Sephiroth

10 Capítulo 9 - Juntos resistimos e juntos caímos


Notas iniciais
Bom, com ligeiro atraso - cof, cof - está aí o último capítulo da história. Espero que gostem do final!
Betado por Nana.
Ps: Desculpe o erro de formatação.

Tóquio, 16 de Outubro de 2008 – 04:59 p.m.


Aoi’s Point of View



Cheguei cansado em casa, o dia tinha sido complicado na Datasign. Mesmo eu pegando leve no trabalho, tudo tinha ficado uma bagunça na minha ausência.



O velho Shiroyama Yuu estava de volta no comando da empresa, o que foi muito comemorado pelos executivos velhotes daquele lugar.



Agora a questão que não quer calar: Como a minha vida voltou ao normal?



Resposta simples.



Uruha.



Depois daquela conversa devastadora – acreditem, para mim foi muito ruim também –, nunca mais o vi. Perguntei ao Ruki por onde ele andava, mas o baixinho disse que ele estava resolvendo umas coisas por aí.



Falando no geneticista, contei tudo o que havia lido sobre ele na NeoCell. E, para minha inteira surpresa, Ruki falou como foram os dias depois da fuga, um verdadeiro caos. Até o aparecimento de Uruha.



É, eu sei. Ele, de novo!



O loiro alto salvou o baixinho de uma emboscada, este lhe prometeu, em gratidão, curá-lo.



Por isso estavam juntos.



Enquanto ficava naquele hospital improvisado, eu usava cada mísero segundo para planejar minha vida daquele ponto em diante. E foi com grande incredulidade que recebi a notícia sobre o tal plano para me levar de volta à realidade.



Ruki não foi explicito no que diz respeito ao autor da ideia. Se foi ele, ou o Uruha, nunca soube. O que importa é que com grande esforço – e um seqüestro forjado –, aos poucos eu retornei.



Foi muito estranho no começo. Um dia eu estava fugindo de tudo, e no outro a mídia inteira estava atrás de mim, tentando uma exclusiva com o executivo que passou mais de seis meses em poder de seqüestradores.



Seqüestradores esses que nunca serão encontrados, já que eu menti, dizendo que ficava vendado o tempo todo.



Pronto, o circo estava armado.



Ignorando tudo, e ainda com aquela estranha sensação de que aquele não era meu mundo, fui para Mie. Passar uns tempos com meus pais. Sem dúvida foi a melhor decisão, lá eu me preparava para a minha antiga rotina.



Houve muitas perguntas, muitas especulações... Inclusive relacionadas com a NeoCell. Culpa da minha ex-secretária, Sakuya, que divulgou a minha ida ao local antes de seqüestro.



Deu trabalho desmentir isso e tentar fazer com as investigações rumarem para outros lados. Envolver a NeoCell era desenterrar os fantasmas, e principalmente, poderia despertar suspeitas acerca das atividades desenvolvidas lá.



Sorte que meu advogado era bom em convencer as pessoas, e desviou-se disso.



Não que eu tenha contado para ele, mas se estava tudo envolto em mentiras, mais uma não faria tanta diferença.



E assim as coisas tomaram seu curso, voltaram aos eixos de maneira bem distorcida.



Desde que esse teatro todo foi montado, eu nunca mais havia visto Ruki, tampouco Uruha. Admito que queria rever o geneticista e agradecê-lo por tudo, mesmo que já tivesse feito isso.



Encontrar Uruha já era outra história.



Às vezes me pegava pensando se não tinha sido muito duro com ele. Mas também pudera, suas atitudes, apesar de controversas, foram pensadas em prol do meu bem-estar.



Até o fato de deixar Kai lhe dar uma surra.



Talvez eu esteja me apegando demais aos fatos anteriores... Ele me salvou não foi? Uruha destruiu a NeoCell por mim!



Não foi apenas para exorcizar seus fantasmas.



Servi-me de uma dose de vodka, olhando para o céu escuro. Nuvens pesadas espalhavam-se pela cidade, e, a qualquer momento, uma precipitação monumental desabaria em Tóquio.



E não deu outra.



Tempos chuvosos raramente me deixavam de mal-humor, ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas. O barulho dos pingos batendo nas janelas, a sensação de frio, mesmo quando tinha raios e trovões eu me sentia bem. Sempre me sentava perto da janela, envolto pela escuridão, e contemplava esse fenômeno natural tão importante.



Ainda refletindo sobre toda a loucura dos últimos meses, encarei a cidade iluminada... E a Torre de Tóquio brilhante ao fundo...



De todo o tempo que passei com Uruha, o momento naquele lugar foi o mais marcante de todos. Ainda lembrava com clareza as palavras, os gestos, a brisa de inverno, o abraço... E principalmente, o começo de um sentimento por ele – que mais tarde se definiria como amor.



Como será que Uruha se sentia sobre mim?



Onde será que ele estava?



Passava frio? Fome?



E quanto a Sephiroth? Ele teria realizado seu sonho de voltar ao normal?



Um raio cortou o céu, seguido de um trovão estrondoso.



Junto a isso, a campainha tocou.



Fiquei olhando incrédulo para a porta fracamente iluminada, quem importunaria seu vizinho durante uma reflexão?



Okay, não tinha como saber nee...



Outro trovão, e o toque da campainha. Curioso, caminhei devagar. Mil e uma possibilidades passaram pela minha cabeça. Como alguém poderia vir até o meu apartamento sem ser anunciado pelo porteiro?



Destranquei a porta e, num rompante, abri.



Definitivamente, o destino ainda me reservava muitas surpresas.



De cabelos escuros, mochila nas costas, roupas encharcadas, respiração ofegante e olhos pedintes... Encontrava-se Uruha, no corredor.



–– X ––

–– U-Uruha?! O que... ? – não acreditava no que meus olhos mostravam. Ele ali, na soleira da minha porta, todo molhado.



O ex-loiro me olhava com devoção. Como se estivesse imensamente feliz por me ver. Seu queixo tremia e, esfregava a mão nos braços tentando se aquecer.



–– P-posso entrar, Y-Yuu? Está frio.



Só aí me dei conta o quanto que ele deveria estar congelando.



–– Perdão... Entra.



Acanhado, Uruha entrou no apartamento, onde outrora, ele havia me tirado. Assisti-o tirar os sapatos, e colocar a mochila no chão. Suas roupas pingavam e formavam uma pequena poça no piso de madeira.



–– Venha, tem que tomar um banho quente ou vai ficar resfriado.



Em silêncio ele seguiu-me até o banheiro do quarto de hospedes. Deixando um rastro de água pelo chão.



–– Fique o tempo que quiser. As toalhas estão ali ­– apontei para um armário –, vou trazer umas roupas minhas. Vai ficar meio pequeno, mas serve.



Já estava saindo pela porta, quando senti os dedos longos e gélidos envolverem meu pulso, fazendo-me virar.



–– Obrigado – falou tímido.



–– Depois, Uruha – soltei-me de seu aperto frio e voltei para a saída.



–– Kouyou.



–– O que?



–– Me chame de Kouyou, por favor.



Assenti em silêncio e fechei a porta. Como combinado, deixei uma muda de roupa sobre a cama e decidi fazer um chá.



Apenas enquanto esquentava água na chaleira, permiti-me pensar na situação.



Uruha me aparece na porta de minha casa, todo acuado.



É... E aquela estranha sensação voltando ao meu peito...



A chaleira começou a chiar, e servi duas xícaras com chá verde. Levando para o escritório, aonde acendi a lareira e esperei ele chegar.



Muitas perguntas rondavam minha cabeça: o que ele fazia ali? Por que me ver só agora?



Peguei a tenaz e remexi a madeira para fazer mais calor. E não demorou escutei Kouyou me chamar, e sinalizei que estava ali.



Ele entrou devagar, tímido. A calça de moletom havia ficado curta e a camisa larga demais. Mas até que... Estava bonito.



–– Coloquei minhas roupas na lavanderia... Tudo bem?



–– Claro. Eu mesmo teria feito isso. Agora se sente perto do fogo, e tome uma xícara de chá.



Kouyou me obedeceu, e ficou do meu lado, olhando o crepitar da lareira. Ficamos um tempo em silêncio e eu esperava ele se pronunciar.



–– Yuu! – Ele se virou assustado, e eu fiquei em alerta: – A minha mochila está na sala?



–– Sim, mas...



Não deu tempo de eu terminar a frase, Uruha já sumia pela escuridão e voltava, minutos depois, com a mochila. Logo abriu o zíper tirando alguns livros e cadernos, deixando-os abertos perto do fogo.



–– Ah... Tomara que não estrague.



–– De quem são? – perguntei olhando uma prova com um A borrado.



–– Meus.



–– Como?



Uruha sorriu e terminou de dispor seus materiais para secar. Virou-se para mim, sorrindo da cara engraçada que eu fazia.



–– Também dei um jeito de consertar a minha vida, Yuu. Mesmo que, para isso, Takashima Kouyou nunca mais possa voltar.



–– Virou um estudante agora?



–– Sim – ele colocou uma das mechas escuras atrás da orelha. Reparei que tinha um pedaço loiro ainda, e decidi que perguntaria depois. – Documentos falsos. Dei um jeito de matar Kouyou. Agora, na identidade, é Oshida Takuan.



–– Você se sente bem com isso? – perguntei curioso. Remexendo a brasa.



Ele deu os ombros, indiferente.



–– É a única forma de não ficar se escondendo a vida toda...



Ficamos em silêncio um tempo, apenas degustando do chá e do calor emanado da lareira. Eu ainda não estava acreditando que o Kouyou estava ali, do meu lado, tendo uma conversa pacifica e civilizada.



–– Você deve estar bem curioso com o porquê de eu estar aqui – comentou bebericando a xícara de chá distraído.



–– Sim. E não consigo achar nenhuma resposta válida – confessei. É claro que eu mantinha a esperança de que ele tivesse voltado por mim.



Uruha virou-se e ficou me encarando longos segundos antes de se pronunciar.



–– Eu sempre lhe neguei a verdade, Yuu. Sempre. Tudo em prol da sua proteção... Agora que o perigo passou, estou disposto a colocar as cartas na mesa, de uma forma mais clara do que aquele dia, no laboratório do Ruki.



Ah, ele tinha que se lembrar disso!



O modo com que ele ficou embaraçado denotou o quanto aquela conversa fora arrasadora para ele. Assim como fora para mim.



–– Desculpe pelas minhas palavras naquela vez. Eu estava com muita raiva, mas não deveria ter descontado daquela forma – falei sincero. Eu não me arrependia do que havia dito, tudo aquilo fora necessário. Arrependia-me com o tom que havia usado.



Ele negou veementemente, fazendo os fios escuros balançarem frenéticos.



–– De forma alguma Yuu. Você estava certo, em cada mínima afirmação. Sou um bastardo, de qualquer forma – um sorriso triste foi me oferecido, enquanto ajeitava o cabelo atrás da orelha.



Não reconhecia a pessoa a minha frente. Estava tendo a mesma sensação que tivera quando acordei do coma e ele estava lá.



Eu sabia lidar com aquele Uruha esquentado, sarcástico e irritante... Mas não sabia lidar com alguém assim, conformado e ferido.



–– Por mais que eu tentasse me convencer de que isso era verdade, descobri que não era. Você fez muita coisa fora dos padrões Kouyou, só que... Nós estávamos numa situação incomum! Lutávamos contra algo cujas chances de vitória eram mínimas... Consegue entender a minha lógica? – olhei esperançoso para ele, esperando que entendesse o meu ponto de vista.



Uruha anuiu positivo.



Um silêncio incômodo se fez. Não sei ele estava cem por cento convencido que o ambiente o motivou – nem sei se eu estava convencido disso –, mas era tudo o que podia oferecer agora.



–– Sabe, isso me faz crer que as mutações não tiveram papeis fundamentais na minha personalidade. Então... Aquele canalha que te faz sofrer ainda está aqui – riu sem humor, segurando os cabelos com ligeira força. Como se isso aplacasse sua dor.



Tentei mudar os rumos da conversa para algo que fosse menos doloroso.



Mesmo que todos os assuntos que tínhamos fossem extremamente dolorosos.



–– Você não veio só para isso nee... – instantaneamente, o moreno se encolhera diante de minhas palavras e eu precisei me aproximar mais, acarinhar seus cabelos e tentar, minimamente, diminuir seus sentimentos ruins.



–– Estou me sentindo perdido... Mais do que quanto fugi da NeoCell... Ou quando morri, de verdade, para poder remover o KillerChip–



–– Como assim? Você morreu de verdade? – sabia que não era apropriado interrompe-lo no meio de um pensamento tão importante, entretanto, essa não era uma informação que poderia passar sem questionar.



–– Sim. O KillerChip só era desativado quando o coração parava, por isso que eu “morri” minutos antes de iniciar a minha fuga – o olhei incrédulo, mais pela naturalidade de falar do que pelo fato em si.



–– Ei, não para a história no clímax, okay? Como você acelerou o coração num curto espaço de tempo? – pisquei várias vezes, como uma criança genuinamente curiosa, o que causou um risinho em Uruha.



–– Simples. Ruki usou uma dose monstruosa de Epinefrina. Um minuto foi necessário para que meu coração entrasse em colapso, e foi nessa hora que o KillerChip queimou. Para voltar rápido, ele usou uma injeção de adrenalina direto no coração – explicou calmamente.



–– Quantas vezes você já morreu mesmo? – perguntei brincado. Ele sorriu e aquela aura de tristeza dissipou-se, um pouco pelo menos.



–– Uma vez de verdade. Outra quase, e uma terceira de mentira – contou com humor, como se fosse algo super normal.



O riso foi morrendo até sobrar apenas um sorrisinho bobo em nossos rostos. Tudo começava a ficar, definitivamente, em pratos limpos, o que me agradava bastante.



Apenas um ponto me preocupava: essa angústia e sofrimento que estava enraizado em cada olhar, cada sorriso e em cada mínimo gesto dele...



E eu começava a acreditar que nunca poderia fazer aquela dor sumir.



–– Yuu, quando você voltou... Por acaso se sentiu estranho?



Suspirei e acenei positivamente.



–– A cada dia que abro os olhos eu percebo que estou meio deslocado. Parece que aqui não é mais meu lugar – disse francamente.



No principio imaginava que isso era porque fiquei tempo demais longe da minha rotina, longe da minha casa e família. Com o passar dos dias, percebi que esses não eram bem os motivos.



–– Também me sinto assim. E olha que eu ainda tenho o peso da morte de várias pessoas para carregar... – a última parte saiu num sussurro, e não teria ouvido se não tivesse bem perto.



Passei o braço pelos seus ombros e trouxe o corpo quente para mais perto do meu, abraçando-o com carinho. Ele aceitou de bom grado, como um garotinho acuado, relaxando em meus braços e fechando os olhos.



–– Às vezes não consigo dormir... Todas as coisas as quais pensei que não me preocuparia agora me assombram com freqüência. Eu matei tantas pessoas... Tantas que me perdi nos números!



Uruha se soltou de mim, e agarrou minha camisa com força, desesperado. E meu coração acompanhava toda sua aflição.



Por um momento encarei o tecido enrugado entre os dedos longos, vendo o quão metafórico aquela cena poderia ser.



O moreno se sentia como minha camisa: preso. Preso e encarcerado em sua própria dor e, a cada momento que se lembrava dos fatos, sentia-se arrebatado para o fundo escuro daquela jaula – aonde jaziam seus mais profundos pesadelos.



Agora ele pedia socorro.



Seria eu a pessoa mais apropriada para isso?



Uma pessoa que compartilha dos mesmos sentimentos de opressão e está completamente desorientado nesse mundo novo...



Não! O mundo não era novo... Era eu quem estava diferente.



Olhei para os olhos castanhos, podendo contemplar o exato momento de formação das lágrimas e sua preparação para cair...



As coisas começavam a fazer sentido...



Kouyou não queria apenas recomeçar a vida, ele tentava desesperadamente se desvincular de todo o seu passado e se redimir pelos pecados cometidos nesses anos. E quem sabe com isso, preencher todo aquele vazio dentro de si.



Entretanto, ele percebeu que não poderia começar definitivamente essa nova vida, sem se desligar completamente da antiga, e isso incluía me ver e, por conseguinte, me contar as partes que faltavam.



Os cabelos negros eram um excelente exemplo de desvinculação. Querer ser tratado pelo seu nome real também. Uruha virou algo ao qual ele não queria mais ser associado.



Pensando bem, aquela obsessão pela cura significava muito mais do que ele achava que significava.



E agora Kouyou tinha consciência disso.



Acho que... De alguma forma era doloroso me ver. Sephiroth corria em minhas veias, e ele – mesmo não verbalizando – concluía que a cura não havia trazido à redenção que ele tanto almejava.



Fui tudo inútil.



Segurei suas mãos, que ainda prendiam a camisa, com as minhas. Pude ver o olhar que lançara as cicatrizes que carregava em cada uma delas – fruto das garras de Kai.



O moreno beijou cada uma das marcas. Preciso dizer que estremeci? Ora, era o homem que eu amo que estava em meus braços, demonstrando seu carinho e afeto por mim!



–– Vai ser difícil, Kou – iniciei cauteloso. – Compreendo sua dor e, por mais que eu quisesse tirá-la de você e passar para mim, eu não posso. Por que ela é sua – acariciei gentilmente o rosto bonito, vendo as pequenas gotas cristalinas descerem por suas bochechas. – A única coisa que posso fazer, caso decida ficar, é ajudá-lo a lidar com isso.



Vi com apreensão, a dúvida cruzar seus olhos. Intimamente desejava que, por mais dolorido a convivência comigo possa ser, ele ao menos considerasse a possibilidade.



Suas mãos soltaram a camisa e rumaram para meu pescoço, aonde acarinhou devagar.



–– Eu posso?



–– Sempre, Kou. Sempre.



Um lindo sorriso – que eu já havia me esquecido – iluminou o rosto de Uruha, que desviou os olhos, envergonhado. Pude ver – com adoração – suas bochechas vermelhas, numa atitude antes nunca vista.



De perto, os olhos de Kouyou eram ainda mais fascinastes. Mesmo estando avermelhados, o castanho da íris brilhava mostrando-me as promessas mudas escondidas ali.



Aqueles olhos me diziam... Tudo o que eu sempre quis ouvir.



O moreno aproximou-se mais de mim, unindo nossas testas, dando uma vista privilegiada daquele mar castanho e profundo que eram seus olhos.



Ah, as borboletas no estômago!



–– Kou– ele não deixou que terminasse a frase, logo interrompendo.



–– Já falamos demais, e vamos ter muito tempo para fazer isso – Kouyou mordeu o lábio inferior, numa atitude indecisa, e linda, só para constar. – Não é agora que você me beija?



Mal pude segurar o sorriso. Era o que eu mais queria, desde... Sempre!



Mãos suadas, coração acelerado, tremedeira leve, borboletas revoando no estômago... Todos aqueles tradicionais sintomas apareceram quando encostei de leve meus lábios nos dele, num beijo calmo e casto, apenas selando todas as palavras ditas.



Marcando o inicio do nosso compromisso.



–– X ––



Estávamos a quinze minutos estacionados em frente a um pequeno restaurante em Kanagawa. Kouyou sentado no banco do passageiro, olhando perdido, decidindo se saía ou não.



Assisti-o respirar fundo e abrir a porta da Lamborghini, parando no processo. Compreendia sua hesitação, e estava ali para dar o apoio necessário.



Ele me olhou, pedindo uma opinião muda. Anui, tentado passar força.



Kouyou precisava daquilo.



Finalmente o moreno saiu, ficando de pé na frente do estabelecimento típico japonês. A placa dizia aberto, e via-se uma pequena circulação de pessoas lá dentro.



Mais uma vez ele hesitou.



Um cliente estava de saída, e quando nos viu parados na porta, segurou-a para que entrássemos. Kouyou não parecia disposto a se mover, tanto que precisei agarrar seu cotovelo e adentrar o local.



A garçonete nos cumprimentou, e indicou uma mesa para sentarmos. O moreno ao meu lado ainda permanecia inerte, o rosto apático escondido com óculos escuros.



–– Quando entrei lá, pensei que nunca mais poderia ver isso de novo – comentou aéreo.



Havia algumas semanas que não tocávamos nesse assunto. NeoCell não era mais citada no apartamento aonde morávamos – o mesmo que ele me tirara naquela noite fatídica –, tão pouco Suzuki Akira, Uke Yutaka e Matsumoto Takanori.



Era como se... Nada daquilo tivesse acontecido.



Mas sabíamos: cedo ou tarde o assunto voltaria a vir à tona. Estávamos lidando bem com todos os fantasmas... Até o dia anterior.



Sexta-feira, dez da manhã. Eu estava em casa, ajeitando uns documentos para a reunião semanal, Kouyou estava fora desde as sete, quando fora a faculdade.


Fui à cozinha, preparar um café e me deparei com o moreno ali, com o olhar longe.


–– Kou? O que está fazendo aqui? Voltou cedo da faculdade?


Não houve resposta, tampouco ele se virou para mim.


Devagar, me aproximei e o abracei por trás, descansando a cabeça em seu ombro. Notei o corpo tenso, e inúmeras teorias começaram a borbulhar na minha cabeça.


E nenhuma delas era muito positiva.


–– Kouyou? O que houve?


–– Hoje eu não estou bem.


–– Por quê?


–– Está faltando um pedaço.


–– Pedaço? – repeti incerto. Desfiz o abraço e parei na sua frente, tendo uma visão diferente do que havia me acostumado.


Aquele não era Kouyou.


Parecia mais Uruha.


O cenho franzido, o olhar duro, as palavras vagas...


–– Preciso ir a Kanagawa. – foi à última coisa que me disse. Prometi que o levaria no sábado, e a conversa acabou. Tive muito receio de deixá-lo sozinho em casa, ele estava mais reflexivo do que normalmente ficava.



Agora estávamos ali, num restaurante, sentados um de frente para o outro, no mais absoluto silêncio.



Não perguntei o porquê da viagem, só pagava para ver aonde iria terminar.



–– É estranho como sentimos falta até das coisas mais absurdas. Detestava trabalhar aqui... E olha só...



O moreno estava em outro planeta. O cardápio estava frouxo em sua mão, quase caindo na mesa. Um momento de silêncio anormal se instalou, e eu tentava assimilar o que ele havia dito.



Claramente, esse restaurante tinha alguma conexão com seu passado. E, pelo jeito, ele deixara algo pendente por aqui.



–– Normal. Só damos o real valor a algo, quando perdemos – ele sorriu triste, e olhou a moça do caixa, a alguns metros de nós.



–– Minha irmã.



Pisquei, confuso.



–– Não entendi.



–– A garota no caixa é a minha irmã mais velha.



Fiquei com cara de bobo, por alguns segundos. Encarei a moça e notei uma leve semelhança com Kouyou, o cabelos negros compridos, os lábios em formato peculiar, o nariz angular...



–– Esse restaurante pertence a uns amigos nossos. Tanto eu como minhas irmãs trabalhamos por aqui enquanto cursávamos o colegial. Não entendo porque Otsu-nee-san continua por aqui...



Não sabia o que dizer. Era a primeira vez que o via falando abertamente da família... Então, tudo o que ele queria era visitar um parente?



–– Por que visitá-los só agora? – perguntei.



–– Ontem, quando passei pelo parque, vi uma mãe com seu filho dando comida aos gansos. Eu fazia isso quando era pequeno. Me deu uma nostalgia tão grande...



Ele abaixou a cabeça e ficou remexendo os dedos, ansioso.



Fiquei dividindo o olhar entre Kouyou e Otsu, por um tempo.



–– E se ela te reconhecer? – questionei, começando a me assustar de verdade.



–– Não vai. Tem tempo que saí de casa, e mudei bastante. Não tem como ela me reconhecer logo de cara, só se observar uns instantes.



–– Só a nostalgia te motivou a vir aqui? Não faz sentido Kou...



O moreno desviou os olhos, olhando para um casal que almoçava ao nosso lado. Os jovens riam, felizes, e podia se ver um anel de noivado na mão da moça.



–– Acho que só agora me dei o direito de pensar neles, de me preocupar com eles. Foi egoísta no inicio, eu sei.



–– Não! – falei um pouco alterado, despertando o olhar reprovador do casal ao lado. Logo tratei de abaixar o tom de voz. – Tinha outras prioridades na época! Caso a sua família fosse envolvida, seria muito pior!



–– Ainda me pergunto o porquê de Akira nunca ter feito nada contra eles... – comentou distraído.



–– O alvo era outro. Caso ele atacasse sua família, você voltaria com uma fúria avassaladora. – Dei os ombros. – Talvez tenha sido uma táti–



–– Olá, estão prontos para pedir? – interrompeu a moça do caixa, Takashima Otsu.



Kouyou ficou branco, parecia um fantasma. De cabeça baixa, ajeitou os óculos escuros e se levantou, saindo depressa do restaurante. Lá fora, o vi destravar a Lamborghini e entrar dentro.



A mulher ainda permanecia ao lado da mesa, encarando incrédula a cena. Eu mesmo havia ficado surpreso.



–– Ele está bem?



–– Só cansado. Muito estresse emocional.



–– Sei bem como é... – ela sorriu, educada. – A propósito, você é Shiroyama Yuu? Aquele que foi seqüestrado?



Cocei a cabeça, detestando toda situação. Como se não bastasse ter um Kouyou aos frangalhos dentro do carro, ainda teria que lidar com a irmã curiosa.



–– Sim, eu mesmo.



–– Sinto muito pelo que aconteceu. Foi uma sorte muito grande ter sobrevivido – Otsu abraçou a bandeja vazia que carregava, olhando para longe. Parecia lembrar-se de algo.



–– Tive muita sorte mesmo – concordei.



Um lampejo passou pela minha cabeça, e se eu pudesse me aproveitar da situação e descobrir sobre o que a família de Kouyou pensava sobre a morte dele?



–– Por acaso teve algum parente que passou pela mesma situação? – perguntei, num tom ameno.


–– Não foi bem um seqüestro... Meu irmãozinho fugiu da antiga NeoCell, aonde se tratava. Anos se passaram até que tivéssemos notícia. Recentemente, ele apareceu morto – Otsu falou calma, tão segura que me causou estranheza.



Talvez ela tenha superado.



–– Meus pêsames – ela sorriu triste. Deu para perceber que Kouyou fazia muita falta à família.



–– Tudo bem, o período de luto já passou. Agora resta a conformação nee.



Toquei o ombro da moça, em solidariedade. Eu sabia o que ela estava sentido, passei por isso. Mas no meu caso, Kouyou voltou inteiro para mim.



O que jamais vai acontecer com ela.



–– Nós fizemos de tudo para salvá-lo... Pena que não deu certo. Pobre Kou-chan...



Aquela conversa iria render, portanto, tratei de dar um fim nela. Tinha um moreno despedaçado no banco do carona da Lamborghini, implorando por meu consolo.



–– Tenho que ir. Meu amigo está me esperando, com licença.



Saí rápido do estabelecimento, e respirando fundo do lado de fora. Os vidros escuros me impediam de ver Kouyou dentro do carro, mas eu tinha uma pequena ideia de como ele estava.



–– X ––



Estava tudo quieto demais. Uruha estava quieto demais.



Eu tinha quase certeza de que quando entrasse naquele carro, veria o moreno tentando se recompor. Mas não foi isso que encontrei.



Kouyou estava bem. De acordo com as circunstâncias, é claro. Seu rosto não demonstrava a dor que ele aparentava estar sentindo dentro do restaurante. Só dava para notar que algo estava errado se olhasse atentamente os olhos castanhos.



O retorno ao hotel foi silencioso, o almoço foi silencioso, e estávamos deitados na cama em completo silêncio.



Uruha parecia estar numa dimensão paralela. Mal se mexia em meus braços, a respiração calma, parecia dormir. Porém, podia ver claramente o piscar de seus olhos.



Essa falta de palavras me preocupava. Ele estava guardando as coisas para ele, exatamente como antes. Estava me negando o direito de saber das verdades de novo.



Éramos namorados, companheiros, amantes... Ou qualquer outro substantivo que se usa para definir duas pessoas num relacionamento.



Alisei seu cabelo, ouvindo um ronronar. Não queria que ele ronronasse, queria que Kouyou abrisse o jogo para mim, saber o porquê da visita. Aquela coisa de egoísmo não me convenceu nem um pouco!



Acho que ele queria realmente ser visto. Seu desejo era ser reconhecido por sua irmã e provar a si mesmo que o seu antigo Eu, Takashima Kouyou ainda estava vivo. Que ele mesmo estava vivo!



Ou, foi simples sadismo que o motivou. Uma forma de se punir por todos os pecados cometidos quando era diferente. Mesmo que Uruha estivesse andando normalmente pelas ruas, nunca mais poderia voltar para sua família, para as pessoas que o amam.



Isso me entristecia. Eu estava falhando no meu propósito: fazê-lo feliz.



Talvez eu que fui o bobo da história, achando mesmo que meia dúzia de palavras bonitas iriam acalmar seu coração ferido.



–– Sinto muito pelas minhas ações – falou após muito tempo. Admito que me surpreendeu.



–– Não se desculpe. Você precisava ver sua família.



Ele se levantou, e sentou-se no colchão encarando o céu escuro pela janela aberta. Os dedos apertaram o lençol com força, como se algo o estivesse machucando, arrebatando-o para o mesmo abismo de sofrimento de antes.



Um silêncio chato se instalou entre nós. O quarto permanecia na penumbra, e só não estávamos na escuridão total porque os carros passando na avenida movimentada davam a iluminação necessária.



–– Acho que agora acabou, Yuu.



–– Acabou o quê, Kouyou?



–– A minha antiga vida. Vê-los seguindo em frente me motivou um pouco. Talvez eu tenha sido muito duro comigo mesmo: se eu não me der o direito de seguir em frente e tentar se feliz, ninguém me dará.



Uma pequena chama de alegria se acendeu em mim. Ele queria ser feliz!



Espalmei a mão em seu rosto, acariciando desde a testa, ao queixo. Assisti Kouyou fechar os olhos e apreciar o carinho. Ele estava cansado emocionalmente, e eu queria mostrar que estava disposto a dar todo o carinho que precisava.



Mesmo que fizesse isso segundo a segundo.



E o beijo iniciou-se tímido, como se fosse a primeira vez que nos tocávamos. O moreno tombou levemente o rosto, num pedido mudo por mais.



Sendo prontamente atendido.



Capturei seus lábios com rapidez, deixando-o surpreso por um momento. Suas mãos seguraram a minha nuca com força, e por fim, embrenharam-se em meus cabelos. Suspirei, e logo a falta de oxigênio nos obrigava a separar.



Esse dia marcou o início do fim. Nossa dor começava ser aplacada, e a escalada para se transpor o muro criado pelas circunstâncias loucas que nos envolveram, havia efetivamente, começado.



Independente do olhar de Kouyou ainda ser de um garotinho ameaçado – e ligeiramente enigmático –, eu não o deixaria cair. Não deixaria perder a esperança.



Meu corpo poderia não ser forte o suficiente para agüentar as inúmeras quedar que teríamos. Mas meu amor era indestrutível, e suportaria quanta dor fosse necessária.



Eternamente, enquanto durar.


Notas finais
É amigos... chegou ao fim! Só falta o epílogo que postarei em seguida.
De qualquer forma, agradeço muito a todos que acompanharam Sephiroth. Em especial a Becca, Giles, Lizzy - que sempre me incentivou -, Nana - que salvou a minha vida - e a Shiniz - o final foi graças a ela!
Muito Obrigada!