Voltei para a porta da sala — que ficava trancada no decorrer do intervalo — e sentei no chão, agarrando meus joelhos e tentando procurar qualquer lugar para enfiar a minha cara.

Eu não sei exatamente o que me ocorreu.

Eu estava feliz por Marcelo. Mais do que isso. Eu estava feliz por ele ter confiado a mim um segredo muito importante. Um segredo que mudava completamente a vida toda dele — e talvez um pouco a minha.

Eu não sei se alguém me viu, ou se os meninos ficaram para me observar indo ao longo do corredor, mas aquilo doía de alguma forma que eu ainda não conseguia compreender.

Na minha concepção, achei que era porque eu me comportei como uma tremenda idiota — tudo que eu não queria que acontecesse — na frente de uma pessoa que agora faria parte do meu círculo de amizades (que pra falar a verdade nem era assim tão grande) independente do que fosse. Ele era namorado do Marcelo. Marcelo. Meu melhor amigo. Uma das únicas pessoas com as quais eu me dou bem, consigo conversar, sabe todos os meus segredos e todo aquele blá blá blá. E agora o Igor deveria saber dos meus segredos também.

Meu estômago estava embrulhado.

Passei o resto das aulas com a cabeça abaixada, pensando em tudo e em nada. Até Débora com sua maluquice e desatenção notou que eu estava estranha.
– O que houve com você? — Ela perguntou num determinado momento — Nem desceu para o pátio hoje.
– Não foi nada — Eu disse, sem saber como mentir sobre o que ocorreu.
– Sabe que pode confiar em mim — Ela disse, séria.
– Eu sei — Menti. Não sabia porra nenhuma.
– Tudo bem, então — Ela continuou — Se não quiser falar agora, mas quiser conversar mais tarde pra se distrair, pode me ligar ou qualquer coisa assim.
– Obrigada — Eu disse -, mas estou bem.

E passei o resto do dia assim.

Só percebi que aquilo realmente me chateava quando resolvi fazer dever de casa e tarefas domésticas. Eu só tinha vontade de fazê-lo quando algo me aborrecia e eu precisava de distração.

Só me lembrei da janela quando minha mãe chegou.
– Oi, Aline! — Ela veio falar comigo, mais animada do que nunca.
– Oi... — Respondi, meio vazia.
– O que houve querida? Você está bem?
– Sim mamãe, estou sim — Tentei convencê-la.
– Entendi — Ela me olhou desconfiada, mas logo tentou mudar de assunto (incrível como ela se distraia do mundo quando ficava animada) — Tenho novidades! Estou planejando nossa viagem em janeiro!
– Legal, mãe — Não contive minha desanimação. Viajar com meus pais significava passar uma semana sem ir para o computador, falar com meus amigos ou me divertir, basicamente.
– Ah, filha! — Ela exclamou — Anime-se! Será muito divertido.
– Que nem da outra vez?
– Que outra vez?
– Ano retrasado, quando fomos para o nordeste — Respondi, revirando os olhos.
– Ah filha, a viagem foi divertida! — Minha mãe se defendeu — Mas você não se enturma ou faz amigos, muito menos gosta de ficar conhecendo os lugares comigo e com o seu pai.
– Sim. Exatamente isso. Fora o fato de eu ter passado 3 dias no banheiro depois de ter comido aquela coisa horrível que você insistiu.
– Se você não almoçasse ia desmaiar no meio do caminho!
– Se eu desmaiasse, ia ser por algumas horas, e não por mais de 50 horas!
– Ah, Aline, você é pior do que eu quando tinha a sua idade.
– O que você quer dizer com isso? — Perguntei.
– Antissocial — Ela disse, e saiu andando.

“Queria que você continuasse assim quando trago meus amigos em casa”, minha mente gritou. Felizmente não pensei alto, ou já estaria morta a essa altura.
– Mãe! — Gritei.
– Não berre, Aline — Disse a pessoa que me berra pelo menos a cada duas horas. — O que foi?
– Preciso te contar uma coisa — Suspirei.
– O que houve? — Ela pareceu desconfiada.
– Eu estava tocando bateria outro dia, e bem...
– Fale de uma vez.
– A baqueta meio que escorregou da minha mão e...
– Sim?
– Eu quebrei a parte de baixo da janela. Me desculpa, eu juro que não queria e...
– Tudo bem, Aline.
– Eu sei! Eu estou mais do que errada!
– Não, tudo bem.
– Eu juro que não vou te pedir nada por enquanto, pra que você possa consertar tudo.
– Tudo bem.
– Eu vou tomar mais cuidado, juro. Eu acho até melhor nem tocar mais, eu...
– Tudo bem, Aline.
– Eu nem sei o que te dizer e... — Parei para me recompor — Espera, você disse que “tudo bem”?
– Sim.
– Como assim “tudo bem”? QUE TIPO DE MÃE É VOCÊ?
– Só queria saber se você me contaria a verdade — Ela continuou. — Como me contou, está tudo bem.
– Sério? — Meus olhos quase brilharam.
– Sim.
– Espera, então aquela parte de não tocar mais e não sair até você pagar não contaram, não é?
– Veremos — E ela saiu andando.

Ah, que vaca.