Sendo Aline
6 Capítulo 6
Corri feito uma retardada (como só eu sabia fazer) e entrei pela porta dos fundos, para chegar antes da minha mãe na sala (não me pergunte como diabos consegui fazer aquilo). No momento em que ela largava as coisas no sofá, encostei a porta do meu quarto até que pudesse pensar em soluções alternativas.
– Oi filha — Minha mãe dizia de forma amorosa, enquanto beijava minha bochecha.
– Oi mãe — Tentei parecer natural -, como foi o seu dia hoje?
– Foi ótimo, consegui resolver quase tudo que ficou pendente no trabalho — Ela mexeu no cabelo recém-escovado — Acho que as minhas férias em dezembro saem.
– Que bom, mãe!
– Você ouviu um barulho estranho agora há pouco, Aline? — Ela perguntou enquanto pegava o celular na bolsa.
– Q-que barulho mãe? — Senti que eu começaria a suar em breve.
– Um barulho estranho, como se fosse algo quebrando.
– Acho que não mãe... — Procurei por aquelas respostas alternativas — Por quê?
– Tive a impressão que algo quebrou, achei que tivesse sido você, do jeito que você é desastrada...
– Obrigada, mãe — Revirei os olhos, como se fosse absurdo.
– Estou brincando — Ela disse, e sorriu. — Acho que vou te liberar mais cedo do seu castigo, já que você está sendo ótima esses dias.
– Ah mãe, obrigada! — A abracei, sentindo todo o peso por ter quebrado a janela, mentido sobre isso, e ainda por cima ter conversado com Marcelo aqui outro dia sem a supervisão de um adulto e a dela, já que estava de castigo. Se bem que segundo as novas circunstâncias de gosto, não creio que havia de fato UM PROBLEMA...
Voltei para o quarto para pegar meu celular, antes de ir lanchar com a minha mãe e senti a culpa caindo sobre mim, por ela ter me liberado do castigo. Resolvo tentar compensar tudo de alguma forma, enquanto ainda bolava planos sobre como consertar a janela.
Preparei alguns hambúrgueres como só eu sabia fazer lá em casa e fiz o favorito da minha mãe. Depois liguei para o meu pai, para que ele comprasse refrigerante para nós.
Na verdade eu nem sei como minha mãe foi burra de não ter percebido toda a minha bondade. De qualquer forma, eu é que não ia reclamar.
Depois que terminamos de lanchar, fui para o meu quarto quase imediatamente, e permaneci lá até o dia seguinte. Quase sem conseguir dormir, porque meu modo alerta estava ligado e eu estava acordando com qualquer mísero barulhinho. Sem contar com as moscas é claro. Elas me acordavam naturalmente.
De manhã, tomei cuidado para deixar algo um pouco na frente da janela — dei sorte de só ter quebrado a parte do canto inferior — para não ser muito perceptível à minha mãe caso ela decidisse fazer algo no meu quarto pela manhã, e me mandei pra escola o mais rápido que eu pude.
Perguntei à Débora e ao Marcelo se eles saberiam de algo que eu pudesse fazer, ou de alguém para consertar aquilo o mais rápido possível. Claro que o perfeito Marcelo viria com a voz da razão e diria para eu contar à minha mãe o que houve. O pior é que eu estava tão nervosa por ser o dia em que conheceria o namorado dele, que eu nem estava conseguindo de fato reclamar com ele sobre tudo.
O pior é que eu fiquei tão preocupada quanto à droga da janela, que eu nem me liguei que ia conhecer o namorado dele hoje. Não que isso fosse óbvio, porque ele não me disse, mas ainda assim, estava meio explícito com a nossa conversa no outro dia. De qualquer forma, eu não sabia o que ia dizer e gostaria que ele gostasse de mim — e por isso, quero dizer que não gostaria que ficasse aquele silêncio desconfortável como eu geralmente fico com pessoas que acabo de conhecer.
Na hora do intervalo, Marcelo me pediu para ficar no banheiro até que todos descessem para o pátio da escola, para que ninguém nos visse — aparentemente, o fato dele ser gay ainda era um segredo geral. Ele ainda não queria que ninguém soubesse, não era exclusividade minha.
Foi nesse momento que eu percebi que se contasse a minha mãe, toda aquela história de perfeição iria pra puta que o pariu. Talvez ela nem fosse gostar mais da ideia de me ver junto com ele. Minha mãe e meu pai principalmente são meio preconceituosos e acham que eu simplesmente vou virar lésbica só porque tenho um amigo gay.
C’mon, mom. Take a look on my Tumblr. With SO many hot guys in the world...
Respirei fundo, esperei no banheiro como ele me pediu e fui para o lugar onde nós marcamos. Como ainda não havia ninguém lá, liguei o meu Ipod e fiquei esperando por um tempinho.
Quando olhei para o lado, vi os dois chegando. O menino novo estava do lado esquerdo. Ele parecia meio magro, relativamente alto. Não era tão bonito assim, mas não era de se jogar fora. Ele estava usando uma blusa verde por baixo do uniforme, calça jeans como todo mundo e um all star preto, também quase como todo mundo.
– Oi, Aline — Disse Marcelo, assim que chegou, com um sorriso estampado na cara -, esse aqui é o Igor.
– Prazer te conhecer finalmente, Aline! — Ele disse, empolgado — Marcelo fala muito de você.
– Legal — E sorri.
– É um alívio poder contar isso finalmente pra você — Marcelo disse. — Eu não aguentava mais.
– Eu imagino — Eu tentava continuar, mas minhas palavras fugiam e eu começava a travar, tentando não parecer estúpida ou idiota na frente dele.
– Você quer dar uma volta com a gente depois da aula hoje, Aline? — Marcelo me perguntou.
– Não posso — Respondi — Tenho problemas com a minha janela...
– Ah, verdade — Ele disse, um pouco decepcionado.
– Eu vou nessa então — Eu disse, completamente constrangida, e sem ideia do que falar.
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