Separados Pela Profecia
40 38- Vinguem eles
Notas iniciais
"–Eu passei muito tempo pensando se contava isso para você agora, se estava na hora, pequenina. – meu avô falou para mim. – Afinal você é tão nova, está tão cedo, tem tanto para treinar.
–Vovô? O que está acontecendo? – eu perguntei preocupada.
O que ele teria pra me contar para deixá-lo tão preocupado? Eu era tão pequena, tão nova! Meus pensamentos eram tão ingênuos.
–Agora, seus professores, seus mestres, – ele falava se referindo ao Jason e a Reyna. – vão entrar em uma nova batalha menina.
–Mas eles acabaram de vencer os gigantes! Jason mal derrotou Crios e já teve outra guerra! Reyna levou a Legião nas costas por muito tempo! Eles merecem descanso! – eu reclamei.
–Ser semideus é assim, pequena, não há muito tempo de descanso."
Abri meus olhos encarando diretamente para os poços de escuridão que eram os olhos de Bella.
A cada lembrança, meu medo aumentava. Medo de não fazer nada certo, medo que o peso da profecia colocava nos meus ombros fosse de mais e eu não desse conta de sustentar. A Bella me olhava cansada, com um sorriso fraco nos lábios.
–Então, o que achou da viagem pelo meu passado? – perguntei sorrindo, mas sem alegria alguma.
–Seu passado está me deixando exausta, se isso servir de consolo. – ela me respondeu. "Não, não serve..." foi o que eu pensei, mas eu apenas sorri de novo.
–Martin, leva a Bella pro meu quarto. Providencie tudo pra ela poder descansar, eu vou cuidar dos gregos.
–Sam... – ele começou a protestar, mas eu o interrompi.
–Agora não, Martin. – eu falei um pouco alto atraindo olhares. – Eu estou completamente exausta dessas suas atitudes sufocantes. – continuei em voz baixa.
Ajudei a Bella a se levantar, apoiando-a no Martin, que saiu do refeitório com a cara fechada.
–Guerreiros! – chamei, fazendo todos olharem para mim. – Eu apresentarei o Acampamento para os novatos enquanto vocês seguem suas atividades normais. Ao final do dia, eu os alojarei em uma das Coortes. – eles assentiram. Como todos haviam terminado de comer eu os dispensei. – Podem ir menos os gregos e a Centúria da Quarta e da Quinta.
Enquanto eles saíam eu desci os degraus e me joguei no banco da mesa da Terceira com os olhos fechados. Eu precisava dormir.
–Pretora? – reconheci a voz, era o Cysne. Suspirei e abri os olhos devagar.
–Sim? – encarei-o.
–Vim avisar que o nosso encontro vai ser cancelado. – ele disse com uma voz rouca que me fez sorri, de verdade.
Atrás dele, eu vi o Lucca encarar as suas costas com um olhar assassino que me fez querer rir.
–E posso saber o por quê? Encontrou outro alguém? – perguntei fingindo decepção.
Sempre treinava com ele todas as noites, mesmo estando exausta. Hoje ele queria me deixar descansar e isso me fazia querer pular e abraça-lo.
–Desculpe, mas não posso ser visto com alguém com a cara que você está.
Ele terminou de falar, piscou pra mim e saiu do refeitório com um sorriso torto nos lábios. Olhei para frente encarando o Possati, o Lucca e os Centuriões que estava a minha frente.
–Vejam só, fui dispensada... – a Cinthia começou a rir e eu acabei rindo junto. – Enfim, eu supero.
–Ah, espero que supere, porque eu ainda não superei a última vez que ele me dispensou. – a Cinthia falou em meio às risadas atraindo um olhar incrédulo, raivoso e muito ciumento do Jonathan.
–Acreditem vocês superam. – a Katharina falou pela primeira vez, sua voz parecia rir, enquanto sua expressão permanecia séria. – Se eu superei, vocês superam. – terminou fazendo o Logan abrir a boca em espanto.
–Deuses! Esse cara passou o rodo aqui, é? – o Possati falou e as garotas começaram a rir demais.
–Vamos focar no que eu tenho que falar com vocês, por favor. – eu pedi assim que parei de rir. – Logan e Katharina, me digam, como estão os seus legionários?
–Bom, – o Logan começou. – eles estão progredindo já. Estamos em três grupos. – eu assenti e olhei para a Katharina.
–O que você acha que ainda divide a Coorte? – perguntei.
–Acredito que sejam seus parentes divinos, Pretora. – ela fez uma pausa e continuou. – Os que descendem de algum dos Três Grandes formam o menor grupo. Os descendentes de Marte formam a maior. Os que não se entendem com nenhum dos dois grupos formaram o terceiro grupo. Os outros se juntam ao qual gostam. – ela terminou.
–Hm... – eu murmurei. – Ok, vou ver se hoje ou amanhã já falo com eles tudo bem?
–Sim, Pretora. – eles responderam juntos.
–Podem ir. – falei e sorri.
Eles sorriram de volta e saíram do refeitório. Os próximos a ficarem em minha frente foram a Cinthia e o Jonathan. Eu não tinha conseguido falar com a Cinthia depois daquele dia, e a nossa conversa foi interrompida no momento que Delfos apareceu.
Resumindo, a Quinta Coorte continuava exatamente do jeito que estava quando eu cheguei aqui, dividida no meio. Soltei um suspiro cansado.
– O que eu faço com vocês? — falei pressionando a ponte do nariz e me levantando. – Quando eu pedi os relatórios, achei que o meu grande problema seria a Quarta, mas a dor de cabeça toda está concentrada em vocês! – exclamei.
–Ei, Samantha, calma... – o Possati começou.
–Alessandro Possati, não interfira nos assuntos que não são de sua pertinência. – a voz do Martin me assustou quando ele interrompeu o Possati. – Você não tem ideia dos problemas então não interfira.
–Calma cara, ele só quis ajudar, não precisa ser estúpido. – o Lucca interferiu.
–A ajuda de gregos não é necessária para comandar a minha Legião! – ele exclamou, praticamente explodindo de raiva. Vi seus pulsos cerrados e a mandíbula tensionada. "Nada bom" pensei.
–Chega! – gritei. – Possati, por favor, deixe que eu cuido da Centúria, tudo bem? – avisei com a voz calma. – Martin, eu já te falei, chega! – disse com decepção tocável na voz. – Ou você entende que eu estou eternamente ligada a gregos por uma profecia, ou, por favor, se afaste.
–Você não queria? – o Lucca perguntou e eu percebi o que tinha falado.
–Não... Não foi isso que eu quis dizer. – eu falei.
–Foi sim, Diamante. – ele retrucou e eu senti a sua mágoa.
Fiquei parada encarando o chão enquanto eu tentava juntar as peças pra mostrar o que queria ter dito. Minhas pernas fraquejaram e eu acabei sentando no chão.
– Argh! – reclamei. – Que droga! – bati o punho contra o chão e senti minha mão latejar. – Por que vocês insistem em complicar as coisas? – perguntei olhando para cima, sem encarar nenhum semideus. A reclamação era com os deuses. – O que eu te fiz, Vênus? – murmurei e me levantei.
–Sam... – o Martin começou.
–Cala a boca! – reclamei. – Cinthia e Jonathan, cada um vai me escrever qual é o problema do outro que não os possibilita a convivência em harmonia. Tem até a noite. – falei para eles, dei alguns passos em direção a porta do refeitório assim que os dois saíram. – Martin, vá olhar os legionários, supervisione o treinamento e mantenha total distância de mim. Pelo menos por hoje. – minha voz era magoada. – Possati e Lucca, venham.
Caminhei até fora do refeitório e senti o vento fresco matinal que rodeava o Acampamento. Eu podia sentir os dois parados atrás de mim, mas não me importei. Simplesmente moldei um lança de prata e trouxe-a até as minhas mãos a girando. Soltei um grito carregado com todo o meu ódio e a lancei para frente, manipulando o metal para atingir exatamente uma placa de madeira que estava sendo levada por dois guerreiros.
–Eu precisaria de você agora, Reyna. – sussurrei para mim mesma. – Eu vou te vingar. Você e o Jason.
O Cysne apareceu do nada ao meu lado, mas eu estava acostumada a seus aparecimentos repentinos. Ele colocou a mão no meu ombro olhando fixamente para os dois que ainda estavam parados atrás de mim.
–Não sei o que Marte está planejando, mas espero que de certo. – ele soltou um suspiro cansado. – Eu quero que façam um favor pra mim. – eu me virei para encará-lo e vi que o Martin estava parado ao lado dos dois. – Vocês perderam pessoas por causa dessa maldita profecia. Você perdeu a Reyna, nanica. – ele falou olhando para mim. – E você, – ele olhou para o Martin. – perdeu o Jason, montanha de músculos. Vocês dois, – ele olhou para o Possati e para o Lucca. – não os conheço, mas sem que não vão escapar ilesos disso também. – ele inspirou com muita força. – Mas eu também perdi alguém, assim como o Augusto. Eles foram em missão junto com os antigos Pretores, eram os protetores. – ele olhou para longe do nosso grupo. – Vinguem eles.
Enquanto eu absorvia as suas palavras ele saiu, andando em direção aos Templos. Aurum e Argentium se posicionaram em minha frente de repente. Da floresta ao lado do refeitório vinha um lobo. A minha loba, minha Sasha.
–Oi, garota. – falei e acariciei sua cabeça.
Ela soltou um pergaminho aos meus pés e eu o abri. Simples e prático, como toda mensagem.
Traga os gregos para Lupa.
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