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16 Capítulo 16
Vale do Café, Fevereiro de 1911.
Eu não sei se compreendi com exatidão a suplício de suas palavras. Eu não sei se fui correto ou leviano em minha interpretação, já que minha mente vagueia entre a fidelidade e o pecado.
Admito que pequei, Elisabeta.
Mordi o fruto de minha perturbação e as lágrimas que agora escondem o meu rosto são a prova de minha derrota.
Eu não me contive, eu me deixei levar. Fui enfeitiçado por um canto que puxava, que sufocava, que ardia.
Não há justificativa para tal ato. Mas Elisabeta, meu coração ficou elástico. Ele me puxava para lá e eu via você. Eu voltava, eu ia novamente. Você não estava lá, mas parecia estar.
Será que sofro de alguma enfermidade? Será que minha cabeça já não sincroniza com a realidade?
Estou vagando entre o real e o imaginário e temo que eu fique perdido dentro desse mundo que eu criei.
E eu não me desato, Elisabeta. Quando o sol toca meu rosto, eu sinto que eu te quero. Eu sinto que o sentimento fica mais forte. Eu sinto que a cada vez que toco outro corpo eu preciso de suas palavras invadindo os meus pensamentos.
Eu estou louco. Eu quero encontrar o caminho de volta. Meu peito chora para encontrar o caminho de volta. Não sei em que tipo de acordo — mais um, que contradição — nós nos colocamos. Nem sei em que esquina você pode estar ou se você ainda vai querer estar aqui quando nosso coração se acalmar.
Eu não quero me perder. Eu não quero perder você.
Elisabeta demorou algumas horas para ler a carta depois de tê-la em mãos. Não tinha coragem. Não havia um resquício de coragem depois de ter se entregado a outro, depois de deixar ser amada pela primeira vez por outro. Não havia, tampouco, um sentimento certeiro em seu inteiror.
O cheiro do desconhecido estava impregnado de forma torturante no seu corpo. E por mais que tenha de banhado por duas vezes ao chegar em casa, embaixo das lágrimas que insistiam em se misturar com a água, não conseguia tirar a essência daquele corpo de seus sentidos. Ela imaginava que não estava mais no corpo, estava gravado em sua cabeça. Como havia se entregado a outro? Como havia, de forma completamente consciente, se entregado a outra por mais de uma vez?
Eles haviam dormido sobre a luz da lua, entrelaçados em uma pequena manta que havia levado para secar seu corpo quando saísse da cachoeira. A noite fora tranquila, não houveram palavras depois do ato, mas o abraço daquela corpo cobrindo o seu quando se deitaram foi suficiente para que o momento fosse considerado sagrado para os dois. Era estranho o fato de não precisarem de palavras. Era como se eles já tivessem dito todas as palavras que suas bocas queriam pronunciar.
Elisabeta não entendia como poderia sentir-se culpada e traída ao mesmo tempo, não quando também fora algoz do amor que havia construída com Darcy.
Ao terminar a carta, envolta a liquidez que se esvaia de seus olhos, pensara em como eles eram mocinhos e vilões da própria história, e em como os caminhos da vida haviam pregado uma peça em sua trajetória.
Elisabeta nunca havia amado ninguém em toda sua vida, sequer havia gostado de algum de seus namoricos de adolescência. Suas irmãs costumavam falar que ela tinha um coração gelado, e um gelo incapaz de ser aquecido por um abraço. Que belo engano! E que decepção teriam suas companheiras de vida se a vissem naquele momento.
Amava um homem. Se via envolvida — e ela ainda não queria refletir sobre o intensidade, com outro homem. Estava entre duas linhas e a resposta parecia óbvia demais, mas seus sentimentos eram estranhos demais, e suas vontades dúbias demais.
Darcy era compreensivo, Darcy era amigo. Darcy, mesmo que também passasse por uma situação parecia, dizia constantemente que a amava e que a queria por perto. E Elisabeta o compreendia em sua totalidade. Ela também se entregara a outro, mas amava Darcy e toda a sua abnegação para a situação em que ela também se encontrava.
Ela queria se reconectar a Darcy. Como deixaria um amor puro e compreensivo virar cinzas por chamas que encontrou e a fez explodir? Estava no limite entre o amor e a paixão.
Com um suspiro exausto, Elisabeta sentou em sua escrivaninha. Ela colocou uma caneta na mão — sua nova caneta, e destacou mais uma folha de papel de seu caderno. Era justo escrever para Darcy naquele momento, sem esperar por mais um minuto. Não queria pensar em formas de dizer para ele o que pensava, a sinceridade que eles tinham um com o outro era uma das coisas que mais admirava naquela complexa relação e nada mais adequado do que responder-lhe no momento em que seus sentimentos estavam mais à flor da pele, mesmo que dali há alguns minutos, o desconhecido fosse o motivo de sua ansiedade.
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Elisabeta estava sentada, com os pés dentro das águas daquela cachoeira. Em sua barriga, um frio que agora era comum se alojava, como uma visita frequente. Ela olhava para um lado, ela olhava para o outro e já cogitava que fora deixada de lado.
Não passou despercebido o pesar que lhe ocorreu ao pensar sobre aquilo. Ela riu indignada com seu próprio pensamento, como poderia frustrar-se com a possibilidade de seu estranho tê-la deixado esperando?
— Do que sorri? — Uma voz se fez presente no ambiente, e rapidamente Elisabeta virou a cabeça pra trás.
— Achei que não viria. — respondeu, com um suspiro.
— Você se importaria se eu não viesse? — Darcy se aproximou. Ele já tirava os sapatos, pronto para sentar ao lado de Elisabeta. Encarou-a profundamente.
— Sim. — confessou. Suas palavras pareciam não querer omitir nada.
— Eu também. — Riu de lado, olhando para os pés na água. Os dois se mexiam em conjunto.
Elisabeta se limitou a olhar para o desconhecido, não sabia o que dizer.
— Eu não sei o que dizer quando estou com você. — Ele confessou, parecia ler os pensamentos dela.
— Eu também não sei. Assim como não sei o que aconteceu… — apertou os lábios, soltando o ar em seguida. — Ou aconteceu entre nós.
— Eu te disse, parece que uma força me puxa pra você — ele a olhou, virando de lado.
— Eu sinto a mesma coisa, mas não é lógico. Esse nosso diálogo. Na verdade, todos os nossos diálogos, eles parecem estranhos, vazios… Mas, profundos.
Darcy riu, Elisabeta sorriu também.
— Não só os diálogos. — brincou. Ele viu ela olhar pra baixo.
Darcy levantou o queixo de Elisabeta, percebendo um olhar triste.
— Não é bom pra você?
— É… — mordeu o lábio. — Mas… Eu não devo te falar isso.
— Não confia em mim?
— Eu não te conheço.
— Bom… — Ele virou a cabeça de lado, com um sorriso lateral. — Depende do contexto.
— Eu deveria ficar ofendida com essa colocação. — foi a vez dela o olhar com profundidade.
— Não deveria, é recíproco. Você também me conhece.
— Nós nos conhecemos — fez aspas com as mãos -, mas não sabemos nossos nomes.
— E deveríamos? — contestou, levantando a sobrancelha.
— É o ideal. — disse, simplesmente.
— Pode ser. — deu de ombros. — Mas é como se isso não fosse importante, não quando tudo aconteceu rápido demais, de uma forma intensa demais, e quando você tem algo para me dizer e não me diz. — pontuou.
— Como eu disse… Não sei se deveria. — voltou a olhar pra baixo, mas não demorou muito para seu olhar ser sugado de volta ao estranho. — Como você faz isso?
— O que eu faço?
— Eu não consigo ficar muito tempo sem olhar pra você ou… Ou falar tudo que parece invadir minha cabeça.
— Então fala… porque minhas palavras também querem correr daqui. — Ele levantou uma das mãos e acariciou o rosto dela, antes de passar o polegar por os seus lábios.
— Eu vou… — vacilou. — Eu vou me casar.
Darcy sentiu seu coração perder os compassos por alguns segundos, parecia ver Elisabeta em sua frente. Ele balançou a cabeça, ela estranhou.
— O que foi?
— Nada. Eu… — olhou pra ela, estreitando os olhos. — Eu também vou.
— Como? — arregalou os olhos, tirando a mão dele de seu rosto. — Como você vai se casar e está assim comigo?
— Bom… você também está assim comigo. — deu de ombros, mas suspirou logo depois.
— Como podemos estar fazendo isso com outras pessoas que em algum momento prometemos nossa total fidelidade? — Elisabeta olhava para ele indignada, estava brava com ele, estava brava com ela.
— Eu não sei. — se defendeu, segurando o rosto dela entre as mãos. — Mas não me julgue, por favor.- Era como um pedido de socorro. — Me ajude a entender.
— Mas eu não me entendo também. — Ela deixou o ar sair de seus pulmões de uma vez.
— Você o ama? — perguntou, mesmo sem saber qual resposta poderia preferir.
— Eu o amo.
— Eu também a amo.
Os dois sorriram. Eles não sabiam o motivo do sorriso, mas ambos, superando qualquer tipo de receio, sentiram um estranho conforto com aquelas palavras.
— Mas… — Elisabeta começou, sem conseguir trancar a frase dentro de sua cabeça.
— Mas?
— Mas eu sinto uma espécie de paixão por você. — a careta que ela fez ao proferir aquilo o fez rir. E ele fez a mesma expressão quando a respondeu.
— Eu também sinto uma espécie de paixão por você.
— Ai, meu Deus! Nós somos dois loucos. — Riu, sem saber a razão.
— Que bom que não estou sozinho nessa, então. — acompanhou a gargalhada, passando a mão no braço dela. Ele sentiu que ela arrepiou.
— E o que fazemos? — perguntou, sinceramente.
— Não sei. Mas não quero saber seu nome agora, não com tudo isso que sentimos, não sem saber o que sentimos.
— Eu não tenho noção alguma do que vai ser daqui pra frente.
— Nem eu. Não posso me casar quando minha paixão por outro me faz me perder em outro corpo. — Elisa disse e ele depositou um selinho nos lábios dela.
— Meu casamento é em uma semana e estranhamente eu quero você.
— Eu quero você, não sei até quando, mas agora parece certo demais.
— Agora? — Ele perguntou, roçando os lábios nos dela.
— Sim. — respondeu de forma quase inaudível, antes dele capturar os lábios.
O beijo foi intenso, como tudo desde aquele encontro. As línguas se encontraram em uma exatidão que provara que aquele encontro parecia premeditado demais para ser um mero acaso. As bocas tinham o mesmo ritmo, o corpo parecia se acender de imediato quando qualquer parte dos dois corpos se tocavam.
Darcy a puxou mais para perto, enlaçando-a pela cintura antes de descer os beijos para o pescoço. Ele agarrou os cabelos dela para trás, puxando os fios para o lado para ter mais espaço para explorar a curva de seu pescoço. A língua de Darcy roçava, beijava, sugava aquela parte do corpo de Elisabeta e ela já não tinha forças para pensar em mais nada.
Era confortável a forma como eles se moldavam e não conseguiam sentir a culpa que constantemente os agarrava quando as mãos já exploravam os corpos e as roupas já não existiam.
Elisabeta parecia conhecer seu desconhecido, não só em forma corpórea. Darcy parecia conhecer sua conhecida, em toda a imensidão de sua alma.
As imagens que se projetaram novamente em sua mente pareceu não incomodar quando Darcy adentrou o corpo de Elisabeta. Eles queriam sentir Darcy e Elisabeta, mesmo que não fosse Darcy e Elisabeta.
Será que, quando o sim fosse dito no altar e as roupas também fossem retiradas de seus corpos, a movimentação do seu desejo seria a mesma? Será que, quando a lua batesse na porta da noite, a explosão de seus corpos quando o ápice os atingisse, seria tão forte como naquele orgasmo desconhecido?
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