Sentei no banco velho, atrás do balcão, esperando um milagre acontecer. Talvez um ovni pousasse em cima da banca tornando minha vida mais interessante.

Fazia seis meses que não tinha tido nenhuma visão e um ano e meio desde que saí da academia de detetives e decidi abrir uma banca de jornais. Não sei o que me deu, afinal, uma banca de jornais não é bem o que eu tinha em mente quando pensava no futuro.

Abri uma embalagem de bombons e comecei a comer alguns quando o celular tocou, derrubei alguns jornais com o susto antes de atender o celular:

– Alô?

– Fátima! Onde você está?! – era meu irmão Dorisgleison, um ex-investigador que volta e meia se metia num caso.

– Como assim ‘onde estou’?! Na banca, é claro!

– Preciso de sua ajuda, às 10h50 um homem irá deixar uma mala atrás de sua banca. Dois homens virão para pegá-la, preciso que feche sua banca, pegue a sua arma e cuide deles pra mim.

– Espera aí um pouco. Do que estamos falando exatamente e como sabe da minha arma?

– Houve o seqüestro de um menino, estou tentando resolver o caso, mas não vou chegar a tempo. Você tem potencial, pode resolver isso. Quanto à arma, sou um investigador, o que você acha?

– Certo, mas eu saí da academia lembra?

– Lembro, a propósito, coisa que você não deveria ter feito. Agora faça o que eu mandei. – desligou o celular.

– Droga! – joguei o celular numa gaveta. Só vou fazer isso porque se trata de um menino.

Peguei a arma no fundo da gaveta e tratei de fechar a banca. Depois de esconder a arma comigo, me escondi num beco atrás da banca e esperei. Um homem muito bem arrumado (provavelmente um empresário) chegou minutos depois, largando uma mala grande e preta atrás da minha banca. Depois se dirigiu à estação de trem, com jeito de quem iria pegar um.

Os homens chegaram logo depois com um menino, estavam também muito bem arrumados. Pegaram a mala e abriram para dar uma olhada no dinheiro. Muito dinheiro.

Satisfeito o homem passou a mala para o outro e sacou uma arma, a apontando para o menino.

Ele iria matá-lo.

É agora.

Pulei pra fora do beco sacando a arma – Abaixe a arma! Agora! – gritei – E afaste-se do menino!

O homem virou-se, assustado por um momento, mas logo se recuperou. Levantando a arma mais uma vez, preparou-se pra terminar o trabalho. Não tinha jeito, eu teria que atirar.

Apertei o gatilho... Mas tudo que ouvi foi um ‘click’.

Estava descarregada.

Droga! Como fui burra! Devia ter checado isso antes!

O homem sorriu e, vendo a oportunidade, atirou no menino. Depois virou-se para mim e apertou o gatilho.

* * *

Acordei assustada. Estava na minha cama, no meu quarto, não num beco às 11h da manhã.

Tinha sido uma visão. Eu tinha certeza. Seis meses e finalmente havia tido uma nova visão.

E agora o que faço?

Levantei apressada e me vesti. Olhei no relógio, 10h15. Hora de abrir a banca.

Peguei a arma.

Carreguei.

E saí.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!