Notas iniciais
Obrigada a todos que andam acompanhando e comentando a história! Aqui vai mais um capítulo :D

- Sai de perto de mim! — A pequena menina de cabelo castanho claro, bem próximo do loiro, dizia.

- Deixa eu te ajudar! — Ele dizia — Foi sem querer...

- Não! Você me machucou! — Ela dizia, enquanto começava a ver lágrimas saindo de seus olhos.

- Vem, eu vou cuidar de você e pronto! — Ele disse, a arrastando, enquanto tirava o cabelo loiro dos olhos.

Ele a levou para casa pela primeira vez. Não saberia que mais tarde, aquela mesma menina, se tornaria sua maior confidente e até seu primeiro passageiro amor infantil.

- Mamãe! — Ele chamou.

- Sim queri... — A mãe parou, assustada com a presença de uma nova criança machucada em sua sala — O que aconteceu?

- Eu estava correndo e empurrei a Aline sem querer, mamãe! — Ele disse.

Espera... Aquela era... Eu?

- Ta doendo! — A menina dizia entre as lágrimas.

- Aline! — Ela gritou — Aline! Aline!

De repente, abri os olhos e me encontrei no meu quarto, com minha mãe sentada na beira da cama.

- Você estava tendo um pesadelo, querida? — Minha mãe perguntou, devido a minha expressão.

- Não era bem um pesadelo...

- O que era?

- Era uma cena de quando eu era criança. Foi bem estranho.

- Às vezes essa lembrança voltou por algum motivo, Aline. — Minha mãe disse — Mas vamos, levante.

- O que foi?

- Preciso que você vá ao mercado comigo, porque seu pai viajou novamente essa manhã.

- De novo?

- Sim.

- Tudo bem — Eu disse, sem jeito de recusar.

Tomei um banho extremamente rápido, com minha mãe reclamando da minha demora. Me arrumei de qualquer jeito e peguei uma rasteirinha velha e confortável no meu armário.

Entrei no carro e fomos, com minha mãe reclamando por ter que fazer as compras do mês, enquanto me falava das mil coisas de mil marcas diferentes que eu tinha que pegar. Como se eu fosse lembrar tudo que ela me disse, ainda mais com sono.

- Leva o celular, mãe. — Eu disse, em meio ao discurso dela.

- Pra que?

- Porque qualquer coisa eu posso te ligar se tiver esquecido de algo — Disse — e depois é mais fácil para que possamos nos encontrar quando acabarmos.

- Você não presta atenção em nada!

- Mãe, é só pro caso de...

- Meu Deus, como é que você vai cuidar de sua própria casa um dia!

- Mãe, eu não tenho nem 20 anos, não estou pensando nisso agora! E são só marcas de produtos!

Ela continuou reclamando, enquanto eu simplesmente me afogava nos meus fones de ouvido e empurrava meu carrinho para a direção oposta. Caminhei pelo supermercado gigantesco e parei um tempo na parte de biscoitos, fingindo que não alcançava alguma coisa, para que o rapaz moreno daquele setor viesse me ajudar.

Quando olhei para trás, vi uma menina que estudou comigo na sexta série e ela me reconheceu, de alguma forma impossível.

- ALINE! — Ela exclamou.

- Rafaela! — Exclamei, com menos animação do que ela.

- Nossa, você está tão diferente!

- Você também. — Pensei em algo para dizer — Deixou o cabelo crescer! Está lindo.

- Você também está linda! Como está o Marcelo?

- Ele está bem — Eu disse, um pouco mais dura, ao lembrar que ela também tinha uma queda pelo Marcelo e sempre tentava ficar do lado dele. Que droga não poder contar sobre as novidades dele!

- Vocês ainda tem contato?

- Sim, estudamos na mesma escola até o ano passado. — Continuei, esbanjando — Ele finalmente se formou.

- Que legal! — Ela continuou — Lembra quando tínhamos uma queda por ele e ficávamos disputando pra ver quem ficaria do lado dele?

- Claro que lembro — Continuei.

- Que bom que isso passou! — Ela disse, e riu.

- É mesmo! — Eu disse e ri sem graça, tentando fingir o passado recente que eu descobrira há tão pouco tempo.

Depois disso, ela me obrigou a trocar telefone e nomes em redes sociais, para que pudéssemos manter o contato. Que ótimo. Mais gente pra eu fingir que me importo. E ainda online!

- Escuta, Aline, eu sei que faz algum tempo... — Ela continuou — Mas eu queria o telefone do Marcelo. Assim, só pra gente bater um papo e relembrar os velhos tempos. Será que você podia me dar?

Vadia.

Eu nem poderia fingir estar sem o celular, porque estava escutando música por ele e ela provavelmente veria. Puta que o pariu.

- Claro, dou sim — Eu disse, mesmo sem ter o que dizer.

Peguei o celular do bolso e ele começou a tocar na minha mão. Pedi um minuto a Rafaela e atendi, pensando que era minha mãe.

- Aline?

- Oi Gabriel! — Atendi empolgada, acreditando ser a primeira vez em meses que não berrava com alguém no telefone.

- Eu liguei pra sua casa há um tempinho e achei que fosse você quando sua mãe atendeu. Agora resolvi ligar pro seu celular ao invés de sair convidando sua mãe pra sair.

- Você convidou minha mãe pra sair? — Repeti, rindo de forma exagerada no meio do mercado enquanto todos me olhavam. Inclusive a Rafaela, que simplesmente sorria de forma sem graça pra mim. Ao olhar pra ela, tive vontade de rir ainda mais, devido ao plano maligno que se formava dentro de mim.

- Então, eu queria saber se está ocupada hoje.

- Mais tarde não.

- É porque eu tenho umas coisas pra resolver aí perto e queria saber se podia passar na sua casa mais tarde. — Indaguei se aquela seria uma desculpa para me ver ou não.

- Ia ser ótimo.

Desliguei o telefone e fiquei apreensiva se faria o que pensei ou não. O impulso me tomou e olhei pra cara dela, querendo ver Marcelo e provavelmente querendo fazer algo com ele. Olhei novamente, os olhos em chamas pela raiva.

- Vou fazer melhor do que isso. Vou ligar pra ele agora e você fala com ele. Vamos fazer uma surpresa, tudo bem? Tenho certeza que ele vai adorar.

- Sério! Puxa, isso ia ser demais!

Disquei o número, coloquei no viva voz e torci para que ele atendesse.

Atendeu.

- Oi, Aline! Que saudade! — A voz falou.

- Oi, Marcelo! — Ela saiu falando na frente dele, como imaginei que aconteceria. Eu tentei conter as risadas ao máximo — Aqui é a Rafaela, que estudou com você, lembra de mim? Acabei de encontrar a Aline no mercado e ela me deu seu número! Estou com saudades imensas de você! Será que a gente podia sair um dia desses e...

- É... Desculpa... A Aline deve ter se confundido.

- Hã? O que você tá falando, Marcelo? — Ela ficou confusa e resolveu apelar — Não lembra que você me adorava e preferia até ficar comigo, quando podia, naquela época?

- Não é isso... — Ele falou — É que esse é o telefone do namorado do Marcelo. A Aline deve ter se confundido.

Eu não sabia se ria ou se pedia desculpas pela cara de ursinho que ela fez. Decidi rir. Mas que eu não me arrependi, eu não me arrependi.

Acho que vou pro inferno.