Se um anjo cai, será que ele se machuca? Será que ele bate no chão como qualquer outra pessoa caindo?
Ele grita? Ou cai majestosamente, como se fosse apenas um passeio normal?
Se alguém começasse com essas perguntas, eu mandaria a pessoa se calar na hora. Infelizmente, a pessoa com essas perguntas era eu. Se você estivesse arrumando sua casa, desencaixotando as coisas, e uma coisa preta gigante caísse no seu telhado, o que você faria? Iria lá olhar, certo?
Então, eu fui lá olhar, como toda pessoa normal faria. Peguei a maior escada que tinha e subi até conseguir ver o telhado, fui vasculhando até achar uma parte escura. A coisa tinha quebrado meu telhado!! E fez um grande estrago, teria que consertar aquilo antes do inverno e antes que alguma tempestade chegasse. Desci a escada e fui ate o terceiro andar, que era onde a criatura provavelmente estaria.
Levei uma vassoura, um rodo e um balde com água e panos, ia ter muita coisa para limpar. E põe coisa, por que pessoas que caem do céu tem que fazer tanta bagunça?? Uma garota não pode arrumar a casa em paz não?
Foi isso que pensei enquanto tirava o homem jogado no chão e tentava não entrar em pânico. Ideias idiotas e pensamentos sem sentido são ótimos para manter a cabeça no lugar e fazer as coisas corretamente, por mais estranho e sem sentido que pareça.
Estava tudo uma confusão enorme de telhas, gesso e sangue. Não tanto sangue quanto se imaginaria que um homem caído do céu sangraria, levei o Cara-do-Céu para a cama e tentei deixá-lo o mais confortável possível, mas acho que quando se está inconsciente e acabou de cair de milhares de metros de altura... Bom, uma cama normal e um pano frio parecem muito aconchegantes.
Morar no meio do nada não parecia tão bom agora, devia ter pensado nisso "ah e se um cara cair no meu telhado e precisar de um hospital? Hm... Melhor eu morar a menos de cinco horas do hospital mais próximo..." sou tão despreparada. Reviro os olhos. Idiota.
Fui procurando a caixa que tinha os remédios e coisas para primeiros socorros e acabei deixando o estranho só com meu cachorro de companhia.
— Cuide dele, se ele levantar... Lata que eu subo rapidinho, seja carinhoso.
Tinha achado uns band-aids na necessaire que eu tinha deixado no carro, sorte eu ter separado ela, seria muito ruim ter que revirar tudo para poder tomar banho e escovar os dentes.
Levei tudo para cima, mais uns lencinhos umedecidos para limpar melhor nosso convidado inesperado.
Nem tinha pensado no quão desarrumada poderia estar, aparentemente estava muito desarrumada, porque nosso visitante olhou para mim como se eu fosse um alien.
Fiquei vermelha na hora, mas então lembrei que deveria estar surpresa e preocupada com ele, e não envergonhada e preocupada com a minha aparência. Para o meu consolo o ser estava tão desarrumado quanto eu, depois de uma queda daquelas quem não estaria? Então eu simplesmente o encarei enquanto ele afagava meu cachorro, aquele traidor, e observava tudo ao redor como se fosse uma criança que foi deixada de castigo no quarto. Olhava tudo vendo o que era o que, mas sem realmente se interessar por nada. O olhar do homem passou por tudo, graças a Deus tinha arrumado aquele quarto e organizado a maior parte das coisas, deixando apenas duas caixas de roupa e uma com alguns travesseiros escondidas dentro do guarda-roupa para terminar, então tudo que ele viu foram duas grandes estantes cheias de livros, um guarda-roupa grande e fechado e uma cama de cachorro grande em um canto.
Depois de um tempo ele se virou para mim e falou, na verdade ele não falou, mas pelo olhar eu meio que deduzi o que ele quis dizer.
Estava com aquele olhar de "hey, onde eu estou?" então eu respondi que ele estava, mas pela cara dele acho que não entendeu.
Antes de tentar novamente eu notei que (1) uma pessoa normal não poderia se recuperar tão rápido de uma queda daquelas, (2) uma pessoa normal não cai do céu daquele jeito e (3) uma pessoa normal não tem um par de asas pretas gigantes que aparecem e desaparecem como uma miragem.
Ele deve ter notado minha cara de "meudeusdocéuoqueéisso??" porque fez um pequeno gesto erguendo milimetricamente a sobrancelha. E eu tenho que dizer, se meu cachorro levantasse agora e começasse a falar eu nem perceberia, porque aquele cara era tão belo que seria impossível deixar de olhar, descrevê-lo seria um pecado, pois nada que eu disser pode se comparar com aquilo. Mesmo com cortes e hematomas, o rosto e o corpo cheios de pó e gesso, mesmo assim ele era lindo. Acho que seria impossível olha-lo em sua melhor forma. Mesmo acabado ele era mais bonito que o mister universo, ou o mais bonito dos modelos, ou coisa assim.
Se Afrodite tivesse asas e uma versão masculina, ele seria essa versão. Eu, como a completa idiota que sou simplesmente fiquei congelada pela beleza ofuscante dele, graças a Deus estava longe de qualquer centro, e de qualquer pessoa do sexo feminino.
Ok... Esse pensamento foi estranho, malditos hormônios!
Em minha defesa apenas saibam que esse senhor dos céus é maravilhoso.
Ainda estava em choque, e acho que o Mister Universo notou, porque começou a se levantar. Se ele estava indo me ajudar ou simplesmente passar como se eu não existisse eu não sei, pois quando ele tentou se levantar contorceu o rosto de dor e vi uma fina camada de suor cobrir-lhe o rosto.
Sai do modo "sou idiota e agora todos podem ver" para o "ajudar a pessoa morrendo de dor". Quando estava me aproximando ele congelou, simplesmente parou de se mexer e ficou tenso. Seus olhos se arregalaram e seu boca se escancarou em um grito silencioso, então as asas que apareciam e desapareciam ficaram totalmente expostas e começaram a brilhar. O grito silencioso se transformou em um rugido gutural enquanto seu corpo voltava a se mexer, contorcendo-se. Suas asas começaram a se mover, sons como ossos se quebrando encheram meus ouvidos, as penas de ébano foram ficando levantadas e a asa começou a ganhar um formato estranho. Ela estava se quebrando.
Em pânico corri até ele e joguei o balde com água em suas costas, vapor começou a sair mas ele continuava a se contorcer. Lágrimas de medo, frustração, preocupação e raiva começaram a cair. Meu cachorro desesperado tentava morder as asas e eu corri para tira-lo de lá, as asas se quebrando ja eram terríveis demais, um cachorro tentando come-las era uma dor desnecessária e evitável.
E mais uma vez comecei a me perguntar o porque de ter um cachorro maior que um pônei, ele era grande, peludo, comia muito, era extremamente forte e pesado, claro, ele era o cão mais fiel que existe, mas dar banho nele era um desafio e tanto, quando uma coisa dourada começou a jorrar e Hunter ficou coberto daquilo eu simplesmente pensei "acho que um cachorro pônei dourado não é tão estranho", mas quando ele brilhou corri e comecei a esfregar aquele liquido tóxico de seu lindo pelo preto.
Dane-se o cara morrendo, Hunter estava comigo desde pequeno e sempre confiou em mim. Não é agora que vou abandona-lo.
Lágrimas embaçam minha visão enquanto meu cão sofre, suas patas se contorcem e ouço o mesmo som aterrorizante de ossos quebrando vindo dele, seus incríveis olhos azuis me encaram, sua dor parece insuportável mas ele olha para mim como se eu pudesse cura-la.
Ouço um baque, algo caiu no chão e Hunter continua se contorcendo. Coloco-o no meu colo e abraço-o, é tudo o que posso fazer para diminuir seu sofrimento.
Não sei bem o que aconteceu depois, pois foi tudo muito confuso. Hunter começou a fumegar e uma luz branca e cegante preencheu o quarto, o homem na cama tinha parado de se contorcer mas ainda ofegava por causa da dor, e um monte estranho de areia estava ao lado da cama.
A explosão luminosa se foi e quando olhei vi um híbrido, uma figura curvada, mãos com almofadinhas de cachorro e com garras pretas e afiadas, braços humanoides, pernas que terminavam em patas grandes e potentes, uma cauda grande e a cabeça... A cabeça era a parte mais estranha, tinha orelhas pontudas e o cabelo era um misto de cabelo dourado comprido com um preto que parava na base do pescoço, o nariz era de um homem normal, e a boca também, mas possuía caninos enormes, e muito afiados. Os olhos eram maravilhosos, eram os olhos de Hunter, carinhosos, atentos e, ao mesmo tempo, ameaçadores.
A criatura se abaixou, colocou-se de quatro e o rabo abanou. E então tombou de lado, gania agoniado e colocava as patas em torno da cabeça como que para tirar algo de lá. Sangue começou a escorrer de sua boca e nariz, fazia cortes em seu próprio rosto e corpo, o sangue evaporava e seu corpo voltou a brilhar, seus olhos agitados passavam por mim, desviavam e voltavam a se focar.
Sem saber o que fazer, vi na criatura o Hunter de que tinha sempre cuidado, corri para ele e o abracei novamente, uma mistura de lamento e rugido ecoaram pelo cômodo. Vapor saia de suas costas, mas agora parecia que este vapor emitia um grito próprio, tinha um rosto, suas feições deformadas e em constante mudança. A nuvem de vapor saiu lentamente de Hunter e sumiu, escutei algo caindo na cama, cheiro de queimado preencheu minhas narinas, mas o pânico que me preencheu quando Hunter amoleceu no chão, em meu braços, foi mais forte.
Chamava por ele, chorava e lágrimas se misturavam ao sangue, acariciava seu pelo e beijava sua face. Ele era grande, mas agora estava enorme, devia estar agora do tamanho de um homem grande, vários centímetros maior que eu.
Suas pálpebras se moveram.
Imagens passaram por minha mente, virei-me e vi o senhor dos céus deitado, apoiado na cama e ofegando. A mensagem era clara. Hunter ficaria bem, mas aquele cara estava sofrendo. Fiz o que pude. Peguei mais água e limpei ambos, coloquei um pano frio na testa do... Desconhecido e fiz o possível para virar e deixar Hunter em uma posição menos desconfortável.
Pensei em levar Hunter ao veterinário, mas desisti, primeiro porque não conseguiria carrega-lo, segundo porque não saberia onde achar um veterinario aqui, e, terceiro, não queria que dissecassem meu melhor amigo em nome de alguma descoberta científica irrelevante e inútil.
Alguns dias se passaram e como Hunter não acordava e Bob, como eu decidi chamar o desconhecido, já parecia melhor comecei a deixar os dois sozinhos para poder cuidar da casa.
Primeiro varri o terceiro andar, onde o senhor dos céus fez sua entrada não tão triunfal assim. Depois fui ao porão procurar em alguma das varias caixas alguma lona ou coisa assim para tampar o buraco no telhado.
Acabei desencaixotando e organizando varias outras coisas no processo, a maioria delas para meus hobbies. Caixas e peças de madeira, pinceis, tintas, telas, sprays, perfume, corante e essas coisas, coloquei tudo nos armarios nas paredes e na grande bancada de madeira que havia montado antes de mudar, junto com algumas outras coisas nos outros andares.
"No primeiro andar uma grande mesa de madeira maciça estava na sala de jantar, que ficava ao lado da cozinha e da sala de estar. A cozinha tinha um fogão e um forno grande com varios armarios que estavam em sua maioria vazios, apenas tres estavam ocupados, com pratos, taças e copos, uma pia com um armario embaixo continha as panelas e as gavetas do lado os talheres. Atrás da cozinha uma escadinha de três degraus levava à lavanderia, onde eu deixava ração guardada para o Hunter, caso precisasse, pois normalmente eu fazia comida de verdade para ele, uma maquina de lavar e secar estava la também, e em uma das paredes ficava uma porta de vidro que dava acesso ao quintal.
A sala de estar tinha varias lâmpadas e luminárias com poltronas aqui e ali, para que eu pudesse ler a vontade.
No segundo andar estavam os quartos, um deles era meu e estava com cama, armario, poltrona, tapete e luminaria, e também uma cama para o Hunter, outros dois quartos estavam cheios de caixas e o outro quarto estava com um Hunter desmaiado e o Bob.
O ultimo andar era por enquanto apenas um deposito para caixas, que agora estava inutilizável por causa da queda.
Achei a lona e peguei bastante fita para coloca-la no lugar, levei uma escada ate a lateral da casa e subi no telhado. Demorou mais que o imaginado e acabei terminando só no final da tarde.
Uma vista maravilhosa me cercou, a neve refletia ao longe os raios do sol que se punha, longos filetes de luz surgiam e sumiam em meio a vegetação, que, imaginava eu, ganhava vida naquele momento com animais caçando e correndo.
Depois de ver aquela linda cena entrei em casa feliz, com o coração mais leve e me lembrei do porque vir morar aqui.
Claro que esse não era o unico motivo, também tinha todo aquele espaço para que o Hunter pudesse caçar e se exercitar sem assustar outras pessoas, ele era muito grande e peludo, então a temperatura também era ótima para ele, é muito frio aqui.
Fiz uma sopa e coloquei em dois pratos, dois copos de água e coloquei um de cada numa bandeja e subi. Peguei também uma bacia com água limpa e um pano, para limpar o Hunter.
Assim que cheguei no quarto entreguei a bandeja com sopa e água para o Bob e fui até o Hunter para limpa-lo e ver como ele estava.
Havia emagrecido bastante e sua respiração continuava fraca mas constante, estava assim desde que se transformou, depois de tantos dias ja tinha me acostumado com a visão, mas não sabia muito bem como seria quando ele acordasse ou se ele iria acordar.
Dou um suspiro e me viro para ver Bob, ele nunca comia nem bebia, mas aparentemente não precisava, já que continuava o mesmo e parecia estar melhorando. Ainda era dificil olhar para ele sem ficar impressionada, então fiz uma promessa comigo mesma "nada de encarar o pedaço de perfeição que caiu do céu e nada de piadinhas do tipo 'eai gato, doeu quando você caiu do céu?' Porque seria muita idiotice e humilhação".
Como aquela cena do por do sol continuava fazendo minha mente ver tudo de um jeito melhor acabei cedendo e fiquei em pé ao lado do Bob, que foi me seguindo com o olhar, como sempre. Depois de um tempo respiro fundo e pergunto.
— Quem é você? E de onde?
Nada
— Por que não me responde?
Nada
— Hey! Ah.... Esquece, apenas coma, por favor.
E então ele simplesmente assentiu e continuou olhando, comecei a me sentir desconfortável com aquela situação e fui para onde Hunter estava.
Peguei sua cabeça enorme e coloquei em meu colo, olhei por um bom tempo suas novas feições, sua pele clara, seu nariz, sua boca que agora estava fechada era bonita, assim como todo o novo rosto, suas orelhas pontudas o deixavam parecido com um elfo gigante com mãos e pés mutantes, como um lobisomem.
Algo me tirou de meu devaneio e olhei em volta alarmada. Levantei e fui ver Bob, mas ele estava bem, e também chequei lá fora pela janela, nada.
Um ruído.
De onde veio isso?
Veio de dentro. Viro-me para Bob e indico a porta, dizendo que vou sair e peço para ele não sair de la, como se ele tivesse saido da cama alguma vez. Vou para o corredor e de la percorro toda a casa em silêncio, procurando alguma fonte para o ruído. Nada. Volto para o quarto, e outro barulho surge.
Olho supresa para a fonte do barulho.
Hunter estava de pé, seus olhos desfocados olhando em minha direção, aqueles lindos olhos azuis.
Não entendo o que acontece logo em seguida. Hunter rosna para mim e sua pose muda, ele se abaixa, ombros curvados e dentes expostos num rosnado hostil. Não sei como reagir.
Olho enquanto Hunter permanece imóvel. Sei como agir em casos assim, abaixe-se lentamente e tente não parecer ameaçador.
Ele estava confuso, claro. Começo a baixar lentamente mas ele rosna novamente, mais alto desta vez. Paro e congelo.
Abaixo o olhar e dou um passo para trás, nada, levanto a cabeça lentamente, nada, Hunter esta apenas olhando.
— Hunter?... — ele olha — Oi Hunter. Vem aqui. — digo com aquele tom que sempre usamos com os animais, como se tivessemos problemas e eles fossem crianças.
Ele abaixa mais. Oou.... Hunter ataca. Minhas pernas congelam. Eu cubro o rosto com os braços e me preparo para o ataque. Espero. Espero. Espero... Nada. Quando olho Hunter está congelado no ar e então cai no chão, imóvel novamente, a respiração fraca como antes. Bob esta na cama, tremendo e suando.
Bob olha para mim.
Hunter treme.
Sinto que o perdi....
Não consigo.
Olho.
Viro.
Fujo.
Não me lembro.
A casa passando, neve, vento, correr. Correr. Correr.
Continuar correndo.
Árvores. Arbustos, neve, pedras. Tudo como um borrão.
Perdendo velocidade. Devagar. Queima. Tudo queima.
Garganta, pulmões, sem ar, coração.
Onde estou? Esta tudo branco.
Cansei, quero morrer. Por que viver? Já não precisam de mim. Não tenho ninguém. Perdi-o novamente. Meu melhor amigo. Hunter. Perdi-os.
Caio.
Viro-me.
Olho.
Estranho, esta claro mas ficando escuro, esta bom aqui. Deixe-me. Vou pensar melhor.
Hey... Aqui.
O que?
Onde você esta?
Aqui.
Onde?
Aqui...
Aqui onde?
Aqui... Fora...
Como é aqui?
Branco.
E...?
Escuro...? Ou... Claro...?Estou lenta... O que?...
Como é aqui?
Já disse...
....
....
Aqui é...
Como é...
Fr...
Frio aqui...
Confortável.
Idiota.
Claro.
Que idiota.
Não consigo levantar. Não quero levantar.
Risos. Risos? Conheço esse, e aquele também... "Você não vai me deixar aqui, vai?"
— Claro que não — Respondo sorrindo. — Nunca.
Mais risos. Mais sorrisos.
"Ótimo." Uma pausa. Um sorriso, aquele olhar carinhoso de nunca vou te abandonar. "Você mentiu." Queria dizer. "Você me deixou." "Volte"
"Venha. Tem um monte bem ali." Aquele sorriso torto, divertido, irônico e sincero. Como eu sinto sua falta. Quero seu sorriso de volta. Quero senti-lo novamente. Ao meu lado. Sempre perto. Por favor.
Ele corre.
Ele sempre foi mais rápido, pernas mais compridas, mais alto, mais forte.
"Espere-me."
Aquele sorriso. Meu sorriso. Esta mais triste, mais fraco, mais vivido. Mais real.
"Não posso."
Quero toca-lo. Não se afaste tanto. Volte.
Esta ficando escuro.
Ele desaparece.
Tudo desaparece.
Uma lagrima. Acabou.
Estou indo.

~~_~~~_~~~_~~~[Hunter]~~~_~~~_~~~_~~

Som.
Cheiro.
Tem uma brisa aqui.
Aqui.
Luz.
Venha.
Abra.
Abro os olhos.
Sozinho.
Espere.... Tem alguém aqui.
Quem é? Não sei.
Tudo borrado.
Não consigo levantar direito, minhas patas não encostam no chão.
Ameaça.
Esse cheiro... O que é?
Esta se movendo.
Comida.
Fome.
Sede.
Comida.
Pegar.
Já me viu, vou atacar.
"Não."
Por que?
"Ela não é sua presa."
Por que?
"Porque você é dela."
Como assim?
"Você pertence a ela, e ela a você, não ataque."
Não sou dela.
Vou atacar. Comida. Fome.
Tudo escurece.
Não... Não quero, volte....
Passos. Passos aqui. Uma criatura aparece. Meio embaçada. Cheiro de flores e frutas.
Esta fazendo barulho. Olho para cima. Pelo preto comprido e branco curto.
Outro filhote?
Onde esta minha mãe?
Choro e chamo por ela.
"Mamãe. Aqui. Venha. Estou com medo."
Outro barulho. Mais ruído. Coisas encostam em mim.
A criatura branca e preta me pegou.
O que ela vai fazer?
"Mamãe!"
"Shh... Calma bebê, estou aqui, agora você é meu."
A criatura mostra os dentes.
Me encolho.
Estou sendo levado.
Um campo.
Agora já sei quem é a criatura. Ela é minha matilha, minha família.
Normalmente ela me traz comida, mas quando posso trago comida para ela. Nossa toca é grande.
Existe um macho que sempre está aqui. Ele nunca fez mal a mim ou a ela. Ele é como parte da matilha. Nós três.
Eles eram os alfas, eles mandavam, eu obedecia.
Uma hora o macho alfa parou de aparecer. A fêmea gostava dele, ela estava sempre aqui, então eu sabia.
Ficamos tristes, ela ficou mais.
Agora eu era o alfa. Iria protege-la.
Nós éramos uma matilha, uma família, protegíamos uns aos outros.
Um dia fomos embora.
Eu lembro.
Um corte.
Outra cena.
"Pegue-o e arranque suas asas. Não o mate."
"Sim, mestre."
Outro corte.
Luz demais, não posso ver.
Estou acordado.
Levanto-me lentamente.
Agora compreendo.
Onde ela está?
E por que o traidor esta aqui?
Ela fugiu. Ela me acolheu. Ela esta lá fora.
Uma cena dela correndo, e agora caída na neve. Esta tendo uma nevasca.
Cassie.
Vou salva-la.
Levanto-me.
Cambaleio, me recomponho, escolho uma direção e corro.
Pulo a janela e caio agachado no chão, levanto-me, procuro pegadas.
Onde ela esta? Para onde ela foi?
Não sei. Achei.
Corro.
É difícil correr nessa nevasca. Preciso acha-la logo.
"Por que?"
Porque ela é minha.
"Sua o que?"
Minha matilha.
A voz se calou. Continuo correndo.

A nevasca esta piorando, quase não posso ver para onde vou, mas devo estar na trilha certa. Tenho que estar, ela não pode ficar sozinha, não aqui, não assim.
Alguma coisa captura meu olhar. Preto. Um pequeno ponto preto, pode ser ela. Corro em direção ao ponto e começo o cavar.
Não é ela, tenho que correr mais, procurar mais. Ela não pode ter ido longe.
Vou em outra direção.
Corro e procuro por vários minutos até que acho um monte fora do lugar. Cavo.
Ela esta aqui, uma sensação boa percorre meu corpo, o que é isso?
Preciso correr, ela precisa dele. Do traidor.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!