Septuagésima Oitava
2 Capítulo 2 – Tudo vai ficar bem
Eu havia sido sequestrada? Isso foi a melhor coisa que pensei para explicar aquela situação.
Quando acordei, constatei que estava em um carro desconhecido. Não estava amarrada, e por sinal, as roupas em que eu estava vestida não eram mais as mesmas. Meu irmão não estava ali, então espero que esteja a salvo. Do meu lado, um homem de terno estava usando o notebook, ele apenas viu que estava acordada e continuou digitando algo.
Percebi pela janela do carro que ainda estávamos em Petrolina, que era noite e que estávamos no meu bairro. A substância que injetaram em mim ainda me deixou um pouco zonza, mas sóbria o suficiente para notar que o grupo que andava na calçada ali perto, era o meu grupo de amigos.
— Pare o carro! Me deixa sair! – Gritei um tanto quanto grogue.
O carro parou, ninguém nem ao menos resistiu ao comando de alguém que supostamente não era para mandar. Desci, e me dirigi aos meus amigos.
— Gente! Me ajuda, eu fui sequestrada...
Eles apenas viraram para mim com o olhar de quem não estava entendendo a piada e começaram a rir. Parando para notar, eles estavam diferentes, frios. O grupo era o mesmo, Lizandra, Levi, Gustavo, Maria Luiza, Marcelo, Eduardo, mas tinha algo de errado, de algum modo não era a mesma coisa feliz com que eu convivi.
— Sequestro? Não estou vendo ninguém preso por aqui. Me ajuda? Que mudança repentina foi essa Clara? Não ajudamos traidores que só infernizam a Terra e que só se preocupam consigo mesmos. – Lizandra havia respondido rispidamente. – Se toque, você já nos perdeu.
Eu não entendi aquilo. Eu, uma traidora? Sempre fui amiga deles! Como dizer isso de mim? Acho que o efeito da droga está afetando os meus sentidos, essa é a única resposta lógica.
Eles saíram, me deixaram ali parada olhando para suas costas enquanto se moviam para longe. O cara que estava no carro comigo saiu, meus instintos diziam para fugir, já que estava “livre”, mas eu não consegui. Apenas fiquei observando meus amigos indo embora e o homem calmamente se aproximou e me colocou em seus braços.
— Pronto, já falou com quem queria? – A voz dele não era séria, nem má, mas algo como atenciosa.
Também não entendi a pergunta, apenas me acomodei nos braços alheios e sussurrei algo que o fez começar a andar... Quando me dei conta, estava na minha cama.
— Abra os olhos, filhinha... – Minha mãe falou com sua voz doce.
— Mãe? Isso tudo foi um sonho?
— Isso tudo o que? – Ela perguntou fazendo o olhar de dúvida.
— Eu não fui sequestrada, ou fui? Tudo bem com Álvaro? – Perguntei enquanto começava a sentar na cama.
— Não, não... Vocês não foram sequestrados. Jimmy disse que você parou o carro de repente para falar com estranhos, tudo bem com o meu amor?
— Quem é Jimmy?
— Seu guarda-costas. – Ela pôs a mão na minha testa para medir a temperatura. – Bem, acho que você está só um pouco cansada, não se estresse tanto, vá descansar no computador...
Ok, tive que fazer uma nota mental aqui:
a) Quando minha mãe contratou um guarda-costas?
b) Eu fui pegar mesmo meu irmão no colégio?
c) Estranhos? Eu fui falar com meus amigos, que por sinal, fizeram o favor de nem me dar atenção.
d) Que situação estranha! Quando as coisas pararam de fazer sentido?
Bem, eu estou bem. Pela porta do meu quarto, vi que meu irmão estava assistindo televisão na sala, meu pai estava lendo e minha mãe tinha acabado de sair daqui. Tudo parecia no seu devido lugar.
Liguei o computador. Vou falar com o povo, alguém precisava explicar o que aconteceu a pouco tempo atrás. Abro o Skype e vejo que todos os meus contatos haviam sumido. Como assim? Cadê as pessoas daqui? Juliana, Rodrigo, Thadeu, Vitor... Porque não tenho mais ninguém adicionado?
Rapidamente fui lembrando os nicks das contas das pessoas e fui procurar. Estavam dando como inexistentes. Ok, sacanagem, porque todo mundo me bloqueou? Até as pessoas de fora da cidade, aqueles que eu conheci na internet mesmo, eles não estavam ali!
Abri o Facebook também, lá mostrava que eu tinha ‘000’ amigos! Não estava entendendo era nada.
Foi nesse momento que eu decidir ir na casa de Lizandra e perguntar que palhaçada era aquela. Olhei para o relógio do computador e vi que ainda eram 20:30, não era muito tarde. Levantei da cadeira e ia pegando a bolsa para sair, quando olhei novamente para o relógio.
“20:30 – 14/12/2014”
Calma, Clara.
Esfreguei os olhos e vi novamente a data.
“14/12/2014”
Corri no calendário da cozinha e constatei que a data que ele marcava era a mesma. Corri para a sala e na televisão marcava a mesma data.
— Mãe, pai, Álvaro... Desde quando a gente está em Dezembro?
— Desde sempre. – Álvaro respondeu inocentemente.
— Não, ontem eu estava no Bios e eu respondi aquele teste de vocação com a pergunta estúpida do “Quem eu sou”. E, aquilo foi dia 13 de Abril. Então, me respondam: Quando foi que chegamos em Dezembro mesmo? – Eu estava começando a ficar nervosa, um coceira na ponta da língua me dizia que nada estava certo por ali.
— Clara, ontem você não foi para o Bios, ou melhor, se lembra que você falou que nunca mais pisava naquele lugar em maio? – Meu pai falou como se eu estivesse ficando louca.
— Não... Eu nunca diria iss...
Fui interrompida pela presença do homem com a cicatriz no rosto. Ele era real, e entrou na sala com a mesma maleta daquela vez. Instantaneamente meu sangue gelou.
— Boa noite. Como vão?
— Tudo ótimo, Scar! – Meu pai levantou da cadeira de balanço e foi apertar a mão do visitante.
— P-p-pai! Quem é ele?
Minha mãe também apareceu e foi cumprimentá-lo. O que significava isso tudo? Quem era ele? O que ele queria comigo? Porque ele estava aqui? Porque meus pais o conheciam?
— Calma querida, tudo vai ficar bem. Chegou a hora... – Minha mãe falou calmamente.
— Pronta para que eu possa te sedar, Clara? – Scar perguntou.
Eu instintivamente fui dando passos para trás em direção ao meu quarto, mas o Jimmy fora mais rápido e me segurou pelos braços, em questões de segundos eu estava imobilizada novamente e lá vinha a segunda dose da substância para as minhas veias.
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