Senhor dos Dragões
7 Capítulo 6 - Criança Alada
Notas iniciais
Capítulo 6 – Criança Alada
Klodike trocara suas roupas por algumas bem mais simples e fora dormir. Havia no vale uma parte da encosta que encontrava-se coberta por algumas árvores de imensas folhas, fato que o protegia da chuva, caso houvesse alguma. Encontrou Rarac lá, inerte, e questionou-se se havia algo haver com o encontro com Urhi. Se ele mantinha o novo corpo inconsciente enquanto precisasse retornar aonde quer que sua verdadeira essência estivesse.
Deitou-se no musgo que se dispunha quase como uma cama sob ele, e deitado sobre suas costas, deixou sua mente vagar. Talvez devesse se questionar quanto ao ocorrido. Talvez devesse se sentir temeroso, como se houvesse perdido o que era. Mas incrivelmente, tudo o que conseguia sentir era uma paz indescritível. Agora o porquê daquela sensação era outra história.
Assim, apenas fechou os olhos, deixando-se descansar. Sabia onde deveria ver para ter uma ideia de onde Naphees, Vannes e Esben estavam. No dia seguinte verificaria o fato, e então iria atrás deles. Porém, parando para pensar sabia que sua aparência os assustaria, ou pelo menos, os deixaria surpresos. Talvez precisaria de uma boa dose de persuasão para leva-los até ali, e precisaria que tudo fosse rápido. Todo o conhecimento que Shirong lhe passara era demais para mantê-lo somente para si, assim sabia que a primeira opção era claramente repassar pelo menos boa parte do que conseguira.
Acabou pensando também em Far. Martirizava-se por ter se mantido ali enquanto qualquer coisa poderia ter acontecido com ela. Sabia que pelo menos agora poderia tirá-la de onde quer que estivesse, porém era necessário saber onde ela estava.... Mas se bem... Talvez se utilizasse a mesma coisa que utilizaria para localizar seus irmãos...
Não gostaria nem de imaginar na possibilidade dela estar morta.
– Um ano e quatro meses... – sussurrou. Levou a mão até seu amuleto, invocando a imagem da única recordação concreta que possuía dela. O colar surgiu num brilho e o pegou. Não sabia quando havia se utilizado da capacidade de armazenamento dele, mas estava agradecido por estar ali. Analisou-o, vendo as pérolas flamejantes e a concha preenchida pela flor. – Eu vou encontrá-la. Se eu me mantiver com pensamentos ruins, vou apenas ficar pensando ao invés de agir. Eu não posso mais procrastinar como fazia antes.
Assim, adormeceu. Sonhou com dunas brancas de um deserto e uma luz brilhando sobre a montanha ao longe, com diversas estelas entre o caminho que o separava do local. Não soube porque estava ali, mas soube que havia algo importante.
Acordou com gemidos de dor e soluços. Soavam altos em seus ouvidos, e inicialmente pensou que fossem de Rarac. Sentou-se, olhando para o Denor que ainda estava adormecido. Franziu o cenho, percebendo então que estava o captando com sua audição aguçada.
Saltou, pousando levemente no chão. Havia o som de algo se arrastando pesadamente enquanto exclamações de dor soavam altas. Sentiu suas orelhas se movendo ligeiramente, tentando captar de onde vinha o som, e quando o localizou, foi rapidamente até lá. A voz era como a voz de uma criança.
Desceu pelo vale, até finalmente encontrar o dono da voz. Permitiu-se parar por um momento ao vê-lo, surpreso. À poucos metros de si, havia um garoto que daria no máximo nove anos. O menino estava inteiramente machucado, com claros sinais de espancamento, tanto ao ponto de fazer Klodike se questionar quem seria capaz de atacar uma criança daquele modo. Sua pele era quase tão branca quanto a neve, o que fazia que os hematomas, negros e amarelados, saltassem aos olhos do Dragonês. Havia diversos cortes por sua pele, e seu blusão era apenas um conjunto esfarrapado, manchado de imundície e sangue que o cobria precariamente, fazendo que fosse capaz de ver precariamente o dragão dando a volta por seu tronco, as escamas variando de um roxo quase branco até um quase negro, fazendo com que parecesse ser feito de uma tempestade de raios.
Seus cabelos eram ruivos, cor de fogo refletindo um brilho dourado quase como os de Esben faziam, e seus olhos estavam inchados por lágrimas e com diversas marcas arroxeadas, os lábios partidos e o sangue estava escorrendo por seu nariz. Mas o que chamou mesmo sua atenção foi o que se encontrava atrás do garoto.
Eram asas. Exatamente do modo que imaginaria as asas de um anjo, porém elas traziam um dourado tenro e claro, como se o brilho do ouro se espalhasse por elas. Os membros estavam caídos e dobrados de modo não natural, claramente quebradas, as plumas sujas de sangue e terra, soltando-se enquanto se arrastavam pelo chão. O menino as puxava para poder andar, e percebeu então que elas estavam arrancadas até quase metade de suas ligações às costas do garoto. Estremeceu apenas ao imaginar quanta dor ele sentia.
Mas por que ele tinha asas? Ele claramente era parte Talbordai e Bergal para possuir o dragão, mas também era Arel? Sabia que aquela era a única raça a possuir asas devido ao fato de sua nação ser construída sobre as nuvens.
Deixando aqueles pensamentos de lado, foi até o menino. Suas orelhas se moveram com o som dos passos, orelhas compridas e afiladas de um elfo, e ele arregalou os olhos, olhando envolta assustado até Klodike parar à sua frente. Seus olhos eram um conjunto de cores que jamais pensara ver: Variavam entre um tom de turmalina, azul escuro, um roxo vivo e um tenro vermelho que se moviam lentamente em um redemoinho, com diversos pontos de outras cores como folhas ao vento. Constatou que o garoto realmente deveria ser parte Arel.
– Q-Quem é você?! – questionou com a voz esganiçada.
– Acalme-se. – respondeu simplesmente. – Me chamo Klodike. Qual seu nome?
Ele piscou, parecendo confuso. Sua boca se abriu, embora tenha tremido durante alguns segundos antes de responder.
– A... Amren. S-sua voz...
Klodike franziu o cenho.
– O que tem minha voz?
– E-eu juro... Eu ouvi ela na minha cabeça... Ela... — ele soltou uma de suas asas e ela emitiu um nauseante som de carne se rasgando, o que fez Amren soltar um grito agudo. Klodike saltou em frente, pegando-a antes dela se rasgar ainda mais com seu próprio peso. O sangue escorria pelas penas e ela era quente, mas ao mesmo tempo com uma estranha sensação gelada, além das pumas serem irrealmente macias.
– Certo Amren, vamos tentar ir para dentro...
– Dentro? – questionou com a voz retorcida de dor, interrompendo o mais velho.
– Dentro. – respondeu rapidamente. – Precisamos tratar esses machucados para que você não pegue uma infecção ou algo pior, e darei um jeito nessas asas, tudo bem?
– As asas...? Acho que não tem mais jeito, eles quase arrancaram... – lamentou.
“Eles?” pensou. Mas decidiu deixar para depois. Aquele garoto certamente estava sentindo muito mais dor do que deveria ser permitido para alguém para a idade dele.
Foi uma viagem lenta e desajeitada até Nidhi. Tinha de segurar as asas e Amren, que por vezes parecia estar prestes a desfalecer. Reparou que o que mais pesava no garoto eram justamente as asas, já que ele nos momentos em que acabara por carrega-lo ele parecia pesar tanto quanto uma criança de colo. Pensando bem, fazia sentido, já que deveria ser mais fácil voar com dez quilos do que com cinquenta. Talvez ele possuísse ossos ocos como os dos pássaros, coisa do tipo.
Teve de arrastá-lo até a antiga casa de curandeiros, sem ter tempo de lhe explicar a quantidade absurda de cadáveres ali. Entretanto o menino não pareceu exatamente chocado, apenas surpreso e não disse nada. Questionou-se o que ele havia visto para ter tido aquele tipo de reação.
Deixou-o sentado num dos tapetes numa das salas repletas de prateleiras com unguentos e remédios naturais, além de poções e extratos, que incrivelmente estava sem cadáveres, indo atrás de água e qualquer coisa que o ajudasse com os ferimentos de Amren. Havia um conjunto de fontes de pedras que despejavam água num tanque que claramente canalizava o que não havia sido utilizado para o rio. Encontrou uma cuia a qual encheu de água e uns panos limpos semelhantes à gaze. Aproveitou para lavar as mãos também.
De volta à sala, Amren estava sentado abraçando seus joelhos, olhando para o nada. Sentou-se silenciosamente atrás dele, colocando as coisas sobre o tapete. Viu primeiro as asas que ostentavam claramente os piores ferimentos. Percebeu que eles eram extremamente recentes, obra daquele dia mesmo, e o sangue escorria em abundância. Limpou o local o mais levemente que conseguiu, ainda vendo o menino se crispando quando tocou na ferida sangrenta.
Não sabia exatamente quais as diferenças entre o seu esqueleto e o alado de Amren, porém viu que havia ossos partidos – ao dar uma boa olhada realmente constatou que eles eram ocos, porém quando tocou, o que causou outra reação ao menino, eles eram de um material resinoso espantosamente resistente -, tendões rompidos e músculos rasgados, além das asas estarem claramente quebradas em várias áreas. Quem quer que houvesse feito aquilo, não teve pena pelo fato dele ser uma criança.
– Você disse que ouviu minha voz. – disse quando terminou de limpar toda a região das asas. – Como assim?
– Eu não sei... Quando invadiram a minha casa eu só ouvi alguma coisa que não entendi direito, como se estivessem falando dentro da minha cabeça. – Os ombros de Amren despencaram. – Só entendi que era para eu vir para cá.
Recordou-se do que dissera na noite anterior, o que o fez morder a própria língua, ato que se arrependeu imediatamente, já que o sangue invadiu sua boca. Estremeceu, sacudindo a cabeça, e pegou-se questionando qual era a extensão de sua voz, já que Amren o escutara.
– Invadiram sua casa? De onde você é?
– Berga. Na península de Lanying. – Klodike engoliu o seco silenciosamente. Aquela era conhecidamente a região mais distante – e gelada – do continente. E isso fez que outra questão acendesse na mente de Klodike.
– Espere, você disse que ouviu minha voz, mas eu falei isso, mesmo que sem querer, ontem. É impossível se chegar aqui tão rápido, só se você houvesse usado...
– Havia correntes de vento e um tufão. – Amren cobriu o rosto com as mãos. – Alguém contou sobre mim e minha irmã e os soldados invadiram minha casa. Minha mãe... – sua voz falhou. – Eu só agarrei Aderyn e saí voando.
– Sua irmã? Mas você...
– Chegando quase aqui... – sua voz foi diminuindo. – Dois elfos de vento apareceram. Eles levaram ela e fizeram isso comigo porque tentei impedir...
Uma aura depressiva se formou envolta de Amren, enquanto Klodike continuava o encarando.
– Elfos de vento...? Mas por que...
– Eu não sei. Desde que Aderyn nasceu meu pai sempre disse que era para escondermos ela.
– Seu pai é Arel?
– Meio Arel, meio Talbordai. Meio elfo de vento, meio elfo de fogo. – foi a resposta. – Está tendo uma guerra lá também, e parece que há mais tempo do que aqui. – ele acabou soltando um soluço misturado a um gemido de dor. – Ele vive para lá e faz uns anos que não volta...
Decidiu parar de perguntar. Pousou uma mão em suas costas e simplesmente disse “Cure-se”, como fizera com Carleon no dia anterior. O menino estremeceu e como se houvessem cordas invisíveis suas asas foram puxadas para o lugar. Com alguns estalos os ossos quebrados foram postos no lugar, os cortes e ferimentos foram se fechando e viu a carne voltando a se ligar. Ele olhou surpreso para si mesmo, abrindo e fechando as asas, verificando-as.
– Nossa! O que você fez? Magia?
– Podemos dizer que sim. – levantou-se, mas quase caiu quando Amren deu uma batida mais vigorosa, fazendo com que o vento soprasse quase como um redemoinho dentro da sala, Klodike quase voasse e os frascos começaram a voar loucamente.
–... Desculpe. – Amren disse no momento em que tudo parou.
– Tudo certo. Só... Avise, caso for fazer isso de novo.
Ele assentiu, e Klodike percebeu que o garoto fizera aquilo para retirar a sujeira e sangue das asas, que jaziam agora perfeitamente limpas. Ainda assim, ele as pegou, alisando e ajeitando as penas, até as afofando. Não deixou de rir silenciosamente – embora lhe desse aquela pontada de culpa — ao ouvi-lo rogando pragas e maldições aos elfos de um modo que deixaria qualquer mãe escandalizada.
–... Posso fazer uma pergunta?
– Claro.
–... O que você é?
Admitiu que já esperava por aquilo.
– É uma longa história. – suspirou. – Tecnicamente falando, eu sou o segundo dos quatro primeiro Galrdai. – ele o olhou surpreso. – Mas aconteceu uma coisa ontem, então agora estou assim.
– Tem algo a ver com essa cidade?
– Tem.
– E todos esses mortos? Quer dizer, nunca vi ninguém assim.... E você é igual à eles!
– É uma longa história... Muito longa. – Desceu o olhar para as roupas do garoto, vendo novamente o dragão. Olhando com atenção, ele dava a volta por seu tronco, aparecendo na altura do lado direito do quadril e sua cabeça terminava em seu ombro esquerdo. Recordou-se de que o seu dragão somente havia surgido quando encontrara Dekhi numa situação de quase morte. – Essa marca em você, como apareceu?
Amren olhou um tanto surpreso para Klodike, depois descendo o olhar para o próprio ombro. Pareceu ser naquele momento que percebeu o quão destroçadas suas roupas estavam.
– Eu... Foi depois de que os soldados invadiram a cidade onde eu nasci. – murmurou. – Tinham muitos Galrdais por lá, e.... Bom, foi horrível. Eles matavam os pais e pegavam as crianças. Quando tentaram fazer o mesmo com a minha mãe eu não resisti e pulei nos soldados. Nós quase morremos, mas conseguimos ir para a vila em que vivia até ontem.
– Espera... – só então pareceu se dar conta do que ele dizia. – Os soldados Bergais atacam o próprio povo?
– Não, só os soldados do General. – ele girou ligeiramente a cabeça. – Aqui para Talbor não sabem? Quem começou a guerra não foi o príncipe Wenyan, foi o General Jeong, o pai da princesa Soah. – ele fungou, fazendo Klodike lembrar do sangue escorrendo de seu nariz. – O príncipe é contra a guerra.
– E ele não pode pará-la?
– Não sei, não sou ele. – respondeu. – Mas sei que ele está tentando. Dizem que está havendo duas guerras: Bergais contra Talbordais e o Príncipe contra o General. Mas ninguém sabe de onde ele arranja tantos soldados para ambas as guerras. As coisas ficaram ainda piores ano passado.
– Por quê?
– O General, em praça pública... Executou o Príncipe Zian, o príncipe mais novo. – Klodike sentiu os olhos se arregalando. – Por “alta traição”.
– Que seria...?
– Ele era casado com uma Talbordai, e se recusou a entregar os filhos deles. – ele fungou novamente. – Você é um dos primeiros, certo? Depois de vocês, dizem que os filhos do príncipe Zian são os Galrdai mais poderosos existentes. E eles sumiram, o que levou à execução dos pais deles.
Klodike abriu a boca para dizer algo, mas sua mente acabou funcionando mais rápido que sua boca. Talvez por toda a situação envolvendo a consorte do príncipe, sempre assumira que fora ele que iniciara toda aquela confusão. Porém, agora parando para pensar... Fora o pai dela que iniciara tudo. Bom, também havia certa lógica, mas não seria a primeira coisa que Klodike pensaria.
Amren o olhava esperando alguma resposta, e depois de algum tempo, sentindo-se ligeiramente estúpido, Klodike apenas disse:
– Certo, vamos atrás de algumas roupas para você.
–... Onde? Quer dizer, este lugar é no meio do....
– Havia lojas, bazares e vendedores nesta cidade.
Mesmo sabendo ser tecnicamente impossível, jurou que o menino empalideceu.
– Mas... São coisas dos mortos... – começou.
– É estranho no começo, eu sei. Mas eles não se importarão, já que estão mortos há trinta mil anos. – foi a resposta, fazendo que os olhos do menino quase dobrassem de tamanho.
–... Quantos anos você tem?
–... Dezenove. – teve vontade de rir. Aquela indagação não o surpreendera, já que sabia quanto à sua aparência. – Acho que depois, poderei apresenta-lo aos dragões.
Admitiu que foi maligno de sua parte dizer aquilo. Mas também admitiu que a reação do garoto foi algo que valeu à pena.
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