Sendo Aline
5 Capítulo 5
Eu não sei por quanto tempo fiquei chocada e com a boca aberta. Com certeza mais tempo do que quando fiquei encarando o garoto fofo no mercado com os head fones.
Não que eu tivesse algo contra ele ser gay. É só que... Eu tive meu primeiro beijo com ele, porra! Isso é muito entranho. Não, isso não é estranho. Isso é bizarro. Não tenho palavras.
Será que eu fui mal?
Como ele não me contou? Por quanto tempo ele está escondendo isso? Quanto tempo será que eles têm de namoro? Será que eles já fizeram sexo? Como será que eu não percebi? Será que eu beijo mal desde aquela época e nenhum garoto me contou?
Eu não consegui fazer perguntas. Pra ele, quer dizer. Pra mim mesma eu fiz várias e não consegui responder nenhuma. Fuck.
– Aline — Ele me chamava sem sucesso.
Fiquei olhando pra ele por algum tempo e por alguns minutos depois de ficar me matando, pensei em outra coisa completamente diferente: se eu sempre havia achado ele tão perfeito, como não descobri tudo isso? Fazia muito sentido um garoto que lava louça e faz brigadeiro ser gay. Só faltava um lenço na cabeça ou coisa assim.
– Aline, você está chateada comigo? — Ele perguntou, depois que fiquei calada.
– ...Não — Respondi, finalmente.
– Então converse comigo.
– Depois dessa bomba?
– Você estava irritada e gritando comigo, eu não tinha um jeito mais suave de dizer.
– Eu sei que não, não estou irritada com você
– Parece que está, Aline.
– Eu estou irritada comigo mesma por não ter percebido — Eu disse, finalmente. — Eu devo ser um lixo de melhor amiga.
– Claro que não! — Ele Exclamou — Você é a melhor, cara
– Não sou não. Eu nem percebo quando algo está mudando.
– Não tinha como você perceber porque nada mudou — Ele continuou — Eu continuo o mesmo cara de antes.
– Bom, alguns gostos mudaram e eu não vi você agindo diferente.
– Eu disfarço bem — Ele riu — Tenho uma certa inclinação pra ator.
– Muito engraçado — Permaneci séria — Mas estou falando sério.
– Você não tem porque ficar dizendo isso — Ele continuou, agora sério também — Eu amo você, eu estava me matando esse tempo todo pra poder te contar. Só não sabia como.
– Mas você sabe que eu não julgaria você, nunca.
– Eu sei que não.
– Então porque não contou logo o que estava acontecendo? — Finalmente perguntei.
– Não sei, eu queria ter certeza do que ia acontecer pra te contar.
– Ainda assim, podia ter conversado comigo — Insisti.
– Eu sei, sinto muito — Ele abaixou a cabeça. — Eu conheci uma pessoa maravilhosa e descobri outra parte minha que eu nunca tinha reparado.
– Você está feliz.
– Sim.
– Não foi uma pergunta — Balancei a cabeça -, foi uma afirmação.
– Eu não quero que nossa amizade mude, e não quero que você mude só porque sabe disso — Ele continuou.
– Não vai mudar.
– Diz isso a garota que ficou 10 horas com a boca aberta feito um camelo — Ele levantou a sobrancelha.
– C’mon! — Exclamei — Não foi tanto assim.
– Não foi não — Ele começou a me imitar.
– Para, idiota! — Eu disse, e comecei a rir junto com ele.
– É isso que eu quero — Ele disse, e sorriu.
– Nada mudou — Eu continuei — Quer dizer, só você um pouquinho.
– Você precisa conhecê-lo — Ele continuou. — Você vai adorá-lo!
– Eu aposto que sim — Sorri também, e o abracei.
Depois disso, assistimos um pouco de TV e ele foi, já que minha mãe já estava pra chegar.
Tudo bem, na verdade não estava, mas era muita informação pra assimilar em um dia só. E eu estava absurdamente cansada e com fome, porque não consegui almoçar com a nossa conversa.
Fui esquentar no micro-ondas o almoço que minha mãe tinha feito ontem à noite e devorei tudo, acreditando que nem precisaria jantar. Depois disso, tomei um banho, coloquei roupas mais frescas — minha casa não ventilava direito — e fui para o meu quarto. Olhei minha bateria e senti uma saudade gigantesca de tocar um pouco.
Corri até o outro lado do quarto e olhei as horas. Eram 17h50. Ainda tinha basicamente uma hora até que eles chegassem. Liguei meu computador e coloquei uma playlist minha pra tocar, enquanto eu acompanhava tocando.
Estava super distraída, como quando colocava os fones de ouvido e a única coisa que eu vi, foi quando eu terminei o show e atirei cada baqueta para cada lado, e uma delas acertou a janela, quebrando um dos lados.
Puta que pariu, estou fodida.
Corri para o pedaço e vi se havia como reconstruir aquilo, como se eu já não soubesse que estava ferrada e não havia jeito de consertar aquilo 20 minutos antes de alguém chegar em casa.
Vamos lá garota. Pense. Deve haver algum jeito.
Corri para fora da casa, para ver se ainda havia alguns pedaços grandes. Nada. Tentei procurar pedaços menores que poderiam se encaixar em outros. Nada. Tentei juntar os pequenininhos. Mais nada.
Eu estava quase me ajoelhando pra chorar, mas percebi que se eu o fizesse, ia cortar ou furar meus joelhos calmamente e com mais dor. Pra piorar o vizinho colocou pagode alto enquanto lavava o carro, o que provavelmente era pra me irritar ou pra competir com a minha música alta.
Não dava pra ficar pior, eu já estava de castigo mesmo.
Quer dizer, a menos que eu ficasse sem sair e sem internet. Aí eu morria de tédio.
Se bem que esse provavelmente seria o único jeito de eu ganhar padrinhos mágicos, porque ainda não me enviaram os meus até hoje.
Por favor, enviem meus padrinhos mágicos antes que meus pais cheguem. PLEASE, PLEASE, PLEASE, PLEASE!
Ouvi a fechadura fazer um barulho do outro lado.
Oh, fuck.
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