Sephiroth

4 Capítulo 3 - A Escuridão Revela Como Somos


Notas iniciais
Perdão pela demora! Eu tava esperando a minha beta mandar os capítulos que havia enviado, mas nada dela aparecer... bom de qualquer forma, vou postar esse!
Desculpem a demora e os erros!
Betado por: Becca e Giles
Ps: Se o Nyah desconfigurar, me desculpe!

Tóquio, 18 de Janeiro de 2008 – 04:04 a.m



Aoi Point of View



A figura mínima que nos recebeu chamava-se Ruki – não que esse fosse o nome verdadeiro dele.



Ah, e quando eu disse “figura mínima” é literalmente. O rapaz era menor do que eu e, quando ele se colocou ao lado de Uruha, a diferença foi mais gritante ainda. Contudo, com uma boa olhada no ambiente, relativamente claustrofóbico em que nos encontrávamos, dava para se concluir que sua falta de altura foi compensada em outra coisa: inteligência.



O local assemelhava-se a um daqueles laboratórios de ficção-científica americanos. Resumindo a parafernália tecnológica, havia cinco monitores de LCD, dois teclados, cinco CPUs, dois notebooks além de um material de laboratório que ficava dentro de uma estrutura de vidro no canto.



–– Sou geneticista – informou o pequeno exibindo um sorriso cativante.



–– Sim... Eu sou-



–– Shiroyama Yuu, executivo da Datasign Informática. Tenho lido bastante sobre você nas últimas horas, e devo acrescentar que sou um grande fã de seus trabalhos – Ruki fez um gesto para que sentássemos nas cadeiras que jaziam por ali ao redor de uma mesa simples, numa espécie de sala-de-jantar. Uruha, por sua vez, disse que ia tomar um banho e trocar de roupa.



O pequeno geneticista e eu ficamos sozinhos.



–– Fico feliz que aprecie meus trabalhos – agradeci, tirando a mochila e colocando-a ao lado da cadeira.



–– Seria uma grande falha minha se não gostasse. Além de administrar com destreza ainda desenvolve softwares da mais profunda complexidade. Como aquele da NeoCell – havia um singelo tom de ironia na frase, mas ignorei.



–– O que tem lido sobre mim? – mudei de assunto, tentando soar casual mesmo sendo uma pergunta incomum.



–– Nada que não esteja nos jornais – respondeu calmo, cruzando as pernas.



–– Receio que nada que esteja lá justifique o meu seqüestro.



–– Seqüestro? – ele pareceu-me genuinamente surpreso. – O Uruha colocou nesses termos? Não acredito!



Ruki começou a rir, e eu encarava-o impassível. A cada segundo que aquela risada debochada ecoava, a minha raiva e a vontade de socar o rosto redondo aumentava.



–– Se não é seqüestro, o que é, então?



–– Digamos que é uma “cooperação em prol da ciência”.



–– Quer dizer que sou uma cobaia?



–– Não. – O geneticista inclinou-se sobre a mesa, como se ele pudesse ser a única testemunha de um segredo que estava prestes a me confiar. – Entretanto será de grande utilidade. Principalmente para Uruha, caso os resultados coincidam com minhas previsões.



Um arrepio percorreu a minha espinha, durante a pausa na conversa. Ruki, assim como Uruha, estava escondendo os fatos e eu não estava gostando nada disso.



–– Eu quero respostas, Ruki-san – falei com voz firme.



O geneticista suspirou, ajeitou os cabelos e voltou a inclinar em minha direção: –– Também quero respostas Yuu-san. Não sei exatamente com o que estamos lidando, o único fato que temos é que existe algo no seu corpinho que pode salvar meu amigo-



Ele parou abruptamente de falar, e direcionou seu olhar para algum ponto acima do meu ombro. Virei para ver quem era e deparei-me com Uruha vindo pelo corredor, ainda mais bonito do que a última vez: a calça jeans escura e justa – evidenciando as coxas grossas que eu nem havia reparado –, a camisa listrada de preto e branco com capuz, os coturnos nos pés e um perfume delicioso.



Eu babei, admito. Uruha era o homem mais bonito e elegante que já tinha conhecido, o único problema era a personalidade bipolar.



Não que eu estivesse cogitando um relacionamento que ultrapasse a linha do coleguismo.



–– Do que falavam? – perguntou Uruha alternando os olhares entre mim e Ruki.



–– Nada de importante Uru. Conte-me como foi a sua vinda até aqui – pediu o baixinho com um sorriso largo.



O loiro mais alto pôs-se a detalhar a nossa pequena aventura pelos prédios de Tóquio. Nem preciso ressaltar que ele fez comentários bem embaraçosos sobre algumas situações – como o fato de eu ter passado muito mal – com o único intuito de aborrecer-me. Foi uma pena não ter funcionado.



–– Mas Yuu-san só passou mal porque estava fraquinho, nee? A insônia tem perturbado-o um pouco, nee Yuu-san?



O pequeno geneticista sorriu compreensível, esperando a minha confirmação. Antes mesmo que eu pudesse afirmar, ambos caíram na risada ao verem o choque estampado no meu rosto.



Como você sabe?



–– Não me olhe com essa cara Yuu-san! – Ruki limpou as lágrimas recém-criadas pelo riso com uma mão enquanto a outra ele abanava, dando a entender que aquilo não tinha importância.



–– Ruki sabe de muitas coisas Yuu-kun e você não acreditaria qual é a sua fonte de informações – explicou Uruha, com um sorriso mínimo.



–– Tente – desafiei, não achando a mínima graça naqueles dois.



Eles sabiam mais de mim do que eu mesmo e isso me irritava demais.



Não houve resposta ao meu desafio, ao contrário, o geneticista levantou-se murmurando algo sobre “fazer o café-da-manhã” e deixou-me a sós com Uruha.



–– Estou à espera de suas respostas, Uruha – sentenciei.



–– E eu, ansioso por suas perguntas.



Argh! Essa calmaria toda me deixava nervoso!



–– Ótimo! Que tal essa: quem é você? – perguntei arisco, nem ligando se estava soando rude ou não. Uruha não pareceu se incomodar.



–– Eu sou Uruha. Um humano comum – a ironia na última parte foi tão intensa que a senti na pele.



–– Poupe-me de seu sarcasmo enternecedor – rodei os olhos e cruzei os braços, indignado.



–– ‘Tá irritadinho por quê? Você perguntou e eu respondi. Se ficou satisfeito ou não com a resposta, não me interessa.



Ah, como eu queria socar aquele rostinho lindo...



–– O que eu tenho de tão especial? – tentei. Entretanto, sabia que a resposta não seria conclusiva.



–– Além de uma boca pecaminosa e uma bunda redondinha? Nada que possamos responder com exatidão.



Respirei fundo, tentando me controlar. A cena se desenrolava tão pateticamente que eu custava acreditar.



–– Ao menos ISSO você deveria responder com sinceridade. O Ruki-san pareceu-me esconder o jogo.



–– E eu estou. Não possuímos uma resposta concreta.



Não possuímos uma resposta concreta” foi à gota d’água para minha paciência transbordar. Levantei exasperado da cadeira.



–– “Não tem nenhuma resposta concreta”? Quer dizer que eu larguei o meu emprego, a minha casa e a minha vida por causa de uma teoria? Eu confiei em você e em suas palavras! Quem garante que há realmente alguém me perseguindo lá fora? E quem garante que são vocês o lado certo? – passei a mão pelos cabelos, segurando alguns fios na nuca e tentando controlar a imensa vontade de bater a cabeça dele contra a parede.



–– Acabou? Desabafou? – disse o loiro com desdém, no entanto notei um quê de nervosismo. – Agora é a minha vez: sim, o que temos é apenas uma teoria que pode livrar-me dessa... Doença que tenho. E se você tem a mínima chance de ter a cura, eu iria atrás de você até no inferno. Outra coisa: na disputa por essa “teoria” que está em você ou com você, não sabemos ao certo, lado bom ou mau não existe. Todos usarão da mesma forma.



Sentei-me de volta na cadeira, atônito. Então era verdade aquilo que o Ruki disse sobre ter algo no meu corpo. E pelo modo como Uruha falou, era uma coisa muito importante e poderosa. Capaz até de curar a doença dele...



O que Uruha quis dizer com “doença”? Será que ele estava se referindo aos seus “dons”? Na minha concepção, andar pelas paredes e saltar longas distâncias não eram sintomas de uma doença, e sim, de um presente.



Ficou um clima pesado entre nós, e eu me sentia bastante envergonhado pela discussão. Não havia jeito mesmo! A única saída era esperar a teoria se concretizar, e devo ressaltar que estava muito preocupado com os resultados.



Existe alguma coisa dentro de mim e eu não faço a mínima idéia do que seja!



Espera um momentinho...



Como eles sabem que tem algo de errado comigo, sendo que não fiz nenhum exame que possa comprovar?



Refreei o desejo de verbalizar a pergunta durante o café-da-manhã. A mesa estava em silêncio, os ânimos estavam calmos – quem se irritava era eu nee! – e não pretendia instalar uma atmosfera desagradável com uma pergunta. Mais tarde eu a faria para Uruha. Mesmo que eu não esperasse receber uma resposta plenamente satisfatória.



–– Yuu-san, com certeza deve estar cansado. O que acha de se deitar um pouco? – sugeriu Ruki, ao retirar as xícaras usadas e colocá-las na pia da cozinha improvisada.



Meu corpo pesou diante das palavras de Ruki. Até aquele momento não havia me dado conta de todo o cansaço que estava sentindo — e olha que o dia nem acabou! Aconteceram coisas demais. Resumindo: nada melhor do que dormir; a cura para todos os males. Ou tentar, já que meus remédios – pílulas prescritas por Akira – ficaram esquecidas no banheiro do apartamento.



O quarto para onde Uruha levou-me não era a oitava maravilha do mundo – pelo menos havia um ar-condicionado. Ainda bem que não sofro de claustrofobia, por que, se não, a morte era o que me esperava: o local era muito mal-iluminado, um pouco úmido e estranhamente quente — além de pequeno, se comparado com aquele no qual eu dormia -, com uma cama de solteiro e um armário de metal.



–– Quando venho para o laboratório, costumo dormir aqui – falou-me Uruha. Ele andou até o armário, abrindo-o e mostrando o quanto estava organizado. Buscou um travesseiro e jogou na cama.



–– Bons sonhos princesa – e saiu.



Vi-me sozinho naquele lugar cavernoso, e senti saudades da minha casa. Do quarto quentinho, dos lençóis macios e cobertores fofinhos. Mas, isso era passado. Não saber o que estava reservado a mim nas próximas horas me assustava.



A cama rangeu quando deitei. Até que era confortável. O travesseiro cheirava ao perfume de Uruha: uma fragrância adocicada, de cereja mais precisamente. Um perfume doce, para o não-tão-doce Uruha.



– X -

Uma quentura pouco característica envolvia meu corpo encolhido na cama. Suspirei fundo, tomando coragem para abrir os olhos.



Assim que o fiz não enxerguei nada. A escuridão permeava o quarto, que senti não ser o meu. Segundos se passaram até que eu me lembrasse dos fatos ocorridos.



Uruha, a fuga, o laboratório...



E eu que pensei que aquilo não passava de um sonho bizarro!



–– Achei que ainda estivesse dormindo – a voz ecoou pelo quarto, sobressaltando-me. Logo reconheci quem era: Uruha.



Cocei os olhos e bocejei antes de falar:



–– Acordei há pouco. Nossa, eu não dormia tão bem assim há dias!



Espreguicei-me, notando o toque suave do edredom sobre mim. Não me lembro de Uruha ter permanecido aqui antes de eu dormir... Enfim, a pausa que tanto meu cérebro precisava havia sido finalmente concretizada, e eu me sentia bem, na medida do possível.



Fiquei em silêncio, brincando com um pedaço de edredom, imerso nas coisas que me perturbavam ultimamente: as teorias sobre mim, a “doença” de Uruha, o mistério de quem seriam meus perseguidores...



De tudo isso, o que mais me assustava era não saber o que tinha no meu corpo.



–– É aterrorizante, não é? Essa coisa de não saber o que tem dentro de você – ouvi seus passos e o colchão afundando próximo à minha perna direita.



–– Sim... Tenho medo também de como as coisas serão no futuro... – confessei. Não via motivos para esconder meus temores de Uruha – de alguma forma ele iria me ajudar a superar isso.



–– No seu caso, não é nada que vá fazê-lo andar pelas paredes – escutei um riso vindo dele e permiti-me o mesmo. – Quanto ao futuro não posso dizer muita coisa e menos ainda assegurar sua vida, mas posso tentar.



Não acreditei em suas palavras de imediato. Onde foi parar o Uruha irritante e irônico? Ele estava sendo amigável e dizendo que me manteria a salvo... Deus, como esse cara era bipolar!



Franzi o cenho ao constatar o óbvio: ele se importava comigo, mesmo que não fosse exatamente comigo, e, sim, com a cura que eu posso lhe oferecer.



–– Tentar é bom. Tente até o momento que consigamos curar você – foi o que eu disse.



A resposta não veio de imediato, dando-me margem para imaginar como ele estava. Aposto que encarava a parede fria, com uma expressão impassível, completamente absorto em suas lembranças.



Uruha levantou de súbito da cama e passou como um raio pela porta, não dando chance de interpelá-lo.



– X -

Depois da saída repentina de Uruha ainda fiquei na cama, imaginando diversas hipóteses para aquela reação.



Larguei isso de lado, quando percebi que não me levaria a lugar nenhum, e saí do quarto escuro. Meus olhos doeram com a intensidade da luz no outro cômodo.



De volta à sala, vi Ruki teclando freneticamente, com os olhos vidrados num dos monitores, onde um extenso código binário era exibido.



Movido pela curiosidade, aproximei-me do geneticista que observava agora o outro monitor aonde a decodificação era feita.



–– O que está fazendo Ruki-san?



O rapaz deu um salto da cadeira.



–– Você ‘tá doido? Quer me matar de susto? – ele respirava forte e passava a mão no cabelo, tentando se acalmar. Reprimi uma risadinha.



–– Desculpa, não foi minha intenção. Queria saber o que está fazendo com todo esse código binário.



Ele colocou um dedo em riste e, em seguida, apontou para mim:



–– Esse código, meu caro, é a resposta para o seu enigma.



O silêncio reinou e Ruki voltou a trabalhar na frente do computador, sem dar maior atenção à mim.



Então quer dizer que a resposta final para a teoria estava escrita em binários? Nada de livros ou papéis?



–– Seu jantar está na mesa. Lamento não poder cozinhar nada melhor – disse o pequeno, sem tirar os olhos da tela inundada com “zeros” e “uns”.



Dei os ombros – ignorando o fato de ter dormido o dia todo – e fui até a cozinha improvisada, vendo o sanduiche em cima da mesa. Depois da primeira mordida constatei: pasta de amendoim com geléia de amora.



Uma iguaria tipicamente americana.



Encostei-me na mesa ainda observando Ruki mexer no computador e acabei por notar a ausência de uma pessoa.



–– Onde está Uruha?



–– Foi dar uma corrida, pular uns prédios... Esse tipo de coisa.



Fitei o chão pensativo... Será que ele havia saído por causa da nossa conversa?



–– Programa dos infernos! – praguejou o geneticista. Os ombros tensos de Ruki denunciavam a dificuldade que estava tendo.



–– Quer ajuda? – ofereci. O pequeno girou a cadeira, rindo alto.



–– Não mesmo Yuu-san! Os softwares da Datasign são difíceis de serem invadidos, mas não impossíveis!



O som do prato de plástico indo ao chão expressou muito bem meus sentimentos.



Choque.



–– Como assim invadindo softwares da Datasign? É a Datasign que está me perseguindo? Responda Ruki-san! – larguei a metade do sanduiche na mesa e caminhei afoito até o geneticista que girava na cadeira, divertindo-se. Então era assim que ele conseguia as informações? Invadindo outros servidores?



–– Não Yuu-san. A Datasign não está te perseguindo.



–– Então qual é a empresa que você está tentando invadir? Sei de todos os códigos mestres de cabeça, posso invadir o sistema em dez minutos no máximo. É só me dizer qual empresa que você quer – eu estava confiante que ele aceitaria minha ajuda, afinal, pouparíamos tempo.



–– Ah, Yuu-san! Assim não tem graça! O desafio deixa tudo muito mais excitante. Eu já entrei no sistema algumas vezes, mas eles sempre mudam as configurações dos firewalls, me deixando doido!



–– Me diz qual é a empresa, e falo o código mestre – insisti. Essa era a oportunidade de finalmente descobrir quem eram as pessoas atrás de mim.



–– Sei o que está tentando fazer, Yuu-san. Não vai funcionar.



Cruzei os braços, contrariados, e fiquei de pé, assistindo os esforços dele para transpor as barreiras eletrônicas impostas por mim. Suspirei alto, sabendo bem que ele não iria revelar nada.



Sabe a coisa mais irritante de Uruha e Ruki? Gostavam de falar as coisas pelas metades. Tudo bem: pode até ser uma coisa boa para eles, mas, para mim estava sendo um martírio. Eu quero saber alguma coisa.... Por mais ínfima que fosse.



Dei-me por vencido e deixei Ruki trabalhar em paz. Recolhi uma peça de roupa na mochila e disse que tomaria um banho. O pequeno indicou-me o local e fui.



Nada que um banho quente não possa curar.



– X -

De volta à sala, passei a mão nos cabelos molhados e fiquei observando Ruki trabalhar. Como não estava fazendo muitos progressos, os palavrões escapavam da sua boca facilmente – o que era bem engraçado.



Não havia visto Uruha ainda, mas Ruki tinha dito que ele chegara. Provavelmente deveria estar em seu quarto descansando.



–– Olha – iniciou o pequeno sem olhar para mim – você está me irritando. Pode parar de ficar me olhando! – fiquei um pouco sem ação. Ele está reclamando que estou olhando-o? Não é como se eu tivesse muita coisa a fazer por aqui...



Antes que eu pudesse dar uma resposta mal-criada, Uruha interrompeu pelo corredor.



–– Ele vai sair comigo Ruki.



–– Ótimo. Não gosto de trabalhar com gente me secando – respondeu o baixinho, mal-humorado.



Para mim, sair era uma péssima idéia. Haviam pessoas atrás de mim, e o que eu menos queria era arrumar confusão para Uruha. Mas assim que o olhei, percebi que ele queria fazer isso e que não haveria problema.



–– Neo? – perguntei zombeteiro. Suas roupas eram semelhantes as da madrugada do seqüestro. Exceto pelo cabelo que se encontrava preso por um rabo de cavalo frouxo, deixando algumas mechas caídas pelo rosto delicado.



–– Não – ele deu uma risadinha debochada. – É Uruha mesmo.



–– Oh, que pena! Já estava animado com a perspectiva de conhecer Matrix – lamentei.



Uma nova risada veio do loiro, enquanto o acompanhava até a saída do laboratório.



–– Então, aonde vamos? – indaguei ao sairmos para a noite fria.



–– Sobe.



Uruha abaixou-se um pouco e subi em suas costas, como da primeira vez. A ansiedade me corroia, pois estava com medo de passar mal novamente, entretanto a fragrância doceque emanava do loiro dava-me um conforto, de certa forma.



–– Nada de vomitar hein! – avisou Uruha brincalhão, enquanto passava os braços pelos meus joelhos, firmando-me.



–– Vou tentar – murmurei quase inaudível. O perfume que se desprendia da pele clara me inebriava a tal ponto que já estava começando a considerar o fato de pular de prédio em prédio algo... Bom. Desde que estivesse na companhia de Uruha.



Começamos com uma caminhada simples e, em questão de segundos, estávamos correndo pelas ruas escuras e pouco movimentadas de Tóquio.



Para ignorar os solavancos, de tempos em tempos eu inspirava e sentia a tez branca arrepiando-se, pelo contato talvez.



Ah, como eu queria beijar aquele pescoço!



Fiz uma pequena careta, repreendendo-me pelo pensamento. Principalmente porque sabia o que estava acontecendo comigo: eu sentia uma atração física por ele. Não que tivesse algo contra isso, Uruha era um homem bonito, elegante e um tanto sedutor – só o maldito sarcasmo em excesso estragava o conjunto da obra.



Enfim, decidi deixar aquilo para um momento mais oportuno. Tentei desvendar – mesmo estando com os olhos cerrados – o caminho que fazíamos. Não fui muito bem-sucedido, porém eu podia sentir o vento forte chocar-se com meu rosto e a força da gravidade puxando-me de volta ao solo, concluindo que podíamos estar subindo um prédio. De certa forma isso me alarmou, já que não havia sentido a diferença de pressão.



Quando paramos, senti ser colocado sentando sobre uma estrutura de metal. Não me arrisquei a abrir os olhos, podia perceber que, pela intensidade do vento, estávamos em um lugar bem alto.



–– Segura aqui – Uruha guiou minhas mãos até uma barra de ferro, aonde me segurei fortemente.



–– Onde estamos?



–– Olhe e descubra.



Abri os olhos devagar, e uma massa de luzes coloridas era mostrada a mim. Inúmeros pontos brilhavam, tanto no céu como na terra, dando a visão mais incrível de Tóquio que eu poderia ter.



De onde estava, conseguia ver os enormes arranha-céus e todos os outros prédios da cidade. Os carros mais pareciam formiguinhas iluminadas no chão. As pessoas então... Eram praticamente invisíveis a essa altura!



Bom, meu cérebro não estava raciocinando naquele momento. Eu estava completamente fascinado com a vista que tinha.



Porém, os minutos se passavam e uma perguntinha insistia em aparecem na minha mente: que lugar seria alto o suficiente para poder ver até as maiores construções?



Fechei os olhos rapidamente e apertei a barra de metal nos dedos.



Não olha para baixo, não olha para baixo...



–– Nós estamos aonde eu penso que estamos?



–– Se você está se referindo à Torre de Tóquio é, estamos sim – sua voz soava natural, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.



Okay: visitar a torre pode até ser... Mas o que não é normal é visitá-la pelo lado de fora!



–– Estamos a mais de trezentos metros do chão! E-eu quero descer! – alarmei-me. Só para constar, eu não tinha medo de altura!



Uruha riu – o que me deixou irritado:



–– Pode descer. Ninguém está te impedindo.



–– Talvez eu não tenha sido claro o suficiente: quero descer VIVO.



–– Por que não relaxa e aprecia a vista? Quando estou com problemas ou simplesmente preciso ficar sozinho, eu venho para cá. Devia tentar fazer o mesmo.



–– Então esse lugar é secreto? Estamos dividindo um segredo? – podia parecer infantil, mas, quando alguém compartilha um segredo com você, quer dizer que há confiança envolvida.



–– Não diria exatamente secreto, sabe – eu ri de sua piada porque, realmente, minha pergunta foi estúpida. – Mas esse lugar é secreto para mim, nem o Ruki sabe. Então... É, estamos dividindo um segredo.



Depois de suas palavras, abri os olhos devagar. A cidade se mostrava mais uma vez para mim, mas agora de uma forma diferente. Um pouco mais especial, eu diria.



Em segredo.



Minutos incontáveis se passaram sem que eu desviasse meu olhar da cidade. Era reconfortante ficar lá em cima, como se seus problemas estivessem a exatos trezentos e trinta e três metros de distância de você.



Uma brisa fria passou por nós, e despertou-me. Uruha permanecia quieto, e permiti-me observá-lo por um instante.



Ele estava sentado da mesma forma do que eu, só que seus pés pendiam para baixo e não se segurava na barra, parecia estar sentado em uma cadeira. Seus olhos estavam fechados e sua face demonstrava uma expressão serena. A brisa, hora ou outra, bagunçava os fios caídos do penteado, mas não parecia incomodá-lo.



–– Eu daria tudo para ter a vida dessas pessoas – falou apontando para os pedestres lá na rua, sem olhar para mim. – Pensar que existem humanos capazes de fazer o que fizeram comigo, é repulsivo. Tenho repulsa da minha própria espécie!



Preferi manter o silêncio. Aquilo soava como um desabafo, e não queria interrompe-lo.



–– Porém, tenho que acostumar-me. Se eu sobrevivi a todas as aquelas atrocidades, é por que deve ter algo reservado a mim, nee – o suspiro resignado encerrou suas palavras, enquanto fitava o horizonte escuro, parecendo perdido em memórias...



Eu ainda o encarava absorto, em sua fala. A cada minuto que se passava, percebia a complexidade dos acontecimentos ao redor de Uruha: que espécie de barbaridades foram cometidas a ponto de fazê-lo odiar os seres humanos?



E o principal ponto: quem seria capaz de macular uma pessoa como Uruha?



Tudo bem, ele era grosso e desagradável às vezes. Entretanto, isso não era o suficiente para desgraçar a vida de alguém – como parecia ser o caso de dele.



Baguncei seus fios soltos numa tentativa de confortá-lo. Pensei que talvez isso pudesse aplacar um pouco de sua aflição. Às vezes nós só precisamos de um gesto de carinho para nos ajudar a diminuir um pouco da dor que sentimos.



Mas eu sabia que aquilo não seria o suficiente. E, por isso, aproximei-me dele, cuidadosamente, e deixei que a carícia em suas mechas loiras se estendesse ao pescoço até chegar ao ombro, aonde apertei fortemente.



Uma necessidade fora do comum de querer tomar a dor do outro, de pelo menos ajudá-lo a carregar seu fardo tomou conta de mim. E eu estava assustado com isso. Nunca havia sentido algo parecido.



Naquele momento eu tomava ciência do nível de confusão dos meus sentimentos. Percebi que meu afeto por Uruha deixava de ser atração e passava ser outra coisa.



Algo que, talvez, jamais pudesse descrever em palavras.



Notas finais
Bom, mais um chappie... E então? O que acharam?
Até algum domingo por aí!