Septuagésima Oitava

6 Capítulo 6 – Coroa desmerecida


Com o sangue gelado, soube na hora que havia dado merda. Vitor abriu a porta do carro na hora em que o aparelho tinha começado a apitar.

— Clara, precisamos correr, Beth corre risco de vida. Já acionei a queda de energia para 3, 2, 1... Agora!

Os gritos da multidão foram gerais. Ele me guiou pelo escuro até chegarmos ao salão, não mais do que 30 segundos depois a luz voltou e existiam no salão agora 2 Claras. A dúvida e indignação percorreram a multidão. E Jasper gritou:

— Que merda é essa? Porque tem duas garotas iguais ali?

— Guardas! – O serviçal que mais parecia um vovô resmungão e que havia verificado Beth, gritou por ajuda. – Prendam-nas!

Segundos depois, haviam nos prendido ali mesmo no salão.

— Está havendo um engano aqui. – Scar interveio. – A gente não conhece essa garota ai, soltem a Clara verdadeira.

— Conhecendo ou não conhecendo, agora já é tarde demais. A punição será a morte, para aquela que não for a verdadeira, é claro. – Ele colocou o aparelho na minha mão, e o aparelho confirmou a minha identidade. – Pronto, já que essa é a verdadeira, acho que teremos um show essa noite.

Ele bateu palmas, e a grande mesa central voltou para o chão de onde veio, liberando o espaço.

— Guardas, coloquem a sósia no centro e tragam-me uma espada.

Rapidamente trouxeram-lhe a espada. Iriam matar Beth na minha frente? Fechei os olhos para não ver.

— Por que fecha os olhos, minha querida? – Perguntou ele docemente para comigo. – Seus burros, soltem logo a original! Aposto que ela está querendo matar logo essa impostora imperfeita.

Soltaram-me e o senhor colocou a espada em minhas mãos. Eu teria que matar-la? Olhei suplicando ajuda para Scar e para Vitor, aquilo não poderia estar acontecendo. Eles apenas balançaram os ombros, e entendi na hora que aquilo não estava ao seu alcance. Era necessário ser feito.

Andei com passos lentos em direção a Beth, ela não chorava, percebi no seu olhar que ela havia aceitado esse trágico fim. E logo começou os incentivos.

— Corte a cabeça! Corte a cabeça! Corte a cabeça! – Todos clamavam para que eu fizesse isso.

Olhei uma última vez para trás, Scar tapava os olhos de meu irmão, Vitor havia se virado, e agora era tarde demais.

Sibilei um ‘desculpe-me’ para Beth, e derrotada, fiz aquilo que as pessoas queriam. Cortei-lhe a cabeça.

Soltei a espada logo em seguida, minhas mãos não paravam de tremer, eu realmente tinha matado alguém, e minha amiga por sinal. Que desgraça, meu mundo estava entrando em transe enquanto ouvia altas comemorações e gritos de histeria.

— Tragam a coroa! – Ordenou o velhinho.

Soaram as trombetas e algumas serviçais traziam minha coroa desmerecida na almofada. Scar tomou-a nas mãos e colocou na minha cabeça, agora eu estava coroada, e por mais ‘perfeita’ que estivesse parecendo para os outros, só via naquilo imperfeição e justiça.

Constatei no meu pulso que agora estava em quadragésima no ranking, e mais perto de ganhar a competição.

Vieram algumas pessoas para recolher o corpo, e a festa continuou, não podia ficar ali mais nem um segundo. Joguei a coroa no chão, e sai correndo em direção para onde as pessoas estavam levando o corpo que abrigava a mente de Beth.

Chegamos no necrotério da nave, esperei as pessoas arrumarem-na na maca e saírem para me aproximar.

— Oh, Beth! Me desculpe... – Falei enquanto chorava e segurava a sua mão.

Pouco tempo depois Vitor chegou também.

— Não chore, Clara. Ela entendeu que era necessário, ela não sente raiva de você, então não fique assim.

Ele tentava me confortar, mas as lágrimas não paravam de descer. Porque eu fizera isso? Porque eu simplesmente não fugi dali? Não, não tinha para onde fugir...

Dei um último adeus, e deixei que Vitor me acompanhasse para o carro, para assim voltarmos para os meus aposentos. Que péssimo dia aquele.

O número em cima da porta agora marcava 40, na mesa de cabeceira, já se encontrava a minha coroa, peguei-a e num acesso de raiva quebrei aquela merda cortando minhas mãos. O choro tinha voltado.

Vitor não podia fazer com que o passado voltasse, ela estava morta, e ele sabia disso. Fez o curativo melhor que pode e me deu um remédio para que conseguisse dormir. Ele havia prometido que o dia de amanhã seria melhor, e assim acreditei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.