Sendo Aline
22 Capítulo 22
Depois daquele dia, os meus pensamentos sobre André não poderiam ser dos melhores. Marcelo também não sabia de nada, então seria algo difícil arrancar aquilo dele. Fora que, depois daquele dia, ele simplesmente não ligou mais nem pra marcar de sair comigo.
Me sentia um lixo, ou melhor, O lixo. Não acho que tenha feito algo de errado, até porque eu não sabia, mas o sentimento de culpa por ter despertado aquela lembrança de alguma forma era bem mais forte do que a racionalidade. Ou seja lá o que isso for.
Eu estava relutante. Eu queria ligar, mas meus princípios me diziam que não era o certo. Ele deveria ligar. Ele deveria me procurar. Ele deveria me tratar bem para que eu gostasse dele e eu simplesmente deixaria tudo rolando. Mas e quando você faz merda?
Eu finalmente tinha encontrado um garoto super bacana e confiável, e simplesmente não sabia o que fazer. Isto é, se tivesse algo a fazer de qualquer forma.
Decidi que não dava pra saber a partir de especulações mal feitas. Ficar tocando bateria — Enquanto esperava alguma ação da parte dele — todos os dias das minhas férias não resolveriam nada. Até porque minhas lembranças não era suficientemente válidas para julgar o caráter dele nos dias de hoje. De qualquer forma, meus métodos não estavam sendo muito úteis.
O telefone de repente tocou e voei.
- ALÔ?
- Ahn... Aline? — Marcelo disse, meio assustado — Você tá legal?
- Ah, oi Marcelo — Respondi. — Tudo bem sim.
- Nossa, seu desapego foi tão suave que me senti atropelado por um boi.
- Desculpa, é que eu...
- Você esperava que fosse André, não é?
- COMO você faz isso? — Fiquei perplexa.
- Sou seu melhor amigo e te conheço há um tempão. Era o mínimo.
- Desculpa.
- Tudo bem. Você me magoou muito, mas eu acho que consigo superar.
- Marcelo!
- Eu estou brincando, bobona. — Ele riu — E aí, o que você está fazendo?
- Nada, como sempre. Só tocando bateria.
- Posso ir aí brincar?
- VOCÊ? — Fiz um tom de incredulidade.
- Sim, qual o problema?
- Você quer tocar na minha bateria? — Enfatizei — VOCÊ?
- Ta difícil de absorver toda essa informação?
- Sinceramente? — Respondi — BASTANTE!
- Porra, Aline...
- Que que você quer?
- Fala bonitinho?
- Amor da minha vida, luz do meu luar, ar que respiro, ping do meu pong — Usei uma entonação forçada -, o que posso fazer por você para que sua vida se torna mais mágica e bela?
- Poxa, agora ficou fofo demais.
- Eu sei. É um dom. Agora fala logo.
- Posso passar aí mais tarde? — Ele perguntou.
- Claro que pode, não vou fazer nada não — Respondi. — Mas será que você pode tentar falar com André e ver se ele está bem?
- Posso tentar, mas não te garanto muita coisa.
Depois disso, as horas passaram lentamente, como alguém quisesse muito me sacanear. Parecia aula de história daquela mulher.
Quando eu estava prestes a cochilar, depois de tanto tempo sem conseguir fazer nada muito produtivo, escuto a velha música dos Beatles tocando no meu celular, avisando que Marcelo estava me ligando. Ele sempre deu alguns toques para avisar que tinha chegado, e depois desligou antes que eu pudesse atender.
- Você nunca pode esperar eu atender a porcaria do...
- Surpresa! — Ele disse, estendendo as mãos grandes, com uma caixinha rosa.
- SEU PUTO! — Gritei — Como assim você cortou esse cabelo?
- Ficou muito ruim? — Ele perguntou.
- Ficou perfeito! — Eu passei a mão pelo cabelo quase loiro, agora curto, deixando o rosto branco dele aparecendo mais.
Alguns momentos depois, parei para pensar no que ele havia dito.
- Espera... Surpresa?
- É! — Ele disse, e eu finalmente pegava para observar a caixinha rosa.
Era aquele típico momento em que na sua cabeça começam a rondar pensamentos idiotas tipo " já é meu aniversário de novo?" ou "esqueci nosso aniversário de casamento?".
Após alguns minutos de reflexão que não levavam a lugar algum, resolvi perguntar.
- Marcelo, me desculpa... — Comecei — But what the hell did I miss?
- Você esqueceu?
- Marcelo...
- Eu não acredito que você fez isso!
- Mas eu...
- Aline, você me decepcionou.
- Mas é que eu...
- Logo você! Eu achei que fosse minha amiga!
- Mas eu sou Marcelo! — Minha voz começava a me trair. Eu já tinha pensado muito naquele dia, sobre o que podia ter feito André ficar daquele jeito, e agora isso.
- Ou melhor, minha MELHOR amiga! — Ele insistia.
- Desculpa, Marcelo, eu não queria te magoar!
- Mas me magoou muito!
- Me perdoa Marcelo! — Eu começava a chorar. Minha cabeça começava a falhar.
- Por que você está chorando? — Ele disse, agora preocupado, me abraçando.
- Porque primeiro eu magoei o André, e agora você! — Continuei — O que tá acontecendo comigo?
- Você não me magoou, Aline!
- Como assim?
- Eu não esperava que você soubesse, Aline. Eu também não sabia.
- Marcelo, se você não me explicar agora, eu vou...
- Vai chorar de novo? — Ele fez uma imitação tosca de mim mesma.
- Go to hell.
- Ah, vamos lá, abre! — Ele disse, me empurrando pra dentro de casa e fechando a porta.
Me agarrei ao braço dele, ainda sentida pelos momentos anteriores, onde chorei por nada. O levei até o sofá, nos sentamos e eu segurava a caixinha com cuidado enquanto ele me explicava o que tinha acontecido.
- Desculpa, eu não sabia que você estava se sentindo mal. — Ele começou — Na verdade minha mãe e eu estávamos conversando enquanto empacotávamos as coisas e pegamos alguns álbuns de fotos.
- Sim — Fiz sinais com a cabeça para que ele prosseguisse.
- Aline, você se lembra de quando nos conhecemos? — Ele perguntou, pegou na minha mão e começou a olhar nos meus olhos de uma forma diferente. Como nunca tinha me olhado antes.
- Vagamente — Eu disse sinceramente, já que éramos muito pequenos para lembrar exatamente de como foi.
- Eu também, mas achei uma foto desse dia, exatamente.
- Sério? — Fiquei surpresa — E como foi?
- Bom, pelo que minha mãe me contou, ela sempre me levava num parque que existia perto daqui. Ele hoje não existe mais, mas ela me contou que depois do primeiro dia que nós brincamos juntos lá, eu não parei mais de falar de você e enchia o saco pra que ela me levasse de volta lá.
- Sim, minha mãe chegou a comentar que eu chorava sempre pra que ela me levasse pra brincar com você, desde quando nos conhecemos.
- Sim, você já chorava rios mesmo antes de me conhecer — Ele riu. Eu o acompanhei, apesar de sentir a dor de o ter amado
- Continue, senhor perfeição.
- Então, é claro que depois que entramos pro mesmo colégio, as coisas se facilitaram. — Ele balançou a cabeça, como se falasse consigo mesmo. Logo depois voltou a me encarar — Mas foi lá que tudo começou, e talvez não seríamos os mesmos se não fosse aquele dia específico.
- Concordo com você — Assenti.
- Então, o fato é que eu achei uma foto que minha mãe tirou de nós dois aquele dia e eu queria te mostrar.
- Onde ela está?
- É nesse momento que você não quebra a cena de cinema e sente o tom para abrir o presente — Ele disse, ao mesmo tempo provocando e sendo idiota, para me fazer rir.
Eu abri o presente e vi um cordão, como aqueles antigos que abrem e pode-se colocar fotos pequenas lá dentro. Tirei-o da caixa e vi que no fundo da mesma, havia a foto impressa, já recortada, pronta para ser encaixada em seu devido lugar.
Aí, então, ele pegou a carteira do bolso e me mostrou a pequena foto original. No "rodapé" da foto, havia a data. Hoje faziam exatamente 11 anos desde que nos conhecíamos.
- Eu não sei se é a data certa, mas é o mais próximo que dá pra chegar disso — Ele quebrou o barulho do silêncio finalmente.
- Não importa — Eu falei, e finalmente olhei de volta pra ele. — Foi a melhor coisa que você poderia ter me dado.
- Eu sei — Ele sorriu, e pela primeira vez, se gabou de um modo gentil. Não parecia que ele estava se gabando de fato.
- Muito obrigada, Marcelo — Eu me joguei sobre ele do sofá. — De verdade mesmo. Você é o melhor dos melhores amigos de todo mundo.
- Você também é, Aline — Ele mexeu no cabelo novo, como um vício do outro corte.
- Não sou não — Abaixei a cabeça.
- Na verdade, eu não pensaria em nada bom o suficiente pra te dar como forma de agradecimento.
- Como assim "agradecimento"?
- Aline, você foi a única pessoa que não me julgou ou mesmo me feriu de alguma forma depois de saber a verdade sobre mim. — Ele finalmente chegou onde queria — Não estou dizendo que não foi chocante pra você. Eu vi nos seus olhos que foi.
- Não tinha como não ser — Eu completei.
- Exatamente — Ele assentiu. -, mas o ponto é que eu precisava de alguém. E você foi a pessoa que mais me ajudou e a pessoa que mais conseguiu me dar apoio nessas novas coisas que eu estou enfrentando. Eu sinceramente não sei o que fazer sem você.
- Eu nunca quero ficar sem você, Marcelo — Meu coração partido falava mais que minhas palavras.
- Aline, eu... — Vi lágrimas se formarem no canto dos olhos dele.
- Marcelo, o que foi? — Eu cheguei mais perto dele.
- Eu não sei como vou te dizer isso. Eu não sei nem se posso.
- Marcelo, você está me assustando. — Eu disse, procurando por respostas — Por favor, me diz o que está acontecendo.
- Eu estava tentando esconder algumas brigas que meus pais andam tendo de você, e é até por isso que ando te ligando pouco esses dias.
- Marcelo, eu não acredito que aquele imbecil do seu pai fez de novo a mesm... — Ele me cortou.
- Aline, não é só isso. Me escuta por favor, depois eu deixo você desabar, xingar, dizer o que você quiser.
- Tudo bem — Assenti, tentando conter todos os sentimentos que me vinham.
- O fato é que aquelas coisas aconteceram de novo. E sim, se é o que quer saber, meu pai fez aquilo de novo. — Ele continuou, com dor passando por seus olhos, como se estivesse vivendo tudo de novo ali mesmo, em sua mente — Mas ele começou a fazer isso com a minha mãe e a brigar e gritar com ela, dizendo que ele era o único que mandava ali. E até dizendo que o filho dele tinha virado "viadinho" por culpa dela.
Senti um bolo na minha garganta. Senti tudo descendo de novo, toda raiva emanando, querendo matar aquele idiota.
- O que aconteceu depois, foi que eu me meti e eu comecei a falar por ela. Eu comecei a enfiar o dedo na cara dele e dizer tudo que me vinha à mente, e que não era por eu ser o que eu sou, que eu não saberia me defender. Isso deu força à minha mãe, e ela finalmente teve a coragem de dizer que aquele não era o cara com quem ela tinha casado. — Ele fez uma pausa. Respirava forte a cada momento.
- E aí Marcelo? — Perguntei, finalmente.
- Minha mãe e meu pai vão se separar.
- Marcelo, isso é ótimo! Finalmente vai poder se livrar do seu pai e ajudar sua mãe, que finalmente conseguiu falar.
- Não é tão simples assim, Aline.
- Como não?
- Eu ainda sou menor, e por mais que seja durante "pouco tempo", meu pai quer brigar pela minha guarda na justiça.
- Como assim? — Eu ficava confusa — Ele não estava sendo completamente escroto sobre isso tudo?
- Ele quer consertar a merda que minha mãe fez comigo e "dar um jeito" em mim. Próprias palavras dele.
Minha mente ficava minimamente feliz com o fato de que aquilo não daria certo. E de que era ótimo o pai dele não conhecer o Igor.
- Idiotice. — Comentei — Além de não dar certo, se isso acontecer, sua mãe com certeza ganha sua guarda, caso você prove que ele te agrediu e tudo o mais.
- Sim, esse é um ponto — Ele suspirou.
- O que está errado então?
- Se eu ficar com a minha mãe, vou ter que me mudar pra casa de algum dos meus parentes, já que minha mãe não tem dinheiro suficiente pra manter uma casa. Você sabe que ela não tem um trabalho definitivo, nem nada assim.
- Eu sei, mas e aí?
- E aí que já que eu, você e Igor concordamos que a escolha mais correta seria ficar com a minha mãe...
- Escolha não, Marcelo. Você PRECISA ficar com a sua mãe.
- Eu sei.
- Até porque, morar com o seu pai seria suicídio.
- Eu sei.
- Eu não aguento te ver sofrer daquele jeito.
- Sim, eu entendo tudo isso.
- Então o que é? — Perguntei, enfim.
- Se eu for morar com os parentes da minha mãe, vou ter que me mudar pra onde estão meus avós maternos. No Sul do país.
Aquilo foi a gota. Aquilo era pior do que ter sido atropelada por um trem, com certeza. Agora eu sabia porque ele tinha dito que estava empacotando as coisas com a mãe. Sabia porque ele tinha procurado aquele tipo de cordão (com certeza não tinha sido algo pensado de um dia pro outro).
O único que não sabia de nada era ele. Ele não fazia ideia do porque meus sentimentos estavam tão exagerados daquela forma. Nada estava decidido, não haviam datas. Só havia o desespero no choro que tomou conta de mim logo após aquela informação.
Aqueles sentimentos misturados faziam-me passar mal. Minha amizade e carinho por ele não conseguiam fazer eu dizer que aquela era a única opção correta. Meu apego por ele não conseguia me fazer parar de abraçá-lo, por mais que o momento do abraço já tivesse passado. Minha sensatez não conseguia me fazer enxergar nada naquele momento. Eu estava quase bêbada, não sentia meus músculos, não sentia mais nada.
Havia algo no meu peito e nos meus olhos que queimava. Não podia ser qualquer coisa. Não podia ser simplesmente o acaso do erro.
Eu estava louca por dois meninos incríveis naquele momento. Não era enlouquecer, não era uma simples atração física e mental. Eu queria aqueles dois pra mim porque queria que Marcelo não fosse mais a pessoa que eu amava mais do que tudo no mundo inteiro.
E era exatamente isso que eu sentia. Meus soluços estúpidos me provavam que eu queria provar algo a mim mesma e não conseguia. Meus sentidos se voltavam contra mim quando eu não podia chorar e chorava, quando eu não podia agarrá-lo e o agarrava.
Não era pura coincidência. Não era pura emoção e falta de racionalidade que faziam minha boca estar tão próxima da dele e ter vontade de beijá-lo da forma como eu estava naquele momento. Era tudo que eu sentia por ele, e mais algumas coisas que eu não sabia que sentia, que estavam voltando e aflorando novamente, mais fortes do que nunca.
Eu me odiava. Eu detestava cada órgão do meu corpo por cada batimento e formigamento desnecessário. Ele era meu amigo, ele precisava de mim. Aquilo estava tão errado e tão certo ao mesmo tempo. Ele achava que precisava de mim, mas quem precisava dele o tempo todo era eu, que vacilava toda vez que via aquele sorriso maravilhoso correr para o meu abraço, de tantas saudades.
Era eu que estava ali, achando ter controle de tudo, que estava irracionalmente e perdidamente apaixonada por alguém que não se sentia nem um pouco atraído por mim. Por alguém que já tinha outro alguém, em outra parte da cidade, olhando para o céu naquele momento esperando que um olhasse pelo outro, em busca de respostas e soluções pra algo que já era perfeito.
Era eu, vibrando com cada fio do meu cabelo, que sentia que havia chegado a hora da verdade.
- Marcelo, eu preciso fazer uma coisa, e ao mesmo tempo te confessar uma coisa, que eu achei que nunca ia poder fazer.
- Qualquer coisa, Aline. Pode dizer — Ele dizia, da forma mais compreensiva do mundo.
"Você não devia ter dito isso..." Minha cabeça ecoava, quando percebia dizer aquilo em voz alta, sem querer dizer.
Fale com o autor