Era quente. O dia nasceu mais quente do que o normal.

Ou isso ou eu só estava começando a queimar de raiva de mim mesma por ser tão burra e acabar revelando ao meu pai o meu mais segredo mais profundo. E isso porque consegui guardar até da própria pessoa. Eu devia estar muito dispersa na hora que falava.

Ele não disse nada, só me olhou. Ele não precisava dizer. Ele devia estar triste por saber que sua filha amava alguém pela primeira vez — Pelo menos a primeira vez que ele tinha conhecimento — e não ia poder ser correspondida nunca. Nem mesmo seria fácil esquecer.

Ele deve ter imaginado que o melhor seria que ele partisse e eu ficasse sem vê-lo por um bom tempo. A maioria das pessoas acha que quando você fica distante, você deixa de amar. Eu acho que dependendo da situação, esse amor só aumenta de tamanho, basta só que você mantenha isso vivo. As lembranças.

As lembranças naquele momento da minha vida eram coisas que ao mesmo tempo fortificavam e destruíam.

Eu sentia que meu pai sofria aquele meu sentimento próprio de certa forma, como se já tivesse passado por isso. Os olhos dele falavam comigo. Eu não sei se isso já aconteceu com ele — Provavelmente sim, porque apesar de meu pai, ele já teve minha idade. O fato é que eu normalmente não converso com meus pais sobre esse tipo de coisa. Não sei nem ao certo como eles se conheceram e como tudo se desenrolou. Só sei que ele ficou "cortejando" — Palavras do mesmo — a minha mãe na loja dela.

Eu não tinha o que falar. Não tinha nada pra falar, na verdade. Com meu pai sabendo do meu segredo, eu não sei se minha mãe acabaria sabendo. E se ela soubesse, eu ia acabar tendo que aguentar aquelas conversas cheias de frases de efeito sobre como tudo vai passar e como vou fazer outros amigos.

Porra, eu não quero outro amigo, muito menos quero esquecê-lo.

Eu continuava sem as menores ideias, e ainda achava que tinha magoado o Igor. Eu não queria vê-lo. Eu não queria ver Marcelo sem nada. Eu não queria. Queria que voltássemos ao ano passado, quando eu simplesmente não sabia que amava o meu melhor amigo e nem sabia que meu melhor amigo na verdade era gay.

Eu internamente não torcia para que o tempo voltasse, acho que era meu lado racional falando mais alto, mas sim que eu não dissesse isso a mais ninguém. Tudo se tornaria mais difícil. Eu não suportava quando as pessoas tinham pena de mim.

- Aline — Minha mãe me chamou. Comecei a indagar o que ela queria e se isso teria a ver com meus mais recentes pensamentos.
— Sim, mãe.
— Você se lembra que tia Gertrudes ligou, certo?
— Hm... — Procurei na minha cabeça até que me relembrei de forma inesperada. Eu normalmente esquecia de dar esse tipo de recado — Acho que sim mãe.
— Então, o Gabriel pediu seu número de telefone.
— O GABRIEL PEDIU MEU NÚMERO DE TELEFONE? — Berrei.
— Deus. — Minha mãe me olhava com espanto — Alguém gostou da notícia ou eu fiz uma merda muito grande.
— NÃO! — Percebi que berrava novamente — Quer dizer, não. Fez bem.
— Parece que alguém gostou do primo... — Minha mãe fez a voz de quem acabara de descobrir algo para ser a fofoca do ano.
— Ah, mãe! Não comece! — Bufei.
— Começar o que?
— Sempre que você descobre algo assim, começa a espalhar para todos que conhece.
— Claro que não, Aline! — Ela ficou irritada — Está chamando sua mãe de fofoqueira por acaso?
— É claro! — Continuei — Você é mesmo!
— Que absurdo! Minha própria filha dizendo essas coisas de mim! Não imagino o que você diz de mim pros seus amigos!
— Ah, mãe...
— Você vai ver que ninguém vai ficar sabendo de nada, porque eu não vou contar que você gosta daquele rapaz.
— Eu nunca disse que gostava dele!
— Pelos seus berros...
— Se não, por que ficou tão irritadinha achando que eu ia contar a todos?
— Porque eu não quero que os outros saibam! O que é óbvio! E você acha que pode sair contando pra todo mundo!
— Se você não quer que os outros saibam, isso prova que você gosta dele.
— Não, claro que não! — Eu sentia que, de alguma forma, estava ficando sem muitos recursos de resposta.
— Como não?
— Ah mãe, me deixa em paz! — Saí, batendo os pés, enquanto ela dava um risinho em tom de vitória. Espera só! Amanhã vou dizer que ela está gorda!
Resolvi ir para o meu quarto, para não aturar mais perguntas da minha mãe. Só por segurança, coloquei os fones de ouvido e comecei a ler um dos livros que tinham na minha estante, daqueles que eu já tinha lido mais de um milhão de vezes e não me cansava de ler de novo.
Dali a algum tempo — Não consigo exatamente recordar-me de quanto — eu adormeci. Só acordei completamente cansada e parcialmente irritada algumas horas depois, quando o telefone tocou.
— Alô? — Eu disse, meio impaciente.
— Aline? — Ele falou do outro lado da linha — É uma má hora?
— GABRIEL? — Eu gritei, jogando tudo que estava em cima de mim no meio do chão.
— Ahn... — Ele ficou meio confuso e assustado — Sim, sou eu.
— Desculpa, é que eu estava distraída e me assutei com o telefone. — Disse — E também não esperava que você ligasse.
— Desculpa se fiz mal em ligar, eu... — Ele disse, sem graça — A gente se fala uma outra hora, então.
— NÃO! — Gritei de novo — Quer dizer, não. Tudo bem. Eu é que peço desculpas!
— Sem problemas. Tem certeza de que não quer que eu ligue depois?
— Não, não. É uma hora perfeita.
— Eu peguei seu telefone com a tia Gertrudes. Na verdade ela pegou com a sua mãe e me deu, porque eu pedi. Queria te perguntar algo.
— Sim? — Fiquei sem ar naquele momento. Tudo veio na minha cabeça.
— É que eu combinei com alguns amigos de tocar aqui em casa. Gostaria de saber se você não gostaria de vir aqui. Pra assistir, quer dizer.
— Claro! — Fiquei empolgada — Eu adoraria!
— Legal! — Ele me acompanhou — Sábado às 16 horas, tá beleza?
Desliguei o telefone e resolvi não dormir de novo, pra não pensar que tinha sido um sonho. Naquele mesmo momento, tomei um susto ao ver a porta abrindo rapidamente.
— Ele te convidou pra sair?! Ele te convidou pra sair?! — Minha mãe perguntou, eufórica.
— Você estava ouvindo a minha conversa? — Fiquei irritada — E não quer que eu te chame de fofoqueira?!
— Responde de uma vez!
— MÃE!
— Sim ou não?
— Mãe! Isso é assunto meu!
— Não é não! — Ela exclamou — Eu tenho que deixar você ir!
— Não acredito que você está fazendo isso! — Reclamei.
— Vai me contar ou não?
— Tudo bem, eu... — Ela me cortou.
— Eu estava brincando com você, Aline. — Ela falou — É claro que você pode ir.
— Obrigada! Obrigada! Obrigada!
— Quer dizer, isso se eu pegar as suas notas e estiver tudo acima de 9.
— Você quer dizer 10?
— Melhor ainda!
— MÃE! — Exclamei.
— Pode ir. É na casa dele?
— É sim.
— Vai ter alguém lá, não é?
— MÃE! POR FAVOR!
— Eu preciso saber, Aline!
— É claro que vai ter, mãe!
— Então, tudo bem.
— Agora “tchau”, mãe.
— Vamos conversar sobre o seu encontro, filha! — Ela disse, ainda brincando.
— Tá, tá. Chega.
Ela saiu do meu quarto, e aí voltei a viajar na minha cama. Talvez fosse divertido conhecer os amigos de Gabriel.
Aquilo me fez pensar que eu deveria parecer bonita aos amigos dele. Eu não sabia porque aquilo tinha vindo na minha mente, mas veio. Era como se eles fossem estar ali simplesmente me julgando, para que ele pudesse fazer algo depois ou não. Era estranho, mas simplesmente era tudo que vinha na minha mente.
Não que eu quisesse que ele fizesse alguma coisa. Quer dizer, eu não sei se eu queria, na verdade. Ele tinha muito mais a ver comigo do que André, isso com certeza. Mas o André era muito mais fofo do que ele. Com Gabriel era como se fosse mais divertido e até mais empolgante.
Eu não sabia o que eu ia fazer, muito menos o que ia acontecer. Mas eu ia. Eu iria até o fim.