Senna

9 Capítulo VII – "Volta ao Lar: Entre Brasil e França"


O sol da manhã italiana se infiltra pelas cortinas, iluminando a bagunça aconchegante do quarto. Ayrton acorda com um sobressalto, sua mão instintivamente indo até as costas marcadas pelo acidente—um lembrete físico de que o tempo para recuperação está correndo.


Alain já está sentado na beira da cama, vestindo apenas calças esportivas enquanto folheia passagens de avião no laptop."Decidi tudo ontem à noite,"ele diz sem olhar pra trás,"Nós voltamos pro Brasil em duas semanas. Você precisa continuar a reabilitação lá."


Ayrton abre a boca para protestar quando Nico pulsa na cama entre eles:"Vou ver meu carro novo?"Sasha balbucia sonolento:"...Cavalo?"


Alain ri baixo, olhando para as crianças com carinho."Claro, vocês vão ver os carros novos sim."


Nico abre os olhos grandes."E os cavalos?"Ele insiste com os cabelos bagunçados pelo sono.


Ayrton olha pro filho, com um olhar cheio de ternura."Sim, meu menino. Você vai ver os cavalos também."Ele estica a mão para acariciar a cabeça de Nico.


Ayrton beija a testa de Nico, depois a de Sasha. Finalmente, ele se vira para Alain, puxando-o para mais perto. Seu sorriso é uma mistura de cansaço, felicidade e um toque de tristeza. Alain segura seu rosto e dá um beijo de leve.


Nico se espreguiça, reclamando de sono antes de olhar pro pai mais uma vez: "Eu quero dormir mais."Sasha balbucia ao seu lado, meio adormecendo novamente.


Os quatro ficam abraçados na cama, aproveitando o conforto da presença um do outro. O som de suas respirações suaves mistura-se enquanto a luz do amanhecer ilumina suavemente o quarto.


Ayrton olha para seus entes queridos com ternura, tentando manter a dor das memórias da última corrida longe de sua mente.


Ele murmura baixinho para Alain, que ainda mantém seu rosto aconchegado:"Amanhã começa tudo de novo..."


A manhã chega, banhada por raios de sol. Os meninos acordam cedo, empolgados pelas novidades da viagem de volta ao Brasil. Ayrton acorda ainda cansado, sua reabilitação exigindo um esforço extra.


Ao lado dele, Alain está acordado, o olhar preocupado enquanto ajuda Ayrton a se sentar na cama.


"Como está sua coluna hoje?"Ele pergunta, com o toque de alguém que sabe da dor constante que Ayrton sente.


O som da TV acende na sala, Nico e Sasha rindo de um desenho animado. Ayrton tenta se sentar sozinho, mas sua coluna range dolorosamente—ele engole um gemido.


Alain (aparecendo na porta):"Não."Ele cruza os braços, "Você não vai nem tentar levantar sem ajuda hoje."Seus olhos são firmes enquanto pega a bengala encostada no criado-mudo.


Ayrton rosna:"Eu odeio quando você tem razão..."


O som da TV acende na sala, Nico e Sasha rindo de um desenho animado. Ayrton tenta se sentar sozinho, mas sua coluna range dolorosamente—ele engole um gemido.


Alain (aparecendo na porta):"Não."Ele cruza os braços,"Você não vai nem tentar levantar sem ajuda hoje."Seus olhos são firmes enquanto pega a bengala encostada no criado-mudo.


Ayrton rosna:"Eu odeio quando você tem razão..."


Alain ignora o resmungo de Ayrton e desliza a bengala em suas mãos com um movimento firme. Ele se ajoelha na frente do companheiro, seus olhos fixos nos dele.


"Odiar é fácil,"ele murmura,"Mas levantar? Isso sim vai exigir força."


Ayrton aperta os dentes ao tentar apoiar-se—o suor já escorrendo pela têmpora enquanto Alain mantém as mãos prontas para segurar caso ele caia.


O corpo de Ayrton treme com o esforço, seus dedos brancos agarrando a bengala como se fosse sua única âncora. Alain segura firmemente os ombros dele, sentindo cada músculo tensionar sob suas mãos.


"Respira,"ele ordena baixinho,"Você não vai cair... Eu não deixo."


Lá fora, Nico grita:"Papai! O desenho tá bom!"Sasha balbucia:"...Tchau tchau..."


A cada centímetro de elevação, Ayrton se força mais, a dor em sua coluna como um fogo que queima. Alain fica com ele, as mãos firmes, controlando o ritmo dos movimentos. Cada respiração é pesada, quase um suspiro.


Alain (sussurrando):"Isso. Eu estou com você. Você consegue."Ele se mantém próximo, oferecendo todo o suporte que Ayrton precisa e um pouco mais, seu rosto uma máscara de concentração.


Ayrton finalmente se levanta, apoiado na bengala com os joelhos trêmulos. Alain não larga seus ombros, seus olhos buscando qualquer sinal de instabilidade no companheiro.


Nico brinca na sala com Sasha, distraídos pelos desenhos enquanto Ayrton dá alguns passos incertos. Alain acompanha como uma sombra, pronto para segurá-lo se necessário.


O cansaço é palpável, mas Ayrton continua se movendo—um passo de cada vez.


Nico se joga em direção ao quarto, pulando na cama em cima dos pais sem nenhum cuidado. Alain sorri enquanto segura o menino, evitando que Ayrton se machuque com sua euforia.


Alain (sorrindo): "Calma, meu filho. Seu pai precisa se recuperar."Mas mesmo com o aviso, Nico não se acalma—ele pula entre os lençóis, feliz por ver o pai levantado.


A família se acomoda na cama, com Nico e Sasha pulando em volta deles como duas crianças felizes que são.


Ayrton está deitado de costas novamente, tentando relaxar enquanto Alain passa um creme relaxante nas costas dele com movimentos circulares. A dor é palpável em seu rosto, mas ele se esforça para manter um sorriso.


Eles ficam assim por um tempo, cercados pelas risadas e brincadeiras dos meninos. Alain continua suas massagens, seu toque sempre meticuloso.


As próximas horas passam com Alain e Ayrton revezando-se no cuidado com os filhos, alternando entre brincadeiras, alimentação e descanso. No meio, Ayrton tem alguns momentos de dor profunda, mas sempre conta com a ajuda de Alain para se levantar e manter o equilíbrio.


O sol vai se pondo e os meninos finalmente começam a mostrar cansaço. Eles se deitam na cama, cada um agarrado em um de seus pais.


O quarto fica em silêncio, apenas iluminado pelo brilho dourado do pôr-do-sol. Nico adormece com a cabeça no ombro de Ayrton, enquanto Sasha se aninha contra Alain—seus dedinhos pequenos ainda agarrando a camisa do pai.


Ayrton passa os dedos pelos cabelos do filho mais velho antes de olhar para Alain por cima das cabeças dos meninos:"A gente tá mesmo fazendo isso? Voltando pra casa?"Sua voz é baixa, quase vulnerável.


Alain segura seu olhar e responde sem hesitar:"Sim. E você vai recomeçar tudo lá."


Os dias seguintes passaram em um borrão de preparativos. Alain cuidava da maioria das tarefas, deixando Ayrton descansar e cuidar da reabilitação. Ele arrumava as malas, providenciava passagens de última hora, cuidava dos meninos e ainda achava tempo para dar aquele último abraço confortante no companheiro.


Quando chegou a hora de embarcar, ele levou Ayrton pela mão até a fila de embarque, segurando-o firme mesmo que por dentro estivesse cheio de dúvidas.