Dia chuvoso em Freeville, como sempre. A chuva estava para cair quando eu estava pensando no rumo que minha vida tomava. Algo ruim. Eu estava pensando no rumo que a vida toma sozinha. Já parou pra pensar que a vida é o burro que puxa a carroça em que você se senta, e que você decide para qual caminho guia-lo, mas muitas vezes o burro endoida e começa a se guiar sozinho? Não? Eu também não pensaria isso... Não da pra culpar a vida por atos que você mesmo cometeu. Ei, essa é uma das piores partes, né? Ver que você é o culpado pela merda ao seu redor. Não da pra culpar ninguém.

Tipo a morte. A morte é docemente estranha, onde as pessoas que se importam com o morto sofre mais que o próprio morto. Ele se foi, nunca mais vai sofrer, mas as pessoas que o amavam, que o respeitavam, que o tinham no coração... elas sofrem. Quem é a vítima nisso tudo?

As vezes eu gostaria que a vida fosse uma música. Bem, ela já é como uma sinfonia onde você é o maestro... Mas eu gostaria que ela fosse uma música do Green Day. Ou uma música do Goo Goo Dolls. Tão boa, tão maravilhosa... Que você nunca vai cansar dela. E que na parte ruim, que é quando acaba, desse para voltar a música toda. Seria ótimo. Você já escutou Green Day? Goo Goo Dolls?

Naquela tarde eu estava com os pensamentos explodindo, saindo pelos ouvidos. Eu só os escutava. De trás pra frente, de frente pra trás. Era tão perturbador pensar no que você não quer pensar. Como por exemplo a morte, a vida o dia chuvoso em Freeville. Eu não gostava daquele lugar, parecia um cemitério grande, cheio de mortos-vivos. Era exatamente essa a definição daquele lugar! Um cemitério!

Voltei para casa antes que a minha mãe enlouquecesse, ou antes que ela achasse que eu havia morrido também. No caminho, começou a chover, mas eu continuei mesmo assim, só que mais lenta. Eu gostava muito da chuva. A chuva lembrava-me meu pai, quando ele falava pra mim que, quando eu achasse algo impossível, era só eu contar quantas gostas de chuva caiam... E eu tentava mesmo. Então eu voltava para dentro de casa toda molhada, mesmo com minha mãe gritando, e ia correndo dizer a ele que eram um milhão de gotas. Mas ele sempre dizia que era um milhão e um.

Cheguei em casa exatamente como minha mãe odeia: Toda molhada.

-Speencer — diz minha mãe surtando — Por onde andou? Não atende nem o celular.

-Desculpe, mamãe. Não queria perder meu precioso tempo fora de casa, ouvindo você dizer que já é hora de voltar e que está preocupada. Não fui morta, não fui estuprada, não fui assaltada. Então como não aconteceu nada, não fala comigo por favor.

-Querida, eu estou tão preocupada! Queria tanto poder conversar, mas você torna tudo tão impossível.

-Conversar sobre o que?

-Sobre tudo. Sobre a mudança, sobre o Felipe... Sobre o seu pai. Sobre tudo.

Algumas lágrimas começaram a invadir meu rosto.

Droga! Já não basta ter que ouvir os pensamentos falarem sobre isso, tem minha mãe também.

-As pessoas costumam não gostar de falar sobre seus problemas.

-Ei, não são só seus, são meus também!

-Ótimo! Você gosta de falar deles, mas eu disse 'algumas' pessoas. Eu sou parte desse algumas.

-Não pode fugir dos problemas, Spencer. Uma hora eles vão te achar.

Comecei a chorar de novo.

Me ajoelhei e coloquei a mão no rosto.

-O que eu faço então? Sabe, não está tão ruim assim, mas as vezes tudo parece que não pode ficar pior, e aí eu vejo que pode e isso faz eu ver que viver assim é uma droga.

-Meu amor, não chore. — Falou ela se ajoelhando também. — Sei que você não gosta da cidade. Sei que... A morte do seu pai está sendo muito difícil mesmo, mas essa dor, esse vazio vai passar. Quero dizer, você não vai ficar assim pra sempre, eu prometo.

-Esqueceu de lembrar sobre eu ter repetido e de eu ter perdido meu melhor e único amigo. Mas obrigado por lembrar das outras coisas também.

-Desculpe...

Enxuguei o rosto, mesmo que continuasse a cair água dos meus olhos...

Levantei e corri para o meu quarto.

Eu chorava tanto quando pensava naquelas coisas, quando lembrava daquilo tudo. Por que não podia passar logo? Minha sinfonia está tão desajustada. Acho que sou uma péssima maestra. Sentei na borda da cama, respirei fundo e tentei colocar os pensamentos em ordem. "Ok, Spencer, sua sinfonia tem todas as cinco classes de instrumentos", pensei, "Não tem nenhum faltando, então pare de chorar". Respirei fundo novamente. Puxando o ar bem forte. Soltando. Com raiva. Vi tudo girar. Caí da cama, mas consegui segurar na mesinha que havia perto da cama. O porta retratos caiu e quebrou com a força que empurrei a mesinha.

Não adiantou muito eu ter segurado na mesinha, tudo ainda girava e mais rápido. E a escuridão veio, até eu cair de vez no chão. Os pés da minha mãe foram as ultimas coisas que vi antes de desmaiar.

Notas finais
O primeiro capítulo nunca é tão bom quanto o resto da história, ent se achar esse primeiro capítulo uma bosta confie no terceiro ou, provavelmente, no segundo :)) ♥ I love vcs.
Bjok da tia Ana :*
comentem aí, meus caros.