Sensorial
8 Particularmente Mundano.
Notas iniciais
Atena não tinha noção de por quanto tempo havia permanecido no transe daquele sono maravilhoso que dormira, e ficara mais difícil de raciocinar quando, ao acordar e enfiar o nariz no travesseiro, ela sentira o cheiro de Romero...Quando aquele travesseiro tinha subido à cama? Quando ela tinha sido coberta pelos lençóis? Ambas as perguntas permaneciam sem respostas e ela não se preocupou em respondê-las, apenas puxou o travesseiro para perto e o agarrou forte com os braços.
Onde estaria o dono daquele cheiro? Atena passeou a mão pelo colchão, os olhos nem abriram ainda e ela soube.
Ele não estava mais lá.
Mas ela não se preocuparia em procurá-lo, ou ligar pedindo por uma explicação- Ele dera a ela o que estava em sua alçada. Ele passara a noite com ela, como ela quisera, como ela esperava. Ele a amara como nunca houvera feito antes, foi quente, foi deles, enquanto durou, fora deles.
– Bom dia...-
Ela sorriu com os olhos fechados, o rosto queimava pela vergonha de pensar que ele pudesse ter partido, apesar de ser uma das hipóteses mais prováveis de se acontecer, não era a única, e ela se sentiu mesquinha. Mesmo que ele fosse embora num próximo futuro, talvez ele tivesse um pouco de compaixão por ela.
Romero beijara os ombros nus dela, as costas descobertas de Atena o fizeram salivar por um instante.
– Achou que eu tivesse ido embora, que eu sei...-
–Claro que sim, você adora fazer essa linha de vampiro-
Ela o encarou, o lençol cobrindo o estritamente necessário, os olhos brilhavam, as bocas abriam em sorrisos tímidos, Romero se apoiava nos braços e Atena ainda estava deitada quando ele abaixou e a beijou, um colar de lábios que ela aceitou por longos segundos.
– Romero-
Ele havia acabado de terminar o beijo e sorrido ao perceber que ela fechara os olhos; ele se afastou para pegar algo nos pés da cama, e não percebera quando o sorriso dela se tornara triste, meio amarelo. Romero abriu os pés de apoio da bandeja e a colocou entre ele e Atena, uma variedade imensa se cores, sabores e aromas invadiram o campo de visão dela e as pupilas ainda lutavam por ajustar foco e luz do lugar que nunca parecera tão iluminado pela luz do sol.
– Olha, eu acordei um pouco antes e resolvi fazer isso pra gente, tem pouca coisa mas tá tudo gostoso por que eu já comi umas coisinhas aqu-
– Para, Romero.
Ele torceu o nariz e caiu a cabeça em questionamento.
– Eu-Não faz isso comigo pô...Tu vai embora, no mais tardar amanhã, e isso não vai me ajudar. Eu parei de pensar em te ter aqui comigo faz tempo, melhor a gente não começar a alimentar as minhas ilusões-
– Suas ilusões?
– Sim, Romero. Minhas- Nunca pensei que fossem ilusões compartilhadas.
– Atena, ontem não teve nenhuma ilus-
– É Romero, mas ontem a gente tava sensível com a tua alta do hospital, e a gente precisava de consolo e carinho...Ontem, Romero- Ontem foi ontem, hoje é outro dia. Hoje você continua noivo da fa-
Atena já estava em pé, nua, caminhando nervosamente pelo quarto em busca de algo que nem ela sabia ao certo, as mãos tremiam e ela lembrou que era o roupão que procurava ao avistá-lo embaixo dos jeans de Romero. Ela o vestiu, e os olhos estavam marejados, ela lutou por olhar para Romero, que se mantinha incrédulo, imóvel na cama, das xícaras da bandeja ela via o vapor do café quente flutuando e desaparecendo.
– Você é noivo da Tóia, Romero- Você escolheu que entregaria essa cobertura, e eu peguei ela pra mim, a gente não tem mais nada que mantenha a gente nessa união a não ser esse sentimento infeliz que eu insisto em nutrir por você. Mas eu cansei, Romero-
– Atena...-
– Tu acha que não me machuca? Tu pensa que eu acho justo dormir contigo por uma noite sabendo que tu não é meu? Saber que tu vai voltar pra favelada e tudo vai ser igual há dois dias? Dói Romero, eu te amo mesmo, e dói. Por que ontem tu me amou, ontem tu me disse, e eu acredito que você me ama- Mas me amar pela metade eu não quero, me amar quando você estiver de saco cheio da coisinha lá, eu prefiro que tu vá embora agora.
O que ele poderia dizer? Ele não a amava pela metade, muito pelo contrário; ele a amava por dois, três até. Romero não se movera, estava na cama na mesma posição em que passara os três primeiros minutos acordado, olhando para Atena. Ele havia levado vários socos na cara, mas nenhum doera tanto como vê-la daquele jeito.
– Atena eu preciso da Tóia...-
– PRA QUÊ ROMERO? ME FALA POR QUE?
– POR QUE ELA É FILHA DE UM MILIONÁRIO ATENA, EU PRECISO DO- Eu preciso do dinheiro dela, do conhecimento do pai dela, pra me curar...Ele é dono daquela fórmula que o Orlando diz que é dele, por isso eu preciso tanto da Tóia.
Os braços de Romero pesaram, e os olhos encharcaram com as lágrimas covardes que ele deixava cair, pela primeira vez, ele deixara de limpá-las com a gola das camisetas ou os dedos, e as deixava rolar por seu rosto.
– Eu não amo a Tóia, Atena- Eu admiro a honestidade dela, sim. Eu me apaixonei por ela sim, mas eu amo você...É você que eu amo, e com você que eu sonho todas as noites, é pra ficar do teu lado até a gente ficar velhinho que eu tô fazendo isso-
– Eu decidi que queria me curar, que queria viver pra sempre do teu lado no dia em que eu te conheci- Eu não podia te dizer, por que era perigoso, é ainda- Mas quem saiba agora, você entenda que o meu motivo pra continuar fazendo isso, é você...Atena-
Então...Era isso- Era por isso.
Atena não queria admitir que estava feliz, que estava aliviada de ser mais uma missão egoísta daquele comunista controverso que tinha a carinha de arrependido mais linda do mundo. Ela também sabia que não era por ela, primeiramente ele queria o dinheiro- Mas saber que ele queria se curar, envelhecer ao lado dela... Mesmo que fosse mentira, mesmo que fosse pra ela parar de gritar.
Ela amava ele, acima de quaisquer pilantragens dele; ela amava nele, e ela acreditaria como uma tola cega em qualquer coisa que ele dissesse.
– Atena, fala alguma coisa, me dá um tapa na ca-
– Cala a boca, Romero.
Ele sorriu ao vê-la virar de costas para ele, e abrir o nó do roupão, suspirando despretensiosamente e caminhando até o banheiro. Ela não sabia o que dizer, então como boa sedutora, apelou para o que sabia fazer de melhor, ela o seduziria- Mesmo que não fosse necessário, era pela diversão de vê-lo entrar no banheiro com aquele olhar escuro dele, as sobrancelhas franzidas e um sorriso apertado.
Era para assisti-lo abrir a porta do box como se ela não soubesse que ele não estaria ali antes mesmo dela ligar o chuveiro- E foi com essa rapidez que ele a prensou na parede gelada do box.
Literalmente segundos antes de a água cair em gotículas pesadas sob suas costas.
Não eram necessárias as palavras engasgadas na garganta dela, não foram necessárias as desculpas indesculpáveis de Romero, nada era preciso, além da certeza de que eles ficariam juntos.
Fosse hoje, daqui a vinte anos ou em menos de um mês- Mas ele era dela. Pela propriedade com a qual os beijos dele desciam pelas costas dela, os pêlos do corpo ouriçavam em resposta à água morna e aos beijos gelados. Romero clamava sua hierarquia sobre Atena ao puxá-la a cabeça pelos cabelos, a garganta secava ao senti-lo beijar seu pescoço. Romero a tirou da parede apenas para prensá-la de costas desta vez, os cabelos grudavam na parede úmida, o corpo dela ainda estava totalmente sensível da noite passada.
Atena suspirava e engolia gemidos a cada toque dele, a cada beijo que era dado em cascata até os seios, pela barriga- Ela virou os olhos ao senti-lo pegar sua panturrilha e apoiar seu pé no ombro dele, beijando-a as coxas e a virilha. Ele não fizera nada além de respirar sob a pele dela, ele assoprava alternando entre o quente e o frio. Atena tentara em vão puxá-lo pelos cabelos e aproximá-lo de seu corpo, mas ele não permitira.
– Romero... Para com isso...
– Diz que me ama, Atena- Diz que você é só minha...
–Eu...Romero, para de palhaçada Romero-
–Fala então...
Ele sorria perto demais, era perigoso ficar tentando desse jeito, ela cometeria uma loucura; Ela diria que o amava para tê-lo ali, a beijando naquele ponto específico e particular, atolado de nervos sedentos pelos beijos dele.
– Eu...Te-Te amo- Eu te amo, Romero-
Ele sorriu a encarando, a admirava ali se contorcendo na parede de olhos fechados, as mãos em seus cabelos, gotas teimavam em descer pelo corpo dela, ele passeou a língua de seu joelho à seu clitóris, pressionando ali, e a fazendo verter em gemidos altos e descompassados, ele a beijou por alguns instantes, o corpo dela pulsava, os sopros dele em seu clitóris a deixavam quase inconsciente.
E então, ele parou.
– E...-
Ele mordeu a coxa dela, e ela sorriu, a cabeça bateu na parede de leve.
– Eu nem lembro o que tu pediu pra eu falar, Romero-
– Diz que você é minha, que seu corpo é meu...Que tudo isso que você esconde nessa cobertura é meu-
– É tudo seu Romero...Ah-Tudo-Tudo seu...
Ele ria da cara dela, do jeito como ela implorava de boca fechada e sem soltar um pio que ele a sugasse e a chupasse por inteiro, que a deixasse marcada por alguns dias. Ele atendeu alguns dos pedidos dela, e a penetrou dois dedos de uma só vez, arrancando um suspiro engasgado seguido de um grito desesperado por liberação, ela parecia querer derreter ali mesmo, as mãos dela buscaram apoio na parede, as pernas falharam ao senti-lo tocar em seu ponto g enquanto a língua serpenteava ágil por seu clitóris, ela queria desmaiar e desfalecer sobre ele.
As paredes dela apertavam seus dedos, a língua dele pressionava o clitóris dela e a lambia por inteiro, o gosto dela era único, ele parecia não conseguir se saciar dela. Ela desmoronaria logo, a visão já ficara turva e os braços e pernas pareciam formigar, a barriga contraia, e os músculos das coxas pulsavam ritmados, ela não conseguia respirar e tudo girava.
Até ele raspar os dentes em seu clitóris e sugá-lo com força- Então, ali, ela cedeu e tudo emudeceu; Atena não ouvia mais nada além dos próprios gritos ecoando pelo banheiro, as pernas tremiam, as mãos foram aos cabelos e ela não sabia mais o que fazer para voltar a si.
E nem houve tempo para um contra-ataque, pois logo que recobrou os sentidos ainda sob efeito do último orgasmo, Romero a puxava pelos quadris e já estava em pé, sua ereção pulsando entre suas pernas e ela sentiu a saliva descer pela garganta, mas Romero não a deixou ficar sob os joelhos, ele bateu seu corpo no dele, e sua boca a atacou, a língua entrou de uma só vez em sua boca e ele se perdeu com ela naquele beijo. Ela ainda sentia gosto de laranjas e morangos, um fundo de algo cítrico, e sua língua era quente, voraz explorando a boca dela.
Romero puxou sua perna outra vez, mas a enrolou em seu quadril e enlaçou os dedos com os dela, levantando as mãos acima da cabeça dela, a empurrando com seu próprio corpo até a parede; e ele se afundou nela, o corpo molhava debaixo da ducha forte e os barulhos de beijos mesclavam aos da água batendo no chão e em seus corpos. Ela sentia Romero a penetrando até o máximo, o corpo dele flexionava os músculos com a força que ele fazia, e ela sofria por arranhá-lo inteiro, mas as mãos estavam presas com as dele, e Romero a encarava todo o tempo, os olhos queriam fechar, mas ele os mantinha abertos, olhando diretamente para os dela, a obrigando a manter o olhar idem ao dele.
E aquele olhar fez ambos compreenderem uma coisa que estava clara, mas nenhum admitira em voz alta: Nada nem ninguém nesse ou em qualquer outro universo teria a capacidade de interceder no que fora começado por eles na noite em que fora dito o primeiro “Muito Prazer.”- Foi só olhando para Atena daquele jeito, molhada e totalmente à mercê de um colapso de excitação, esse proporcionado apenas por ele, que nada mudaria o fato de que não importa quem tenha colocado um no caminho do outro; Se fora um Deus, ou o destino ou o karma, mas o que quer que fosse tinha um motivo, e apenas um. Era para ambos aprenderem a amar- Um ao outro, a si mesmos. Mas amar assim, sendo quem eles eram, do jeito deles.
Afinal, bandido ama diferente.
Bandido não ama do mesmo jeito que pessoas comuns amam, com briguinhas comuns, dias comuns e hobbies comuns; Bandido amava roubando. Beijos, noites intermináveis de sexo selvagem com direito a marcas horrendas pelo corpo no dia seguinte. Bandido amava ameaçando- Ameaçava perder tudo, ganhar o dobro e apostar o triplo.
Bandido não amava pela metade, amava por todas as falsas identidades, amava como se estivesse com a arma na mão, engatilhada e pronta para matar o primeiro que ousasse atrapalhar os planos. Eles amavam, mas eles amavam de corpo e alma, e de coração também, aquele coração que batia sôfrego, que batia meio receoso da dor que poderia vir, mas batia, batucava no peito e fazia os pulmões caçarem o ar desesperados.
E era assim, desse jeito bandido, sem vergonha nenhuma, sem caráter e completamente inescrupuloso que ele amava aquela pilantra. E aquilo transbordava dos olhos dela, dos lábios dela, dos beijos e dos abraços dela. Atena não precisava dizer, infelizmente para ela, os olhos dela eram a coisa mais verdadeira que ela possuía, e aquele par de olhos brilhantes e guerreiros não mentiam.
Não sobre aquele assunto.
Romero soltou suas mãos ao sentir que teria um orgasmo e se apoiou na parede, a penetrando mais forte e mais fundo, seus corpo colados e Atena o puxou mais perto, praticamente os tornando um só- Romero choramingava seu nome em sussurros quando sentiu as primeiras contrações musculares e seu pênis latejava dentro dela, ela sentia cada veia dele e como estímulo Atena mordia toda pele disponível de Romero.
Então, ele urrou, a puxou pelos cabelos e mordeu seu lábio, engolindo o nome dela junto com a pouca saliva que sua boca conseguira formar. Ela sorriu e fechou os olhos, ficando estática enquanto Romero se aliviava nos últimos espasmos corporais dele.
Nada mais era necessário, nenhum movimento era requerido, o corpo estremecia com a simples proximidade deles, Atena arrepiava Romero com as unhas passeando pelos braços, ele a mantinha ali, cativa entre ele e a parede do banheiro sem nenhuma previsão de deixá-la ir. Não era uma novidade que, ao recobrarem os sentidos, o cérebro deles os recordou de que havia um Ascânio no apartamento do terceiro andar, uma Tóia impaciente na casa da Família Stuart e uma outra vida além daquela vivida dentro da cobertura.
Foi como um clique em ambas as mentes, os corpos enrijeceram, eles se separaram e Atena fingiu ter esquecido que não houvera tempo de realmente tomar o bendito banho, arriscando sair de fininho e fingir não escutar Romero partir.
Mas ele a puxou para debaixo d’água corrente e a abraçou.
– Aonde você pensa que vai?-Vou te dar um banho, Francineide...
Ele gargalhou alto logo que sussurrou o nome no ouvido dela, e ela prontamente se virou e o encheu de tapas. Atena não queria falar, ela ria, arfava quando ele passeava as mãos e o sabonete que tinha o cheiro dele por ela inteira. Ela riu enquanto ele lavava os cabelos e cuspia água de olhos fechados, aquela mania estranha dele. Atena fechou os olhos e o deixou lavar os cabelos dela, após muita insistência dele em fazê-lo.
Na verdade, Atena tinha medo de isso tudo ser um sonho, de que se ela falasse algo, ele a olharia estranho e se daria conta de que ela não era a pessoa certa, e iria embora, mas os olhos dele brilhavam e ele parecia um garoto de quinze anos que fez sexo pela primeira vez em segredo com aquela menina perfeita. Ele sorria e gargalhava com ela, ele estava dando banho nela! Era muito recebido em um curto período de tempo. E ela não conseguia simplesmente negar e fingir que isso não a deixava idiota e completamente entregue a ele.
Ela queria isso, e ela lutaria por ele- Ela o ajudaria de todas as formas possíveis a conseguir o êxito absoluto nessa tarefa completamente sem nexo de casar com a favelada; Atena não gostava, mas pelo menos agora, o que ela sentia não era ciúmes; Mentira, eram ciúmes, mas ela entendera, de uma vez por todas, que todas as vezes em que ele a negou, em que ele a fez se sentir como a mulher mais cretina do mundo foi por ter a mesma vontade que ela: Foi uma defesa para não cair aos pés dela implorando que ela parasse com a tentação pois ele tinha um plano em mente.
Chantagear alguém para sobreviver à uma doença auto-imune e passar o resto dos dias com ela.
Fazia sentido para qualquer outra pessoa? Claro que não.
Mas era sincero, foi sincero quando ele olhou nos olhos dela e ouviu os pensamentos dela berrando pelos olhos.
– A gente ainda vai ficar junto pro resto da vida Atena, eu prometo isso pra você-
Era como se ele pudesse captar por vibrações corporais o que ela sentia, e pensava-
– Não preci-
– Precisa sim- Eu te devo muito, e eu prometo te fazer a mulher mais feliz do mundo. Eu vou achar uma cura, eu vou usar todo o dinheiro do mundo inteiro se for necessário, mas eu prometo que a partir de hoje eu sou seu Atena, pro resto da sua vida- Agora não tem mais volta.
Ela não soube como reagir, então ela sorriu.
– Ai meu Jesus, você falando isso- Eu só posso estar bem louca!
– Cala a boca, oh bem louca- Eu te amo, Atena.
Não importava quantas vezes ele dissesse aquilo- O “Eu te amo” dele sempre soaria como o primeiro. Sempre chegaria aos ouvidos dela e ela começaria a tremer dos pés à cabeça.
– Eu também te amo, Romero.
Há quem diga que, abraçados ali naquele box enorme, eles eram só mais um casal; Desses que adoravam fazer tudo ao mesmo tempo. Se pudesse ser transmitido ao público, diriam que aquele casal nunca passara por uma crise sequer, que todos os dias eram como o primeiro.
Mas ninguém conhece a vida do vizinho- Todo aquele prédio conversava nos elevadores sobre o ex-vereador e a maluca da cobertura como se soubessem de tudo que acontecia, como se as palavras berradas em discussões nos corredores significassem qualquer coisa.
E em alguns momentos, elas foram ditas tão altas que eles acreditavam fielmente no ódio que cuspiam junto com ela.
Mas ao sair do apartamento, tarde da noite daquele mesmo dia, os moradores do prédio não notaram que os olhos dele brilhavam- Não fizeram questão de perguntar ao porteiro por que a maluca da cobertura não estava com a música no talo, ou por que ainda não fora batida nenhuma porta na cara de alguém.
Aquela noite, foi só outra noite comum, cheia de tarefas comuns realizadas por pessoas comuns, o lixo foi levado pelo caminhão, algum moleque bateu a carteira do velhinho do 807 que chegou de mau humor e esbarrou no Romero, que nem se deu ao trabalho de olhar para trás.
Todos continuaram os mesmos.
Menos a maluca da cobertura e o ex-vereador.
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