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5 Capítulo 5


O sorriso de Elisabeta quase iluminava o seu quarto escuro enquanto as palavras de Darcy Williamson atravessavam suas pupilas. Desde a última carta que recebera do homem, a moça aguardava impaciente a réplica de suas respostas. Foi natural a forma com que a interação do par se tornou um jogo para ela. Muitas vezes, mesmo antes das cartas chegarem, Elisabeta já produzia inúmeras outras tentando adivinhar o que Darcy escreveria. E adivinhava de forma certeira. Era estranha a forma que já parecia conhecer aquele estranho.

Darcy começou a escrever-lhe de forma romântica, mas a menina não era boba. Sabia que isso tudo era um jogo dele para provoca-la, já que ela não era a favor daquele casamento. Mas o que começou como uma afronta irritante, logo se transfigurou em uma forma de entretenimento.

— Como ele é brega! – A menina riu ao ver o coração no canto da página, mas não deixou de morder o lábio em expectativa.

Por mais que Elisabeta tentasse ignorar uma frase especifica daquela que carta apertava com tanta segurança nas mãos, seus olhos não deixavam de voltar para aquelas poucas letras. Não deveria se importar. Mas não conseguia ignorar de forma nenhuma o fato de Darcy ter dispensado uma garota por causa dela. Elisabeta tinha plena certeza que aquilo era uma brincadeira, uma mentira inventada por ele para importuna-la sobre o fato de estarem juntos. Mas era involuntário o calor que aquecia seu corpo cada vez que sua visão encontrava aquele conjunto de letras.

Elisabeta tratou de deixar o pensamento de lado e logo voltou a examinou o conteúdo com mais afinco, tentando traçar o que responderia para o homem. Já vira que brigar com ele não era uma opção, ele sempre trataria de corteja-la com algum afeto exagerado e pouco verdadeiro.

— Preciso mudar minha tática.

A menina olhou para o vazio de seu quarto, pensativa. Mas logo sorriu diabolicamente, com o pensamento que atravessou sua mente naquele instante e continuou:

— Vejo que gosta de me provocar, Darcy Williamson. – passou a língua entre os lábios. — Então vamos ver se você sabe jogar!

“Vale do Café, 1910

Prezado Enerzinho,

É fato a ironia de suas palavras destinadas a mim. É fato também a intenção clara de me provocar usando de métodos nada assertivos para atingir o seu objetivo. Acha que me afetas com esse par de parágrafos piegas que me escreves? Não me subestime. Eu sou superior a você em inúmeros aspectos, meu querido.

A frase é “o amor e o ódio andam juntos”. Mas, não se engane, meu querido. Essa frase não diz respeito a nós, não temos um romance shakesperiano e nem viremos a ter. Não lhe sinto amor, não lhe sinto ódio. São grandes sentimentos para lhe destinar.

Ener, tome cuidado: quem brinca com fogo, pode se queimar. Eu sou fogo. Se eu fosse você, desistiria da tática que usa objetivando a minha ira. Não a sinto mais. Mas também sei brincar, também sei provocar, também sei tirar-lhe do sério. E eu não gostaria de tentar, então não me obrigue a fazê-lo.

Meus olhos são verdes como os campos que costumo cavalgar. E, como sei que jogou tanto com as palavras que entrou em seu próprio labirinto, divirta-se com a minha forma que começara a visitar a sua mente. Constantemente.

PS: só instigue minha imaginação se tiver certeza que me aguentarás. Qual o tamanho de suas mãos?

Novo PS2: encontra-se afetado com a minha presença? Fico satisfeita que não a tenha beijado. É estranho pensar que pensaria em meus lábios.

Darcy não conseguia pregar os olhos naquela noite, já lera tanto a carta de Elisabeta durante o dia que a sabia de cor e salteado. Fora dormir sem a responder. A carta mexera com ele. Com sua estabilidade, com sua mente e com seu corpo. Começou por provoca-la por saber que ela tinha uma negativa com o casamento que lhes fora proposto. Brincara com sentimentos, ironizara seus dizeres. Mas, nem por um milésimo de segundo, imaginou Elisabeta fazendo o mesmo.

Sua mulher havia começado a jogar. E jogou tão bem o jogo que ele iniciou que ele não conseguia mais continuar a partida. Darcy, por alguns momentos, sabia exatamente o que deveria dizer para desafia-la, mas por outros instantes, confundia-se com os dizeres da moça. Elisabeta estaria sendo irônica como ele ou realmente era sincera com aquelas palavras que lhe endereçou? A confusão o impedia de responder. E ele se martirizava por isso.

Ao ansiar mais que o normal para a contrapartida da moça, já havia percebido o gosto por a interação dos dois. Não sabia se estava desenvolvendo sentimentos como Camilo havia lhe chamado à atenção, mas sabia que já não olhava a relação dos dois da mesma forma. Já haviam se passado quatro meses da primeira carta e, apesar da distância, sentia Elisabeta em todos os cantos de sua rotina.

Ao tomar café, Elisabeta aparecia em seus pensamentos. Qual seria sua refeição de hoje? Ao almoçar, Darcy se fazia a mesma pergunta. A presença de Elisabeta já estava afetando o dia de Darcy de forma tão significativa que sentia-se em um compromisso real com a menina, mesmo que nunca tenha estado no mesmo ambiente que ela.

Loucura, ele sabia. E a certeza veio quando, sentados em um bar na alta noite de Londres, Darcy dispensou todas as mulheres que chegaram perto dele, alegando já estar compromissado. O som que saiu de sua boca foi tão espontâneo que só percebeu a frase depois de dizê-la. O olhar especulativo de Camilo só confirmou que aquela voz era mesmo de Darcy.

Darcy mudou de posição na cama pela décima vez. Não conseguia dormir e a culpa era daquela bendita carta que olhava para ele do lado de sua cama, junto com as outras que a menina lhe endereçara.

O homem sentou na cama e pegou o papel em questão, lendo novamente. A dúvida era excruciante e não queria parecer um tolo ao ser sincero em suas respostas. Mas não tinha mais vontade de ser grosseiro com a menina. Ela realmente olhara para ele com indiferença ou era apenas um joguete? A intenção era provoca-lo porque esperava que ele lhe provocasse de volta? Se o objetivo de Elisabeta era deixar Darcy sem resposta. Ela conseguira.

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Já haviam se passado um mês do envio de sua carta e a ansiedade de Elisabeta atingira níveis que ela nunca havia experimentado. Naquela semana, comparecera aos correios aos menos dez vezes, na semana passada também. Estava frustrada, impaciente e, se fosse confessar, triste. Lia sua carta todas as manhãs ao acordar. Será que havia sido muito dura em suas palavras? Ela havia tentado provoca-lo, era só ler o final daquela carta. Ela concordava que a carta havia sido um pouco dura ao insinuar indiferença para com os sentimentos que nutria com eles. Mas em vários parágrafos, Elisabeta tinha consciência que tentara mexer com a mente de Darcy da mesma forma que ele vinha mexendo com as delas, mesmo que com um romantismo fingido.

Pensou em escrever novamente ao rapaz, mas logo desistira da ideia. Era difícil admitir a si mesmo a falta que Darcy estava fazendo em seu mês. Mas parecia mais difícil ainda ignorar o nó na garganta que se fazia presente todas as manhãs ao acordar e lembrar do sonho que tinha com um homem que ela não conseguia identificar o rosto. Mas sabia que era Darcy.

— Elisabeta! – Ofélia bateu três vezes na porta da moça antes de abri-la.

— Oi mamãe. – respondeu, puxando um pouco sua coberta pra baixo e encarando a mulher em sua frente.

— Eu estava passando lá no centro e o seu Renato, dos correios, me mandou essa encomenda aqui pra você. Disse que você foi algumas vezes lá procurando por isso.

Ofélia tinha um envelope nas mãos. O reconhecimento fez Elisabeta dar um pulo da cama e puxar a encomenda das mãos da mãe.

— Ora, parece um bicho, menina! Tenha modos! – exclamou Ofélia. – O que tem de importante aí?

— Nada. Pode ir, mamãe! – disse apressada. Tudo que queria era abrir aquele envelope e ler logo o que continha ali.

— Deixa de ser mal educada, Elisabeta. Sou sua mãe. E essa folha parece ser importante. – Ofélia, que não tinha dado atenção ao que trazia nas mãos, mas agora tentava encontrar vestígios do que era. Sua curiosidade era coisa de outro mundo.

— Mamãe! – exclamou. – pode me dar licença, por favor?

— Ih, cheia de segredos. – A mãe, que se mantinha na porta, virou-se para sair um tanto frustrada.

Elisabeta rasgou o envelope assim que fechou a porta de seu quarto. Seu peito parecia querer explodir, o êxtase a atingiu de maneira abrupta. Nunca havia sentido nada tão forte e nunca esperaria sentir por uma simples folha de papel. Mas não pensava no que seria aquilo agora, só queria logo devorar aquele conteúdo.

“Londres, Setembro de 1910.

Prezada mulher do Ener,

desculpe a demora para a réplica de suas palavras, não era minha intenção inicial, mas você não me deixou escolha. Ponto pra você!

Desculpe a sinceridade, mas você é um tanto ambígua. Vasculhei por todos os campos de minha mente qual a sua intenção ao me escrever e não encontrei nada plausível para que a charada se desenvolvesse. Você é fogo, mas indiferente? Você arde, mas não me toca? Como posso sentir o seu calor se, em um dos seus dizeres, diz que há um vazio em você quando se dirige a mim.

Claro que eu sei que sentimos coisas diferentes por cada pessoa que cruza nosso caminho. Mas não há como gerar faísca no oco.

Estou entre dois caminhos. Estou em uma encruzilhada e não sei para onde seguir. Ao passar o tempo e não conseguir desenvolver o conteúdo, mais uma dúvida aflorou minha mente inquieta: estaria você feliz com a minha desistência ou triste por o mesmo motivo?

Preciso admitir: senti uma mistura de sentimentos ao ler-te. Era quase palpável o gelo de seu coração que me fazia trincar os dentes, mas que logo era derretido fogo de seu corpo ao ser estimulado. Minha imaginação deu saltos, mas a queda era dura.

Se fosse para escolher: eu gostaria de brincar com o fogo, ao invés de brigar com o gelo. Eu gostaria de ser as faíscas que saem de você. Mais precisamente, a gasolina que te estimula.

E, se quer saber, nossa mescla é uniforme: temos o mesmo brilho verde nos olhos.”

PS1: quer saber o que se passa na minha imaginação? Tenho as mãos mais grandes que você já presenciou.

PS2: Eu quero sentir seus lábios.