Ser ou não ser?
1 One-shot
O sol brilhava dourado atrás das casas enquanto meus amigos e eu estávamos voltando da escola a pé, mas nós estávamos preocupados demais discutindo sobre qual professor era pior para prestar atenção nisso.
Enquanto Mateus fazia uma imitação perfeita de um professor e Rodrigo ria dele com sua risada estranha, eu peguei uma pedra qualquer no chão e joguei para longe sem prestar atenção. Ela caiu no carpete de entrada de uma casa.
Parei para observar. A casa parecia velha e malcuidada. Devo ter olhado mais do que esperava, pois meus amigos também pararam. A voz de Mateus diminuiu até sumir.
— Cara, agora você vai ter que pegar. – desafiou Rodrigo.
— Pegue você, já que tá com medinho! – retruquei. Apenas olhar para aquele casebre me dava arrepios. Não só por ser antigo e feio, mas porque parecia que ia desabar a qualquer momento.
Mas não deu outra. Eles me desafiaram a entrar ali, e eles sabiam que quando eu sou desafiado, não recuo; não porque sou corajoso, mas por uma questão de respeito e status.
Avancei pelo quintal da casa, obrigando a mim mesmo colocar um pé na frente do outro, ficando na frente dos meus amigos.
Bati na porta.
— Tem alguém aí? – esforcei-me para que minha voz não saísse vacilante. Ninguém respondeu.
— Abre, Vitor! – Mateus disse meu nome. Parecia ansioso e com medo ao mesmo tempo; isso me fez sorrir. Ele era um garoto baixo, magro e animado, gostava de andar com o meu grupo (no qual a maioria era bem diferente dele) por algum motivo, fazendo piadas e nos divertindo.
Finalmente puxei a maçaneta. Ainda tinha esperanças de que a porta estivesse trancada, mas ela abriu com um rangido forte. Partículas de poeira voaram loucamente, iluminadas pelo sol poente. A poeira grudou em minhas lentes de contato, mas eu não reclamei: Meus amigos nada sabiam sobre minha miopia e não era hoje que isso aconteceria.
Avançamos pelo piso de tábuas de madeira cheio de cupins, os outros me seguiam a alguns passos de distância. A casa tinha uma mobília antiga e sua pintura estava descascando.
— Aahhh!!! – berrou Rodrigo quando pisou na ponta de uma tábua solta e, da outra extremidade, saiu uma ratazana. Coloquei a mão na boca para não rir e nem chamar a atenção de alguém; enquanto isso, Mateus dobrava-se de tanto rir, sem fazer barulho. Rodrigo fechou a cara.
Depois de explorar a casa, achamos um alçapão no teto e, sim, eles me obrigaram a ir sozinho.
— Talvez você não morra! – incentivou Mateus, com um ar inocente.
O fato é que, cinco minutos depois, eu já tinha subido e estava com medo demais para me mexer. Olhei de um lado para o outro, tinha a impressão de estar sendo vigiado. Naquela sala tudo era iluminado por velas e sua luz trêmula, pois lá não havia janelas. Estremeci quando percebi que, se as velas estavam acesas, devia ter alguém por perto. Observei que em um canto havia um espelho rachado, armários e caixas cobertas por panos poeirentos.
— O-olá? – chamei, rezando para que não tivesse resposta.
— Olá. – alguém respondeu calmamente, mas meu coração pulou de susto. Era a minha própria voz. Seria o eco? Não, não era possível; a entonação foi diferente.
E então eu reparei em uma coisa. Meu reflexo no espelho estava diferente de mim. Ele correspondia aos meus movimentos e tinha os mesmos olhos meio verdes, meio castanhos que eu, mas usava óculos, uma roupa diferente e parecia meio magro.
— Quem é você? – perguntei me sentindo um idiota por falar com meu reflexo.
— Eu sou você, Vitor. – Espera, como é que ele sabia o meu nome? Eu ficava mais surpreso a cada momento. – Eu sou você, só que por dentro.
Desconfiei. Seria alguma pegadinha de mau gosto?
— Como assim?
— Talvez eu seja apenas o reflexo do seu jeito de ser.
Observei melhor minha cópia. Ele usava óculos de aro fino, enquanto eu usava lentes. Em seu pulso, não havia a tatuagem tribal que eu tinha feito há pouco tempo. Isso somado ao fato de que tinha o porte físico de quem não se preocupa muito em fazer esportes. Aquele não era eu.
— Eu sei que não me pareço com você, mas você nunca se sentiu... forçado, pelos outros ou pela sua ideia do que te fará mais legal, a mudar o seu modo de agir e omitir algo? — ele falava sem mover os lábios, imitando meus movimentos. Sua voz só existia em minha mente, mas mesmo assim era tão real quanto qualquer um que estivesse falando comigo a um metro de distância. Eu não estava imaginando.
— Não. – eu disse, mas sabia que não era verdade.
Vi a mim mesmo mexer a cabeça de um lado para o outro e percebi que também tinha feito aquilo fora do espelho, involuntariamente.
— Você não pode continuar se escondendo assim. – disse a mim – Quantas vezes você já perdeu amigos só para ser bem visto?
Pensei em vários amigos que abandonei para andar com os “descolados”. Também me peguei pensando em Mateus. Ele decididamente não fazia o tipo do meu grupo, mas continuava a andar conosco; sempre bem-humorado, mesmo que quando não estivesse presente meus amigos zombassem dele... E eu também. Senti um imenso remorso por isso. A única coisa que eles não sabiam era que eu gostava realmente da companhia de Mateus.
— Está namorando alguma garota atualmente? – intrometeu-se meu quase gêmeo.
— Não, só fiquei com algumas. – Talvez eu devesse resolver ficar logo com alguma menina, mas eu não sabia com quem. Eu gostava delas, mas nenhuma me parecia realmente especial.
— Ah. É que eu sei de alguém que está a fim de você. O nome dele começa com “Ma”... e termina com “teus”. – O tom de voz dele passara do suave ao acusador.
Pensei em rir, em acusa-lo de qualquer coisa... Mas sabia que não adiantaria. Ele sabia de tudo sobre minha vida. Será que era por este motivo que Mateus não abandonava o grupo, somente? Eu? Não, não era possível... Não...
— Deve ser difícil perceber que você foi a vida toda alguém que não é realmente... – comentou a imagem no espelho.
Fiquei desconcertado, ele também sabia como eu me sentia. Eu não sabia mais quem era eu mesmo. Eu fingira tanto ser alguém mais aceito que achava que eu tinha mesmo me transformado naquela pessoa.
— Então você quer dizer que sou... Que sou diferente de todo mundo?
— Você não é diferente, Vitor. Quer dizer, você é, mas ser diferente é normal. Isso faz algum sentido?
Aos poucos, comecei a compreender o que ele queria dizer. Então, todos eram diferentes por dentro. Eu era tão estranho quanto qualquer um, e isso me fazia normal.
Aquele adolescente no espelho... Ele era mesmo eu. Ele usava os óculos que eu escondia. Era menos forte que eu porque sabia que isso não o faria melhor do que os outros. Não fizera a tatuagem que eu tinha feito para participar do grupo porque ele sabia que devia ser aceito com ou sem tatuagem. De quebra, ainda assumia a sua sexualidade.
Ele era o corajoso entre nós dois. E eu, considerado “O cara”, era o covarde que não sabia se impor.
— Você está pronto para assumir sua verdadeira personalidade?
Não respondi. Eu queria libertar-me de tudo aquilo, mas sentia que era tarde demais. O que os outros diriam?
— Vamos, cara. Ninguém pode te impedir. – argumentou – Está comigo?
Minha mão estava avançando lentamente, sem que eu a movimentasse, indo de encontro com a dele. Era um empurrãozinho que ele estava me dando.
E, quando minha mão estava quase encostando no espelho, eu raciocinei: Aquele cara conseguia movimentar o meu corpo e ler meus pensamentos. O que mais ele podia fazer? Ele poderia assumir controle definitivo do meu corpo? Parecia loucura, mas eu não duvidava de mais nada depois de falar com um espelho.
Puxei minha mão para longe dele. Eu tinha medo. Medo de ser eu mesmo.
— Vitor...? – disse sua voz que soava magoada.
— Desculpe. – Saí correndo em direção ao alçapão. Olhei para as velhas acesas que continuavam intactas e, fechando a passagem acima de mim, cheguei ao térreo.
— Cara, pare de fuçar a geladeira, ele voltou. – ouvi Mateus dizer a Rodrigo, enquanto o outro segurava a porta de uma geladeira antiga e meio enferrujada, mas que ainda funcionava. Pelo jeito, os dois tinham chegado à conclusão de que não tinha ninguém na casa, pois falavam sem a menor discrição.
Mudei minha expressão, não deixando nenhum traço do medo, da dúvida e da desolação que tinha sentido há pouco tempo.
— Você demorou, hein? – comentou Rodrigo, batendo a porta da geladeira.
— Como é lá em cima? – Mateus perguntou.
— Lá é um lugar muito sujo e eu fiquei tossindo. – Tentei falar normalmente com meu amigo, mas era impossível depois do que acabara de saber. – Tinha cheiro de veneno para ratos. Também tinha um espelho rachado e com manchas pretas, mas não vi ninguém.
— Ah, cara, nem uma ratazana? Aff, eu gostaria de ver você correndo que nem o Rodrigo e chamar a mamãe! – Mateus falou e eu ri; ainda meio constrangido.
Rodrigo ficou sério. Ele era assim, tranquilo e brincalhão, mas não gostava que fizessem piada dele. Mateus aprendera do pior modo que não se deve irritar o grandão, mas agora eles já tinham feito as pazes.
Peguei meu celular para clarear o ambiente que já estava escuro, quando reparei que a geladeira que estava ligada agora a pouco não estava conectada à tomada, o fio, solto.
Meu cérebro pareceu travar. Como assim? Mas então tudo fez sentido: Só podia ser uma casa onde os móveis têm vida. As velas ficavam acesas e não eram consumidas a menos que tenha uma claridade razoável. Decidi não contar isto para meus amigos. Eles não acreditariam, mesmo.
Nós saímos do lugar e continuamos a caminhada para nossas casas. Enquanto os outros dois discutiam sobre o lançamento de um novo jogo para videogame eu pensava no espelho e em tudo o que ele disse.
Estava tão absorto que nem reparei quando eles me chamaram.
— Vitor? Alô? – Mateus acenou com o braço à minha frente – A gente estava falando com você.
Esfreguei os olhos, atordoado.
— Você tá legal? – perguntou ele, segurando meus ombros.
“Não.” Tive vontade de responder assim. “Acho que meu cérebro está virando purê porque vi objetos que funcionam sozinhos, soube que a minha vida é uma droga e acabei de descobrir que você é gay.”. Mas só falei:
— Sim, só estou um pouco tonto, só isso.
Ele não pareceu acreditar. Eu raramente ficava quieto desse jeito e isso já era mais do que motivo para desconfiar.
— Gente, vamos logo – interferiu Rodrigo, impaciente – Tenho mais coisas para fazer, sabiam?
O outro torceu a boca, mas me deixou e continuou a caminhada.
O sol já tinha sumido completamente. Eu tinha rejeitado a mim mesmo desde que saí do sótão. Virei meu rosto para que meus amigos não vissem a lágrima solitária que o percorreu.
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