Não sei você, mas sempre que eu vejo alguém pobre no meio da rua me bate um aperto no coração, imagina se fosse você ali? Sem um teto, sem roupa, sem comida, sem carinho, sem amor, e, muitas vezes, sem família. E o aperto é maior ainda quando é algum velhinho, principalmente com o rosto todo enrugado, onde cada buraco é um sofrimento que ele superou na vida, como se a vida deixasse marcas físicas mas a força de vontade dele fosse mais forte, e tampasse esses buracos, e então vem mais um, e se tampa novamente, depois outro, e outro, e assim por diante. Bom, pelo menos esse velhinho tá bem. Pelo visto, bem melhor do que eu, que estou aqui, deitada na cama escrevendo um livro, ou pelo menos tentando, onde vou contar de uma forma inigmática a minha vida, e todos os momentos importantes ou não dela.

Não sei porque comecei a escrever, acho que é meio que um desafio comigo mesma, não tenho lá essa criatividade toda para fazer um trabalho pra escola, muito menos para escrever um livro. Mas vou tentar, juro como vou tentar, e vou dar o melhor de mim aqui. Vou usar mais como um diário meio que secreto mas que todos podem ver, não quero divulgar minha tentativa de escritora pra ninguém, mas quem descobrir pode ler. Entenderam? Não? É, eu sou meio assim, complicada de entender, nem eu me entendo. É complicado entender alguém que não gosta de queijo mas só come pastel se for de queijo. Viram, não sou um dicionário de português-português com a palavra e ao lado o significado, bem explicado. Eu estou mais para um hieróglifo egípcio, difícil de se decifrar mas bonito de se apreciar. Não que eu esteja me gabando, me chamando de bonita, mas venhamos e convenhamos, tudo que é misterioso é mais bonito.

Não sei bem ao certo se quero que descubram esse meu "refúgio secreto", gostaria de escrever somente para mim, mas se eu realmente quisesse isso comprava um diário e escreveria nele. Na verdade, eu quero mesmo é transformar meus dias, meus sentimentos e minhas histórias em poemas, pra ver minha vida de um jeito poético e dar uma graça a mais nela. É, realmente, não sou tão fácil de se compreender assim.

Ah meu amor, meu menino branco dos cabelos pretos, ondulados como o mar, que as vezes tá calmo e lisinho, outras tá agitado e bagunçado, ah meu menino, branco cor de leite, as vezes fica vermelho, mas não qualquer vermelho, não um vermelho cor de sangue, um vermelho que só a pele dele é capaz de produzir, só ele. Somente ele. Meu menino, meu pequeno, meu tudo, ah como eu o amo, as vezes sinto sua falta, uma dor tão grande, mas de repente, ele chega e tudo fica bem, uma sensação de alívio, de lar doce lar, porque meu lugar é nos braços dele. Nunca senti isso por ninguém, um amor tão forte, uma saudade tão avasaladora, que chega rasgando tudo, coração e pulmão, uns dos orgãos mais vitais do meu corpo, porque na verdade, a única coisa vital pra mim é ele. Não sei o que seria de mim sem esse cheiro de gente sabe? Esse cheiro que ninguém tem, só ele. Esse cheiro que fica na esquina do ombro com o pescoço. Ah esse cheiro, me enlouquece. Quando sinto esse cheiro tudo que eu estou pensando ou sentindo vai embora, e fica só nós dois ali, eu cheirando o seu pescoço, e ele, o meu nariz. Vai entender, mas ele gosta de cheirar o meu nariz, acho que de tanto eu cheirar o pescoço dele, esse perfume único fica impregnado e ele gosta de sentir seu próprio cheiro. Acabei de perceber que escrevi demais a palavra "cheiro" e seus derivados, o que o perfume único de uma pessoa não faz com a gente. Gosto de pensar que ele foi feito só pra mim, e na verdade ele foi, eu sou dele e ele é meu. Falando nele, que saudade meu Deus, eu o vi ontem mas essa saudade maldita já está matando. Mas ela é uma saudade diferente, aquela saudade boa, que me fazer lembrar dos momentos alegres e repletos de amor com ele, aquela saudade que parece não ter fim, mas que não dói, que não prejudica, que não mata, aquela saudade inofensiva que já vem com o seu próprio remédio, a certeza de que eu vou encontrá-lo outra vez e acabar com essa saudade.

Acho que já falei demais, fui falar do meu pequeno e as palavras me consumiram, o que o amor não faz, não é? Deixa a gente mais poeta, e eu que no começo estava me queixando da falta de criatividade, agora tive que me segurar para não ficar aqui até amanhã falando dele. É amor, você muda a gente. Obrigada por me fazer uma pessoa mais feliz, e me deixar com um ar de poeta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.