Sequelas

3 Dia seguinte


09:40 da manhã. A essa hora, mesmo sem ter atingido sua agitação diária, praticamente toda a cidade já devia estar desperta. E isso incluía os moradores de uma certa torre em forma de “T”.

Os cinco haviam acordado há cerca de algumas horas. Foi um golpe de sorte não terem uma interrupção durante a noite, e é devido a isso que a atmosfera daquele recinto estava muito mais leve se comparado ao do dia anterior...

Enfim, no momento havia apenas três adolescentes na Sala Comum. Ciborgue, que estava operando um dos computadores, e o casal de namorados, cochichando algo enquanto permaneciam no sofá. Os que não estavam presentes, Mutano e Ravena, se encontravam em seus devidos quartos.

“Bom, terminei por aqui.” O robô disse, se afastando do aparelho.

“Encontrou algo?” Robin voltou sua atenção para o mais velho.

“Não. Parece que esse tal de Vox nunca apareceu antes nessas bandas. Já procurei também em arquivos acumulados num período de um ano sobre casos em cidades vizinhas, mas os resultados foram os mesmos: nada!”

“Então ele deve ser novo.”

“Bem, disso eu não sei, mas também fiz uma busca sobre a sua nova amiga e também não achei nada parecido.” O mais velho prosseguiu, coçando levemente a nuca. “Seja o que for, eu tenho umas coisas a fazer lá na garagem. Depois dou uma olhada melhor na situação.”

“Ok.” O líder observou enquanto Ciborgue caminhava até as portas automáticas. Ficara pensativo sobre o que ouvira. Até entendia o fato da a garota não ter sido reconhecida em qualquer outro lugar, mas não achava o mesmo sobre Vox. Afinal, só porque o vilão nunca fora visto nas regiões próximas não significava que era novo nesse ramo.

Robin então passou a se concentrar totalmente no assunto que fora tocado, fazendo uma profunda investigação através de sua mente. E de tanto focar-se no caso, ele acabou não percebendo os chamados de sua namorada sentada ao lado.

“Robin?” A jovem insistia, ainda sem obter sucesso. Odiava quando isso ocorria. Às vezes (às vezes?!), esse senso investigativo dele irritava, bom, não só a ela, mas também aos demais heróis. “Robin!” Como último recurso, Estelar pousou a mão direita em seu ombro e o sacudiu gentilmente. Assim, finalmente despertou o menino-prodígio de suas reflexões.

“Ah, desculpe, Star. Eu ando muito distraído ultimamente.”

“Compreendo.” Disse, fazendo com que sua face emitisse um leve sinal de desânimo.

“*suspiro*Tudo o que houve ontem andou me deixando pensativo sobre a situação. Aquela garota, Vox... enfim. Isso vem me perturbando até mesmo durante a noite. Esses dois devem estar relacionados já que é muita coincidência aparecerem numa mesma noite e ela saber tanto sobre o cara. O que eu mais quero no momento é--“ Robin não pôde prosseguir com o falatório, pois Estelar, que já não queria ouvir um de seus discursos, selou seus lábios com um beijo.

Por ter sido pego de surpresa, demorou um pouco até que correspondesse o ato da namorada. Ao menos pôde compreender que estava se preocupando demais com aquilo. Que devia deixar o assunto de lado por ao menos um instante.

Bom, o momento era aquele.

O beijo durou apenas mais alguns segundos. Após isso, ambos se separaram e passaram a trocar olhares intensos, sem encontrar palavras.

“Estelar, eu...”

“Explicações não são necessárias, Robin.” Interrompeu novamente, adotando um olhar mais cabisbaixo. “Eu só apreciaria que você não permanecesse tão... fixado... no que houve.”

Robin então se calou. Não sabia exatamente como reagir àquela frase, afinal, quando o assunto era sobre sentimentos, ele não era lá uma boa indicação. Tanto que demorou alguns anos até que realmente assumisse o que sentia pela alienígena...

Sem mais delongas, o garoto-prodígio teve uma idéia. Era fácil notar que Estelar estava um pouco entristecida com tudo isso, então por que não leva-la para seu ponto favorito da torre, onde poderiam ficar mais... confortáveis?

“Bem, se é isso o que quer...” Ele retomou, abrindo um pequeno sorriso enquanto falava. “Que tal irmos lá em cima? O visual é legal a essa hora.”

Encarando-o por um momento, a jovem tamaraneana abriu um sorriso e acenou afirmativamente para ele. Robin então a ajudou a se levantar, e em seguida ambos foram para o terraço mantendo os braços entrelaçados.

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“Ah, cara! Onde foi que coloquei?!”

Mutano estava em seu quarto, que atualmente aparentava ter apenas metade de sua extensão costumeira. O motivo? Bom, digamos que o jovem metamorfo havia aumentado a desordem do lugar, retirando todos os objetos que restavam das gavetas, do seu armário, ou até mesmo de um baú recostado na parede, onde guardava lembranças de quando ainda não era um titã.

Enfim, Mutano estava atrás de um novo jogo que comprara ainda nessa semana. Só não o havia estreado ainda pelo fato de os últimos dias terem sido muito movimentados, e como aquele estava sendo estranhamente tranqüilo, ele decidiu que era a hora de jogar...

Só não esperava perdê-lo no meio de toda aquela bagunça.

“Cadê? Cadê??” Murmurava para si enquanto mergulhava numa pilha de roupas acumuladas num canto do aposento. “Fala sério, aquele era o novo jogo de Batalha dos Planetas!! Achar esse troço é uma questão de honra! Se for preciso, eu procuro até mesmo no quarto da Rae...!”

Mutano então parou diante das palavras que acabara de proferir.

“O que eu tô dizendo?? Eu quero achar um jogo, e não parar em outra dimensão!! Já me bastam as broncas que recebo todo dia!...” Após dizer isso, ele tomou a forma de um cão e passou a farejar o quarto, subindo em cada pilha de objetos que acumulara em sua valiosa busca e aprofundando o focinho naquele chão forrado por roupas e uniformes. Nem mesmo isso ajudou. Havia diversos cartuchos de jogos que colecionava espalhados também, e cujo odor era o mesmo do que procurava.

Realmente, aquilo estava se tornando irritante. Onde, afinal, aquele objeto estaria?

Pensando nisso, Mutano resolveu ir ao último lugar que procuraria: embaixo da cama.

“Haha!! Achei!!!” Berrou, empunhando o digno troféu pelo seu esforço e dedicação, para depois se levantar e dar início a uma de suas danças de vitória. O porém foi que acabou esquecendo de que ainda permanecia embaixo do beliche, e o resultado deste mero erro foi uma bela dor de cabeça...

Sem pensar duas vezes, saiu debaixo do móvel e começou a acariciar o que seria o início de um galo no alto de sua cabeça. Bom, ao menos recuperara seu tesouro. Aquilo era apenas um preço a se pagar.

Mas isso não foi tudo. O garoto agora encarava de maneira bizarra o que poderia ser chamado de “quarto”. Parecia que uma guerra havia ocorrido por lá, e que provavelmente aquele seria um território da equipe derrotada.

“Cara, se o Robin ver isso...!” Murmurou. O líder dos titãs era muito severo com a organização, e um bom exemplo disso era o quarto do próprio. Era o aposento mais limpo de toda a torre. Se ele já reclamava do dormitório do metamorfo antes, imagine o tamanho do discurso que faria caso visse a situação atual!...

Só de pensar nessa parte do problema os ouvidos de Mutano passaram a latejar. Então ele fez o que fazia melhor: esconder tudo.

Transformando-se num elefante, arrastou as pilhas para dentro do armário. O que restara foi para baixo do beliche ou simplesmente enfiado dentro das gavetas e do baú de modo bem relaxado. Agora sim, o quarto lhe parecia estranhamente organizado.

“Isso!” Comemorou som um salto, estendendo ambas as mãos. “Agora vamos ao jogo!!”

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Ravena também estava em seu dormitório, lugar onde ficara desde que havia terminado seu chá de ervas matinal. Estava meditando em frente às janelas, aproveitando o raro momento de calma que se passava por ali. Afinal, os últimos dias tinham sido bem agitados, e se houvesse uma hora mais tranqüila, esta era imediatamente interrompida por um certo garoto de pele verde.

Bom, aquilo não importava. Não agora. Como finalmente se encontrava com concentração suficiente para realizar seu mantra, era melhor não corta-la com tais pensamentos. Sempre que comemorava esses instantes de paz, os alarmes acabavam tocando, ou ao menos alguém vinha lhe incomodar com algumas batidas na porta.

“Azarath, Metrion, Zinthos...” Repetia em sua posição de lótus, levitando. Agiu assim por mais alguns minutos até que percebesse que, com tanta calma, acabou permanecendo ali por mais tempo que o de costume. Quem sabe fosse hora de fazer algo diferente. Ler, talvez.

Seus poderes já estavam sobre maior controle agora, então, pensando nisso, voltou a colocar os pés no chão e rapidamente se dirigiu à sua cama. Por cima das cobertas havia um livro que não terminara de ler no dia anterior. Era melhor aproveitar o dia de sorte...

Assim, Ravena abriu-o na página em que havia parado, e enquanto ainda o empunhava com a mão direita, começou a caminhar na direção da porta, pensando em ler na Sala Comum. Afinal, até ela se cansava de encarar o visual de seu quarto eventualmente...

Mas quem esperaria que sua sorte acabaria tão rápido?

Assim que saiu do aposento, sentiu algo chocar fortemente contra seu corpo, permitindo que o objeto que carregava praticamente voasse na direção oposta e que seu corpo perdesse o equilíbrio na hora. Assim, Ravena caiu no chão daquele corredor. Seu atacante acabou sofrendo o mesmo, mas ao invés de cair no piso frio, acabou parando por cima da empata.

De início, ela apenas massageou levemente a cabeça para aliviar a dor e seu atordoamento. Mas ao abrir os olhos por completo...

“Mutano!?”

“Ham... foi mal?...” Disse enquanto permanecia sobre o corpo da adolescente. Agora estava claro. Mutano, com seu nível altíssimo de entusiasmo para experimentar o jogo novo, simplesmente disparou na direção da sala. O problema foi que esse entusiasmo todo também acabou encobrindo-lhe a visão, e fez com que Ravena passasse desapercebida.

Bom, agora ali estavam eles. Parados numa pose um tanto... incomum... da parte de ambos, e sem conseguir fazer nada além de se encarar de forma intimidadora. Simplesmente não sabiam o que fazer...

E, de alguma forma, também não sabiam se deveriam reagir...

Bom, permaneceram ali por mais alguns segundos. Segundos que aparentavam ter o dobro de sua duração normal, dando continuidade àquele silêncio profundo, e que permitia aos dois jovens a percepção de certos detalhes que costumavam não ser notados um no outro. Mutano, por exemplo, nunca havia encarado os olhos da empata de tão perto, e por isso nunca percebera o quanto eram bonitos...

Ravena também pensou assim, e por isso não conseguia desviar sua atenção do rosto do garoto à frente.

Porém, quando um deles sentiu-se pronto para cortar aquela estranha sensação com algumas palavras, logo foi calado pelos estranhos e repetitivos sons que eram emitidos ao longo do corredor, se tratando de passos fortes. Obviamente, estes pertenciam ao maior do grupo...

“Mas o quê-??” Ciborgue engasgou ao ver aquela cena um tanto... inoportuna, parando próximo à eles. Era até mesmo possível notar que um parafuso de sua cabeça ameaçava soltar-se pro completo tamanha a gravidade do que vira.

Automaticamente, ambos, Ravena e Mutano, trocaram olhares aflitos por algumas vezes e em seguida pularam para longe um do outro.

“Cib!! Ham... não foi nada disso que estava pensando! Tipo assim... eu tava no meu quarto, daí eu fui usar meu jogo, e a Rae tava andando e--mmmphf” Ravena rapidamente tapou a boca do mais novo com uma das mãos para evitar algo pior.

“Isso não vai ajudar, Mutano!” Rosnou, soltando-o assim que este se acalmou.

“Ok, alguém pode me explicar o que tava acontecendo por aqui?!!” O robô exclamou, abanando as mãos nervosamente.

Agora, uma maratona de entreolhares havia tido início. Ninguém sabia o que dizer sem acabar com a face rubra. Ravena, inclusive, já havia encoberto a sua com o capuz como prevenção. Era bem fácil notar o vermelho num rosto pálido, afinal...

Mas parecia que aquela sorte que antes a deixara havia retornado, pois no exato momento em que ambos abriram a boca com esperanças de dar uma explicação, um som forte e repetitivo se espalhou pela torre, acompanhando a iluminação avermelhada que a tomou. Era o som dos alarmes.

“Salvos pelo gongo!...” Mutano suspirou pouco antes de assumir a forma de gavião, se dirigindo à sala. Os demais então deram de ombros e o seguiram.