Sentimentos Adormecidos
1 Capítulo 1

Faltando pouco para as 22h00, meu pai teve a ideia tosca — tosca, pelo menos antes de eu saber do que se tratava — de reunir todos na sala para uma reunião inesperada. Aparentemente eu só queria que ele fosse bem claro e rápido, tinha uma festa a ir, Nina e Hilary já devem estar me dando um tiro mentalmente. Até que pra alguém que não vai a uma festa desde que tinha 14 anos eu estou me saindo muito bem. Até o mês passado eu nunca tinha presenciado nenhuma reunião familiar tosca que meu pai inventava, mas aí as coisas começaram a acontecer.
Hoje farei o papel de protagonista, “tenho uma festa a ir, minhas amigas me esperam” e agir como uma revoltadinha de dezoito anos que tem uma vida social muito badalada. Diferente do que minha vida costuma ser. Pra falar a verdade, talvez eu já tenha uma ideia do por quê estou vestida de roxo, usando salto alto, com os cílios tão grandes que conseguia ver a sombra deles acima dos meus olhos nitidamente, esperando todos se organizarem e me dizerem a finalidade disso tudo. Não estou assustada quanto da primeira vez, acho que estou finalmente começando a me acostumar com o fato dos meus pais odiarem o meu jeito, meus gostos, e a mim.
Me sentei na poltrona beje, minha mãe pediu para que meu irmão mais novo Maxon, fosse para o quarto. Em seguida ela e meu pai se sentaram no grande sofá vermelho em forma de L e começaram a me deixar confusa:
— Melody preciso que preste bastante atenção. — minha mãe começou.
— Se for brigar comigo e tentar me levar no psicólogo novamente, perderam tempo, deveriam aceitar a personalidade que a filha de vocês tem. E além disso eu vou a uma festa hoje com a Nina e a Haly, estou me enturmando... — papai me interrompeu.
— Acho que eu não nos reuniria para conversar sobre sua intelectualidade excessiva de novo. Não costumo persistir muito em um só assunto. — ele encarava a taça com wisk que segurava, nem sequer olhou pra mim.
Permaneci em silêncio.
— Querida... — minha mãe disse carinhosamente, em seguida encarando meu pai como se estivesse lhe dando uma bronca. — Você já tem dezoito anos, não é mais o meu bebê de 9 meses — deu uma pausa por alguns segundos, suspirou. — Já é uma mulher.
— E mulheres tem obrigações de mulheres — completou meu pai.
— Onde querem chegar?
— Amanhã vai ser um dia importante pra você, não se assuste, eu juro que não será tão ruim... — minha mãe mantêm a calma, sempre doce. — Ele é um bom rapaz.
— Ele quem? Do que estão falando? — já estava me irritando todo aquele dilema.
— Você vai ficar noiva. Não me venha com drama, uma hora teria que casar de qualquer forma e arranjar uma família, e essa é a melhor hora.
Permaneci em silêncio. Não conseguia digerir aquelas palavras... elas ficaram presas nos meus ouvidos, não chegavam ao cérebro.
— Sei que deve estar assustada, eu também fiquei quando tinha a sua idade. Mas é menos mal do que possa imaginar. — mamãe falou.
— Noiva... — desviei o olhar. — Noiva! — eu ri alto, ironicamente. — Ah mas eu não acredito.
Eles me encaravam, como se minha reação tivesse os dado um choque. E então, prossegui:
— Vocês só podem estar brincando. — ainda ria. — É algum tipo de piadinha? Onde estão as câmeras, e os jornalistas de alguma emissora?
Eu ri alto, por exatos três minutos. Eles me encaravam de uma forma que nunca fizeram antes, mas não conseguia me conter. Não vou dizer “mas a ficha caiu...” porque ela já está no chão a muito tempo, mas eu ainda não consigo entender em que mundo eles vivem. Muito menos em que realidade acreditam.
— A brutalidade de vocês me dá nojo. — foram minhas últimas palavras, até me levantar apressada da poltrona e correr as escadas o mais rápido que pude até meu quarto. Eu sabia que minha mãe viria atrás de mim, mas mesmo assim não podia ficar naquela sala com aqueles olhares.
Bati a porta do quarto com força, me encostei na porta e escorreguei até me sentar no chão. Tirei aquele salto alto dos meus pés e taquei-os na parede, arranquei os colares, anéis, brincos, e deixei minhas lágrimas tirarem a maquiagem por mim. Eu já poderia imaginar que isso fosse acontecer comigo... Sempre foi uma tradição familiar, por mais absurdo que seja, os casamentos arranjados pelos pais. Aconteceu com a minha tataravó, bisavó, avô, e com a minha mãe. A minha infância inteira foi baseada nos choros escondidos dela, quando meu pai gritava com ela ou quando reclamava da sua comida e das coisas que fazia, não importava se ela fazia as coisas com o maior amor do mundo.
Porque não tinha amor, nunca teve amor no casamento dos meus pais. A menos o amor que sentem pelo dinheiro. Ah, eu odiava o meu pai. A minha vida inteira eu sempre sonhei em poder ver minha mãe um dia sequer feliz, feliz de verdade, e não fingindo ser feliz do lado de um homem bruto e insano só por causa dos filhos e da estatura de vida. Talvez, dinheiro não traga tanta felicidade mesmo.
Eu nem sequer sei o nome dele, não posso me casar agora, mal me acostumei a dizer que tenho dezoito anos, não quero levar a mesma vida infeliz que minha mãe levou todos esses anos, não quero e não posso.... é a minha vida que está no jogo, eles não podem fazer elas do jeito que quiserem, não sou um brinquedinho e muito menos igual a eles.
— Melody, por favor... me deixe falar com você. — ela falava por trás da porta. — Eu sei como se sente.
— Eu sei que sabe, mãe. — não conseguia conter a minha voz de choro. — E esse é o problema, eu não quero a mesma coisa pra minha vida. Eu... me recuso.
Enxuguei meu rosto com as mãos. Abri a porta e a abracei, o abraço mais longo e sincero de toda a minha vida.
— Nem todos são como ele. — ela começou a chorar. Ainda me abraçava. — Eu prometo que você será feliz.
— Não sei nem o nome dele, não me promete isso mãe. — a olhei, e ela enxugou minhas lágrimas pretas porque se misturaram com rímel.
— Você não terá o mesmo futuro que tive, Mel. Eu não vou deixar isso acontecer, eu prometo a você... não vou deixar.
— Papai já está decidido. — desviei o olhar triste para baixo.
— Ele não vai tomar as decisões dessa vez — sorriu, me encantava com a passividade dela até mesmo em momentos como esse. — Você vai conhecê-lo, quem sabe até goste dele porque nada é impossível e nem todos são como seu pai. Por exemplo, seu avô e sua avó se apaixonaram desde o primeiro dia, é algo que nunca vou conseguir explicar.
— Realmente o casamento deles não transparece ser montado, eles se amam tanto.
— Isso pode acontecer na sua vez!
— Mas e se não acontecer?
— Eu tomo as providencias por você, se for pra sua felicidade, eu queimo todas as maldições de contratos possíveis, faço um escândalo que até Deus vai estar lá de cima filmando — eu ri.
— Papai não merecia alguém como você. — a abracei.
Estava me preparando para dormir, quando iria apagar as luzes meu celular vibrou me fazendo dar um pulo da cama. Peguei-o no criado mudo ao lado. Mensagem da Nina.
“O que aconteceu com você? Eu deveria ter te dado um relógio de presente nos 18 anos.”
“Ou uma aliança...”
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