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14 Capítulo 14
“Vale do Café, Fevereiro de 1911.
Darcy,
Eu não sei o que dizer.
Pela primeira vez, eu não sei o que dizer.
Tentei escrever-lhe por uma noite. Tentei escrever-lhe por muitas horas. Tentei escrever-lhe até que algumas lágrimas molharam meu rosto e... eu não sei o que dizer. Eu continuo sem saber o que dizer ao começar esse próximo parágrafo.
Não foi um ato, mas eu te peço desculpas. Não aconteceu absolutamente nada, mas eu te peço desculpas. Eu te peço desculpas por parar de falar, por me aproximar, por suspirar.
Eu não consigo lhe explicar ou dizer do que se trata esse meu receio, essa minha angústia, essa devastação que atingiu meu peito e fica, e fica, e fica.
Eu estou latejando. Minha cabeça dói, meu peito dói,
você dói.
Eu não sei do que se trata.
Eu duvido que você entenda o que se passa.
Eu só não sei o que dizer.
PS: Te amo em todos os meus ps's. E essa é minha única certeza. Desculpa por tudo ou nada.”
Darcy não compreendeu com exatidão as palavras descritas ao longo daquela carta. Uma carta curta e sem muitas explicações. Ele tentou uma, duas, três vezes. Mas sua compreensão parecia ter sido roubada. Ele só não sabia se fora roubada por a confusão redigida pela Elisabeta ou se pelos lábios doces da estranha que acabara de tocar com gana.
Darcy quis soluçar, ele parecia sentir exatamente o que Elisabeta Benedito lhe descrevera, com todas as vírgulas, com todos os pontos, com todas as angústias.
Doeu perceber, doeu sentir.
Darcy vasculhou todos os cantos de sua mente quando abriu a porta do quarto do hotel que estava hospeado. Tudo parecia igual, desde sua cama por arrumar até os itens de coração da cor vermelho sobre o piso bem encerado.
Mas seu corpo não parecia mais o mesmo.
Ele estava aromatizado. O seu aroma intacto, parecia exalar outro perfume, outro corpo. Outra vida.
Darcy já não era o mesmo que chegara ao Vale do Café, tampouco era o mesmo que saira pela manhã para cavalgar e espairecer a cabeça. Nunca poderia adivinhar que a perderia.
Darcy tocou outra pele, mesmo que nunca tenha tocado Elisabeta. Darcy saciou outro corpo, mesmo que nunca tenha de fato, saciado Elisabeta. Darcy quis outra boca, e não pensou em Elisabeta.
Ele se torturava, se martirizava. Darcy era um estúpido que nunca poderia sequer ter a honra de ter o rosto de Elisabeta diante de si.
“Vale do Café, Fevereiro de 1911.
Elisabeta,
não precisa me dizer nada. Independente de suas palavras, você não precisa me dizer nada.
Eu não mereço suas palavras, eu não mereço você e suas dúvidas, suas angústias. Eu não mereço nem o seu rancor. Elisabeta, eu não mereço você.
Eu não preciso lhe entender, já que qualquer coisa que você tenha pra me dizer não será nada comparado ao que eu precisaria te dizer.
Elisabeta, você é a coisa mais preciosa que poderia aparecer na minha vida. E eu te manchei. Eu deixei outro corpo acender o meu, tocar o meu.
Eu quis outro corpo. Quase cedi outro corpo. Quase.
Mas é um quase que me apavora. É um quase que eu me arrependo e, eu verdadeiramente não queria me arrepender de ter parado no quase.
Estou sendo sincero, Elisabeta. Sincero de uma forma que eu sempre fui com você.
Não me perdoo pelo desejo que senti, mas nunca me perdoaria por mentir por você!
Eu te amo.
Eu te amo de novo.
E eu te escrevo.
Eu te escrevo todas as palavras que eu sinto
e hoje eu sinto isso.
PS’s: Seu amor é mais do que eu mereço. Me desculpa por te fazer me desamar.
A primeira reação de Elisabeta foi o choque.
A segunda reação de Elisabeta foi a tristeza.
A terceira reação de Elisabeta foi a culpa.
Culpa compartilhada, culpa amenizada. Culpa que quase não era mais culpa, mas que sentia a culpa por querer não sentir culpa.
Darcy havia cometido o mesmo ato falho que Elisabeta. E Elisabeta não conseguia entender qual o sentido daquilo.
Seu peito vibrada, mas seu peito doía.
Darcy havia tocado outra há alguns dias do seu casamento. Mas Elisabeta também havia tocado outro há alguns dias do seu casamento.
Era uma história que não batia, era uma coincidência que parecia querer lhe dizer algo, mas o quebra-cabeça que se formava em sua mente escondiam algumas peças.
Darcy entendia sua culpa, Darcy entendia a sua confusão, Darcy estava sentindo a mesma coisa que ela naquele momento.
Choque, tristeza e culpa. Quando imaginou que a vinda de Darcy ao Vale do Café seria definida por aquelas palavras tão desprazerosas?
Darcy parecia terminar com ela com aquela carta e seu rosto não escondeu o desespero com a constatação. Uma, ou cinco, ou mais lágrimas começaram a escorrer sem aviso pelo rosto de Elisabeta.
Eles haviam se perdido antes de se encontrarem, eles haviam se deixado pelo caminho sem combinar a cor dos olhos.
O choro era dolorido, sem cor, sem sentido.
Estava tudo certo, não estava? Elisabeta repetia isso com um pesar inimaginável. Estava tudo bem, não estava? Tudo era bom, tudo era bonito, tudo era como tinha que ser, não era?
“Vale do Café, Fevereiro de 1911.
Darcy,
Eu estou envergonhada.
Também não tenho direito de amar você,
não quando meu corpo chamou outro.
É difícil compartilhar da sua culpa, mas eu sinto exatamente o que você sente agora.
Estou em um beco sem saída e não sei para que lado seguir.
Ele apareceu e me tomou. Ele apareceu e meu corpo formigou de uma forma que nunca aconteceu antes.
Fui fogo, fui chama. Não hesitei, ele hesitou.
Eu chorei quando ele se foi,
eu chorei por você,
eu chorei por ele,
eu chorei por toda a culpa e vontade que eu não conseguia arrancar de mim.
Ele parecia tão perturbado quanto eu. Tão perturbado quanto nós.
Você sente o peso do mundo em suas costas também? Você sente que o amor de sua vida escapou, sem você ter a capacidade de segurá-lo?
Eu te amo. Eu te amo e eu sei que você me ama.
Nós nos esperamos e fomos da gente sem rosto, sem olho, sem beleza, sem imagem.
O que eu sinto por você é puro.
E por essa razão não quero te amarrar em mim quando seu corpo clama por outro corpo.
Viva, meu amor. Viva tudo que há para viver.
Eu só não quero que me esqueça, Darcy. Não me esqueça.
PS: Eu quero encontrar o caminho de volta. E você?"
Darcy releu a carta de Elisabeta como sempre fazia, mas as gotas contidas nas cartas não eram tão familiares assim.
Haviam lágrimas secas que agora se misturavam com as deles, molhando o papel. Ele nunca imaginaria que conheceria as lágrimas de Elisabeta antes de ver seu rosto.
Mas sua menina parecia compreender suas palavras. Não conseguiu evitar o ciúmes que lhe ocorreu ao vê-la confessar-se na mesma situação que ele.
Alguém havia tocado o corpo de sua mulher, alguém havia provado do sabor que ele quis por tanto tempo.
Mas não poderia julgá-la, tampouco sentir aquele pesar que parecia se apossar de seu peito. Ciúmes não cabia naquela situação quando a sua poderia ser pior que a dela. Até que ponto Elisabeta havia chegado?
Ele balançou a cabeça em negativa, não poderia raciocinar sobre aquilo.
Darcy, apesar do desespero que não parecia ter querer ir embora, precisava focar no que realmente aquelas palavras queriam dizer. Suas cartas com Elisabeta eram sempre uma incógnita.
Viva, meu amor. Viva tudo que há para viver. Ela estava terminando com ele ou lhe dando uma carta branca para fazer tudo que queria enquanto não encontravam o caminho? E que caminho seria esse.
Darcy pigarreou, quando levantou e secou as lágrimas que ainda apareciam em seu rosto. Elisabeta dizia que sentia a culpa de Darcy, que o queria bem, que o amava. A interpretação daquilo só poderia ser feita de forma única.
Seu peito disparou. Como alguém pode ser tão altruísta aquele ponto? Ele poderia entregar ao seu desejava e, ao saciar-se de sua loucura, optar por o seu amor verdadeiro?
Ele não tinha dúvidas que amava Elisabeta. Ele a admirava, e parecia admirá-la mais ainda pela conclusão que chegou com toda aquela confusão.
A ansiedade de Darcy se instalou de forma cortante, a respiração de Darcy já se tornava irregular, os pés de Darcy não obedeceram seu corpo quando correram por o único caminho que já conhecia de cor no Vale do Café.
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