Sephiroth
2 Capítulo 1 - Insônia que traz surpresa
Notas iniciais
Betado por Becca e Giles.
Boa Leitura.
Tóquio, 16 de Janeiro de 2008 – 06:52 p.m
Aoi Point of View
Afrouxei a gravata e joguei a pasta no sofá, completamente exausto. Ultimamente meu trabalho tem sido muito complicado. A Datasign tem passado por muitas mudanças internas e eu estou encarregado de quase todas elas.
Eles acham que só porque sou jovem agüento mais trabalho do que eles...
Aqueles executivos velhos só sabem mandar, mandar e mandar! E quando rola algum problema, quem resolve?
Eu.
É fácil comandar a Datasign assim.
Ignorei o ronco do meu estômago e fui direto tomar uma ducha quentinha. O inverno ainda castigava a cidade, mas já não era tão intenso quanto em dezembro.
Suspirei resignado, juntando forças para sair do banheiro aquecido pelo vapor para o quarto frio. Girei a maçaneta rapidamente e corri até o aquecedor, ligando-o.
Assim que o cômodo começou a ficar em uma temperatura agradável, despi-me do roupão felpudo, escolhi roupas quentinhas e confortáveis indo direto a cozinha.
Encarei os armários por um tempo, depois a geladeira. Comida tinha... O problema é que o meu cansaço não permitia que eu cozinhasse nada.
Cansaço e preguiça, devidamente associados.
Por fim, liguei para uma pizzaria. Como sempre fazia.
Um fato interessante sobre mim é: essa preguiça toda não era comum no trabalho. A partir do momento que eu vestia meu terno e atravessava as portas de vidro da Datasign, eu me transformava.
O Yuu preguiçoso ficava de lado, e entrava em cena o Yuu sério e compenetrado, completamente imerso nos assuntos da empresa. Um executivo conhecido por seu raciocínio rápido e cheio de exigências. Talvez seja por isso que todo mundo deixa os problemas complexos em minhas mãos.
Quer trabalhar para mim? Não seja preguiçoso.
Dá para perceber que isso acontece só na Datasign mesmo.
Fechei os olhos enquanto deitava no sofá a espera do entregador. Bocejos saiam de minuto a minuto.
Quando pensei que finalmente pegaria no sono, ouvi a campainha.
A muito contra gosto saí do conforto do sofá e fui ao encontro da minha refeição.
Após a pizza ter sido paga e devidamente ingerida, voltei ao conforto do sofá na esperança que pudesse tirar um cochilo.
Só na esperança, porque eu sabia que não ia adiantar muita coisa.
Eu andava sofrendo de insônia, ultimamente. Acho que era por conta do estresse pelo qual passo todos os dias. O máximo que consigo dormir são três horas e mesmo assim só pego no sono lá pelas quatro da manhã. Nem preciso dizer o quanto isso afeta o corpo e a mente.
E o pior de tudo é: mesmo parecendo que o meu cérebro ia explodir de tão sobrecarregado, eu insistia em enfiar mais coisas nele. Com isso, ocorreu meu primeiro colapso nervoso, hoje de manhã.
Mandaram um enfermeiro na minha sala e ele disse a coisa mais óbvia que alguém poderia dizer.
Shiroyama-sama, precisa visitar um médico.
Eu sabia que precisava de uma consulta, mas estava adiando o máximo possível já que eu achava que esse estado de insônia era por causa das atuais reformulações no quadro de funcionários, ao qual fui designado. Novidade...
Só que depois dos acontecimentos de hoje, não havia como evitar. Tanto que a minha secretária — eficiente que só ela — havia agendado um horário em uma das clinicas particulares mais badaladas de Tóquio: a NeoCell.
E, pasmem, eu iria ser atendido pelo proprietário da NeoCell.
Não que isso fizesse alguma diferença, pois eu nem sabia o nome do sujeito. Só lembro que Sakuya – a secretária eficiente... Alguém notou a ironia? – falou que o cara tem centenas de milhares de prêmios e que eu não devia julgá-lo pela aparência excêntrica. Blá, blá, blá.
Admito, quando ela disse “aparência excêntrica” fiquei assustado. A consulta seria amanhã pela manhã, eu esperava que ele desse uma solução a esse problema.
Pelo menos esse tem que ter solução!
Virei de barriga para cima e concentrei-me no gesso branco do teto, vendo o quanto a minha vida é... Diferente das convencionais.
Quer dizer, eu sou um executivo prodígio. Há três anos faço parte do conselho dos acionistas da Datasign – se não fosse uma herança de um parente distante, eu nem teria condições de comprar uma ação se quer. Inteligente, idealista, revolucionário, jovem, bonito e... Solteiro.
Solteiro.
Vinte e nove anos e solteiro.
Nem preciso dizer que é um prato cheio para os tablóides discutirem e inventarem teorias mirabolantes para justificar a minha solteirice.
Praticamente todas elas especulam que sou homossexual.
Eu não diria que é uma possibilidade nula, se aparecer um cara legal, daqueles sem complicações na vida, por que não?
O mesmo vale para uma garota.
Por conta disso, voltamos ao ponto de partida. Continuo solteiro.
Não que ache isso um problema, é claro que bate aquela solidão às vezes... Sempre bom ter uma companhia agradável e estável. Um dia eu acho meu par perfeito por aí...
Voltei os olhos para o relógio de ponteiro, que ficava pregado na parede. Perdi tanto tempo em divagações tolas... Só que ainda faltavam muitas horas até as quatro...
– x –
Joguei água pela milésima vez no meu rosto.
Eu estava acabado. Completamente esgotado e, meu semblante dizia isso – ou melhor, gritava.
Olhando-me bem, eu era digno de pena: ombros caídos, olhos inchados, olheiras visíveis e palidez excessiva.
Como disse, digno de pena.
Escorreguei os dedos pelos fios escuros do meu cabelo, ajeitando-os no lugar – ou bagunçando-os, depende do ponto de vista.
–– Veja pelo lado bom, quem sabe hoje você não tem uma noite de sono comum?! – falei ao meu reflexo, encorajando-me a sair do banheiro.
A minha cara de morto estava me agoniando. Por isso belisquei as bochechas no intuito de deixá-las vermelhinhas, só para espantar o aspecto de zumbi morto de fome.
Bem... Não funcionou.
Suspirei alto e deixei o banheiro. No caminho para a saída peguei o sobretudo, carteira e chaves. Tranquei o apartamento e fui à garagem.
Analisando bem o prédio no qual morava, ele não parecia estar nos padrões de um executivo. Era até simples, se comparado às humildes moradias pertencentes aos outros empregados que desfrutam do mesmo status do que eu.
Mas também pudera, não havia necessidade de um apartamento enorme para um cara que vive sozinho. Por isso eu gastava dinheiro de outras formas.
Roupas seria um bom exemplo. Não que eu as comprasse frequentemente, mas quando resolvia que era a hora renovar o guarda-roupa era um verdadeiro caos.
Outro bom exemplo ficava estacionado na garagem, estrategicamente posicionado a fim de causar inveja nos outros moradores.
Os “ferraristas” que me desculpem, mas a Lamborghini é muito mais charmosa. Ainda mais aquela que me pertencia atualmente.
Este singelo esportivo verde-limão – discreto! – tem seu interior e exterior o extenso uso de fibras de carbono, reduzindo o peso e melhorando seu desempenho. Sem contar que estou poluindo pouco a natureza, já que ela reduz a emissão de monóxido de carbono.
Devo dizer que ela faz de 0 a 200km/h em 10,2 segundos?
Detalhes, detalhes!
Mas o melhor ainda estava escondido sob capô: um motor V10, com 530 cavalos de potência, ultrapassando a casa dos 325 km/h!
Meu... Pequeno luxo.
Acionei o alarme e a porta do motorista se abriu automaticamente, num convite para me acomodar em seu macio estofado de alcântara – que é um material mais leve do que couro – preto.
–– Lamborghini, ligar – maravilhas do comando de voz! – Buscar rota alternativa para NeoCell.
Era de pleno conhecimento meu que as estradas principais estariam cheias àquela hora da manhã, e como eu tinha tempo de sobra, poderia pegar um caminho mais longo...
Okay... Eu também queria exibir meu carro...
Qualquer mortal com uma máquina dessas faria a mesma coisa!
Um apito emitido pelo computador de bordo despertou-me. Na pequenina tela de LCD era exibida a mensagem “busca concluída”.
Engatei a primeira marcha, girei o volante e saí da garagem, expondo ao mundo uma das minhas maiores preciosidades.
– x –
O edifício da NeoCell era peculiar, em vários sentidos.
Primeiro: era distante do centro de Tóquio. Distante demais para uma clínica.
Segundo: a estrutura do prédio era circular e achatada. Parecia uma enorme panqueca de vidro.
Por dentro, a NeoCell se assemelhava a um shopping. Pessoas circulavam apressadas pelo saguão francamente iluminado por janelas enormes. Nada de macas, gente visivelmente doente – tirando eu, é claro – ou aquele cheiro de limpeza tão comum em ambientes hospitalares.
Definitivamente, o dono desse lugar fez um exímio trabalho, tanto externo quanto interno, deixando o lugar agradável – ainda mais com o new age que tocava ao fundo -, colorido – graças aos arranjos que enfeitavam e aos quadros de arte abstrata – e sem aquele ar sério que permeia os hospitais.
Deixei as observações para depois e fui até o balcão.
–– Bom dia, sou Shiroyama Yuu e tenho uma consulta marcada.
A atendente sorriu, e pôs-se a mexer no computador: –– Ah! Shiroyama-sama tem um horário marcado com Suzuki-sama. – Ela levantou-se da cadeira e deu a volta pelo balcão. – Acompanhe-me Shiroyama-sama, irei levá-lo até o andar correto.
A moça sorriu, solícita. Indicou e acompanhou-me até o elevador.
Deve ser esse atendimento tão prestativo que premiava a NeoCell. Sinceramente, não esperava por uma atitude tão educada dessa jovem. Ainda bem que ela está comigo, se não ficaria perdido nesse lugar.
Saímos no terceiro andar, caminhamos entre corredores e um emaranhado de portas, até uma recepção reservada e vazia.
O local não tinha janelas, porém havia alguns quadros – que eu identifiquei como sendo expressionistas – pregados na parede azul. As poucas cadeiras do recinto indicavam a baixa frequência de pacientes por ali.
A atendente apontou-me a secretária e disse que deveria falar com ela. Esta, por sua vez, encarava-me por cima dos óculos de armação vermelha com um ar de curiosidade e um pouco de malícia.
Sou um cara atraente, o que posso fazer?!
–– Bom dia, eu-
–– O senhor tem uma consulta marcada, certo?! Aguarde um instante, por favor.
Mas que mocinha mal-educada! Será que ela não aprendeu que é inadequado interromper as pessoas?!
Estreitei os olhos e coloquei toda a minha reprovação pelo ato em um olhar. Ela fitou-me com desdém e voltou a seus afazeres.
Além de mal educada, era cínica!
Cruzei os braços e virei à cara, numa atitude completamente infantil. Fiquei encarando o quadro ali pregado, tentando desvendar os mistérios por trás das pinceladas do artista.
Aquele quadro despertava-me uma calma e quietude sem tamanho. Mesmo não tendo arte como uma das coisas favoritas, eu sabia apreciar um bom quadro quando o via.
–– Quadro bonito, não acha?
Estava tão compenetrado na análise artística do objeto, que dei um pulo da cadeira ao escutar a voz, causando um risinho na estranha figura ao meu lado.
Ele não era estranho.
Era bizarro.
Vestia uma calça preta folgada e adornada com correntes – tantas que perdi as contas –, uma regata preta lhe cobria o dorso, juntamente com a jaqueta branca. Nós pés, coturnos amarrados e devidamente lustrados.
O mais estranho de tudo – se é que poderia ficar mais estranho – era a faixa estrategicamente posicionada sobre o nariz. Devo dizer que o moicano loiro também era esquisito?
Acho que não.
–– É. É uma bela peça – respondi, encostando-me na cadeira, saindo de perto dele.
–– Sou Suzuki Akira. Presumo que seja Shiroyama Yuu.
Acho que fiquei alguns instantes encarando aquela figura de pé, a minha frente, completamente incrédulo.
Hein?!
O cara que era considerado o melhor médico da era moderna e detentor de um império chamado NeoCell era... Ele?
A aparência de “bad boy” em nada condizia com seu status social e acadêmico.
–– Surpreso? – indagou-me ao ceder a jaqueta à secretária e vestindo o jaleco que lhe era entregue.
Será que estava tão na cara assim?
–– Hã?!
–– Não se preocupe, já estou acostumado com esse tipo de reação. – Suzuki-san fez um sinal para que eu o seguisse até sua sala. – Embora isso aconteça mais raramente agora.
Apesar da aparência, o consultório de Suzuki-san era comum – ignorando o fato de existir uma parede recoberta de prêmios.
Ele sentou-se em uma cadeira, de aparência confortável, atrás de uma mesa de vidro em formato de “L”, apoiou os cotovelos sobre a mesma, deixando o queixo pousar suavemente sobre as mãos. Encarou-me com aqueles olhos escuros – mesmo que um deles estivesse oculto por uma franja. Uma visão ameaçadora.
–– Qual o problema, Shiroyama-sama?
Sua voz despertou-me dos meus devaneios. Foi quando percebi que ainda estava no meio de sua sala, parado, igual a um idiota.
–– Sentar é de graça, Shiroyama-san – zombou. Só restou-me retirar o sobretudo e corar.
–– Bem, Suzuki-san- antes que eu pudesse iniciar, fui interrompido.
Deus, como eu odeio quando fazem isso!
–– Pode me chamar de Akira. Então o chamarei de Yuu. Se não houver nenhum inconveniente, é claro – ele esboçou um sorriso, a espera da resposta.
–– Sim... Claro. Bom Akira-san, o que me trouxe foram os meus problemas para dormir.
–– Há quanto tempo está assim?
–– Uns... Dez dias.
–– E por que só agora procurou ajuda médica? – notei o tom de repreensão por trás da voz calma.
–– Tive um colapso ontem pela manhã.
–– Explicado.
Akira encostou-se na cadeira e lançou-me um olhar avaliativo.
–– Soube que a Datasign está passando por um processo revolucionário.
Não me admira que ele saiba da reformulação na Datasign. Essa era uma notícia constante nos telejornais mundiais, levando em conta o poder que essa empresa de informática tinha.
–– Sim. Estamos fazendo muitas mudanças.
–– E está encarregado de fazê-las, certo?
–– Sim. Tenho trabalhado mais do que o recomendável – comentei triste, ao lembrar a intensa batalha que acontecia no meu escritório. Foi quando uma pergunta me correu.
–– Desculpe o tom pessoal da pergunta, mas... Como você administra algo tão grande, como a NeoCell, e não fica louco?
Akira riu baixo e tirou a franja dos olhos.
–– Tenho pessoas comprometidas com seu emprego. Isso não quer dizer que os executivos da Datasign sejam incompetentes – apressou-se em comentar ao notar a minha expressão surpresa. – Temos uma política de divisão trabalhista muito rígida. Não costumo sobrecarregar meus funcionários com trabalho a ponto de lhe causarem crises de estresse.
–– Então é isso que eu tenho? Estresse?
–– Bem óbvio, não concorda?
Além de estranho, esse cara sabia ser irritante!
Se fosse realmente tão óbvio eu não estaria aqui enfiando dinheiro no bolso dele, estaria?!
Akira levantou-se da cadeira e andou até uma parte protegida por tijolinhos de vidro, de lá perguntou:
–– A sua palidez é natural?
Rodei os olhos mediante a pergunta idiota.
Esse cara é mesmo um médico?
–– Não. Minha alimentação anda precária ultimamente.
Ouvi um murmúrio de concordância, e logo depois, o som de luvas cirúrgicas sendo colocadas.
–– Venha aqui, por favor. Irei colher material para análise sanguínea.
A contra-gosto levantei-me da cadeira e fui ao encontro do médico.
Quando vi Akira de pé, segurando uma seringa e com um sorriso prá lá de diabólico, fiquei com medo.
Ele parecia um serial-killer.
Pensando bem, um serial killer não teria uma mão tão boa para tirar sangue.
Ao abrir os olhos devagar, deparei-me com o conteúdo escarlate dentro de um tubo de ensaio devidamente etiquetado.
–– Medo de agulhas? – perguntou calmo, colocando meu sangue na geladeira.
–– Não gosto muito.
–– Mas vejo uma marca de piercing. E colocar isso me parece um processo mais traumatizante do que uma mera picadinha de agulha.
Respira fundo Yuu... Esse cara só está tirando onda com você...
–– O coloquei na fase rebelde. Não costumamos fazer coisas muito inteligentes na adolescência – justifiquei. Ele sorriu, jogando as luvas no lixo e voltando para a mesa.
–– E por que tirou? – notei certa curiosidade vindo dele, mesmo que seus olhos vasculhassem os papeis na mesa a procura de algo.
–– Enjoei.
–– Pensei que o emprego na Datasign tivesse alguma coisa a ver com isso.
Apertei a mão sobre a minha coxa no intuito de me acalmar. Esse cara me tira do sério. Há realmente a necessidade de ficar comentando tudo?
Por que interessaria ao meu médico saber o motivo pelo qual eu teria tirado piercing?!
Isso é irrelevante!
Observei Akira prescrever um calmante e recomendar-me uma alimentação mais saudável. E disse também que dali a dois dias o exame de sangue estaria pronto, visto que o médico suspeitava de anemia.
Saí um pouco apressado do consultório e com uma péssima impressão de Akira. Mas ao ver a receita médica logo a irritação por causa do loiro passou.
Ah, essa noite eu ia dormir normalmente!
– x –
Depois de uma comida gostosa, um banho quente e um calmante, já sentia o corpo relaxado e leve.
Caí no sono antes mesmo que eu percebesse.
Dormir é a melhor coisa do mundo – okay, segunda melhor coisa.
Melhor ainda é abrir os olhos e sentir seu corpo e mente descansada.
O problema era que dá próxima vez que eu abrisse as pálpebras, o meu mundo iria virar de pernas para o ar.
Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo, e por isso, podiam deixar um review?
PS: Postagem todos os domingos, okay!
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