Septuagésima Oitava
5 Capítulo 5 – Reis e Rainhas
No meio da loucura e insanidade, ser escolhida para possível geradora de um ser perfeito é até um pouco constrangedor, fora que eu não lembro nada de 8 meses da minha vida.
Logo após meu irmão sair da sala, fui levada para a piscina, Scar disse que eu precisava melhorar meu físico e me impor para as pessoas quem eu era. Realmente, os Reis e Rainhas que estavam nas fotos não eram nada em comparação aos de verdade. Os padrões de beleza da Terra eram tão altos assim?
A grande surpresa foi que eu consegui chegar nesses 100, quantas será que morreram para que eu pudesse chegar aqui? Muitas, com certeza.
Pela primeira vez vi que Scar não estava com seu terno, mas sim com uma roupa de treinador e havia feito um rabo de cavalo. Carregava consigo uma prancheta eletrônica e um apito. A piscina estava lotada, exceto pela raia que estava reservada para mim. Serviçais também estavam por todos os cantos observando admirados os Reis: Canadense, Americano e Francês nadarem como jatos pela piscina.
— Suas metas para hoje são poucas: 100 voltas de nado livre, 50 de peito e 50 de costas. – Informou Scar.
— Você está louco? Já viu o tamanho dessa piscina? Eu mal tive algumas aulas de natação na minha cidade, em uma piscina minúscula por sinal, e você quer que eu faça isso tudo? – Perguntei indignada.
— Você vai fazer queira ou não, mas vou aplicar uma injeção que vai te ajudar a aprimorar aquilo que você já sabia.
Uma pessoa da minha equipe trouxe uma bandeja com 6 seringas.
— Scar, e a história de ser só uma?
— É apenas uma, para cada membro do corpo, é claro. – Ele falou como se fosse nada de mais, e fez a cara de que eu que era a idiota ali, não ele.
Doeu, principalmente a que foi no pescoço. Para que precisava de uma injeção no pescoço? Quando estava pronta, uma voz anunciou que a “aspirante a Rainha, Clara Cristiane” estava entrando na piscina. Todo mundo olhou, espero não fazer besteira, como me afogar, por exemplo.
Ao entrar na água, para a minha alegria, tudo saiu certo. Era muito fácil! Eu me senti como se fosse a água, também escutei aplausos do lado de fora, será que estava indo tão bem assim?
1, 2, 3, 10, 20, 30, 90, 100 voltas. Passaram-se como um piscar de olhos!
Parei na beira da piscina e recebi um sorriso e cumprimentos do meu técnico.
— Muito bem! Continue assim, você só precisa reduzir mais 10 minutos do seu tempo, que você fica decente.
— Você está sendo irônico ou o que? Aquilo foi perfeito! – Retruquei. – Não ouviu os aplausos?
— Ouvi sim, mas não foram para você, a Ming que está duas raias daqui fez o dobro de suas voltas no mesmo tempo, os aplausos foram para ela. Se esforce mais, que assim você vai merecer os seus.
Enquanto ele estava brigando comigo, Ming saiu da piscina, uma pessoa de sua equipe prontamente trouxe sua toalha e coroa. Ela deveria ser muito boa...
— Scar, quando eu ganho uma coroa dessas? – Perguntei inocentemente.
— Meu bem, é simples, mate alguém. – Ele respondeu mostrando os dentes, aquele cínico.
Voltei para a série de peito. Quer dizer que para conseguir uma coroa daquelas eu tinha que matar alguém? Quão violento essas pessoas são? Tentei me lembrar em qual posição ela estava. Trigésima primeira. Será que vou chegar nesse ponto? O quanto esse jogo vai mexer comigo? Tudo para vencer?
Nadei o mais vertiginosamente que pude, as pessoas esperavam que eu subisse no ranking. Quando saí da piscina, a maioria das pessoas já tinham ido embora, só sobrara eu de competidora. Scar me trouxe a toalha e constatei no pulso que agora estava em septuagésima sétima.
— Eu subi uma colocação?
— Não, Jasper matou Ming no refeitório.
— Por que ele fez isso? – Perguntei um tanto quanto chocada, mesmo sem saber quem era Jasper, o que Ming fizera para merecer morrer?
— Ele é um novato como você, provavelmente soube que para ganhar uma coroa e respeito teria que matar alguém, e ela deveria estar próxima na hora.
— Scar, porque matar alguém é o caminho para a perfeição?
— Porque a perfeição não tem piedade, não tem sentimentos, simplesmente acontece.
— Meio confuso, mas acho que peguei a ideia...
— Vamos, você tem 45 minutos para se arrumar e entrar no grande salão. – Ele explicou.
De volta ao meu quarto, entrei no closet na esperança de achar algo para vestir, mas não. Existiam apenas umas 1000 araras cheias de vestidos e muitos sapatos, para escolher. Algumas serviçais perguntaram as minhas preferências enquanto me direcionavam para o banheiro, cujo qual tinha um ofurô com muitos sais e perfumes me esperando. Sério que eu tinha 45 minutos para ficar pronta? Eu poderia morar ali de tão bom!
Tinha dito para as serviçais escolherem o que achassem melhor para mim, elas escolheram um vestido turquesa, com sapatos e acessórios dourados. Nada muito chamativo, mas elegante. Elas pentearam meu cabelo em um coque para realçar o detalhe das costas nuas. Eu estava linda como jamais estive, aquela era eu?
Ao sair do quarto, Vitor, Vinho, Scar e Beth me aguardavam. Ela estava vestida exatamente igual a mim. Me lembrei de Vitor falar algo como “Beth ir no meu lugar”, se ela estava indo, para que eu iria? Mas Scar já estava respondendo antes que eu perguntasse.
— O plano é o seguinte: Como bem sabemos, Jasper matou Ming a poucos minutos atrás. Isso pode acontecer com qualquer um, a qualquer momento, por isso mandei fazer essa sósia, para evitar que percamos antes mesmo de competirmos. Se ela morrer, você estará segura, e ainda continuamos no jogo. Se ela viver, lucro paras duas.
— Isso não é meio injusto não? – Perguntei. – Beth, tudo bem por você correr esse risco por mim?
— Sim, eu já deveria estar morta mesmo, então estar aqui é uma sorte daquelas...
Ela tentava fazer piada até em um momento como esses.
— Continuando, eu vou para a festa com Beth e Álvaro, enquanto Clara ficara com Vitor a salvo assistindo da tela na praça principal. Se algo acontecer na festa, Vitor traz Clara, porque supostamente, é preciso das digitais dela. E se a sósia estiver morta, é inútil. Entendido?
— Entendido. – Respondemos.
Scar colocou o casaco branco em Beth, ajeitou o próprio paletó, o do meu irmão, e lá foram eles porta afora. Boa sorte, pessoal.
— Bem, a gente só não fica por aqui mesmo, porque é muito distante do local caso alguma coisa aconteça. – Vitor falou enquanto me conduzia para um pequeno carro que tinha do lado de fora.
— O quão grande é essa nave? – Perguntei curiosa.
— Daqui para o grande salão, são 15 minutos de carro.
Bem, nada mais podia me surpreender mesmo, então o fato de andar de carro em uma espaçonave, não seria tão novidade assim. Peguei meu casaco e lá fomos nós.
— Clara, só tem um pequeno detalhe, você não vai poder sair do carro. Acho que somos uns dos poucos times que tiveram a ideia da sósia, então as pessoas fariam baderna caso tivessem 2 Claras em locais diferentes. – Vitor explicou. – Quando a gente chegar, eu vou ficar vigiando do lado de fora, e se você quiser acompanhar a cerimônia, está aqui o Tablet.
— Obrigada, Vitor.
Ele saiu e notei que a praça estava lotada até onde a minha visão permitia enxergar. Quantas pessoas cabiam nesse local?
O evento começou. Cornetas e trombetas saudavam os aspirantes a virar pais do “poder”. Cada casal ia entrando de acordo com seu número. Homens na direita, mulheres na esquerda. Em cada canto da sala tinha 100 tronos, apenas o centésimo trono feminino estava vazio, a substituta de Ming não havia chegado ainda.
Descobri que Jasper era um loiro alto, que agora ostentava na sua cabeça uma coroa e que apreciava sorrir e acenar para a câmera. Babaca, pensei comigo mesma. Os acompanhantes de cada escolhido carregavam a bandeira do país a que pertenciam. O brasileiro, armeno, e sul africano usavam máscaras, a cara deles ainda era uma incógnita, até mesmo quando Vitor me trouxe as fotos, as deles não apareciam. Das mulheres a alemã, italiana e a segunda brasileira.
Todos sentaram em seus tronos e seus acompanhantes se postaram dos lados, a câmera passou por Beth, ela também sorria e acenava. Minutos após o término da entrada, uma voz ecoou no salão:
“As vezes é necessário errar para entender as falhas e aprimorá-las. A Terra falhou ao não se preparar para um ataque extraterrestre, mas é a partir dos erros que aprendemos a acertar. Partindo desse princípio o projeto ‘Rei e Rainha’ foi lançado, 10 anos atrás, recebemos o informativos que os alienígenas estavam perto, e eles estavam. Era tarde demais para se proteger, mas não tarde demais para planejar o contra-ataque. Desenvolvemos essa base com o intuito de alcançar a perfeição sob vários aspectos, apenas a partir desse ponto, o ser que irá ser gerado será uma raça sobre-humana. Forte, sagaz, hábil, infinito. Ele nos guiará para a liberdade, e desse jeito a raça humana se livrará da escravidão.”
Após esse pronunciamento, ouvi vários aplausos e assovios do lado de fora, do chão da sala em que os escolhidos estavam, saiu uma mesa com o maior banquete que vira em minha vida, eles levantaram, mas ao invés de comer foram se socializar. Acho que aquilo deveria ser enfeite, mas engano meu, quem se dirigia para a mesa eram os acompanhantes. Testar a comida? Não, eles estavam comendo mesmo, a única coisa que pude deduzir foi que a perfeição incluía também sobreviver sem comida, eu conseguiria isso?
A cerimônia foi apenas aquilo mesmo, o resto era apenas observar o comportamento deles, Beth estava conversando com um grupo de garotas, umas 10. Me pergunto se ela também aprendeu as línguas do mundo... Meu irmão comia bastante, e Scar ficava tomando champanhe enquanto observava as coisas de longe.
Ao longe eu percebi que alguns serviçais estavam recolhendo as digitais das pessoas, motivos, não sei, mas tudo bem. Até que chegou a vez de Beth, e o equipamento identificou falha.
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