Sendo Aline
2 Capítulo 2
Acordei naquela manhã pensando que finalmente um mês de setembro prestaria e que as coisas mudariam, eu me sentiria melhor e todas as outras palhaçadas que alguém que está precisando de uma desculpa pra se mexer usa.
Adivinha? Sim, ele me mandou uma mensagem. Filha da puta!
O bom disso é que ele disse que não ia a aula hoje, porque teria coisas pra resolver. Achei ótimo (claro! Como se eu conseguisse enganar a baratinha que mora no terceiro andar da vizinha!).
Me arrumei, cantei no chuveiro e fui saltitante para o colégio. Acho que até minha mãe reparou na minha empolgação, e olha que ela simplesmente não funciona de manhã.
De qualquer forma fui pra lá, e cheguei junto a uma das minhas amigas do colégio, a Débora. Nos parecemos em muitas coisas, e sempre gostava de conversar com ela. Quer dizer, menos quando ela falava de garotos.
Quero dizer, não me entenda mal. Ela é uma pessoa maravilhosa, mas realmente é irritante o fato de ela gostar de um cara diferente a cada dia. Parece uma maníaca sexual. Qualquer dia vai me querer.
God, no. Please.
– Aline, que bom te ver! – Ela disse, me esmagando a me ver – Eu senti sua falta na semana passada e ontem você estava com o... Qual o nome daquele menino mesmo?
– Marcelo.
– Sim, você estava com o Marcelo – Ela me puxou pra que continuássemos andando – Falando nisso, ele tem namorada?
– NÃO! – Gritei, sem querer.
– Tudo bem – Ela me olhou com certo espanto – Desculpe.
– NÃO! – Gritei de novo – Quer dizer, eu não sei. Ele me contou sobre uma menina ontem, mas realmente não sei se ele tem namorada.
– Esse gritinho quer dizer que você queria ser? – Ela perguntou, com um sorrisinho.
– CLARO QUE NÃO! – SIM, SIM, SIM! – Eu só estava pensando em outra coisa.
– Em que? – Ela levantou a sobrancelha em dúvida.
– No garoto com quem estou ficando – Menti e impulsivamente comecei a andar mais rápido. Eu sempre fazia isso quando entravam num tópico que eu não queria.
– Espera! – Ela gritou empurrando todos no corredor com sua massa corporal avantajada – QUEM? CONTA TUDO!
– Ah, é só um rolo – Tentei fugir -, nada demais. Estamos deixando acontecer meio que às escondidas pra ver se gostamos um do outro.
– Entendi – Ela ficou um tanto quanto frustrada por eu não compartilhar -, mas quando quiser contar, eu estou aqui, tá?
Claro que está. Você adora uma boa fofoca.
– Claro que sim – Continue -, obrigada, amiga.
Entramos na sala. Ela sentou na minha frente. Ficamos conversando praticamente o dia todo. Lembrei que não pensei no coisinha o dia inteiro, mas aí eu percebi que lembrando que não pensei nele, eu na verdade estava pensando nele, então fiquei com raiva de mim mesma e me obriguei a prestar atenção na aula de história.
Tudo bem, não prestei atenção propriamente dita ao que a mulher dizia, mas pelo menos fingi bem. Nossa, a saia dela não combina nem um pouco com aquela blusa. E aquele colete? Caramba, ela usa aquele colete TODO SANTO DIA.
– Então, as coisas começaram a mudar durante as Grandes Navegações, período em que os povos europeus estavam em busca de metais preciosos e produtos das Índias – A mulher prosseguia.
Olhei para o lado e vi a Dayane concordando e sorrindo para a professora, como se fosse a aluna prodígio do ano. Eu odiava a Dayane desde a sétima série, quando começamos a estudar na mesma sala. Idiota. Se achava o máximo em tudo.
– Ah, entendi professora! – Ela se pronunciou. Todos começaram a olhar pra ela, revirando os olhos – Então eles foram à busca de ouro e coisas que os indianos produziam!
– Isso mesmo Dayane! – A professora vibrava. Os alunos tiravam as armas do bolso.
Na sétima série, quando eu fazia o tipo de aluna participativa e fazia todos os deveres, coisa que agora faço moderadamente (e por moderadamente digo NO ÔNIBUS vindo para a escola), ela simplesmente competia comigo e repetia tudo que o professor dizia com palavras mais bonitas. E assim ela é até hoje. Sendo que parei de me importar.
– E aqueles que começaram a navegar foram aqueles países que ficaram ali na Europa, como Portugal, né? – Ela continuou.
Ah, sua sabe tudo. Dá pra calar a boca?
De repente, senti alguém me cutucar. Era Débora.
– Só eu estou morrendo aqui? – Ela cochichou, bocejando.
– Não, estou me esforçando muito pra ficar acordada.
– Caramba. Como você consegue parecer tão conectada ao assunto?
– É fácil. Com um passado nerd e sendo quieta, você consegue fácil.
– Eu queria ter sido sempre nerd.
– Nunca foi? – Perguntei. Débora não falava normalmente sobre seu passado.
– Bom, não – Ela suspirou. – Alguns eventos me queimaram quando mais nova. Eu era um pouco atacada.
Meu sono sumiu completamente.
– Como assim? – Perguntei.
– Bom, só pra começar, na quarta série dei um tapa num dos meus colegas de classe.
– Mas por quê?
– Ele disse que eu tinha uma bunda grande.
E tem mesmo. Me segurei pra não rir.
– Ah, que saco. Eles são muito abusados – Bufei.
– É... – Ela fez uma cara esquisita.
– O que foi?
– É só que... – Ela fez uma pausa – Bom, ele está bem pegável hoje.
– Mas ele fez isso contigo! – Tentei acompanhar – Não deve se sentir mal.
– Aline.
– Sim?
– Deixe-me colocar de modo bem claro.
– Sim, diga.
– Se ele quisesse, eu casava com ele na hora – Ela explicou – Na verdade, eu acho que eu dava pra ele sem pensar muito – Ela brincou, e rimos.
Numa fração de segundo depois, olhei para o lado e vi a professora e a classe olhando pra nós. Senti um leve impulso de que fodeu.
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