejando como falar uma coisa pra você. Tá difícil.
—O que aconteceu? — Magali se ajeitou na cadeira e terminou o sorvete.
—Bom… você sabe que tenho uma tia na França, né? Por isso que meu pai me colocou no francês no ensino fundamental e tal…
—Sei… sei sim.
—Então. Ela me arranjou uma bolsa — o coração de Magali falhou uma batida com essa palavra — pra fazer a faculdade de gastronomia lá, naquela universidade famosa que meu pai sempre fala, sabe? — ela não reagiu, os olhos arregalados, o coração pulando, pálida. Ele percebeu, mas decidiu terminar de falar tudo o que planejava falar há meses — Eu termino a escola esse ano, mas meu pai conversou com o diretor e pediu pra adiantar minhas provas de final de semestre… por isso estou fazendo bastante hora extra na padaria, na verdade eu estou estudando por conta própria. — ela se sentiu muito indignada, mas era difícil piorar sua cara de espanto — Porque o semestre lá começa em setembro, né… e preciso ir no meio de agosto pra terminar de assinar os documentos e tal. Sei que falta um mês e por isso só tive coragem de falar agora. Eu também não… não vou exigir de você que continue namorando comigo quando eu for pra lá, isso se ainda quiser namorar comigo depois de tudo o que eu te falei, né…
Ela continuou quieta, olhando pro pote de sorvete vazio e pro tampo da mesa. Também observava seu anel de compromisso, uma grossa aliança de prata reluzente de que cuidava com carinho. Ele havia feito questão que fosse grande e chamativa, por ciúme. Ela pensou com cuidado no que falaria, pois sua cabeça estava gritando com perguntas completamente diferentes da que fez:
—Já comprou a passagem? — não conseguia olhar pra ele, apesar disso
—Já. Vou no dia quinze de manhã. Cai numa quarta.
Eles estavam de férias da escola, mas nesse dia já estariam de volta. Tecnicamente, ela não poderia ir ao aeroporto, pois estudava de manhã.
—Eu… preciso digerir tudo isso. Deixa que eu te ligo. — e levantou, atrapalhada, sem olhar pra ele. Quim a chamou, mas ela não respondeu nem olhou pra trás.
No ônibus Magali chorava contida, sentada nos bancos do fundo, onde havia uma lâmpada queimada. Mandou uma mensagem pra Mônica pedindo que dormisse na sua casa.
Em casa, seus pais dividiam suas reações. Em um momento odiavam o genro por demorar a dar a notícia, em outro sentiam dó de Magali, em outro ficavam até felizes por ele poder estudar em uma boa faculdade (essa parte não comentaram na frente de Magali). Mingau, velhinho, se deitava no seu colo e ficava quietinho ronronando.
Mônica chegou e a mãe de Magali que lhe deu a notícia, a pedido da filha. Passaram a noite em claro, com Magali chorando, Mônica chorando um pouquinho também, lembrando dos momentos de criança e vendo fotos antigas. Até que Magali fez uma pergunta que fez Mônica sair da sua fossa solidária e pensar.
—Amiga, o que eu vou fazer sem ele?
—A mesma coisa, ué. — ela respondeu, depois de parar um tempo pra pensar.
—Oi?
—Mags, a coisa que eu aprendi levando fora atrás de fora do Cebola foi que, não importa o quanto estejamos tristes, o dia seguinte nasce do mesmo jeito. As pessoas estão bem, a vida continua. Tem um monte de coisas pra você fazer sem o Quim, sinceramente. Ele mal tinha tempo pra você! Estava estudando pra terminar o ano antes e nem te contou, ficou dando desculpa da padaria! Aposto que ele nem deve estar mais trabalhando tanto na padaria. Aposto que foi resolver a papelada, tirar o visto, tudo sem te falar uma palavra sobre isso. E você sai muito mais com a turma do que com ele, ele chegou a reclamar disso! O que vai mudar agora vai ser que você vai ter menos uma preocupação e vai poder ficar com todos os crushes que já teve! Todos os caras que já deram em cima de você e você não ficou só por causa do Quim! Por causa de um cara que muda de país e te avisa com um mês de antecedência!
Magali já havia secado as lágrimas e prestava atenção no discurso da amiga. Entre paqueras de criança e namoro, havia passado quase dez anos com Quim! Dez anos que foram jogados no lixo quando ele não dividiu seus planos com ela, nem sequer pediu sua opinião! Bem que ele estava se importando menos quando ela falava que havia saído com seus amigos de uns meses pra cá…
—Mô, você tem razão! Nossa, como eu fui tonta! Tantas coisas que perdi… e ele nem pediu minha opinião antes de decidir!
—Pois é, amiga!! — sorriu um pouco, feliz por finalmente dar conselhos à sua amiga conselheira.
A partir daí, Magali ficou bem melhor. Um pouco bipolar também, alternando momentos de tristeza com de raiva e euforia. Mas ela já estava superando.
No dia seguinte resolveu não ir à escola. Porque seus olhos estavam inchados e porque Quim estaria lá. Mônica espalhou a notícia para a turma e ela logo recebeu uma enxurrada de mensagens de conforto, o que deixou seu dia um pouco melhor. Uma raiva generalizada se abateu sobre Quim, e depois do intervalo ele já era o odiado do momento da escola. Tudo isso contribuiu pra que ele tivesse mais vontade de ir, apesar do receio por Magali. Ela não atendeu às suas ligações, mas lhe mandou uma mensagem dizendo que responderia quando estivesse pronta, o que o confortou um pouco. As meninas da turma apareceram de surpresa e fizeram uma sessão de spa pra ela depois da escola, com cabelo, manicure e pedicure.
—Miga, tá na hora de pensar naqueles crushes, hein? Segue a fila! — disse Denise, o que fez Magali pensar nos vários meninos bonitos que já haviam pedido pra ficar com ela e ela recusou. E ficou feliz por ter essa chance.
Mas não dormiu sem molhar o travesseiro. Se sentia muito querida por todos e muito rancorosa com Quim ao mesmo tempo.
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