Senhor dos Dragões
4 Capítulo 3 - Passagem
Notas iniciais
Capítulo 3 – Passagem
E assim o tempo passou. Quando já estava aproximadamente há duas semanas com os dragões, um extremamente fraco e cansado Rarac apareceu, depois de aparentemente ter viajado sem descanso por dias a fio. Ele caíra próximo à Klodike, que estava sentado no vale, assustando-o.
– Mas como você me encontrou?! – questionara num tom incrédulo.
– O sangue chama. – respondera simplesmente antes de literalmente desmaiar de cansaço.
Fora um tanto trabalhoso convencer os dragões à deixar o Denor em paz. Quase tão trabalhoso quanto eles pararem de trata-lo como um invasor, vê-lo com desconfiança, e pararem de agirem como se fossem lhe dar uma dentada a qualquer momento. Obviamente, assim como havia pessoas mais influenciáveis do que outras, havia dragões mais influenciáveis do que outros. Alguns fizeram exatamente o que Saadi pedira, e havia ainda alguns – mais velhos, incrivelmente – que chegavam a tratar Klodike com alguma simpatia.
Havia os que lhes deram problemas. E a grande maioria eram dragões jovens, aparentemente na fase em que tentavam à todo custo demonstrar sua ferocidade e não aceitavam aquele “duas pernas” entre eles. Perdeu as contas de quantas vezes atacaram Desiderius enquanto montava nele ou acabaram fazendo-o passar por situações semi suicidas como ter de se jogar do topo da cachoeira do vale afim de escapar de um dragão – concidentemente, o mesmo dragão azul que quase o abocanhara quando não queimara – que derrubara um rochedo enquanto voava por ali no momento em que Klodike bebia água na beira.
– Sinceramente – comentou enquanto soprava fogo num peixe que havia apanhado com uma lança improvisada. Como estava insosso e destemperado, o gosto era horrível. – eu esperaria ter problemas com os dragões mais velhos, não os mais novos.
– Todos aprendemos a ignorar eles. – Desiderius disse antes de enfiar a cabeçorra na água, trazendo um peixe bem maior do que qualquer um que Klodike conseguiria pescar. O animal se debatia vigorosamente, mas do mesmo modo o dragão negro o engoliu de um modo que o fez recordar de uma foca. – Eles importunam todos, menos Saadi, Zan e Carleon.
– Mesmo você e Sanguine? – questionou enquanto Rarac se atirava à água na forma de um mergulhão, assim como o dragão voltara com um peixe bem maior que o seu. Não sabia qual era seu problema, sempre pegando os piores.
– Principalmente eu e Sanguine. – ele cuspiu praticamente toda a ossada do peixe. Não fazia a mínima ideia como o dragão conseguia comer toda a carne sem quebrar as espinhas, mas ainda assim era algo impressionante de se ver. – Somos ovos abandonados e nomes semelhantes aos de duas pernas. Quer mais algum motivo?
– Bom, você é um dragão negro e ela é uma branca. Não são esses considerados os dragões mais importantes, pelo menos entre os de fogo?
– Você ouviu o que eu acabei de dizer, duas pernas?
– Eu ouvi, só estou argumentando. – cuspiu o peixe que comia. – Argh, isso está horrível.
– Não entendo pra quê vocês põe fogo na comida de vocês. Cru é fresco.
– Assado também, só que não conheço nada aqui com que eu possa temperar a comida.
– Temperar?
– É, nós... Pegamos alguns tipos de plantas, e as usamos para realçar ou deixar o gosto da comida assada melhor.
– Me parece a mesma coisa.
– Ao contrário de vocês dragões, para nós comer comida crua é nojento.
– Depois reclama por causa dos dragões que lhe causam problemas. – Desiderius alfinetou voltando a pôr a cabeça na água. Klodike quase travou quando estava prestes a jogar seu peixe fora. O dragão pôs a cabeça para fora da água, encarando-o com o peixe preso entre os dentes e perguntou de forma abafada – O que foi?
– Parece loucura, parece nojento em outras perspectivas, mas... Consegue dizer algumas coisas que vocês fazem e que eu pelo menos não faça?
Rarac o olhou com desconfiança, já percebendo que coisa boa não viria.
O dragão o olhara como se fosse louco, porém ao fim fez uma longa lista de coisas que nem se passariam pela cabeça do rapaz, que anotou tudo mentalmente.
Ao fim, acabou conseguindo que o tratassem com normalidade após um longo tempo –um ano — fazendo coisas que jamais pensara em fazer, como caçar animais com as próprias mãos, comendo sua carne ainda crua – admitiu que fora, pelo menos para si, a parte mais estranha para seus próprios costumes. -, e tentando não invadir nenhum território, nem se meter com os filhotes. Depois de algum tempo pegou-se falando quase do modo que os dragões falavam, além de seus passos estarem mais leves do que nunca, fato que tivera de praticar para conseguir comida. Pelo costume, constantemente acabava usando os dedos quase como garras, além de ter conseguido confiança o suficiente em si mesmo para escalar distâncias absurdas rapidamente sem qualquer tipo de proteção.
– Mas eu continuo não gostando de carne crua. – reclamou outro dia após ter quebrado o pescoço de um antílope.
– Você é um enjoado, Klodike, isso é tudo o que tenho a dizer.
– Você não é muito diferente de mim, isso é tudo o que tenho a dizer. – retrucou, o dragão pegando o corpo do antílope morto pelo pescoço. – Você não disse que havia comido o suficiente? Por que está pegando a minha comida?!
– Não é para mim. – retrucou. – É para Saadi. Além do quê, você não come tudo isso sozinho.
– Saadi? – sabia obviamente que ela era muito velha. Porém ela ainda assim por vezes saía para caçar e fazer as trivialidades de qualquer dragão, embora não se aventurasse tanto do lado de fora quanto os dragões mais jovens, preferindo se manter em seu ninho de pedra. – Posso ir junto?
– Não estava reclamando que a comida é sua?
– Estou perguntando sobre o que há com Saadi. – rebateu, já montando nos ombros do dragão negro. Estava virando já um costume quase tão natural quanto acordar e levantar. O jovem dragão se chocalhou levemente.
– Parece que a idade está levando o que resta dela. – respondeu enquanto alçava voo. – Ela anda fraca demais para se levantar do ninho. Não que seja exatamente inesperado, já que trinta e um mil anos é demais até para nós. Na realidade, mais surpreendente do que ela ter sobrevivido tanto é o modo de como ela está inteira.
– Isso é verdade... Mas ela chegou ao ponto de nem conseguir caçar?
– Pelo menos, ela me pediu para que levasse comida à ela.
Pensou em responder, porém decidiu se manter quieto. Naquele ano que passara ali percebera uma estranha afeição entre a velha dragoa e o jovem dragão, mas não era exatamente o tipo de coisa que veria todos os dias. Desiderius passava boa parte de seu tempo perto dela, conversando e sempre ouvia qualquer aviso e sempre realizava qualquer pedido dela. Não sabia dizer se era alguma relação fraternal, algo mãe – ou avó – e filho, uma amizade profunda ou se a versão do que os dragões chamavam de amor romântico. Sabia entretanto que era forte.
A dragoa, como dito, estava em seu ninho de pedra, deitada com a cabeça descansando sobre o chão, aparentemente descansando sob o sol. O ninho era grande o suficiente para que ela, Klodike e Desiderius coubessem ali dentro, e sob seus pés descalços sentia-o recoberto de grama, fato que sequer passara por sua cabeça na primeira vez que o vira.
Ela abriu os olhos quando o dragão negro pousou à sua frente. Pela primeira vez Klodike a via remotamente fraca. Parecia que ela mal poderia se mover. Com um suspiro cansado, a dragoa pegou a carcaça, a cada pedaço arrancado parecia que um pouco da força dela se esvaía. Desiderius disse que iria conseguir mais comida, saindo de lá e deixando-a sozinha com Klodike.
– Há quanto tempo está aqui, pequenino? – questionou repentinamente. Sua voz soava baixa e falha.
–... Não sei. Acho que... No máximo um ano e alguns meses. – respondeu. -... Mas Saadi, como você está?
– A morte vem para todos Klodike. – foi a resposta. – Até mesmo para os dragões.
Sentiu um ligeiro aperto na garganta. Gostava da dragoa. Por vezes ia com Desiderius ao encontro dela, sentando-se em seu ninho e podendo conversar com ela por horas à fio. Ela lhe perguntava sobre “o mundo além das montanhas” os quais os dragões haviam se isolado, e lhe contava sobre seu tempo com os dragoneses. Fora a dragoa de Nadezdha, o Dragão Mago, que por pouco, muito pouco, poderia ter sido o líder de Nidhi, já que ela era uma dragoa branca, porém suas poucas escamas douradas lhe renderam um lugar como segundo no comando e conselheiro de Shirong, pelo menos duzentos anos mais novo. Sua morte lhe fora um golpe forte, pois ela literalmente fora unida a ele quando era um filhote e ele era um bebê, assim perdendo seu companheiro de toda a vida.
– Você acha que... Está prestes a morrer?
– Sim. Embora não hoje, não agora. Mas sinto a hora de me juntar à Asmait chegar, tão próxima que posso praticamente tocá-la. – um suspiro cansado escapou de suas narinas.
– Asmait?
– O primeiro dragão. O criador de tudo. Klodike, você me disse quando chegou que está havendo uma guerra, não disse?
– Sim, entre Bergais e Talbordais.
– Me diga, nesses meses que acha que passou aqui, o que acha que aconteceu?
Fora pego desprevenido. Sinceramente, o que poderia ter ocorrido? Passara quase metade de um ano numa bolha de paz com aqueles dragões. Sabia que em um ano poderia ocorrer muita, e que quando se estava em guerra, um ano significava vidas perdidas e mais um ano com aquele conflito estendendo-se num banho de sangue.
– Sinceramente, não faço a mínima ideia. – respondeu. – Muita coisa pode ter acontecido. Os Bergais podem estar com uma vantagem, podem ter vencido. Os Talbordais podem ter conseguido vantagem, podendo vencer. Ou a guerra pode ter continuado estagnada.
– Sente-se mal por isso? Manter-se afastado durante tanto tempo?
– Agora que você falou... Me sinto. Quer dizer, aos poucos pude ir esquecendo de minhas preocupações aqui, pude acho que chegar o mais próximo de relaxar em um bom tempo, além de ter aprendido coisas que... Minha nossa. Não sei nem por onde começar. Mas fora daqui há minha família, meus irmãos, meus pais e.... Alguém com quem me importo demais.
Saadi o fitou intensamente com seus olhos dourados. Estava certo, o fato nunca saíra exatamente de sua cabeça, mas... Como havia se descuidado ao ponto de não pensar nas consequências. Se estava desaparecido há um ano, o que poderiam ter feito à Far? Poderiam nem saber sobre seu desaparecimento/suposta morte, mas se soubessem... O que poderia ter ocorrido? Poderiam tê-la mantido presa, ou teriam a matado, vendido como escrava? O que ela poderia ter passado nesses um ano e quatro meses desde sua captura?
Havia também seus irmãos, seus pais. Como dissera antes, um ano numa guerra era muita coisa, assim não fazia muita ideia do que poderia ter ocorrido a eles.
– Quando Desiderius retornar, quero que vocês vão à Nidhi. – disse, chamando a atenção de Klodike. – Lá, quero que se vista com as melhores roupas que encontrar, do mesmo modo que se vestiria para uma festa ou uma cerimônia.
Estranhou imediatamente. Uma das coisas que os dragões mais o alfinetavam era seu costume de se vestir, mesmo que como Saadi pedira, nunca mais cobrira seu tronco, sempre deixando a marca de dragão à mostra.
–... Por que, Saadi?
– No topo de Amardad, próximo ao cume, há um templo. – disse. – Quando um Dragão negro ou um Dragão branco iria subir à liderança de Nidhi, uma procissão realizada por todos os Dragões da época para o Templo dos Antigos. Infelizmente, não há nenhum outro Dragão aqui, e não tenho mais condições de acompanha-los, além de Nadezdha não mais existir neste plano.
– E o que há lá?
– Não sei. – admitiu. – O Dragão em questão adentrava sozinho no templo, e permanecia ali por três dias. A questão é, você consegue se misturar, se entender com os outros de minha raça...
– Com esforço.
– Sim, com esforço. Mas não seria qualquer um capaz de conseguir o mínimo de respeito de minha raça. – Ela balançou a cabeça brevemente. – Você tem a marca. O dragão está com você. Creio que seja o suficiente para conseguir adentrar.
Emitiu um suspiro, mas assentiu.
– E você Saadi? Tem certeza de que não é nada passageiro ou uma indisposição?
– Consigo sentir pequenino. – uma risada baixa foi emitida ao ver sua expressão. – Não se preocupe comigo, não há o que temer na morte quando se vive sua vida intensamente. Vivi até o ponto de ser demais, então considero o que virá como o merecido descanso depois destes milênios, ou, quem sabe, a mais emocionante das viagens. Apenas o momento me dirá.
Desiderius retornou com mais alimento, pousando-o próximo à Saadi. Klodike lhe informou quanto ao pedido da dragoa, e montando-o mais uma vez, retornaram à Nidhi.
Parecia estranho pensar daquele modo, porém havia se habituado aos mortos da cidade. Por vezes retornava ali, explorando os cantos. Não havia condições de remover a todos estando sozinho, e havia algo que o impedia de fazer o mesmo.
Pousaram no que sempre lhe parecera ser o bazar. Parecia ser o local mais apinhado de pessoas, e havia diversas barracas e lojas ainda dispondo seus produtos.
– Sinceramente, o que quer dizer “se arrumar” para vocês?
– Nós temos praticamente uma roupa para cada situação, além dos materiais e o modo de como ela é feita serem indicadores de o quão sofisticada ela é e pode inclusive indicar a classe social da pessoa. – respondeu. – As roupas que uso aqui, com vocês, normalmente me fariam ser confundido por um trabalhador braçal ou um escravo. – exemplificou. – E não é o tipo de roupa que eu usaria para ir num templo ou numa festividade. Seria considerado desrespeitoso.
– Vocês duas pernas são complicados. – reclamou. – Para quê ter todas estas coberturas se é muito mais fácil...
– Ao contrário de vocês, nossa pele não é tão resistente. Usamos roupas para protege-la, principalmente porque temos áreas mais sensíveis do que outras.
O dragão ainda reclamou alguma coisa, mas Klodike foi atrás de roupas. Tinha que admitir que os anos que passara como Jake Silverman na Terra acabaram por bagunçar ligeiramente o modo de se arrumar, ainda mais sendo um homem. Lá, significava ter suas roupas bem alinhadas e cabelo arrumado, dependendo da situação, um terno ou algo do tipo. Em Aurtrai, principalmente em Talbor, onde fora criado, era diferente. Dependendo da situação, usava-se joias, roupas de seda bordadas e muitas outras coisas.
A questão era, Klodike não era o que se podia chamar de vaidoso. Sabia o que deveria vestir, mas ainda assim não se sentia impelido à opulência. Vestiu-se com vestes elegantes, azul marinha, douradas, com as calças de um tom claro semelhante à areia, encontradas dobradas nos fundos de uma loja repleta de tecidos. Ainda assim, sentiu-se um tanto intimidado com os mortos.
Os sapatos eram revertidos de um couro confortável, embora fossem de tecido dourado por fora. Não via a necessidade de se cobrir de joias, assim apenas pôs quatro braceletes. Dois compridos em seus pulsos, e dois nos braços. Continuou com seu amuleto de Dekhi, e não havia o que arrumar o cabelo. Eles haviam crescido – assim como suas sobrancelhas -, porém havia os mantido bem mais curtos do que tinha costume por uma questão de praticidade, além de que não tinha a intenção de se manter desgrenhado. Tudo o que precisava, normalmente, era apenas passar a mão e pronto, estava ajeitado.
– Devo admitir que não parece tão patético vestido assim.
– A sua afeição me toca, Desiderius.
Montou no dragão mais uma vez naquele dia, e juntos saíram da cidade. Uma coisa que sempre se lembrava mas esquecia-se toda vez que desmontava era ter de procurar algo para proteger seus olhos devido à velocidade extrema do dragão. Sabia que dependendo de o quão rápido ele se encontrava, um grão de areia poderia cegá-lo.
O dragão iniciou a subida. Klodike não sabia exatamente o quanto Amardad tinha de altura, porém sabia que ela despontava como a mais alta montanha conhecida, então, num parâmetro, ela deveria possuir mais ou menos a altura do Monte Everest, ou era o que pensava. O pico permanecia num permanente véu de névoa, adentrando as nuvens, e sabia que o topo deveria ser coberto de neve. O frio não iria incomodá-lo, já que era parte Bergal, e provavelmente a temperatura interna de Desiderius se manteria constante.
O vento assobiava, porém não nevava. Viu quando a vegetação se tornava mais rarefeita e deu lugar à neve branca e quase sempre uniforme, porém se surpreendeu ao ver ainda sinais de pedras entalhadas, provavelmente indicando o caminho. Não viu corpos ali, porém questionou-se se os dragoneses peregrinavam o local por algum motivo.
Desiderius precisou de quase duas horas para chegar ao topo. Quando chegaram, o ar rarefeito pesava para o dragão, que sentou-se na neve, arfando com a língua vermelha carmesim para fora, quase como um cão cansado. Klodike derreteu um círculo de neve, formando água da qual o dragão bebeu, parecendo melhorar. Olhou para cima, vendo a lua de Tsuki erguendo-se majestosa no céu acompanhada pelas menores e o brilho das milhões de estrelas começava a despontar, enquanto o sol despedia-se no horizonte.
À frente deles havia um templo, como havia sido dito por Saadi. As paredes e colunas erguiam-se monumentais, quase como outras montanhas em si, de pedra cinzenta. Ao fundo havia um imenso portal com entalhes semelhantes aos dos portais do imenso palácio de Nidhi, porém era ainda mais suntuoso. Os desenhos pareciam ter sido gravados em ouro, os olhos das figuras e pessoas eram feitas de pedras preciosas, as portas sendo inteiramente feita de pedra vulcânica, ligeiramente translucida. Ladeando-a, haviam doze estátuas como guaritas, seis homens e seis mulheres em alternância, seus trajes de pedra branca semelhante à mármore parecendo esvoaçar, as damas traziam complicados penteados e ornamentos em suas cabeças, além de joias e vestidos incrivelmente detalhados que pareciam ser reais. Os homens jaziam ou sentados no que lhe pareceu ser nuvens voadoras ou em pé mesmo, com instrumentos musicais em suas mãos, enquanto as mulheres jaziam em posições graciosas, como se dançassem à uma música silenciosa.
– Pessoas celestiais... – Klodike murmurou. – Por que não estou surpreso em vê-las em construções de milênios atrás?
– O quê? – Desiderius questionou.
– Essas estátuas. As figuras representadas aí são ditas como sendo os animadores dos deuses. – deu de ombros – Como entramos? Essa porta abre sozinha como a do palácio de Nidhi?
– Não me pergunte como se eu soubesse.
Seguiram, subindo as escadarias de pedra em direção à entrada, porém no momento em que pisou ali, deu um pulo quando a música começou a tocar. Desiderius olhou envolta, sobressaltado, os sons de chocalhos, tambores, flautas, além do canto de vozes femininas preenchendo os ouvidos de ambos em uma língua desconhecida. O cheiro de jasmim e sândalo preencheu as narinas de Klodike, além de algo como incenso, e com o mero ato de piscar, parecia que pétalas de flores choviam lentamente sobre eles, uma profusão de cores de tecidos translúcidos explodindo à sua frente, como se fossem as vestes das dançarinas.
Mais assustados do que maravilhados, homem e dragão foram rapidamente até a porta tentando não olhar envolta, que se abriu sozinha como sugerido por Klodike. No momento em que ela se fechou às costas de ambos, a música, as vozes e as risadas pararam.
– Certo... – Klodike retirou as pétalas que ainda estavam em seu cabelo. – O que foi isso?
– Não sei e tenho raiva de quem sabe.
Estava escuro ao ponto de nem mesmo o Galrdai ver o que havia à sua frente. Deu um passo à frente e novamente assustando a ambos, pratos repletos de óleo presos às paredes foram se acendendo gradualmente por um longo caminho. Haviam escadas à sua frente, descendo para um longo e largo corredor ladeado por imensas estátuas ainda mais magníficas do que os músicos e dançarinas do lado de fora. Haviam cinco homens, e cinco mulheres, e ao fim do caminho havia uma gigantesca estátua erguendo-se diante eles, erguida como se voasse, completamente negra. Era um imenso dragão negro, suas escamas posicionando-se pontiagudas como os espinhos que seguiam por toda sua coluna. Abaixo dele havia um trono de pelo menos vinte metros de altura, onde estava esculpida a imagem do mesmo homem de cabelos compridos gravado na porta de Nidhi. Seu nariz era afilado e os olhos eram bem desenhados, sendo totalmente esculpido com a mesma pedra negra do dragão.
– Essas estátuas fazem com que eu me sinta pequeno. – Desiderius resmungou. – Não gosto disso.
– E eu, que sou menor do que você? Bem, temos que seguir em frente.
Foram pelo caminho iluminado, e enquanto passavam pelas estátuas colossais, questionou-se se aqueles não eram os deuses do panteão Dragonês. Sabia, graças aos seus pais, de cor os panteões Talbordai e Bergal, mas eles haviam vindo antes de ambas as civilizações. Não faria sentido eles adorarem os mesmos deuses do que ambas as raças, já que os deuses Talbordai eram de raças de Talbor, e os Bergais eram de raças de Berga, e segundo Saadi, eles haviam criado ambas as civilizações.
O próximo recinto era bem menor. Não mais colossal, mas sim um longo túnel que era alto o suficiente para que Desiderius pudesse manter o pescoço erguido, não muito mais que isso. Haviam diversas salas sem portas, e à medida que passavam, Klodike percebeu que eram túmulos. Era como se os pertences pessoais houvessem sido levados para o local e ao fundo havia sempre um sarcófago de pedra, alguns sendo brancos, outros sendo negros.
– Aqui – Klodike constatou. – era onde os corpos dos Dragões Negros e os Dragões Brancos eram sepultados.
Desiderius soltou um resmungo de concordância. Parecia que o local se estendia ao infinito, fazendo com que o rapaz se questionasse quantos governantes a cidade poderia ter tido. As paredes envolta de cada sala eram entalhadas, como se contassem a história de cada governante, seus feitos e decisões, quase como os desenhos dos mausoléus egípcios, embora certamente os dragoneses não houvessem nada contra representar pessoas de frente e com o máximo de detalhes possíveis, fazendo com que parecesse haver miniaturas de pessoas em cada quadro. Dragões eram uma constante, e sempre havia uma pessoa entalhada ou em negro ou em branco.
Ao fim havia um portão de ferro fundido como garras que subiu sozinho ao se aproximarem. Havia um corredor estreito – e comprido, para variar — ladeado com água logo abaixo deles, havendo uma infinidade de plantas aquáticas e peixes desconhecidos para Klodike, dando para outra imensa porta ao final, esta totalmente dourada. Assim que desceram, a água começou a borbulhar e com um rugido, quatro estátuas se ergueram, como sentinelas. Percebeu que todos possuíam o mesmo rosto, apenas as vestes e os cabelos mudando, além da cor das pedras. Eram respectivamente branca, azul-gelo, vermelho sangue e dourada.
– Ah, não me diga que os dragoneses também tinham essa de quadrigêmeos... – Bufou.
Cada estátua, para o aterramento de Klodike, ergueu os enormes braços, batendo uma mão contra a outra e abrindo os membros, dispondo de uma enorme energia azulada escapando deles. Um tanto acuado, olhou para as telas formadas, vendo tronos, todos nas sombras, com pessoas indistinguíveis sentadas em cada um deles, apenas seus olhos de dragão brilhando na escuridão. Engoliu o seco, um tanto perturbado e seguiu em frente.
Mais uma vez a porta abriu-se sozinha, e dessa vez prendeu a respiração. Haviam descido várias vezes enquanto seguiam pelo único caminho disposto ali, assim não sabia se apenas isto influenciava o fato, ou se estava mesmo em um local monstruosamente alto. Sua cabeça pendeu para trás para poder ver o topo do recinto que deveria ter pelo menos o tamanho de um quarteirão, circular. As paredes eram como compridas prateleiras dando voltas em caracol, com milhares de estátuas negras e brancas de homens e mulheres dragoneses dispostas lado a lado, até chegar ao centro, onde havia uma estátua a qual reconheceu como sendo uma das quatro idênticas do recinto anterior, a branca. Seus cabelos caíam até os ombros, e em sua cabeça repousava uma espécie de coroa feita de escamas e chifres, os olhos entalhados em pedra preta e verde jade. Estava sentado num trono, e sua estátua tinha pelo menos metade da altura do recinto. Atrás dele, em pedra negra, estava de pé o mesmo homem de cabelos compridos que via de maneira recorrente, sua estátua assumindo o resto do comprimento até o topo.
Ao topo, um brilho despontava de maneira não natural, iluminando o local de maneira quase misteriosa.
– Acho – Desiderius chamou sua atenção, olhando para a imensa estátua branca. – que este com chifres foi o primeiro Dragão Branco da cidade.
– E o de negro?
– Talvez Asmait. Saadi uma vez me disse que ele é o dragão negro que criou o mundo, além dos dragões e as primeiras raças de duas pernas...
– Homens.
– Sim, e que ao fim escolheu uma para ser sua esposa, e que também devido a isso assumia uma forma duas pernas. Ela disse que os fundadores daquela cidade eram filhos dele, e os primeiros dragoneses.
– Faz sentido. Seu filho foi o primeiro Dragão. – baixou seu olhar, para todas as estátuas dispostas ali. – E esses foram cada um dos governantes.
Seu olhar parou, vendo algo entalhado na altura das pernas da imensa estátua. Os drapeados de suas vestes tornavam-se completamente planos, e sobre ela estavam gravadas palavras que Klodike não compreendeu, porém sentia algo. Era como se os símbolos brilhassem, chamando-o em sussurros ininteligíveis em uma língua gutural e desconhecida.
Hesitantemente, foi em direção à parede de pedra. A cada passo, parecia que mais e mais vozes juntavam-se aos sussurros, emitindo quase que um cântico. A cada passo, parecia que os olhos de uma estátua começavam a brilhar, e a cada passo, o primeiro Dragão parecia mais vivo, a pedra tornando-se mais intangível.
Quando parou, não existia mais pedra em frente à si, mas um nevoeiro. As pontas de seus pés despontavam no vazio e a brisa batia de leve em seu rosto. Soltou a respiração que não sabia que prendera. Seu coração parecia agitado, parecia antecipar algo que sequer fazia ideia do que era.
– Devemos entrar aí? – Desiderius questionou.
– Pelo visto.
Subiu no dragão, e com um impulso, mergulharam no vazio.
Não havia chão, não havia céu, não havia mar. O que havia era aquela névoa que parecia cheirar a incenso. Voaram em linha reta, perdendo a noção do tempo, até que outro rufar de asas juntou-se ao de Desiderius. Uma sombra começou a despontar em meio ao cinza entorpecente, cada vez mais próxima. Sem medo, continuaram. Um dragão negro surgiu. Maior que Desiderius, infinitamente mais musculoso. Ele era repleto de espinhos negros imponentes, os olhos vermelhos brilhando contra aquela névoa. Mas os olhos de Klodike foram para outro lugar.
Em suas costas, estava montado Shirong, o último Dragão negro.
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