Aurélia abriu os olhos vagarosamente e tentou reconhecer o lugar em que se encontrava, mas nenhum borrão era familiar, menos ainda, o cheiro de cachorro molhado que inundava o lugar em que estava. Quando ela finalmente conseguiu ajustar a visão, deparou-se com um galpão com ao menos quinzes jovens, em pequenos grupos espalhados pelo cômodo, e igualmente amarrados. Ingenuamente a mais nova raptada tentou levantar para sair do lugar, e só aí percebeu que estava igualmente amarrada. Afinal, o que iriam fazer com adolescentes em um galpão?

— Ei, você! Você mesmo! – Aurélia disse quando percebeu um garoto loiro, que não aparentava ter mais de catorze anos, chorando baixinho, no outro lado do cômodo.

— Oi... – Ele disse na forma de sussurro.

— Por que você está chorando? O que fazem aqui? – Aurélia já não sabia o que pensar.

— Não estamos autorizados a conversar, senhorita. – Uma menina ruiva que estava próxima ao garoto loiro falou, também de forma sussurrada.

— Ah, e vocês vão mesmo obedecer esses malucos? – Aurélia começou a ficar nervosa, como assim eles estavam nas mesmas condições e ainda assim, ninguém lhe falaria o que acontecia ali? – Se vocês não me disserem logo eu irei gritar!

— Por favor, não faça isso... Eles levaram a minha irmã mais nova, e ela nunca mais voltou. – Respondeu a menina ruiva.

— Qual é o nome de vocês dois? – Aurélia sussurrou para mostrar lhes mostrar que não tomaria nenhuma medida de forma leviana.

— Eu sou a Rebeca, e este é o Felipe. Trouxeram minha irmã para cá... Eu os segui, eu juro que tentei, eu juro. Mas não consegui. Não consegui salvar minha irmãzinha. – Disse ela subitamente emocionada.

— Todos que estão aqui são... você sabe o quê? – Aurélia temia a resposta, e mais ainda, a constatação de que não saiu do pesadelo.

— Todos são lobisomens, exceto por mim. – Respondeu Rebeca.

— Por favor, me diga que há alguma forma de fugir, alguma brecha. Qualquer coisa. – Rebeca não teve tempo de responder pois ouviram uma grande confusão do lado de fora do galpão e então um estrondo. Em seguida, alguém entrou no cômodo e com passos longos e rápidos parou logo atrás de Aurélia. A confusão era grande, ainda eram escutados gritos furiosos do lado de fora, mas o cérebro de Aurélia congelou quando ouviu a voz de Fernando em seu ouvido dizendo:

— Eu não disse que te entregaria. Eu nunca faria i... – Foi interrompido por Aurélia que afobada como era, já queria respondê-lo de forma pouco amigável pelo susto que tomou. – Fiquei quieta. Eles irão te levar daqui, mas eu estarei logo atrás. Nada de ruim te acontecerá! – Fernando logo levantou-se e com uma voz forçadamente grave e raivosa disse para os outros homens:

— Sim, foi essa criatura.

Rapidamente, os três homens que estavam mais próximos foram em direção a Aurélia e a puxaram para cima, sem preocupações com as algemas que a prendiam ao chão. Com o impacto a dor foi absurdamente grande e, sem ao menos saber como aconteceu, Aurélia assumiu seu lado selvagem e se transformou em lobisomem. Como estava profundamente revoltada e descontrolada, com apenas um balançar consegui soltar-se das algemas.

— SEGUREM ESSA LOUCA! – Gritou o homem baixinho e roliço que foi atingido pelas algemas da jovem.

O restante da família Seixas adentrou o galpão apressadamente e todos tentaram conter Aurélia, mas era impossível, com a raiva e a fome que estava, nada nem ninguém conseguiria domá-la, ela poderia fazer um refeição deles em, no mínimo, dez minutos. “Infelizmente, eu teria indigestão”, pensou Aurélia.

— Continuem tentando seus palermas! – Gritou o baixinho novamente.

No meio de todo tumulto, Fernando passou despercebido enquanto soltava os outros prisioneiros. O problema é que todos eram lobisomens inexperientes, ainda não sabiam controlar-se, controlar seus poderes, sua força. Como eles poderiam ajudar Aurélia? Nesse momento, Fernando recordou-se de uma informação valiosíssima, que escutou quando estava escondido no escritório de seu pai: Lemos queria o controle da cidade e, para isso, ele precisava de uma caixa mágica que tem o poder de controlar todos seres sobrenaturais de uma cidade inteira, mas não só disso, ele precisaria também do poder de lobisomens para que a caixa funcionasse. Mas, se a caixa fosse destruída todo o plano de Lemos iria por água abaixo, e foi essa informação que Fernando contou para os lobisomens que conseguiu soltar. Até que seu tio o viu. Como Aurélia estava lutando contra os tios de Fernando, ela não pôde ajudá-lo, como ele era o mais fraco do recinto, seu instinto foi correr para fora, e foi o que fez. Ele precisaria estar vivo para ser útil.

Depois de muita violência, todos lobisomens conseguiram se soltar e ir procurar a caixa. Mas não foi preciso de muito, Felipe já sabia onde a caixa mágica estava e foi correndo pegá-la. A caixa estava escondida ali na floresta mesmo, segundo as lendas que escutou quando criança, ela deveria estar no topo da maior árvore da floresta. Felipe foi agarrado e algemado novamente, pois não percebeu a aproximação de um homem mascarado, tudo que conseguiu fazer foi gritar para Fernando, que encontrava-se do outro lado do rio: – A ÁRVORE. MAIOR DA FLORESTA. – Em seguida, o homem mascarado quebrou o pescoço de Felipe deixando Fernando atônito com tamanha brutalidade.

Fernando não foi o único a escutar a dica de Felipe, então, todos que estavam perto correram para a árvore pois era o mais importante no momento. Fernando não viu Aurélia em momento algum, mas continuou correndo pois se não salvasse todos, não teria a chance de dizer para Aurélia que estava apaixonado. Quando chegou ao topo, viu que seu tio Narciso estava lá e a única opção era derrubar-se levando ao chão o tio e a caixa juntos. Se esse era o preço necessário para salvar a vida de Aurélia, ele pagaria. Quando jogou o corpo contra o do tio, foi como se voassem por alguns segundos, até chegarem ao chão e um estrépito foi imenso. Aurélia que havia acabado de chegar ao lugar, deparou-se com o corpo de Fernando estirado no chão e desatou a chorar. Sentou-se no chão, colocando a cabeça do amado em seu colo, pois sabia que ele não suportaria a dor por muito tempo.

— Você precisa saber que... – Fernando começou a sussurrar mas sua voz falhou. Era muito esforço.

— Fernando, você salvou a vida de todos, eu só preciso saber disso. – Aurélia disse tentando conter as lágrimas.

— Eu preciso... – Começou a falar tentando controlar a voz e a dor aguda que sentia por todo corpo. – Dizer que me apaixonei por você. Não tivemos uma história, mas saiba... que eu faria tudo de novo por você.

— Nós temos uma história, sim. Não importa o que aconteça, o meu amor por você sempre estará aqui dentro do meu coração.

— Você é a senhorita da alcateia mais encantadora que já conheci. Agora, todos eles irão seguir seus passos, tente não... – Fernando não conseguiu terminar a frase, mas continuou com os olhos abertos apreciando Aurélia, ele sabia que essa seria a última vez. Ela, não conseguiu conter-se e fez o que sempre desejou: beijou Fernando tentando demonstrar a imensidão do sentimento que nutria por ele, desde que o viu.

— Apenas diga que você não vai embora. – Aurélia já não conseguia conter o desespero.

— Os momentos passam e a vida continua, as estrelas de tortura, estão tomando cada respiração que eu gostaria de ter. Mas o amor em meu coração, nunca se acabará. – Cantarolou Fernando eternizando seu último momento de vida, na memória e no coração de Aurélia.

Notas finais
A música citada no capítulo chama-se "Don't Let Me Go".
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!