Sepultura
1 Sepultura
Era 18 de fevereiro. Carregava um peso terrível em suas costas, mas seu cansaço não era culpa da caminhada que fizera. Esta havia sido bem curta. E não aprendera nada durante o percurso.
Na sua mão direita carregava uma velha pá, o único instrumento de que precisaria para cumprir sua jornada. Na mão esquerda, uma sacola com dois artefatos que o acompanhavam desde o dia em que fora resgatado. Não eram imprescindíveis para a tarefa, mas não poderia estar ali sem eles.
Encontrara o local que julgara apropriado. A terra ali era dura e fria, mas daquele local era possível ver uma enorme torre, o que facilitaria sua localização caso decidisse retornar ali eventualmente. Acomodou a sacola no chão ao seu lado e se preparou para começar a cavar.
Assim que o metal da sua pá fez contato com a terra vermelha como sangue, um garoto surgiu às suas costas. Era pequeno e magro, tinha lábios carnudos, o rosto redondo e o cabelo abarrotado de cachos negros. Bastante familiar. Acompanhava o movimento da pá com bastante curiosidade. Parecia fascinado. Sentara no chão sem desgrudar os olhos castanho-escuros do buraco que se formava à sua frente.
– Por que você está cavando?
Queria dar uma resposta sincera ao garoto, mas sua presença ali era perturbadora. Ao invés disso, limitou-se a continuar o seu trabalho. Estava cavando num ritmo constante, mecânico, tentando ignorar o cansaço que se instaurava em seu corpo pouco a pouco. Por que estava cavando? Era isso que queria saber. Estava atrás de respostas. Mas continuava à deriva. Talvez estivesse fazendo a pergunta errada.
Quando o buraco atingiu tamanho suficiente para enterrar uma criança, ele deu uma pausa para tirar o suor do seu rosto.
– Você está procurando um tesouro?
O garoto parecia um pouco maior. Seus pequenos cachos haviam dado lugar a um cabelo rasteiro, e agora usava roupas largas, como se quisesse esconder a saliência que havia se formado em sua barriga. Mas continuava sentado, observando. Fora mais uma vez ignorado.
Um tesouro? Era disso que precisava? Lembrou-se das velhas histórias de piratas que enterravam um baú cheio de ouro num lugar em que ninguém pudesse encontrar, mas ao mesmo tempo desenhava um mapa que mostrava sua exata localização. Era uma maneira esquisita de se guardar algo muito importante: tão longe do toque e do olhar. Se uma vez havia tido um tesouro, ele agora se perdeu; e o mapa virou cinzas. Não, estava muito longe de ser um pirata.
– Está tentando chegar a algum lugar?
Riu com a pergunta do adolescente alto e magro de cabelos novamente cacheados. É verdade, a puberdade tem dessas coisas. Cria-se uma imensa expectativa de um futuro glorioso que o aguardava apesar de todas as dificuldades, estas que seriam vencidas com todo o seu esforço. Bastava querer. A maioridade tão esperada era associada com a liberdade, com milhares de possibilidades se abrindo. Mal sabia o pobre rapaz que ali começaria sua prisão.
Onde ele poderia chegar cavando daquele jeito? Ao centro da Terra? E o que encontraria além da lava fervente? Surpreendeu-se ao pensar como a situação em que se encontrava era deveras semelhante com aquela que estava a devanear. Quanto mais se aprofundava dentro de si mesmo, mais próximo estava de um inferno de memórias que queimaria a sua mente em insanidade. Adolescentes possuíam certa sabedoria, afinal.
Na medida em que se aumentava a profundidade do buraco, o solo oferecia maior resistência às investidas da pequena pá. O vermelho da terra ia se misturando com o vermelho que escorria de suas mãos. Tom sobre tom. Aquilo não o incomodava. Parecia artístico, e sempre quisera fazer arte. A arte imita a vida, lhe disseram. Sua arte deveria ser bem triste agora.
– Isso ainda não é o suficiente.
A voz grossa pertencia à um homem forte e de barba falhada que o observava não com curiosidade ou fascinação, mas com desprezo. Este não poderia mais ser ignorado.
– Já estou quase terminando. – Respondeu.
Estava aliviado por ter chegado ao fim. Seus ombros ardiam pedindo por clemência, seus braços tremiam e o impediam de segurar a pá por mais tempo. Deixando-a de lado, se dirigiu à sacola que continha seus preciosos artefatos: uma rosa completamente murcha e uma pedra extremamente desgastada. Ao segura-las entre seus dedos, sentiu uma pulsação constante, um coração batendo, como se estivessem vivas. Arremessou-as no buraco sem cerimônia como quem planta sementes numa terra árida e sem esperança.
Virou-se para o homem atrás dele. Sabia o que viria a seguir. Só havia uma maneira de aquilo terminar, e o seu juízo já havia determinado a sentença. Tratara de fazer de si mesmo o carrasco.
– Por que você não olhou para trás?
Desviou o olhar por um instante e voltou a encará-lo.
– Você teria conseguido?
O silêncio o seguiu enquanto escorregava para dentro da terra. Pôde ver, ao se virar, sua própria imagem lá no alto, segurando uma grande pá em uma mão enquanto a outra carregava entre seus dedos uma pedra brilhante e uma rosa recém-colhida. Era a última coisa que ficaria gravada em sua retina.
– Feche a porta antes de sair.
E repousou em sua própria sepultura.
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