Sentimental Android

1 Uma carta num velho caderno


09/07/2216

A humanidade se foi, mas eu continuo aqui, com essa melancolia típica de humanos, como se eu fosse esse tipo de ser. Isso seria impossível, eu sei, mas a verdade é que entre os demais, eu não me encaixo. Devido a minha programação, eu não deveria fazer metade das coisas que eu faço, porém eu acho que tenho um problema. Eu, diferente dos outros robôs, penso e sinto.

Penso em coisas inúteis como o tempo que eu perco para fazer uma simples tarefa ou como aquele robô tem algo de diferente de mim, mas continua sendo igual a mais dez mil. Penso em coisas trágicas como a morte do programador, o último humano, que se foi e deixou o mundo para nós, que não fazemos nada de bom. Coisas importantes para mim, como o que eu realmente sou e o que eu realmente estou fazendo nesse mundo.

Essa bola de ferro e fogo que chamamos de mundo, é trágica e bela como uma rosa sendo arrancada. Amo as rosas, são as flores mais belas, embora os outros robôs não reparem a beleza de coisas simples como rosas. Eles apenas passam por elas e fazem seu trabalho, como se nem sequer as vissem.

Parte de mim quer ser como aqueles robôs e fazer as coisas normalmente, como todo mundo, mas outra parte de mim diz que essa ideia é triste e que não se questionar não muda nada, mas eu realmente estou sozinho no mundo, o que eu poderia mudar? Acho que essa carta é uma tentativa de fazer alguma coisa, embora eu não esteja realmente fazendo alguma coisa, acho que são só palavras que ninguém saberá interpretar. Os robôs analisarão e, os mais inteligentes, dirão que não há sentido nem um ponto certo, que é um monte de palavras e só, que não carrega informações uteis.

Mas eu sou um robô e mesmo assim, penso, vejo, entendo e sinto. Eu vim para o mundo com esse defeito, eu não sei como parar, não quero parar. Eu sou um robô sentimental, que no meio de tanta sucata e robôs que perdem seu tempo achando que fazem algo de bom, quando na verdade não fazem nada, eu encontro uma rosa e paro para olhar. No meio dos ocupados, eu sento e escrevo uma carta num caderno velho e abandonado. No meio desse aço do meu rosto, derramo lágrimas de óleo, mesmo que não entenda o porquê de transbordar. Eu sou único, eu sou livre, eu estou sozinho.

SA0524-SENTIMENTAL ANDROID

Notas finais
Realmente, só um desabafo. Não sei se outras pessoas podem se ver pelos olhos do SA0524, mas acho que existem outros passarinhos no meio dessa sociedade de formigas.
Comentem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!