Notas iniciais
Segundo capítulo ta na área!

Acordei com o frio que estava em um quarto que eu não sabia de quem era. Ouvi um beep beep, senti uma dor no braço e senti um vazio na minha barriga. E, depois de olhar para o lado e ver que o 'beep beep' vinha do medidor de batidas e ver também que a agonia no meu braço era uma agulha que ligava o soro, deduzi que eu estava em um hospital. "Oi? Hospital?", pensei. A porta abriu com minha mãe segurando o café. Ao ver que eu estava acordada, ela correu pra mim.
–Spencer! — Falou ela me dando um beijo na testa e segurando forte minha mão. — Meu Deus, como você me preocupou!
–O que aconteceu?
–Você desmaiou antes de ontem e...
–Antes de ontem? Fiquei dormindo por dois dias?
Ela começou a chorar.
–Foi culpa minha. Eu não percebi. Quer dizer, eu até percebi, você estava mais magra, mas eu não sabia.
–Não sabia o que?
–Que você estava semanas se alimentando de migalhas.
–Ué, mas eu não como migalha. Quem é que perde tempo comendo migalha?
–É uma expressão. A falta de alimentos fez fazer sua reserva de energia doar a energia que tinha armazenada, e isso foi se arrastando até faltar energia para te manter ativa.
Fiquei um tempo raciocinando.
–Fiz o médico repetir um monte de vezes, e me explicar... — Falou ela secando o rosto.
Fiquei calada por um tempo.
Eu tinha tantas coisas em minha cabeça. Estava começando a ser uma morta-viva como todos naquela cidade, que apenas andam sem rumo. Bom, eles andam atrás de comida... Mas, enfim, eu esquecia de fazer pequenas coisas. E nesses tempos eu esquecia de sentir coisas. Não apenas esquecia... Já era quase impossível sentir pequenas coisas. Sabe do que estou falando, não é? Quando você sente o peso do 'tanto faz'. Claro, não é depressão, mas é uma tristeza, pouco suportável. Constante. De ter aquele sentimento que tudo vai ser igual amanhã, e que você gosta apenas da noite, quando está na cama, finalmente com o dia acabado. Quando você sente que está no lugar errado. Quando você esquece o que são sorrisos de verdade, o que é amor de verdade... Quando você esquece de tudo, menos de coisas horríveis impossíveis de esquecer porque estão gritando na sua cabeça.
–Não vai falar nada? — Perguntou minha mãe, fazendo-me acordar dos 'sentimentos'.
–Eu...
–Sra. Hudson, — Falou o médico fechando a porta devagar. — Preciso conversar com você um instante. — Ele olha pra mim. — Veja só, Spencer acordou.
Olhei assustada para ele. Eu tinha tanto medo de médicos...
–Está se sentindo melhor? — Perguntou.
–Sim... Obrigado por perguntar.
–Spencer, eu vou conversar com sua mãe um instante lá fora enquanto um psicólogo do hospital vem aqui falar com você. Quer dizer, não se importa de ser um psicólogo, não é? Ele só quer lhe fazer algumas perguntas e escutar o que você tem a dizer.
–Tudo bem. Não me importo não.
–Então tudo bem. Vou chama-lo. Sra. Hudson, acompanhe-me por favor.
–Ok. Volto daqui a pouco, amor. — Respondeu.
Ele fechou a porta e o silêncio tomou o quarto. Fiquei cutucando minhas unhas, esperando pelo psicólogo. Eu não gosto de hospitais. Aqui acontece tantas coisas ruins... Mas também acontecem coisas boas, tipo um parente estar em caso grave em uma sala de cirurgia e seus familiares esperarem o pior e então recebem a notícia de que ele está bem e pulam de alegria e choram de alegria e...
–Olá, Spencer. — Fala um cara alto e loiro entrando no quarto. — Eu sou o psicologo Flávio DLaurents.
Olhei assustada pra ele também. Tinha uma prancheta e duas canetas em sua mão. Ele tinha um sotaque britânico.
–Não fique assustada. Farei apenas algumas perguntas e então poderá falar o que quiser, principalmente dos problemas, tudo bem?
–Sim.
Arrastou uma cadeira para perto, sentou e cruzou sua perna para apoiar a prancheta.
–Então, começando, Por que estava sem comer, Spencer?
–Eu... Esqueci de comer. — Falei sem esperanças de que ele acreditasse.
–Esqueceu de comer?
Balancei a cabeça.
–Ok. E, sua mãe me falou de algumas coisas que estão acontecendo e, pra uma garota da sua idade, é meio difícil encarar isso. Então... Como está se sentindo?
–Como acha que eu estou?
–Como eu acho que você está? Eu acho que... Você está bem mal.
Olhei com uma cara irônica pra ele.
–Já cortou os pulsos alguma vez?
Como é que é?
–Não! — Falei claramente.
–Não?
–Olha, se você ficar repetindo todas as minhas respostas, vamos levar mais tempo do que deveríamos, e eu não estou muito afim disso.
–Desculpe. Essa pergunta deixou-a irritada por que?
–Não fiquei irritada.
–Ok... E o que mais deixa você irritada?
Me irritei com as coisas que me deixavam irritada.
–Me deixa irritada pensar nos meus problemas. Pensar no lado ruim das coisas. Achar que tudo é impossível. Ah, e adicionei um novo item na lista: Falar com psicólogos.
–Em uma escala de um a dez, quanto a parte negativa do seu cérebro ganha?
–nove e meio.
–Hm.
Anotou algo no caderno.
–Repetiu um ano na escola e não tem muitos amigos, fale como se sente em relação a isso.
Olhei pra ele com muita raiva e respirei fundo.
–Qual o seu problema? Não ouviu eu dizer que não gosto de falar dessas coisas?
– Calma! Não precisa responder essa, ok?. Mas vou perguntar outra coisa na qual você tem de responder: Tem vontade de se matar?
Pensei.
–Acho que todo mundo tem essa vontade quando está com raiva ou quando está triste, mas eu não me mataria.
–Por que não?
–Porque eu não sou tão egoísta. O sofrimento que minha mãe sentiria seria tão horrível que dói muito mesmo pensar nisso.
–Só sua mãe?
–Meu único amigo disse que nunca mais queria olhar na minha cara, só tenho uma avó e uma tia, nas quais só vi três vezes na vida. As duas se mudaram pra Ásia. Não pergunte porque... Eu também não sei. Mas quer saber? Se eu não me importasse com minha mãe... Eu acho que tem sim uma possibilidade de eu querer muito a morte.
Ele anotou alguma coisa e então eu lembrei de falar uma coisa.
–Ah, e não conte isso para ela, por favor. Ela não ia querer saber que eu penso nisso.
Ele balançou a cabeça.
–Se importa com sua vida?
Olhei pra ele sem saber responder.
–No momento... Eu não sei. Talvez sim. Não consigo ser a filha que minha mãe queria que eu fosse, eu acho, então se ficar viva mantem ela feliz, eu me importo sim. É a unica coisa que faço que a deixa feliz
Ele me olhou com uma cara de pena e disse:
–Pode me mostrar seus braços?
–Não deixei claro que não corto os pulsos?
–Posso ver?
Eu não queria deixar ele ver meus braços... Ok, eu não corto, não tem possibilidade de eu pensar nisso. Acho estranho depositar minha tristeza nesse método, mas eu já fiz isso. Só uma vez. Uma única vez, com muita força e ficou muito feio por uns dias. Foi dois dias depois do meu pai ter morrido e eu não sabia o que fazer, eu estava sem chão. Eu não tinha cabeça pra pensar o que penso agora... Está bem, a morte dele foi uns 3 meses atrás, então vamos dizer que a uns 3 meses atrás eu não tinha cérebro, ok? Foi o segundo dia mais horrível de todos. Foi tão feio que, no momento que eu olhei para o meu braço, pensei que tivesse cortado alguma veia ou sei lá o que. Não parava de sangrar... E o pior foi eu não mostrar a minha mãe. Fiquei mais de uma semana usando camisetas de manga comprida.
–Não vai me deixar ver, não é?
–Pode ver, mas não vai achar nada.
Mostrei os dois braços na esperança de que ele não visse a cicatriz.
–Hm. — Falou ele anotando coisas no caderno. — Bom, nosso tempo acabou. Vou lá falar com sua mãe e o médico.
Ufa!
–Ok. — Falei.
Tudo saiu ótimo. Fiquei tão aliviada quando ele fechou a porta que comecei a chorar. Eu não sabia se deveria ter falado ou respondido a qualquer uma daquelas perguntas, mas respondi.
Passaram-se em torno de dez minutos e ninguém entrava na sala para dizer-me alguma coisa. Eu estava sozinha... Ficar sozinha me deixava tão incomodada. Muito mesmo. A sensação de não poder contar co ninguém, porque ninguém está perto, é destrutiva... Na verdade, não ficava totalmente sozinha, eu tinha meus pensamentos negativos e escrotos. Ok, essa talvez seja a pior parte. Eu sinto um vazio quando estou sozinha. Um vazio estranho e negro.
Bem, todo mundo sente, não é? Muita gente diz que é fome, outras dizem que é amor. E todos tentam fazer esse vazio passar. Me perturba não saber como fazer esse vazio passar. Será que é a falta de alguém com quem contar?
A porta se abriu e vi minha mãe chorando, seguido pelo médico que fechava a porta. Minha mãe sentou-se no sofá sem falar nada e o médico sentou na borda da cama. Eles se entreolhavam e minha mãe continuava chorando.
–Alguém pode dizer o que está acontecendo? Eu já saquei que é algo ruim, então falem logo!
–Ok! — Falou o médico, atendendo meu pedido. — Eu vou direto ao ponto... você é daquelas que não gostam que as pessoas enrolem o assunto, não? Percebi isso.
Dei um sorriso amarelo e balancei a cabeça afirmando.
–Sabe... Sei como é difícil a depressão, tenho um amigo que estava assim como você, na pior.
Eu dei um riso involuntário.

–Oi? Pera um instante! Ta dizendo que eu to deprimida?

–Bom... Você foi listada com depressão, mas isso é...

–Normal? Cara, se disser que isso é normal, eu vou ter que levantar daqui e te dar uns...
–Spencer! — Grita minha mãe entre o choro. -Escute o que ele tem a dizer.
–Eu ia dizer que era normal para as pessoas que estão passando por coisas difíceis como você.
–Olha, a definição de Depressão é bem longa, mas vou te dar um resumo: O transtorno depressivo maior diferencia-se do humor "triste", que afeta a maioria das pessoas regulamente, por se tratar de uma condição duradoura, de maior intensidade ou mesmo por uma tristeza de qualidade diferente da tristeza habitual, acompanhada de vários sintomas específicos e que trazem prejuízo à vida da pessoa. Quando não tem mais sentido tocar essa droga de sinfonia. Acaba a música.
–Sou médico e sei perfeitamente essa definição. Eu só estou querendo ajudar e eu até quero saber que sinfonia é essa, mas você tem que escutar. Está listada com depressão e junto com a autorização e concordância de sua mãe, você passará 3 meses em uma clínica de estabilização.
–O QUE? Vocês vão me mandar para um hospício? É isso?
Comecei a chorar e a passar mal.
–Spencer, calma, vai te fazer bem. Não é bem um hospício. A clínica Irisvelda é muito boa. Você ficará na ala dos adolescentes, vai ser uma experiência difícil, mas serão apenas três meses para você ter estabilidade, para não viver a vida como um tanto faz.
Eu queria tanto mandar aquele psicólogo ir pra...
–Filha, eu sinto muito, mas tive que tomar essa decisão. Vai ser melhor... — Falou minha mão chorando tanto quanto eu.
–Quer ajudar? Então me mande pra casa! Meu deus, você quer saber mais do que eu? Só eu entendo os meus sentimentos! Se eu digo que estou bem, eu estou.
–Você irá depois de amanhã. Passará os dois dias se alimentando com uma dieta especial. Seu organismo está desacostumado com comidas carregadas, então a comida será pouca, por isso não matará muito a sua fome... Mas vai melhorar logo. — Falou ele me ignorando.
Eu chorava tanto que minha cabeça estava explodindo.
Eu não queria ficar nem mais um minuto ali. Senti uma falta de ar, uma claustrofobia. Arranquei as coisas que ligavam o 'beep beep' no meu peito

–AAAH! — Gitei.

Com maior esforço tirei a agulha do meu braço.
–Eu não suporto mais ficar aqui. — Falei tremendo.
Me levantei meio tonta e sem equilíbrio e tentei sair.
–Spencer! — Gritaram ao mesmo tempo.
Eu bati no médico e minha mãe ficou gritando pedindo ajuda. Ele me segurou forte e dois enfermeiros me prenderam. Tentei ao máximo fugir. Senti uma picada no braço e bati no enfermeiro que me dopou com a injeção. Eu corria sem sair do lugar, até tudo ficar escuro. Fui perdendo as forças e, finalmente, caí adormecida.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo :3 Se não gostaram, confiem no terceiro. Mas tbm se não gostarem do terceiro, vão a merda, seu dlç ;-; primeira fic fica uma bosta mesmo. Então não se empolguem tanto com essa história u.u Amo vocês, mas amo mais o pessoal que comenta. Ent comentem para receber o amor da tia Ana. Bjok!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.