Sephiroth

5 Capítulo 4 - Objetos têm coração?


Notas iniciais
Olááá 2012! Domingo, primeiro dia do ano e dia de postagem! Eu sei que estou em falta com os poucos leitores que tenho, nas notas finais eu explico.
Betado por: Becca e Giles
Ps: Desculpem os eventuais erros.

Tóquio, 19 de Janeiro de 2008 – 02:41 a.m




Aoi Point of View



O silêncio entre nós era confortável – melancólico, mas confortável. Observei as pessoas lá em baixo pensando nas colocações de Uruha, e cheguei a uma conclusão nada saudável:



–– Tempos difíceis virão, certo?



–– Pode apostar que sim.



Timidamente, seu braço passou pela minha cintura e abraçou-me forte. Aquilo me deu ânimo, sabia que ele estaria sempre ao meu lado, para proteger-me, independente das circunstâncias.



Uma estranha relação se desenvolvia ali, envolta em mistérios – mais da parte dele do que da minha. Mesmo com a cabeça pipocando de dúvidas como sempre, não me sentia confortável em perguntar. Não agora, teríamos tempo para isso.



–– Ah, temos um problema.



Ergui a cabeça – que nem notei haver encostado em seu ombro – confuso.



–– Que tipo de problema?



–– O seu nome oras! Não posso ficar por aí te chamando de Yuu. Todos conhecem você. Precisamos de um apelido – ele encarou, pensativo, as luzes da cidade e depois o céu escuro.



Não havia passado pela minha cabeça que o meu nome poderia chamar atenção de alguma forma. Até que a ideia de um segundo nome soava interessante, assemelhava-se a agentes secretos... Okay, péssima comparação... O fato é que eu nunca fui bom em bolar apelidos. Era horrível, na verdade, por isso deixei a cargo de Uruha inventar um.



–– O que você acha de Aoi? – vi em seus olhos o divertimento, não que eu tenha entendido o porquê da alegria.



–– Azul ou flor malva?



–– Não se responde uma pergunta com outra! – riu falsamente indignado. – Deixo ao seu critério definir o significado.



Sorri diante de seus olhos felizes. Aoi, Aoi, Aoi... Soa bem. E arrisco-me a dizer que é bem a minha cara. Foi uma boa escolha, a do Uruha.



O vento passou forte por nós, e estremeci. O loiro mandou-me fechar os olhos pois ele me ajeitaria em suas costas. Era a hora de descer.



A viagem de volta a terra não foi ruim, pelo o contrário. Acho que estava me acostumando a aquela variação de altura e pressão.



Assim que chegamos a uma rua quase deserta, Uruha colocou-me no chão e passamos a caminhar lado a lado em silêncio.



Vez ou outra, cruzávamos com carros e pessoas. Tentávamos a todo custo não chamar a atenção, por isso não encarávamos quem passava e mantínhamos o silêncio. Talvez ele estivesse, assim como eu, repassando o que acontecera na Torre de Tóquio. E avaliando as possíveis conseqüências daquilo.



Seria um quadro de Síndrome de Estocolmo? Eu, Shiroyama Yuu, estava me apaixonando definitivamente pelo meu “seqüestrador”?



Dei uns passos e notei que não estava mais sendo acompanhado. Ao olhar para trás, vi Uruha com os olhos fixados no asfalto. Voltei até ele e toquei seu ombro. Ele pareceu despertar e piscou algumas vezes, retomando o foco.



Uma expressão de surpresa formou-se em seu rosto.



–– Uruha, o que-



–– É ele, não é Uruha?



Surpreendi-me com a voz que ecoava pela rua vazia, olhando diretamente para o autor de tais palavras, mas, apenas consegui ver sua silhueta bem distante de nós.



Uruha permaneceu quieto. Eu não entendia o que estava acontecendo, por isso dirigi-me ao desconhecido.



–– Quem é você?



–– Ninguém de muita importância. Ao contrário de você, é claro.



Fiquei estático, encarando a sombra a alguns metros. A adrenalina já percorria o meu corpo, acelerando o coração. Apostaria a minha Lamborghini – se é que ainda tinha uma a essa altura do campeonato – que aquele cara tinha alguma coisa a ver com meus perseguidores.



–– Não estou aqui para duelar Uruha. Tanto que fiz questão de vir sozinho, como pode perceber.



–– Eu seria um tolo se não tivesse percebido.



–– Bom saber que algumas de suas habilidades estão intactas. Mas, não vim aqui para tratar de suas deficiências, infelizmente. Temos outros negócios.



Senti que o olhar do homem em cima de mim. Era tão maligno e opressor que cheguei a arfar.



–– Não use sua influência nele!



–– Desculpe – a passos lentos, aos poucos o homem chegava perto do poste de iluminação. – Ainda não sei bem a extensão das minhas capacidades.



E finalmente vimos seu rosto. Devo acrescentar que não parecia tão ameaçador de perto. Os cabelos negros compridos e repicados, a face simpática e o sorriso amigável, evidenciando as covinhas nas bochechas.



Uruha se pôs na minha frente. Percebi a tensão que corria em seu corpo, semelhante a minha.



–– Diga o que você quer, Kai – falou o loiro ríspido.



O “moreno das covinhas”, Kai, aparentou ligeira surpresa ao ter seu nome citado. Será que ele e Uruha eram amigos?



–– Oh! Você sabe meu nome. Estou lisonjeado, Primogênito.



Primogênito? Primogênito de quê? Mais uma coisa a perguntar para Uruha. Porém, eu tinha a impressão que essa conversa com Kai poderia ser, direta ou indiretamente, reveladora.



O loiro não demonstrou reação nenhuma. Pelo contrário, esboçou uma expressão vazia.



–– Quais são os negócios a tratar comigo?



–– Tenho uma proposta: você e seu geneticista de merda nunca mais serão perseguidos por nós. Em troca, pedimos que você me entregue Shiroyama-san.



Agarrei o cotovelo de Uruha com força, ainda incrédulo com o que estava acontecendo. Kai era a pessoa que queria a minha cabeça e estava disposto a tratar com Uruha a minha devolução, como se eu fosse um objeto. Porém, o moreno usou algo de muito valor para um homem como moeda de troca: a liberdade. Isso tudo me diz que o loiro e o pequeno geneticista devem ter fugido desse pessoal também, e eram perseguidos. O que explica muita coisa.



Por meros segundos pensei em render-me em nome da liberdade de Ruki e Uruha. E teria feito se eles me pedissem. Só que a resposta do loiro veio antes.



–– Nem sonhando! Shiroyama é meu, e de mais ninguém – o desafio era evidente na voz de Uruha. Ele estava, oficialmente, comprando briga por mim.



Mas, era por mim mesmo, ou pela cura que carrego?



E outra, o Uruha é bem possessivo hein! Como assim, ele já se acha meu dono?!



Não que eu quisesse acompanhar o tal Kai, que fique bem claro!



–– Essa é a sua decisão final? – Kai não me parecia surpreso. Pelo contrário, o ar despreocupado dava a entender que ele já esperava por essa resposta.



–– Sim. Se vocês querem pegá-lo, vão ter que passar por cima do meu cadáver. E se ele realmente for o portador, vocês vão tentar – respondeu convicto.



–– Juro que se minhas ordens não fossem tão explicitas, eu mataria você agora mesmo Uruha. Sou mais rápido e mais forte, acho que já sabe disso não é? – debochou Kai. Agora seu ar relaxado começava dar lugar à raiva.



–– Não conte vantagem, Kai. Rapidez e força podem ser contornadas com esperteza e experiência, acho que você já sabe disso não é? – revidou Uruha.



Os dois, mesmo em silêncio pareciam duelar, eu sentia isso. A atmosfera em nosso entorno estava supersaturada, e a qualquer momento parecia que eles partiriam para a agressão física.



Felizmente isso não aconteceu, e Kai simplesmente nos deu as costas.



–– Ele ficará sabendo disso, Uruha. Espero que esteja preparado para as conseqüências – avisou.



O loiro estreitou os olhos, olhando-o com cólera: –– Sempre estou preparado para as conseqüências, Kai. Seja lá quais forem.



Num piscar de olhos Kai nos deixava, mas a tensão do momento continuava. Pela primeira vez desde que aquela conversa iniciara, Uruha olhou para mim, com cara de poucos amigos.



–– Vamos ter que tirar você da cidade.



–– x ––

–– Por que você não me disse que Kai já estava pronto para combate? – perguntou Uruha furioso. Nunca o havia visto tão irritado, e olha que tenho dom para isso!



–– Porque eu não sabia. Esses dados não foram registrados – respondeu Ruki calmamente.



Uruha pareceu se contentar com a resposta, e ficou quieto. Pensativo.



–– Eles queriam fazer um acordo. Yuu em troca de nossa liberdade – falou o loiro, mais calmo.



–– E vejo que negou – Ruki olhou para mim, meio frustrado. – Entendo Uruha. Você definitivamente não pode jogar sua chance de cura pela janela.



Então era realmente por isso. O que importa é a cura, e o Yuu que se dane. Eu já devia ter imaginado...



–– O que mais ele disse?



–– Algo sobre ser uma versão melhorada de mim. Isso é um fato, tanto que só notei sua presença quando estava bem perto de nós.



–– Está ficando velho Uruha? – brincou Ruki.



–– Não enche! Por hora temos que pensar em como remover Aoi de Tóquio.



–– Aoi? Que apelido mais idiota.



Pois é, falavam de mim, assim, na cara dura. Não deixei barato. Eu ia ter as respostas, e ia ter agora.



–– Ninguém sai desse lugar enquanto eu não tiver minhas respostas! – disse severo. Certo: eu sou bonzinho e tudo mais, mas não ia permitir que me diminuíssem daquele jeito e, principalmente, fugir de Tóquio na completa escuridão dos fatos.



Eles não pareceram abalados, pelo contrário, a expressão desinteressada estampava seus rostos e fazia-me sentir um tolo imbecil.



–– Estamos falando de sua segurança Aoi.



–– Foda-se a minha segurança, Ruki! Vocês sabem de muitas coisas e eu quero saber. E quero agora!



–– Não banque o adolescente mimado! – Uruha deu alguns passos em direção ao corredor, mas eu não deixei que saísse e o agarrei pelo braço.



–– Sou grande o bastante para saber das coisas. E nenhum de vocês vai arredar o pé enquanto eu não me sentir satisfeito com tudo o que vocês têm a me dizer – eu estava determinado a ter as verdades, tão determinado que me espantou.



Ambos pareceram pensar em minhas palavras. Essa fibra moral que estava demonstrando era nada mais, nada menos, que o lado Yuu da Datasign. Só que numa versão 2.0.



Rodei os olhos, piadinha sem graça e tão fora de hora...



–– Está bem Aoi. Três perguntas e nada mais – sentenciou Uruha.



–– Não estou aberto a negociações.



–– O problema é seu. São três perguntas e depois, daremos o fora daqui independente de você querer ou não. Entenda que você pode ser a minha cura e eu não deixá-lo dando sopa por aí.



Não deixei-me abalar por suas palavras ofensivas. Agora entendo, ele quer me proteger SÓ porque posso ser a sua salvação. Nada mais.



–– Já descobriram o que tenho? – deixei de lado a pontada de tristeza que me acometeu por causa da conclusão anterior e iniciei com a primeira das três perguntas que faria.



Olhei de Ruki para Uruha e nenhum deles parecia inclinado a falar, mas não demorou e o geneticista se pronunciou:



–– Os arquivos que roubei recentemente não foram muito conclusivos, mas asseguro que você é sim portador de algo grande. E que eles chamaram de Sephiroth.



Fiquei quieto por um instante... Sephiroth? Era isso que eu possuía então?



–– Sephiroth? O personagem do Final Fantasy VII? – indaguei confuso. Ruki riu e negou com a cabeça.



–– É claro que não! É só uma homenagem ao personagem, devido ao poder destruidor que ele possuía. Em você, Sephiroth é um composto de natureza diferenciada que, ao ser manipulado corretamente, pode ser altamente destruidor, ou simplesmente curar Uruha.



–– E o que ele-



–– As três perguntas já foram feitas Aoi – interrompeu Uruha, dirigindo-se até o corredor que levava aos quartos. – Na sentença anterior você fez duas perguntas.



–– Hã?! Não! Elas foram retóricas, não vale! – protestei. Eu precisava de uma última informação: quem estava atrás de mim?



–– Retórica ou não, foi uma pergunta. Não lembro de Uruha ter especificado quais os tipos de questões não valiam – comentou o geneticista, visivelmente apoiando o amigo. Idiota!



O nível de frustração no meu sangue chegou às alturas. Eles eram uns babacas, isso sim! A vontade que eu tinha era de deixá-los e ir embora – mesmo que Uruha viesse me buscar em menos de cinco segundos.



Pelo menos eu sabia o que tinha. Sephiroth... Um composto sem natureza indefinida... Altamente destrutivo quando manipulado. Então era essa a cura do Uruha?



Enquanto o loiro alto arrumava as coisas para nós partimos, Ruki me conduziu até construção de vidro ali presente. Uma espécie de laboratório de análises clinicas e, continha muitos aparelhos que eu havia visto no escritório do Akira.



De onde será que o geneticista tirou toda essa aparelhagem moderna?



Uma agulha entrou no meu braço e resmunguei baixinho. Uma cepa do meu sangue era retirada, etiquetada e guardada, tudo isso feito no mais opressor dos silêncios. Com essa cepa, ele poderia descobrir o que era esse composto e manipulá-lo? Sussurrei a pergunta ao geneticista, aproveitando-me da ausência de Uruha.



–– Talvez sim, talvez não. Essa amostra dá para fabricar o antídoto e eu irei trabalhar incessantemente para conseguir. É a minha promessa a Uruha.



Assenti calado. Ruki havia prometido curar Uruha, isso explica o porquê de eu estar aqui no laboratório. Algo me dizia que essa promessa não foi feita a esmo, alguma coisa aconteceu entre eles que gerou essa promessa e, com certeza tinha a ver com o passado de Uruha.



Por falar no Uruha... Quanto mais eu tento entendê-lo, mais eu não entendo.



Teve aquele discurso pomposo na Torre de Tóquio, e quando pensei que estávamos num novo patamar, ele vem com essa de que eu só sou importante porque carrego a cura para seu mal.



A verdade é que eu queria ser protegido verdadeiramente, não só por causa de Sephiroth, mas por Shiroyama Yuu também.



No final das contas eu sou apenas um instrumento sem muito significado.



A partir daí, não sei muito bem como as coisas aconteceram. Como saímos do laboratório e nem quais foram as palavras trocadas entre Ruki e Uruha. Quando dei-me conta, já corríamos pelas ruas, passando como um animal enfurecido por elas.



–– x ––

Passamos as horas sem trocar muitas palavras. Tampouco provocações. A maior parte da manhã dentro de uma construção abandonada próximo a uma das inúmeras saídas de Tóquio. Não sabia onde estávamos, e não perguntei também, já que teria uma resposta irônica. Estava cansado disso.



Às vezes eu sentia o olhar dele sobre mim, observando-me. Porém fazia questão de ignorar.



Minha cabeça estava cheia demais. Amanhã seria meu aniversário de trinta anos, e eu o comemoraria fugindo de uma organização que quer meu sangue, ao invés de ter a tradicional festinha que fazia em casa. Minha mãe e meu pai sempre visitavam-me nessa data, como será que eles estão lidando com o seqüestro? Com certeza alguém descobriu! Estou a vinte e quatro horas sumido! Ou será que ninguém deu por minha falta?



–– Você está muito quieto. No geral fala pelos cotovelos – alfinetou Uruha.



–– Não é da sua conta – resmunguei mal-humorado, remexendo no bentou trazido por ele, sem a mínima vontade de me alimentar e observando o crepitar da lareira.



–– E se for?



–– Será que você não pode ficar sem me encher o saco durante alguns minutos? Não estou a fim de me indispor com você.



–– “Indispor”? Falando bonito agora, é? – ele riu debochado, e tive ímpetos de estrangulá-lo.



Virei de costas e não dei ouvidos aos seus resmungos. A paisagem lá fora estava calma e tranqüila, o sol brilhava intenso no céu de poucas nuvens e a brisa congelante atravessava a vegetação verde. O inverno naquele ano não estava tão intenso, porém os dias pareciam estranhamente mais frios.



Tinha a vaga impressão que sabia a origem daquela “friagem”. Não era algo relacionado ao clima, era eu mesmo – graças a esse intenso estresse emocional que venho passando desde antes de ter a minha vida bagunçada por Uruha.



Eu possuía apenas um desejo: que tudo aquilo chegasse ao fim, da forma que fosse e melhor ainda, optei por não querer desvendar o mistério. Preferiria morrer na ignorância que sofrer vivo pela verdade – talvez não fosse um pensamento muito coerente, só para você ver o nível de conformação que eu me encontrava.



E Uruha? Já não nem sabia mais.



Os sentimentos que haviam brotado por ele eram oscilantes demais. Ele era oscilante demais! Numa hora era um rapaz doce e simpático, na outra era um troglodita que achava que eu era um barril cheio de Sephiroth’s – o que de fato era... Apenas um objeto... E objetos não tem sentimentos.



Eu estava cansado dessa situação toda. E olha que as coisas não pareciam ter começado de fato. Estávamos tranqüilos, com certeza Kai – o mais próximo de “perseguidor” que eu tinha – ainda não havia se movimentado.



Ou pelo menos era isso que Uruha deixava transparecer com toda aquela serenidade.



O bentou estava bem gelado em minhas mãos, e eu não possuía a mínima vontade ingerir. Esforcei-me um pouco e coloquei um bolinho de arroz para dentro, apesar de tudo ainda sou um ser humano e possuo necessidades. Mesmo que o pensamento de morte andasse rondando a minha cabeça.



Inútil, eu sei. Com certeza, o conflito não acabaria só por que morri. Ruki possuía uma cepa, então dava quase tudo no mesmo.



–– Já que não quer conversar, coma seu bentou pelo menos.



–– Não tenho fome – falei sincero, observando o balançar das folhas das árvores.



–– Se não comer vai passar mal. E a última coisa que eu quero é que você passe mal.



Lá vinha ele de novo. A mesma história...



–– Fica frio, Uruha. Seu Sephiroth já está com Ruki, ele irá produzir seu antídoto. Meu corpo não tem mais utilidade para você – desabafei. Nem ligava se ele entenderia o que queria dizer.



–– Não diga isso Aoi – seu bentou foi posto no chão e ele remexeu-se, talvez aproximando-se de mim.



–– Estou mentindo? – perguntei amargo.



–– Está.



–– Tem certeza? Você tem perda de memória recente ou o quê? – provoquei.



Senti sua mão fria pousar em meu ombro, e apertá-lo gentilmente. Soltei um suspiro resignado já prevendo as palavras dele, mesmo assim esperei que aqueles lindos lábios verbalizassem.



–– Como vou te explicar... Eu não confio plenamente no Ruki, ainda. Quero que ele pense que você não é, de fato, importante para mim.



–– Se você não confia inteiramente nele, como pode deixá-lo sintetizar Sephiroth? – contestei, não entendendo o porquê daquilo.



–– É o único geneticista que eu conheço capaz de fazer algo tão grandioso assim.



–– Ah, okay então – concordei desinteressado. Aquilo não daria em nada mesmo, portanto decidi usar uma outra estratégia: aceitar tudo o que diz, sem argumentar.



Voltei à atenção para o bentou frio no meu colo e sua mão saiu do meu ombro.



Fui surpreendido pelo loiro parado a minha frente, com os olhos cheios de fúria.



–– Você não acredita em mim?



–– Não – falei seco. Fingindo não notar a raiva que emanava dele.



Numa fração de segundos, vi meu bentou se espatifar na parede oposta.



Encarei amedrontado o rosto indiferente de Uruha. Pela primeira vez desde que eu o conheci, fiquei com medo do que poderia fazer comigo.



–– Você é um bastardo bipolar. Como você quer que eu acredite em alguém que oscila tanto quanto você? – questionei, mesmo temendo sua reação.



–– Quando saímos de seu apartamento-



–– Não o conhecia direito o suficiente. E, sinceramente, preferiria que Kai tivesse me encontrado. Ele não parece ser tão inconstante.



Minhas palavras pareciam ter despertado uma fera indômita. Os olhos claros faiscavam e transbordavam ira e repúdio, de uma forma que eu jamais tinha visto.



Logo tinha meu pescoço envolvido por sua mão, e o corpo jogado contra a parede de madeira – sacudindo a estrutura da casa. Parecia que todos os órgãos e ossos haviam saído do lugar, tamanho o impacto infligido.



–– Perdeu a noção do perigo, Shiroyama?



As mãos pálidas prendiam meus pulsos a altura da cabeça e o corpo magro comprimia o meu. Alarmado, era como me encontrava. Sabia que o Uruha era imprevisível, porém meu comentário parecia tê-lo o insultado. E muito.



Aquele rosto nunca esteve tão perto do meu. Nossos narizes se tocavam e a respiração se misturava formando um vaporzinho. Meu coração estava descontrolado.



–– Vou me lembrar disso quando ver Kai – sibilou ácido.



Acho que ele não percebia a força que imprimia em mim, mas não dei o braço a torcer.



–– Essa cena toda é só porque não lhe contei alguns segredinhos?! Ou você não suporta o fato de estarem escondendo as coisas embaixo do seu nariz?



Na hora entendi a sua tática: Uruha queria virar o jogo, deixando-me no centro da discussão.



–– Antes fosse. É porque você é um idiota mesmo.



Sua risada cristalina, e diabólica, ecoou pelo recinto vazio.



–– Idiota? Acha mesmo que esse xingamento vai me ofender? Tsk, tsk... Pensei que fosse mais criativo.



O peso esmagador do seu corpo me machucava. Eu não conseguia mais esconder, retorcendo meu rosto numa careta prontamente ignorada por Uruha.



O que estava acontecendo com ele? Quando ele se tornou esse animal? Será que isso é fruto do que fizeram com ele?



–– Solte-me, está machucando – pedi sussurrante.



–– Não. Seu corpo é gostoso demais para ficar aí andando sozinho.



–– Por favor – fechei os olhos tentando respirar. – Não faça nada do que vá se arrepender depois.



–– Ora, ora Yuu. Não foi você mesmo que insinuou agora pouco que não o tratava como “gente”?



Sacudi o corpo, tentando me desvencilhar de Uruha. Este só ria do meu desespero crescente.



Eu sabia que ele era inconstante, só não sabia que chegaríamos a esse ponto.



O loiro desencostou-se de mim dando maior espaço para debater-me. Tentei chutá-lo, mas não adiantava. Ele se esquivava com rapidez e ria mais alto ainda.



–– Sente-se aflito? Era assim que eu me sentia! Por cinco anos fiquei preso por agressores mais fortes que eu! Não adiantava chorar, gritar ou tentar fugir. O meu corpo era um laboratório de testes para eles, assim como o seu será quando Kai pegar você! – gritou a plenos pulmões. Seu rosto estava calmo, comparando com o grau de elevação de sua voz rouca.



– Por favor Uruha, me solte! — as tentativas de livrar-me dele eram ineficazes. Não conseguia assimilar suas palavras direito. A essa altura, já encontrávamos no meio da sala. Por fim escutei um estalido do pulso direito, seguido de uma dor excruciante.



Um grito agudo deixou minha garganta, mas não o sensibilizou:



– Sente? Sente a dor Yuu? É isso que eles É isso que eles vão fazer com você! Vão te fazer sentir a pior dor da sua vida. Vão destruir Shiroyama Yuu! Você não passará de um mero fornecedor de sangue! Assim como eles me destruíram, a NeoCell vai destruir você!



Parei de me debater, chocado. Então... Era a NeoCell o tempo todo. Eram eles que estavam me perseguindo... Eles que maltrataram Uruha...



A NeoCell, sob o comando de Suzuki Akira, havia destruído Uruha e caçavam-me. Era a eles quem Kai servia.



As coisas começaram a fazer um estranho sentido. Eles tinham uma amostra do meu sangue, que fora coletado para o hemograma. Akira deve ter solicitado um scaneamento do sangue para analisar propriedades... E encontrou Sephiroth.



Só pode ser isso.



Procurei os olhos brilhantes de Uruha, encontrando um sadismo sem tamanho. E nenhuma inclinação para soltar-me.



–– Por favor – grunhi, com força o suficiente para um movimento.



E assim que me sacudi, fui solto. A força que eu havia feito para sair do confinamento de suas mãos foi tanta, que me vi sendo arremessado para trás. Exaurido, meu corpo não conseguiu sustentar-se de pé e caiu.



O choque da minha cabeça com a quina de uma mesa esquecida produziu um som alto e assustador.



A visão turvou-se enquanto eu caia até o assoalho empoeirado. O sangue escorria em profusão do ferimento dolorido, empapando os cabelos.



A última imagem que lembro era dos pés do Uruha aproximarem, e ele abaixar-se até mim, colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha – tão sereno, como se eu não estivesse quase morrendo ali.



Seus olhos vermelhos de onde escorriam lágrimas grossas me comoveram. O remorso o corroia. Lábios dele se moveram e não captei nenhum som. Não havia sido culpa dele.



E no final, a escuridão caiu sobre mim, aconchegante.



Perdoe-me Yuu. Não queria que terminasse assim...


Notas finais
Pois é gente, me desculpe mas agora a demora será muito maior do que eu previra... A minha beta esta com com os capítulos 5, 6, 7, 8 e 9 (acho) e até agora ela não deu sinal de vida. Então até ela voltar, infelizmente Sephiroth não será atualizada.
Obrigada pessoal!
A.L