O que você faz quando deseja igualmente beijar dois meninos diferentemente bonitos e igualmente fofos com você? Eu quero beijar os dois. Ao mesmo tempo. Quer dizer, não ao mesmo tempo de fato. Sair com os dois durante a mesma época.

- Acho que você podia sair com os dois e ver com qual isso... — Marcelo fez uma pausa e riu sozinho — Dá mais certo.

- Mas eu vou me sentir culpada por causa do outro! — Exclamei.

- Então decide sobre qual deles você gosta mais, ué.

- Mas é muito difícil, Marcelo!

- Dá o seu jeito! — Ele brigou comigo — Para de bobeira, você tem dois! Não reclama, não.

- Ta insatisfeito com o Igor, é?

- O que? — Ele pareceu chocado — Claro que não!

- Só está parecendo...

- Dá um tempo!

Ele desligou, um pouco aflito, e fiquei preocupada. Não sabia se ele começava a ficar na defensiva, ou mesmo se ele estava se afastando, com a possibilidade de se mudar. Eu sei que ele não queria se mudar, mas acho que estou começando a me conformar.

Eu não quero que ele vá embora. Eu não quero que ele me deixe aqui, mas acho que ele já está me esquecendo.

- Ah, pelo amor de Deus. Você já quer ser xingada essa hora da manhã? — Débora brigou comigo, quando liguei pra ela num sábado, mais ou menos às 13 horas da tarde.

- Por que, Débora? O que eu fiz agora?

- Ele só deve estar preocupado com tudo que tá acontecendo e deve estar perturbado com isso. E você aí dando o seu tique.

- Mas eu não...

- Ah, Aline, dá um tempo.

- Mas Débora!

- Você não é qualquer uma pro Marcelo, Aline. Acredita em mim.

- Você acha?

- TENHO CERTEZA, SUA RETARDADA! — Ela gritou comigo — Agora vai, anda.

- O que?

- Vai ligar pra ele!

- Mas ele me cortou completamente, Débora, e eu não acho que... — Ela me cortou.

- Eu tenho certeza que ele só está chateado com a possibilidade de se mudar e está um pouco confuso. — Ela continuou — Acho que na verdade você devia ir na casa dele e ficar com ele um pouco. Ou então chamá-lo pra ir aí, já que a situação não é das melhores...

- É. — Afirmei — Talvez você tenha razão.

- É claro que tenho razão!

Ela continuou se vangloriando por ter tanta razão e tudo o mais. Ela teria se queixado da minha careta, se estivesse na minha frente, isso sim. Continuei um pouco insegura quanto àquilo, e acabei perguntando se ela não queria vir à minha casa. Pensei em chamar ela e Marcelo pra que ficássemos conversando e ele se distraísse. Quer dizer, se ele não estivesse chateado ou coisa assim.

Hesitei um pouco ao ligar o telefone, mas por fim decidi continuar. Disquei os números da casa dele e esperei. O telefone chamou tanto que acreditei que ele nem fosse atender, mas no último minuto, escutei sua voz soando por entre meus ouvidos.

- Alô?

- Marcelo? — Perguntei, como se não soubesse.

- Aline?

- Sim, oi.

- Oi, Aline. Tudo bem?

- Tudo. E com você?

- Tudo... Tudo sim. — Ele respondeu, com um suspiro — Escuta, eu...

- Eu preciso falar com você. — O cortei.

- Eu também. -Ele disse, ainda com a voz pesada.

- Desculpa se eu te deixei chateado com alguma coisa que eu disse, eu... — Ele me cortou.

- Para de falar, Aline. Claro que não. — Ele disse e senti meus ombros se aliviarem — A culpa foi minha, eu estava meio estressado e acabei agindo meio estranho com você. Me desculpa.

- Não precisa se desculpar... Eu só fiquei preocupada com você.

- Não tem que se preocupar...

- Claro que tenho! — O impedi de continuar — Eu sou sua melhor amiga desde sempre, não sou?

- Claro que é, Aline, mas...

- Isso quer dizer que mesmo agora eu estou com você — Continuei -, mas quero que você esteja comigo! Você não tem me ligado nem me procurado mais, e eu...

- Eu sei! — Ele exclamou — Eu sou um imbecil, eu sei.

- Claro que não, Marcelo! Para com isso. — Pedi — Escuta, você pode vir aqui hoje pra gente conversar?

- Eu... — A voz dele falhou — Eu não posso. Meu pai não me deixa sair de casa ou usar o telefone direito. Eu não consigo pronunciar o nome dele aqui. — Ele enfatizou o "dele". Não que fosse necessário pra eu entender.

- Eu não fazia ideia... Desculpa, Marcelo. A culpa é toda minha.

- Não, a culpa é minha de ter resolvido contar tudo.

- Claro que não! Você tem esse direito de poder ser quem você é, se ele não aceita, é problema dele!

- Sabe, eu fiz isso por... — Ele pausou novamente — Pelo Igor. Ele me disse que só seria de verdade se disséssemos pra todos. Me pediu pra fazer. Eu não podia...

- Eu sei como se sente.

Comecei a lembrar dos momentos bons que passamos, comecei a lembrar da falta que senti quando parei de falar com ele por um tempo. Eu me sentia diferente quanto a ele, mas queria muito abraçá-lo. Eu não só queria, como precisava daquilo. Precisava do meu amigo, ali comigo e bem de novo. Como se nada disso fosse verdade.

- Marcelo, eu vou aí — Disse, finalmente.

Esperei a voz dele, mas ela não veio. Eu continuei pronunciando "alô" para o vazio e comecei a imaginar que o pai dele tivesse chegado e tomado o telefone dele. Meu Deus, aquilo precisava acabar. Ele não podia viver numa prisão. Pelo menos não naquele momento, enquanto tudo se decidia.

Tentei ligar pro celular, mas vi que ele esperava dar um toque e desligava. Eu entendi o recado. Entendi que o pai estava por perto e que não dava pra falar naquele momento. Entendi mais ainda que ele andava sofrendo muito mais do que o normal.

Minha mente estalou pra mim e me disse que eu não poderia simplesmente ir lá. O que ia acontecer seria enfurecer mais ainda o pai dele, acabar apanhando de novo e impedir mais ainda o mínimo de contato que ainda tínhamos.

Minha mãe chegou de repente no quarto e me viu com lágrimas nos olhos, depois de tudo aquilo. Eu não estava chorando porque estava triste. Eu estava triste por ele estar triste, e de alguma forma, aquilo era pior do que estar triste por mim mesma. Falei com a minha mãe e ela não teria me negado nada, por mais absurdo que fosse, me vendo daquela forma.

Vasculhei o quarto em busca do meu celular e quando o encontrei, me esforcei pra apertar as teclas certas enquanto escrevia a mensagem para Marcelo.