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17 Capítulo 17
Vale do Café, Março de 1911.
“Meu querido Darcy,
não o julgo por o que faz ou deixa de fazer se o seu coração, corpo ou mente pedem por isso. Nunca lhe privaria dos seus anseios ou desejos quando isso significa amá-lo em toda plenitude da palavra.
Eu entendo que amor é isso, é deixar a contradição, a hipocrisia e o egoísmo como segunda opção, para colocar no lugar mais alto do pódio a liberdade do outro.
Você é como um pássaro, eu sou como um pássaro. Nós voamos, exploramos, temos a independência de escolher nossa casa e quando voltar para ela.
Eu te entendo, Darcy. Eu sou você em todas as suas peculiaridades. Seu coração também é o meu com todos os defeitos, os erros e os sonhos proibidos.
Nunca pensei no amor como algo opressor. E você é a prova que na prática isso também funciona.
Eu me sinto mal por deixar outro tocar meu corpo quando as correntes elétricas que me invadiram foram mais forte que minha sanidade. Mas eu ainda consigo sentir seus braços me envolvendo em um abraço puro, eu ainda consigo sentir seus lábios tocando os meus em um beijo calmo. Eu ainda consigo ouvir o nosso sim.
Estamos na semana do nosso casamento e mesmo que meu corpo esteja em clemência com outro ser, eu ainda amo você, Darcy Williamson.”
Era isso. Darcy sorriu com um peso no coração, mas um sorriso tão verdadeiro quanto o sol que brilhava naquele dia. Havia encontrado sua desconhecida no dia anterior quando se amaram uma, duas, três vezes. Seu coração fora preenchido por ela, mas nada parecia tão reconfortante que aquela carta.
Amava o corpo de sua estranha, mas amava as palavras de sua mulher. Era estranho o prazer que sentia com alguém que não sabia o nome, mas era completamente certo o aconchego, a tranquilidade e maturidade que um relacionamento com Elisabeta Benedito parecia ter.
Puro. Pureza era a palavra que lhe descrevia em toda sua essência. O que sentia por Elisabeta havia sido construído milimetricamente durante todos aqueles meses de correspondência. Havia conhecido sua personalidade, seu coração, sua alma. E sem nem precisar tocar seu corpo.
Darcy sentou sobre a cadeira ao lado dos presentes de casamento. Tudo vermelho e branco. Branco era a cor que identificava Elisabeta agora. Ela era sua transparência e sua verdade. Nada era tão inegável que isso.
Ele colocou a mão sobre uma das caixas vermelhas e um objeto reconhecível foi sentido em suas mãos. Era a caneta da desconhecida. Não deixou de sorrir quando a imagem da moça misteriosa era associada àquela cor também. Era fogo, paixão, selvageria, como imaginava Elisabeta. Será que Elisabeta também faiscava como diziam as cartas?
Balançou a cabeça. Não era justo associar as duas. Ele não teria ambas.
E assim tomou sua decisão. Uma decisão fácil, mas que doía pensar.
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Por um instante, Elisabeta vacilou em sua decisão. Como duas pessoas poderiam se encontrar em um local aleatório, em meio ao nada, sem ao menos cogitar aquilo anteriormente? Era Darcy ali, em meio há um estábulo velho, perto da cachoeira. Isso só poderia ser o destino outra vez.
— Explorando o Vale do Café? — perguntou Elisabeta em um tom moderado e divertido, ainda estava em cima do cavalo.
Darcy deu um pulo ao perceber a menina ali, próximo a ele. Elisabeta já começava a descer do animal.
— Estava a sua procura. — Ele disse, enquanto amarrava o animal. — Eu ia até a cachoeira.
— Mas você não coloca seu cavalo aqui, presumo. Tornado sempre fica solitário quando vou me banhar. — brincou. Darcy sorriu, costumavam conversar pouco em seus encontros.
— Mudei a rota para refletir sobre algumas questões. Acabei achando esse casebre. — Darcy olhava para o pequeno local, analisando.
— Eu deixo aqui, já que ninguém vem. — deu de ombros. — É bom em épocas de chuva.
— Bem pensado. — Darcy sorriu, mas percebeu Elisabeta levantar uma das sobrancelhas. — O que foi?
— Você disse que estava me procurando. Também disse que precisava refletir. — passou a língua sobre os lábios, nervosa. — Devo ficar nervosa?
— Bom, depende. — respondeu. — Eu também estou. É um assunto complicado.
— Pode dizer.
— É melhor irmos a um lugar mais reservado.
— Mais que aqui? — Elisabeta riu baixo. — Não me deixe ansiosa.
— Eu nem sei por onde começar. — Darcy colocou as mãos nos bolsos, enquanto seu corpo parecia inquieto.
— Pelo começo seria bom. — brincou, tentando amenizar o clima tenso que ela viu se instaurar.
— É que nem tem um começo. — Darcy viu sua expressão ficar confusa. — Vamos sentar?
Ele apontou para dois caixotes que tinham no local. Sentaram. Elisabeta sentia seu coração disparar, já imaginava que o assunto que queria tratar com Darcy, era o mesmo que ele.
— É sobre a gente? Digo… Sobre o seu casamento, o meu e a gente?
— É sim. — Ele abaixou a cabeça.
— Imagina o que seja. Eu também te procurava para falar sobre isso. Tomei uma decisão. — Ela olhava para o fundo dos olhos de Darcy.
— Eu também tomei uma decisão. Mas não sei se é boa para nós.
— A minha não é. — admitiu.
— A minha também não.
A expressão no rosto dos dois era triste, pesada. Darcy queria a desconhecida. Elisabeta queria o desconhecido. Mas o amor construído nas cartas parecia tão imensamente maior naquele momento. Eles sabiam que o tempo também faria aquilo acontecer com eles, mas como ter a certeza que a pureza também viria quando já tinham toda a compreensão que precisavam com outra pessoa?
— A gente termina o que nem começou, então? — Darcy perguntou.
— A gente termina o que nem começou. — Ela repetiu, olhando para a boca de Darcy.
Darcy não aguentou e a puxou para um selinho demorado, ela correspondeu com a mesma intensidade, deixando a boca dele devagar. Sorriram de modo triste. Darcy segurou as mãos de Elisabeta.
— Eu peço desculpas. Eu peço desculpas, do fundo do meu coração, por tudo que aconteceu. Eu peço desculpas por a minha falta de jeito, por minha falta de controle sempre que te via. Eu… — vacilou.
— Não preciso pedir desculpas. — Ela colocou um dedo sobre a boca de Darcy, que o beijou. — Eu fiz a mesma coisa que você. Eu não me controlei mesmo tendo noivo. Eu não resisti aos seus olhos verdes. — riu, dando um beijinho nos olhos de Darcy, que fechou. — Eu não resisti a você também, por inteiro. E bom… eu que me joguei em cima de você, como você disse quando nos encontramos.
Darcy riu.
— É, você é mais culpada que eu.
— Eiii. — protestou, dando um tapa no peito dele. Mas não deixou de rir também.
— Nós dois somos culpados… Mas também somos vítimas de um sentimento louco. Eu gostei do que senti por você.
— Eu gosto do que sinto por você. — Ela deu ênfase na palavra, Darcy formulou uma expressão de derrota.
— Assim você não acha.
Elisabeta sorriu e colocou a mão no rosto dele.
— Mesmo não te conhecendo tanto, eu vejo que você é uma boa pessoa. Eu vejo que assim como eu, você encontrou algo forte demais para lutar contra. Mas, não sei por qual motivo, eu também consigo ver que você ama a pessoa que você tem. Eu sinto que às vezes você tem receio de me beijar, mesmo já tendo me deixado tantas e tantas vezes. E eu sinto a mesma coisa. É como um querer não querendo. É como se a fidelidade por o amor que você sente por a outra fosse tão forte quanto o desejo que você parece sentir por mim.
— É exatamente isso. É isso. — disse Darcy, como euforia na voz. Ele também segurou o rosto dela. — É como se eu a amasse mais do que a mim mesmo. Mas é como se eu te quisesse mais que a mim mesmo. E isso é tão louco que ela sabe de nós dois.
— Sabe?
— Sim. E ela entendeu. Eu sei que parece mentira e algo pra amenizar a nossa culpa, mas ela entendeu. — Ele acariciou o rosto de Elisabeta.
— Eu acredito em você. Meu noivo também entendeu. — Darcy franziu a testa. — O que foi?
— É engraçado como a nossa história parece a mesma.
— Eu penso o mesmo. — Elisabeta disse. — Mas tenho uma teoria que é por isso que nós nos atraímos. Você parece muito meu noivo em alguns aspectos. Não que eu tenha te visto nele e nem nada disso, não pense isso. — se defendeu de imediato.
— Não, não. Claro que não. Eu entendo. Eu também te vejo muito nela. Até associo vocês a uma cor.
Elisabeta achou graça.
— Qual cor?
— Vermelho.
— É minha cor preferida. — Ela arregalou os olhos. — Mas não é muito difícil adivinhar. Olhe para os meus vestidos!
— É, você me pegou. — Ele riu.
— Bom… temos que ir, não? — Um nó se colocou em sua garganta. Era difícil demais. Ela se levantou.
— Temos. — Ele se levantou também, não deixando de olhá-la de cima abaixo.
Darcy viu uma lágrima solitária no rosto dela, se aproximou para limpar.
— Não fique assim. Mesmo que eu esteja sentido o mesmo e que minhas lágrimas estejam presas em minha garganta, não quero lembrá-la dessa forma.
— Eu me apeguei a você. Mas nós precisamos ser felizes. — Ela o abraçou pela cintura, colocando sua cabeça no peito dele. O coração dele batia forte.
— E nós vamos. Eu e você seremos felizes com quem nós amamos, mesmo sem deixar de nos querer.
— Mesmo nos conhecendo pouco, eu sempre terei lembranças boas suas. — Ela sentiu ele apertá-la mais. Aquele parecia o melhor abraço do mundo.
— Eu também. E por isso, não quero lembrá-la assim, com esse rosto triste. — Ele segurou seu rosto entre as mãos. — Eu quero lembrar da sua expressão de plenitude, do seu corpo e das minhas marcas em você.
Darcy e Elisabeta se olharam profundamente, antes de Darcy tomá-la com um beijo intenso, mostrando toda a saudade que já sentia do seu gosto preferido até ali. Ele não poderia falar do futuro e nem de como seria o gosto de sua Elisabeta. Mas, até aquele momento, aquela desconhecida era sua descoberta favorita, era o seu cheiro favorito, era o seu abraço favorito. Por isso ele a envolveu pela cintura de forma possessiva, colando totalmente o corpo dela no dele, naquela posição já conhecida pelos os dois.
Darcy a beijava com volúpia, com possessão, com desejo. Aquela era a última vez que a beijaria por isso precisava explorar totalmente sua menina.
Elisabeta destrinchava toda a boca dele, sentindo sua língua, sentindo a respiração dele já acelerada de desejo. Não por menos, já estava completamente entregue. Ela colocou as mãos em volta do pescoço dele, fazendo-o aprofundar ainda mais o beijo. O ritmo era tão certo, a forma era tão certa. Teria feito a escolha certa? Se contentaria se Darcy fosse menos que ele. Era um passo no escuro, ela sabia. Então precisava aproveitar tudo que poderia aquele dia. Ela pulou no colo de Darcy, entrelaçando os pés em volta da cintura dele.
Darcy a agarrou assim que sentiu o impulso dado por ela, apertou suas coxas com todo o contato que queria. Era forte, era o que ele sentia. Ele sabia que havia um espaço macio, coberto feno logo atrás deles, então foi até ali, sem desgrudar do beijo, e a posicionou em cima. Ele logo deitou sobre ela, acomodando seu corpo naquele corpo pequeno.
Elisabeta abaixou seus beijos para o queixo dele, mordendo. Darcy sorriu, adorava quando ela mostrava o que queria. Ele, sem pensar mais, afundou a cabeça no pescoço dela, começando a explorar aquela região que gostava tanto.
Ela gemeu baixo. Era tão bom sentir a boca em sua pele, era como se cada rastro do seu caminho se transformasse em fogo, acendendo como luz todas as suas células.
Não precisou de muito tempo para ela sentir o feno pinicar suas costas. Era tão ágil a forma que conseguiu se livrar de tudo que os impediam de sentir os corpos em contato.
Elisabeta se esfregava embaixo dele, queria gravar toda parte do corpo daquele homem no seu pra sempre. Suas coxas em contato com a coxa dele, sua barriga de frente pra ele, seus mamilos roçando naquele peito duro, suas mãos arranhando levemente aquelas costas e sua intimidade passando suavemente na dele, sem penetração. Tudo tão íntimo, tudo tão eles.
Darcy segurou a coxa de Elisabeta sem aguentar mais, queria senti-la, queria afundar-se nela por uma última vez. E assim o fez. Ele a possuiu forte, em uma estocada única e profunda. Elisabeta gritou com a dureza, mas sua única sensação foi de prazer. Ele era tão duro que era ilógico estremecer da forma que estremecia.
Os movimentos já começaram rápidos, eles se amavam de forma sensavem. Elisabeta vez ou outra mordia o ombro dele, tentando amenizar os gemidos altos demais que saiam de sua boca. Ele, por sua vez, tentava segurar o seu orgasmo, queria senti-la mais, queria tê-la mais. Era a última vez, e o demais era pouco para ele. Ele a explorava, intercalava estocadas lentas e profundas, com movimentos rápidos logo em seguida. Ele a via revirar os olhos, e imaginava que imitava suas expressões.
Darcy abriu mais as pernas dela para melhorar a posição e abaixou um pouco a cabeça sem parar de se movimentar, queria seus seios. Queria beijá-los. Puxou o corpo dela levemente para cima e ela levantou um pouco o quadril para não impedi-lo de penetra-la e oferecer-se mais pra ele. Darcy abocanhou os seios dela assim que sentiu que iria chegar no ápice do prazer, era preciso tê-la na boca para sentir inteira. Sentiu, mordeu, beijou, lambeu. Elisabeta se contorcia embaixo dele, e toda aquela cena o fez chegar em um local que jamais tinha chegado. O prazer era inigualável, a forma com que sua respiração falhava era grande demais. E Darcy também sentiu, sentiu quando ela se derramava nele, sentiu tudo que queria sentir com a desconhecida, sentiu quando ela sussurrava que ainda o queria. Assim como ela sentia quando ele dizia que a correspondia em palavras desconexas.
E eles sentiram, sentiram quando foram embora, sentiram quando se despediram sem dizer mais nenhuma palavra, sentiam que queria gravar aquele momento sem nenhuma interferência. Sua desconhecida ficaria ali, seu desconhecido também ficaria ali. Sobre aqueles fenos, em um prazer fora do comum.
Antes de olharem para o futuro, eles se olharam profundamente, gravaram cada parte daquele rosto que já não veriam mais, mas que estava tatuado sobre a pele.
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