Sendo Aline
29 Capítulo 29
- Que bom que você pode vir, garota! — Gabriel me recebeu com um soquinho no braço.
- Que surpresa eu ter vindo depois de ter te ligado mil vezes pra pedir o endereço e depois ter me perdido e você tido que vir aqui me pegar! — Eu disse banhada em ironia e com um pouco de decepção quanto às minhas capacidades topográficas.
- Não esquenta, não. — Ele balançou a cabeça, e riu — Eu já sabia que você era lerda desde que te vi pela primeira vez naquela reunião familiar.
- Ah, seu chato! — Bufei.
- Estou só brincando. — Ele riu mais um pouco — Está pronta pra ir?
- Sim, claro.
Fomos andando pela ruazinha estreita, perto de um pequeno shopping da parte movimentada da cidade. Era estranho vir para esses lados da cidade, porque toda a minha vida era basicamente perto de casa. Quer dizer, menos quando minha mãe nos arrastava para algum passeio em família quando meu pai conseguia ficar em casa.
Eu tinha acordado aquela manhã tentando pensar que tudo que eu precisava fazer naquele momento era me distrair. Se eu ficasse me fixando muito naquela ideia de querer resolver tudo ao mesmo tempo, eu simplesmente não resolveria nada.
Eu fiquei pensando que talvez não fosse tão ruim assim. Talvez Marcelo conseguisse me visitar várias vezes por ano — Não que isso fosse ótimo, mas era melhor que nada -, já que poderia dormir na minha casa. E, de qualquer forma, ele não poderia simplesmente ficar sem ver o pai, eu acho. Muito provavelmente aquele cara daria um jeito de obrigá-lo.
Pensar naquilo me fez lembrar que meu pai, assim que voltou pra casa e descobriu o que tinha acontecido na briga entre Marcelo e tio Carlos, foi na delegacia registrar queixa contra ele. Isso me deixou surpresa não por ele o ter feito, mas por ter me pedido pra avisar Marcelo que ele queria ajudar. Quer dizer, ajudar no sentido de querer defendê-lo no que fosse preciso quanto ao pai dele.
Eu não sabia se meu pai estava sendo superprotetor quanto a mim por não querer que o ocorrido se repetisse, ou se ele estava vendo o que Marcelo passa todos os dias e achou insuportável. De uma forma ou de outra, meu pai conhecia muita gente, então talvez pudesse ajudar ele nessa briga. Eu fiquei feliz só por isso.
- Está tudo bem, Aline? — Gabriel perguntou.
- Ahn? Ah, sim, sim. — Afastei os pensamentos — Desculpe.
- Você parece estar muito longe daqui. Não queria ter vindo?
- Claro que não! — Exclamei — Eu queria muito vir!
- Quer falar sobre alguma coisa?
- Não, não. Tudo bem mesmo.
- Tem certeza?
- Sim.
- Qualquer coisa me fala, cara. -E sorriu — Eu quero te ajudar.
Eu confesso que por alguns segundos eu quis beijá-lo, como quando na outra vez, quando estávamos no meu quarto. O jeito dele e tudo o que ele faz, me faz sentir plenamente atraída por ele.
Eu queria continuar conversando com ele. Ou melhor, gostaria de começar, porque até agora só ele tinha falado alguma coisa e eu só ficava balançando a cabeça ou concordando com o que ele dizia. Percebi que ele ficava um pouco mais calado a cada informação nova, muito provavelmente por eu simplesmente não estar conseguindo acompanhar. Tentei reagir.
- Então, o que vamos fazer hoje? — Perguntei.
- Bom, meus amigos vão lá e vamos tocar alguma coisa, quem sabe depois ficar conversando.
- Entendi, e aí você quer que eu acabe com você tocando bateria?
- Essa era a ideia. — Ele sorriu de novo — Só que eu acho meio difícil você "acabar" comigo.
A conversa foi fluindo, e ele comprou um sorvete para nós no meio do caminho. Eu percebi que estávamos demorando um pouco pra chegar, mas não falei nada. Eu adorava falar com ele.
O cabelo preto jogado hoje estava mais desgrenhado que o normal, e isso o fazia ficar mais bonito de alguma forma. Os chinelos e as blusas de bandas de rock antigas eram o visual mais "de casa" dele, supus. Pelo menos usava calça jeans e não aquelas bermudas de surfista que eu detestava.
- Aline?
- Sim? — Perguntei, me livrando novamente de meus pensamentos.
- Toma.
Ele jogou os braços para trás da cabeça e começou a tirar um cordão que eu nunca tinha visto antes. Ele veio em minha direção, chegou extremamente perto do meu rosto, e precisei olhar fundo no rosto e nos olhos dele enquanto ele colocava o cordão.
- O que é isso? — Perguntei.
- É um cordão, ele é feito em Marte e só pode ser trazido a cada dois anos, numa expedição cara pra caramba. Gostou?
- Você não consegue falar sério? — Eu bati nele de leve, e ri.
- Não muito — Ele riu.
- Então, por que está me dando isso?
- Era da minha madrinha. — Ele disse, e ficou mais sério — Eu cresci boa parte do tempo com ela, até que ela começou a ficar muito doente e hoje... — Ele parou e o senti meio perturbado por alguns segundos.
- Não precisa me dizer se não quiser.
- Eu quero.
- Tudo bem, não precisa se apressar.
- Hoje ela praticamente não fala mais direito ou se meche, vamos dizer assim. Ela deu esse cordão pra mim alguns meses antes de tudo acontecer.
- Gabriel, eu não posso... — Ele me cortou e levantou um pouco a voz sobre a minha, para que ele pudesse terminar.
- Ela me disse que esse cordão era um presente, pra que quando eu me sentisse mal, eu sempre pensasse nela pra me confortar e pedir ajuda, se precisasse. Não estou dizendo que ele é seu agora, só estou dizendo que... Que você pode ficar com ele por enquanto e pensar em mim se alguma coisa tiver te magoando, cara.
- Gabriel?
- O que foi?
- Obrigada — O abracei.
- De nada, Aline — Ele sorriu.
Notas finais
Abraços,
Bruna
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