Sephiroth
6 Capítulo 5 - As Aparências Enganam
Notas iniciais
Betado por: Gilles e Becca
Boa Leitura.
PS: O Nyah sempre desconfigura meu textos!
Tóquio, 20 de Janeiro de 2008 – 01:13 a.m
Aoi Point of View
Abri os olhos devagar. Minha visão estava fora de foco e era difícil me concentrar em um ponto. Tateei em volta e descobri-me em uma cama – com um colchão bem puído, por sinal – e estaria na penumbra se não fosse a solitária vela no candelabro em cima do baú, aos pés da cama.
Tentei passar a mão nos cabelos, mas não consegui. Uma tala bem apertada imobilizava meu pulso direito, e no momento, não entendi o porquê daquilo.
Bem lentamente, meu cérebro começava a despertar e tudo começou a fazer sentido...
E então os fatos me atingiram com a força de um soco.
A discussão terrível com Uruha, o pulso machucado, o ferimento na cabeça, os olhos dele inundado de lágrimas e o remorso estampado ali...
Eu precisava falar com ele. Quem sabe bater um pouco nele, e depois sim, perdoá-lo.
Movi a cabeça e experimentei uma dor terrível no lado esquerdo. Conseqüência do corte que havia feito acidentalmente.
Apoiei os cotovelos e tentei erguer o corpo, porém a letargia e a dor eram tantas que nem consegui sair do lugar.
Suspirei frustrado. Não só pela tentativa falha, mas ao perceber que mesmo com o grande bate-boca que eu e Uruha tivemos eu não conseguia culpá-lo – não de tudo, pelo menos.
E acho que jamais teria essa capacidade.
Bem no fundo eu queria acreditar que aquilo era só reflexo da monstruosidade a que o haviam submetido.
Apesar de tudo preocupava-me com Uruha. Com as possíveis besteiras que ele pudesse fazer por sentir-se responsabilizado por meus ferimentos.
Nunca fui altruísta... Mas no momento, com Uruha, eu estava sendo.
Fechei os olhos, cansado de tanto especular e especular... Contudo, um pensamento insistia em permanecer.
NeoCell.
Confesso que estava bem surpreso. Tudo bem que o Suzuki tinha uma aparência delinqüente, só não imaginava que ele queria Sephiroth e que foi ele o algoz de Uruha.
Meu Deus, que loucura!
O ranger das tábuas do assoalho retirou-me da linha de raciocínio. Presumi que fosse o loiro chegando.
–– Ora, ora, ora... O que temos aqui.
Retraí e tencionei os músculos, alarmado. O que Kai faz aqui? Cadê Uruha?
O rapaz aproximou-se de mim, e olhou o corte em minha cabeça. Deu os ombros, não se importando com o ferimento e contornou a cama, entrando definitivamente em foco.
–– Pensei que seu guardião estivesse aqui – falou encostando o dedo no lábio inferior, como se estivesse pensando. – Ah é! Acabei de passar por cima do cadáver dele para chegar até você.
Uma risada maligna ecoou pelo ambiente mal-iluminado. Meus pensamentos se confundiam, e quase não consegui formar uma frase coerente.
–– Hã? Uruha...?
–– Isso mesmo, Shiroyama. O seu precioso Uruha foi passar férias num lugar bem desagradável: o inferno.
As covinhas apareciam conforme ele sorria. Eu me recusava a acreditar que aquele moleque – isso mesmo, moleque! – tinha matado Uruha. Era impossível!
–– Não... Não pode ser!
–– Acredite! Faço questão de mostrá-lo quando estivermos saindo daqui, e de lhe contar os detalhes de como ele perdeu a batalha. É uma pena que a esperteza e a experiência dele não foram páreos para minha força e rapidez – debochou Kai sentando-se aos pés da cama.
Assim que ele se sentou, pude sentir o cheiro inconfundível de sangue fresco vindo da sua camisa rasgada, que era branca, mas via-se manchada de carmesim naquele momento. Era mesmo o sangue de Uruha ali?
Se o loiro estava morto, aquele era – oficialmente – o meu fim. Kai estava ali para me levar a NeoCell, ao encontro de Akira.
E da morte também, provavelmente.
–– Shiroyama, ainda está aí? – o moreno balançou a mão na minha frente, para despertar-me. – Vejo que você arrumou um baita ferimento na cabeça. O que houve? Uruha finalmente se descontrolou?
–– Não... Não é da sua conta – rebati.
Ele não se abalou, tampouco desfez o sorriso.
–– Você está absolutamente certo. – Kai consultou o relógio e, fitou o céu escuro pela janela justo na hora que uma brisa passou e tremulou a chama da vela, a única iluminação do quarto. As sombras dançaram na parede, dando um ar fantasmagórico.
O silêncio era opressor no quarto. Eu ainda estava alarmado com a situação dita por ele. Uruha não podia estar morto.
Podia estar em qualquer situação, menos morto.
Eu me conformava com um possível fim trágico como esse, mas nunca quis que fosse Uruha que o tivesse. Ele parecia tão forte!
Quanto ao futuro não posso dizer muita coisa, menos ainda assegurar sua vida, mas posso tentar.
Suas palavras ainda estavam vívidas em minhas memórias. Ele me manteve vivo durante as horas que se sucederam. Só que foi finalmente derrubado pela NeoCell...
E eu teria que acostumar-me com essa idéia, mesmo a contra gosto.
Tateei minha cabeça até a origem da dor: o corte, que agora se encontrava devidamente suturado. Uruha havia feito-o, com certeza. E pensar que ele se importava comigo, independente de ser só um pouquinho, deixava-me mais alegre. Talvez no fundo ele realmente gostasse de mim...
Kai levantou-se e foi até a janela, espiando lá fora.
–– Já está na nossa hora, Shiroyama.
O moreno caminhou até mim e ergueu-me pelos braços, – numa delicadeza que só vendo... – me deixando sentando na cama. Segurou minha cabeça quase em cima do ferimento, fazendo uma dor aflitivabrotar ali. Seus olhos castanhos encararam os meus e fiquei aturdido.
–– Abra bem esses ouvidos Shiroyama, pois direi apenas uma vez: nada de tentar graçinhas pelo caminho. Se eu ouvir qualquer som que não seja sua respiração, vou espancar até você desmaiar. E do jeito que está não terei muito esforço para fazer isso – o tom ameaçador fez um calafrio percorrer meu corpo.
Aquiesci lentamente, sabendo que não havia alternativa.
Num piscar de olhos, eu já estava em seu colo – a camisa encharcada dele manchando a minha – e sendo conduzido para fora do quarto.
Descemos as escadas numa morosidade atípica. Pelo que entendi Kai tem uma estrutura semelhante à Uruha, então poderíamos ter saído dali rapidamente.
Creio que sua lerdeza era para deixar-me mais ansioso pela confirmação visual da morte do loiro...
O andar de baixo estava um pouco escuro, mas uma luz fraca vinha da sala onde eu e Uruha havíamos brigado. A mesa ainda permanecia ali, com uma poça grande de sangue – vi aquilo, notei que a minha letargia também advinha do sangramento que tive mais cedo.
–– Seria poético, se não fosse trágico... – sua voz sombria denotava sarcasmo. – Oh! Como sou mentiroso, não?
Paramos no meio da sala. Pelo cheiro forte, sabia que era ali que o corpo de Uruha se encontrava, mas não tinha coragem de ver a cena.
–– ‘Tá com medo, Shiroyama? Não precisa temer, ele já está morto. Devo dizer que ele resistiu bravamente, mas meu poder é infinitamente superior ao do Primogênito. Eu disse isso, só que ele insistiu em lutar comigo... E deu no que deu... Observe a trilha, e veja onde dará.
Não queria fazer isso, mas foi impossível na hora. Observei com atenção o rastro de sangue que havia por ali até chegar à origem.
Uma imensa poça ladeava o corpo ferido de Uruha. As roupas rasgadas revelavam cortes profundos e hematomas roxos. A perna esquerda e o braço estavam visivelmente quebrados – fraturas expostas denunciavam isso. Sua cabeça estava virada para o outro lado, porém um corte estendia-se por seu pescoço. Ele... Cortou a jugular... Por isso essa quantidade absurda de sangue...
As lágrimas se formaram inconscientemente. Quando dei por mim, já embaçavam a visão estarrecedora do cadáver do loiro.
–– Por favor... Não... Não quero ver isso! – pedi suplicante.
Kai apenas riu, aproximando-se mais:
–– Por quê? É uma visão esplendorosa! Não há nada melhor do que ver seu inimigo entregue à morte.
Contornamos a poça, não imaginava que ele queria ver-me sofrer mais do que já estava.
–– Olhe para o rosto dele. É uma ordem.
A face de Uruha estava completamente tampada pelo sangue. Não consegui distinguir com certeza olhos, nariz ou os lábios. Era tudo num vermelho tão intenso que fiquei enjoado. Nessa perspectiva, o corte no pescoço estava maior ainda e outro ferimento acima do olho direito que sumia por entre os cabelos também esguichava sangue.
Eu não sabia o que pensar, não sabia o que fazer... Era tudo tão desesperador! Não contive o choro, mesmo que me trouxesse mais dor.
Uma série de espasmos correu pelo corpo do loiro, assustando-me. Uma centelha de esperança se acendeu em mim, mas Kai tratou de dizer-me o que aquilo significava.
–– Ele está em choque. Em questão de segundos morrerá de vez. Que tal observarmos esse espetáculo? – sugeriu. Kai era simplesmente a pessoa mais sádica da face da Terra. Ele queria que eu assistisse a morte de Uruha!
–– Não... Vamos embora... – supliquei, atento a diminuição dos espasmos do loiro.
–– Pin-pon! Resposta errada.
Agarrei-me a camisa de Kai, notando que o sangue agora estava em minhas mãos. Eu não conseguia tirar meus olhos da visão de morte que se desenrolava diante de mim.
Foi com uma dor esmagadora no peito que vi um último movimento no loiro. E acompanhando a partida de Uruha, desmaiei.
– x –
Há algum tempo eu já estava acordado e encarava, desanimado, o bentou em cima da mesa-de-cabeceira. Não havia vontade nenhuma de erguer-me e comer.
Principalmente depois de tudo o que aconteceu.
Ainda não aceitava plenamente a morte de Uruha, porém era um fato. Um fato que tive a infelicidade de presenciar.
Depois daquela cena chocante eu simplesmente apaguei no colo de Kai. E quando acordei, já estava deitado em uma cama quentinha e coberto por um lençol branco. Eu sabia onde estava. Podia não saber com exatidão o local, mas sabia.
Em algum lugar nas entranhas da NeoCell.
Encolhi-me na cama, abraçando os joelhos. Completamente indefeso.
Uruha...
Uma dor absurda invadiu meu peito. Parecia que alguma coisa romperia minhas costelas e saltaria para fora do meu corpo, pelo simples ato de pensar nele. Que, à uma hora dessas, deve estar apodrecendo naquela casa velha, no meio do nada. Ou sendo jogado em uma cova qualquer sob a placa de indigente.
Era uma verdadeira tortura pensar nisso, mas eu não conseguia evitar. Remoer toda a dor da perda era o que me mantinha nos eixos – okay, não exatamente nos eixos, pelo menos eu estava são.
Não fazia a menor idéia de quanto tempo estava naquele quarto de concreto aparente. Não sabia se era dia ou noite, tampouco as horas.
A única idéia que eu alimentava era a de revolta. Revolta pelo destino que impuseram a Uruha, pela perseguição a Ruki – mesmo não sabendo o porquê disso –, até mesmo que condição de Kai e de outros pobres coitados que faziam, e fariam, parte daquela loucura.
E principalmente: revolta por Suzuki Akira estar vivo ao invés de Uruha.
Novamente veio-me aquela dor no peito, acompanhada de uma ardência nos olhos. E logo uma lágrima escorreu pelo meu rosto, molhando o travesseiro.
–– Vejo que ainda está de luto.
Um ódio crescente se apoderou de mim, ao ouvir essas palavras. Era ele quem estava ali.
–– Por acaso isso é da sua conta?
–– Não. Era só curiosidade mesmo. Nunca pensei que Uruha pudesse ser importante para alguém, que não fosse a ele mesmo.
Fiquei quieto. Uruha era muito importante para mim, eu devia a minha vida a ele. Independente de ter terminado dessa forma medonha, ele me protegera com as armas que tinha. O problema era o inimigo, que se mostrava com mais recursos.
–– Pare de falar bobagens! Ele era uma boa pessoa!
Sorrateiro, Suzuki Akira apareceu em minha frente, esboçando o sorriso mais cínico que ele já dera. Encostou-se na parede e cruzou os braços, me encarando firme.
–– Boa pessoa? Você tinha que ver como ele deixou as instalações da Neocell. Um bom soldado jamais faria algo daquele porte.
–– Ele deve ter tido excelentes motivos para isso.
Akira riu.
–– Ele não te contou o que fazíamos por aqui? – o loiro parecia genuinamente surpreso. – Será que foi tão assustador a ponto dele não querer dividir isso com você? – comentou sarcástico.
Engoli a seco, contendo a vontade de desfigurar seu rosto com minhas mãos. Ele era, definitivamente, a pessoa mais desumana do planeta!
–– Você não faz idéia – respondi arisco. Por mais que Uruha não tivesse me contado os fatos na íntegra, pela reação dele, percebia-se o quanto aquilo o perturbava.
–– Realmente não faço. E, sinceramente, não gostaria também – seus olhos transbordavam divertimento. – É nesse ponto que entram as cobaias, certo? E olha que no planeta existem bilhões delas!
Sentei-me na cama encarando seus olhos escuros, completamente chocado com suas palavras. Como alguém poderia achar que humanos são simples ratos de laboratório?
–– Como pode pensar assim! Uruha tinha uma vida! Assim como todas as outras pessoas normais! Por que infringir tanto sofrimento a alguém? O que ele fez? Esbarrou em você na rua e não se desculpou? – ri sem emoção da minha piada inoportuna. Levantei, mesmo tonto, e caminhei até ele. – Pessoas não são cobaias suas. Não estão a serviço de seus propósitos, sejam lá quais eles foram.
Akira não exibiu nenhuma reação ao meu discurso, pelo contrário, ficou encarando algum ponto no chão. Depois de um grande tempo em silêncio, ele se pronunciou:
–– Não estão em jogo apenas meus propósitos, Shiroyama-san. Há muita coisa envolvida... Muitas pessoas... Muito dinheiro... E acho que você não vai querer saber sobre isso – o tom baixo e ferino de suas palavras fez-me recuar um passo. Ele não estava brincando.
Respirei fundo tentando recobrar o controle, que nem sabia ter perdido. Akira era tão... cruel que me assustava. Nunca pensei que alguém pudesse ter uma visão tão desapegada das pessoas como ele. Como alguém poderia pensar assim? O mundo não é um laboratório de testes, e nós não somos cobaias!
Deus! Quantas pessoas ele não devia ter usado até chegar a Uruha? Quantos iguais a ele não estão vagando na Terra?
–– Você é o primeiro que não me pede para deixá-lo ir – falou fitando o teto, desinteressado.
Só pude gargalhar, descrente. O que me rendeu um olhar curioso de Akira.
–– Do que adianta? Você não vai me libertar. E fugir daqui é assinar minha sentença de morte.
–– Conformado? – perguntou calmo.
–– Realista. Além do mais, Uruha não estará lá fora me esperando.
Suspirei desanimado, e uma conhecida ardência nos olhos começou a se manifestar. Tudo o que eu menos queria era chorar perante a ele. Não queria mostrar minha fraqueza, mesmo que Akira já soubesse.
–– Sem dúvida, Uruha era importante para você... É uma pena ele ter morrido, era um exímio soldado. Um assassino nato.
Fechei as mãos em punho, irritado. Ele continuava a insinuar que Uruha era um soldado, queria a todo custo manchar a memória do loiro.
Ah, mas eu não ia deixar!
Quer saber? Que se dane tudo! Não vou deixá-lo pintar Uruha como o monstro que ele não é!
Dando vazão a minha fúria, avancei impiedoso para cima de Akira, agarrando-o pelo colarinho. Ele arregalou os olhos, surpreso por minha reação.
–– Saiba que eu não vou tolerar você falando essas coisas do Uruha, ouviu bem? Não vou! Ele era uma boa pessoa! Uma pessoa, que ao contrário de você, não fazia mal a ninguém inocente! – fiz uma pequena pausa para respirar e continuei – se você ousar, mais uma vez, usar esse tom depreciativo para se referir a Uruha, eu não terei controle sobre minhas reações, okay? Ah Akira! Se soubesse a vontade que tenho de quebrar seu pescoço-
Olhei bem no fundo daqueles olhos escuros e notei o quanto ele estava calmo, tão controlado emocionalmente, que estranhei. Eu estava ameaçando-o! Ninguém é tão seguro de si, a ponto de não estremecer diante de uma ameaça!
Foi quando percebi... A raiva me cegava a tal ponto que eu não havia sentido nada, nem ao menos notei sua aproximação.
Naquele momento concluí que, desde o início, Akira sempre foi o dono da situação. Meu ódio, raiva e sede de vingança não me levariam a lugar nenhum – desconsiderando a morte, é claro.
E o metal frio deslizou mais um pouco na minha nuca. Como se estivesse dando um aviso, solte-o.
Lentamente, soltei Akira. E o cretino ainda teve a coragem de soltar um riso baixo.
–– Quem sabe outra hora, você não tenta quebrar meu pescoço? De preferência quando Kai não estiver com uma arma apontada para sua cabeça.
Meu corpo tencionou, e me virei lentamente. Akira assumiu a posição ao lado do moreno – que parecia muito mais assustador.
Porém, minha atenção deixou suas covinhas assustadoras, assim que vi a arma que ele estava.
E a cada segundo, surpreendia-me o poder que Suzuki Akira detinha.
Encarei, amedrontado, o que deveria ser a mão de Kai.
O que ele fazia com as pessoas? Que espécie de humano fazia aquilo?
No lugar de dedos, haviam garras. Garras tão compridas – e de aspecto afiado – que quase tocavam o chão. A parte descoberta da mão estava envolta por uma pele escura, meio gosmenta, veias grandes e vermelhas estavam salientes – não pareciam normais.
Kai notou aonde meu olhar estava pousado e, com um meio-sorriso, bateu uma garra na outra, fazendo ecoar um tilintar macabro... Era como se me avisasse que aquelas garras seriam meu fim, caso alguma coisa acontecesse com Akira.
–– Kai é o meu soldado particular. Sabe por quê? – ele pôs a mão no ombro do moreno. – Ele sabe como intimidar as pessoas.
Mais uma vez o som das garras ecoou, na hora concluí: nunca mais esqueceria aquele som. Só de escutar, imaginava o metal entrando no meu corpo, dilacerando a carne e os órgãos, penetrando tão fundo nas minhas entranhas que, o único modo para retirá-las era fatiando-me ao meio.
Um arrepio de medo percorreu minha coluna. De certa forma, algo quase semelhante havia acontecido recentemente...
Soube de onde vieram os cortes profundo de Uruha.
–– Agora, se você não se importa, gostaria de apresentar minhas humildes instalações – disse Akira calmamente.
–– Por que você se daria a esse trabalho? Sou um prisioneiro aqui – questionei confuso.
–– Em momento algum lhe disse que era um prisioneiro – ele fez-se de ofendido. – Pelo contrário, você terá acesso irrestrito a todas as alas desse laboratório.
–– E porque faria isso? – perguntei, ainda encarando as garras de Kai.
–– Porque é uma pessoa importante. Quero que, ao ter acesso a todos meus arquivos de pesquisa, tenha todas as respostas que deseja. Que entenda o papel fundamental que desempenha – explicou.
–– O papel que Sephiroth desempenha, você que dizer – corrigi, observando as garras se retraírem.
–– Conseqüentemente o seu – completou sorrindo.
– x –
A NeoCell era muito maior do que eu imaginava. Nunca pensei que abaixo daquela estrutura toda, tivesse uma outra ainda mais moderna, extensa e grandiosa.
Akira, gentilmente – notaram a ironia? –, levou-me para conhecer, através de corredores extensos e gelados, o coração das operações da NeoCell: o chamado Cubo.
O Cubo nada mais é do que um painel de controle, onde todos os procedimentos eram rigorosamente controlados e monitorados.
E põe monitoramento nisso! Eram médicos – geneticistas, principalmente — que passavam vinte e quatro horas na frente do computador, só recebendo dados e analisando-os.
Inclusive informações sobre as cobaias.
No momento, encontrava-me de volta ao quarto, com um notebook a minha frente. Na tela era exibida a ferramenta de busca usada pela NeoCell.
O cursor piscava incessantemente, a espera da palavra que deveria ser escrita.
Eu tinha muito que pesquisar, muito que aprender. Afinal, era ali que eu passaria o restante da minha vida – bem miseravelmente, diria. Lidaria com situações jamais imaginadas por mim: testes, exames, manipulação...
Mas, por pior que fossem as condições as quais seria submetido, o que mais me frustrava era lidar com Suzuki Akira. Lidar com assassino de Uruha – eu o rotulava assim, Kai era apenas um instrumento feito para obedecer às ordens dele.
Só de pensar que veria a cara debochada dele todos os dias, me dava ânsias. E, não havia nada que eu pudesse fazer para remediar isso.
Ou eu me comportava bem, e tinha uma estadia digna. Ou dava uma de bad guy, e ele transformava a minha vida num inferno – ainda pior!
Por mais desagradável que seja, ainda prefiro ser bonzinho. Mesmo que me dê uma vontade louca de socar aquele nariz a cada cinco minutos! – e dar um real motivo para usar aquela faixa.
O computador emitiu um bip, chamando minha atenção. Porém, uma outra coisa capturou meus olhos curiosos.
E lá estava, bem no cantinho inferior direito, a ponta do novelo que estava prestes a se desenrolar – bem, não era exatamente isso, só um pouquinho de drama a mais.
Domingo, 01 de fevereiro de 2008. 10:22 a.m.
Meus olhos quase saltaram das órbitas ao constatar que haviam se passado, exatamente, doze dias da morte de Uruha!
Doze dias! Por isso minha sutura já estava desfeita e a tala não sem encontrava mais no pulso direito. Havia se passado tanto tempo, que minhas feridas já haviam se curado.
Deus! Eu tinha passado doze dias dormindo!
E eu só conseguia pensar em uma coisa: o corpo de Uruha. Com absoluta certeza – ou quase –, o corpo dele estava na NeoCell.
Akira não seria tão burro de deixar rastrosespalhados por aí.
Respirei fundo, tomando fôlego. Essa poderia ser uma oportunidade de ver o loiro novamente, mesmo que fossem suas cinzas. Quem sabe eu não possa pedir perdão por irritá-lo tanto!
Motivado, digitei na caixa de pesquisa “recolhido” “corpo” “Primogênito” – Kai havia chamado-o de Primogênito antes, não sei o porquê, mas essa palavra pareceu mais adequada do que “Uruha”.
Dois segundos de pesquisa, revelaram apenas um arquivo. Datado de 20 de janeiro de 2008, 03:26 a.m.
Li o relatório quase todo, até que finalmente, encontrei o que procurava.
[...] Não havia civis na área no momento da chegada da equipe, que ocorreu sem incidentes. A casa escolhida pelo alvo era afastada do centro urbano, facilitando a operação.
Na entrada havia um rastro de sangue, indicando a entrada de algum ferido na residência. O sangue encontrado no interior não era suficiente para configurar uma luta entre o Primogênito e o Segundo, portanto, infere-se que, ao derrotá-lo, o Segundo trouxe seu corpo convenientemente até a casa para pressionar Sephiroth. (será que esse sou eu?)
No entanto, não havia corpo a ser recolhido. No local indicado, uma das salas, permanecia apenas a poça de sangue, apesar do Segundo ter feito a confirmação visual da morte do Primogênito. Devido à ausência, concluiu-se que o corpo fora levado por terceiros antes da chegada da equipe, sem que significasse, ate o momento, interferência no sigilo da operação.”
Perplexo, fechei o relatório e fiquei encarando o cursor da página de pesquisa.
Alguém roubou o corpo do Uruha! Como uma pessoa poderia roubar um corpo de um morto? Para quê?
Primeiro pensamento: necrofilia.
Só de pensar nisso, deu-me náuseas. Uruha era uma boa pessoa e, jamais, mereceria algo como isso!
Passei a mão no rosto, ainda analisando as possibilidades. Porém, nenhuma conclusão parecia ser plausível.
Deixei essa questão bem guardadinha na cabeça, mais tarde pensaria com calma. Agora, eu tinha outras prioridades.
Praticamente todas relacionadas com Uruha.
Com um ânimo, e receio, digitei “Cobaia” e “Primogênito”.
Dezenas de arquivos apareceram com essa designação. Com um pouco de relutância, abri o primeiro arquivo, datado de 09 de Março de 2000 e tinha um nome bem sugestivo: Escolha da cobaia e início do processo mutagênico.
À medida que eu lia, ficava mais e mais chocado com as revelações dos procedimentos realizados com ele. Filetes de lágrimas escoriam livremente e dificultavam a visão. Akira havia chegado ao ápice da maldade!
Não consegui ler até o final, parando na metade. Fechei com violência o notebook e abracei meus joelhos.
Tanta coisa ele passou só naquelas poucas linhas que eu havia lido... O restante dos arquivos devem ser assustadores!
Aquilo me doía o coração, saber que ele foi tão maltratado... E com certeza eu passaria por algumas experiências também. Akira vai querer testar Sephiroth em seu ambiente natural, ou seja: em mim!
Só me restava rezar para que nada de ruim acontecesse comigo durante essas experiências.
E que eu sobrevivesse. Por mim e Uruha.
Notas finais
E... agora que leram que tal deixar um Review?
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