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6 Capítulo 6.


Elisabeta tentou respirar fundo quando acabou de ler a última frase da carta que lhe fora destinada. Tentou. Mas parecia que o oxigênio havia saído de seu corpo por alguns milésimos de segundo. Estava sem fôlego. Elisa sentia seu coração bater tão rápido e tão forte que desconfiava que o som pudesse ser ouvido para lá de Campinas. Leu a carta mais uma vez. E mais uma.

Não pensou que sentiria tanta falta das palavras de Darcy até ficar mais de um mês sem uma resposta. Não pensou que ficaria tão eufórica com a letra de outra pessoa até não visualizar mais o desenhado de seus traços. Era pouco tempo, de fato. Mas o receio de não mais receber as correspondências havia transformado aquele um mês e meio em três anos inteiros.

Havia errado. Darcy não tinha se ausentado de suas escritas, mas estava sem palavras para lhe direcionar. O havia desafiado, havia jogado seu jogo sem sequer um convite, e o deixara sem palavras por algum tempo. Ela sabia, havia caído na sua própria armadilha, já que também passou por poucas e boas por conta da angústia que sentiu com a falta. Mas o fato de ter intimidado Darcy a fez tremer.

Por um momento, desconfiou que o teor de seu discurso era mais uma forma de brincar de sentimentos, como fazia. Mas, mesmo que de uma forma ilusória, ela convencia-se que não. Porque Darcy havia demorado tanto para formular uma carta se fosse tudo uma brincadeira ou um jogo de palavras? Ela balançou a cabeça. Poderia ser uma tola, mas essa carta era completamente aberta, ele parecia realmente sincero com a confusão que se encontrava. Hesitou por um momento e respirou fundo. Elisabeta sabia que estava começando a se importar com Darcy e já não conseguia esconder aquele fato de si mesma.

Ela voltou os olhos para a carta. Ambígua, fogo, lábios. Estremeceu. Darcy parecia tão confuso, mas ao mesmo tempo tão certo de suas vontades. Era como se o conhecesse e visse o desespero em seus olhos por tudo aquilo que ele não conseguia identificar. Mas não deixou de sorrir quando identificou a sua avidez.

Elisabeta, que estava sentada em sua cama, levantou-se. Andou impacientemente pelo quarto. Seus pensamentos eram tão loucos que ela lutava para mantê-los em ordem. Esconder o óbvio não adiantava mais. Estava gostando de corresponder-se com Darcy. Mentir para si mesma que queria imitá-lo em seus dizeres também era um erro, era nítida a vontade que tinha de dizer tudo que realmente queria dizer, mesmo que de forma provocativa. Sentia a vontade de provocar Darcy, mas agora não era uma vontade de provocá-lo com o intuito de fazê-lo desistir do casamento. Sequer lembrava do fato de casar-se com Darcy. Era ridículo como o via apenas como um desconhecido com quem se correspondida. Ela fez careta, a pequena análise de seus estranhos sentimentos a fez perceber o inevitável, a descoberta da cor esverdeada dos olhos de Darcy a fez ter vontade de conhecê-lo.

"Vale do Café, Setembro de 1910.

Darcy,

não sei direito como começar essa carta. Acho que estamos sofrendo do mesmo mal — e eu espero realmente que estejamos.

Mas não demorei para lhe responder como você o fez. Suponho lido com os caminhos que se desprendem de minha rota central de forma mais rápida.

A intenção da minha escrita era apenas uma: provocar-lhe. Estou sendo sincera, brincar com sentimentos não é algo genuíno para se fazer e você pareceu gostar bastante da diversão. Sentiu na pele o que é ser vítima de seu próprio jogo, meu querido? Gostei do resultado.

Não o vejo em uma encruzilhada, você parece tão certo de suas palavras, mesmo que o seu conteúdo seja repleto de dúvidas. Eu admiro a sinceridade e você transpareceu com bastante eficácia todas as questões. Você me fez sentir uma vontade enorme de encher-lhe de respostas, inclusive respostas que eu nem sei ainda com total exatidão.

Eu sou fogo, Darcy. E brincar com fogo é um desafio para mim. Sou movida por desafios, eu amo correr contra o vento, com o objetivo de ser mais rápido que ele. Eu gosto das chamas. E você parece sentir as minhas faíscas. Toque-as. Levante-as. Faça arder e eu serei sua.

Não me pergunte e não questione o teor de minhas palavras, tão súbitas e inesperadas. Minhas mãos não parecem mais obedecer os meus receios. Elas estão livres de medo. Eu quero escrever-lhe.

PS1: o que está pensando agora? Imaginei as suas mãos nas minhas, cobririam-na.

PS2: Neste mais de 4 meses, eu nunca achei que diria isso, mas pude sentir o toque de seus lábios com as suas palavras.

PS3: Tive saudade de suas cartas. Não me faça mais esperar mais."

Darcy teve que se prender em sua cadeira de escritório para não cair para trás. Havia demorado mais de um mês para pensar em uma resposta para a carta anterior e, no momento do envio, arrependeu-se amargamente por as palavras escritas. Sem querer, havia aberto parte de seus medos para Elisabeta. Medos que surgiram assim que começou a escrever-lhe. Era estranho como Elisabeta, depois de sua primeira carta ofensiva, havia mudado sua perspectiva com as posteriores. Em um momento, pareciam gato e rato que pareciam se estranhar. No instante seguinte, já trocava irônicas palavras de amor, mesmo que ele fosse respondido com mais algumas ofensas. Um pouco depois, Elisabeta parecia querer brincar com ele, e ele já não sabia o que fazer quando percebeu que havia provado de seu próprio jogo e caído dentro de suas próprias palavras.

Darcy já não escondia que Elisabeta era o primeiro pensamento de seu dia. E suspeitava que depois daquela resposta positiva às suas dúvidas, aqueles sonhos roubados se intensificariam.

O sorriso não queria sair de seu rosto durante todo o percurso que seus olhos fizeram pelos dizeres a sua frente. Elisabeta estava aberta para ele, assim como ele abriu-se para Elisabeta. Não o havia ignorado, não havia rido de seus medos bobos e nem da escrita piegas que havia aprendido a gostar. Fora correspondido e, apesar disso ser uma esperança distante, seu peito se encheu de expectativa ao lembrar que um dia a teria em sua frente.

Ela o havia chamado de Darcy pela primeira vez.

"Londres, Outubro de 1910.

Elisabeta,

eu também espero que estejamos sofrendo do mesmo mal — e um dia quero aprender a nomeá-lo. Suspeito que ele tenha nome, os livros gostam muito de falar sobre ele, mas sinto que é cedo encontrar uma resposta para essa mistura de sentimentos. Não se assuste com a minha precoce constatação. Eu já aprendi que você me faz ser impulsivo, agora aprenda a lidar com o que me transformou.

Sua intenção foi atingida com um mérito incalculável. Eu realmente não sabia o que dizer depois que seus dizeres alcançaram o meu coração e não deixo de ficar feliz de ter te surpreendido positivamente.

Em uma coisa concordamos: a sinceridade sempre vai ter a melhor resposta. Mas, visto que a sinceridade das sensações que ando sentindo ao ler suas cartas podem ser expostas, você teria estômago para encará-las? Elas são fortes demais para duas pessoas que estão há um oceano de distância.

Queria compreender algumas coisas: como você pode fazer meu corpo acender em chamas ao ouvi-la dizer que é feita de brasas? Como ousa tocar minha pele sem ao menos estar presente para satisfazer os meus desejos mais profundos? É estranho como você começou a desvendar-me sem estar aqui. É estranho como a sua presença já tomou conta de toda a minha casa, de todo o meu quarto, de minha cama. Eu quase sinto você quando fecho os olhos e percebo meu corpo queimar com saudade de alguém que nunca esteve ao meu lado. Sua carta me deixou louco, Elisabeta. Espero que suas mãos não mais a obedeçam. Me escreva dessa forma novamente e eu atravesso todo este mar que nos separa para torná-la minha.

PS1 e 2: Você me fez imaginar minhas mãos na sua. Eu espero que a textura de sua pele seja fiel a textura que sinto agora, minha mente ilusionou seu corpo encostando no meu. Consegue sentir também? Imagine minha boca abrindo a sua.

PS3: Eu nunca mais vou parar de te escrever. Recebi sua carta há menos de uma hora. Já são dez da noite e eu realmente espero dar um jeito de enviar-lhe nesta madrugada. Nem que eu compre uma frota só para essa função."