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11 Capítulo 11


Darcy já havia imaginado o Vale do Café de diversas formas. Ele visualizava árvores altas em campos espaçosos, montanhas rochosas decorando a sua natureza e um céu infinito possível de ser admirado em sua totalidade. Aquilo de certo era o que os seus olhos estavam enxergando naquele momento, mas tudo parecia mais encantador do que as suas projeções. Seu pai, que já havia visitado o Vale, sempre informou ao filho a beleza inimaginável do lugar, mas em suas palavras, ele dizia que não havia como exemplificar a imensidão da região. Darcy agora poderia dizer que entendera o motivo.

Havia chegado em terras brasileiras naquela madrugada. Por um trecho, alugou um carro para chegar a Campinas. Mas logo lhe informaram que por conta das terras batidas do Vale, andar a cavalo era a melhor opção.

Aquela informação lhe fora valiosa. Se um dia tivesse a chance de encontrar o senhor que lhe oferecera dica tão preciosa, certamente o abraçaria. Nunca se perdoaria caso houvesse perdido aquele ar fresco em seu rosto enquanto se deliciava com a aquela visão.

Seu destino era o centro do Vale do Café. A cidade era pequena e segundo o que sabia da região, ficaria em um hotel simples — mas o melhor do local. Seu guia era a estrada de terra por entre o esverdeado das folhas. Mas apesar do foco em sua direção, era impossível não reparar no quão bonito tudo parecia ser.

Sorriu. Não poderia negar o pensamento rotineiro que se repetia sempre que se distraía em suas observações: será que Elisabeta já havia se aventurado por o trecho que se seguia? A obviedade da resposta o confortava. Parecia loucura, mas para todos os lugares em que sua visão era fixada, ele imaginava Elisabeta cavalgando livremente por aquele verde intenso — se é que andava a cavalo, essa era uma pergunta que faria a ela. Mas, independente de sua afirmação ser errônea ou não, o desenho dos cabelos da menina bagunçados por o contato com o vento poderia vir a ser o mais belo quadro que seu olhar poderia admirar, mesmo que nunca tenha visto um traço seu.

Darcy havia cavalgado por um bom tempo, então não era de se admirar quando a sede finalmente pareceu fazer seu corpo ceder. Aos poucos, foi parando o cavalo, descendo do animal, dois nós foram o suficiente para que sentisse a firmeza da pequena corda.

Estava próximo ao topo de um dos morros do Vale, constatou a localidade pois conseguia ver boa parte da região dali de cima. Mais parecia um pequeno vilarejo quando se olhava para o amontoado de casas em um círculo perfeito. Não pode deixar de sentir um frio se estabelecer em sua barriga quando se deu conta que sua Elisabeta estava ali. Era bom pensar que em algum lugar daquela região encontrava-se a dona de seu sorriso. Darcy levou mais um pouco de água a sua boca e começou a caminhar devagar por entre a relva do local. O ar acariciava seu rosto e o aroma das folhas invadirem suas narinas, não deixou de fechar os olhos sentindo toda a paz que aquilo parecia despertar.

Estranhou a sensação por um minuto, nunca foi muito adepto a campos ou natureza. Mas não poderia julgar seus sentimentos analisando sua vida há um ano atrás, ele parecia muito mais aberto ao que as pequenas sensações podem causar desde que conhecera Elisabeta Benedito.

Darcy levou as mãos aos cabelos, os jogando para trás. Ele deu mais alguns passos, e parecia ter chegado ao que poderia ser verdadeiramente o topo daquele morro. Era inusitada a sensação de ter o mundo aos seus pés dali de cima, como um homem que tinha tudo em suas mãos. A intensidade de sua observação poderia até ser uma metáfora, mas ele precisava admitir, que naquele local, ele realmente parecia ter tudo que realmente queria. Obrigada, Vale do Café. Ele disse em pensamento, tinha todos os motivos para agradecer iss…

— AAAAAAAAAAAAAAAA. — As duas vozes gritaram em uníssono, fazendo o som ecoar por toda a extensão daquele campo vazio.

Interrompendo de súbito os devaneios de Darcy, o impacto aconteceu de forma rápida e brutal, fazendo com que ele se desequilibrasse e fosse direto ao chão. Apesar de tudo, o pequeno peso que caiu sobre si não o incomodou.

O primeiro momento foi de total incompreensão, mas não custou milissegundos para perceber o outro corpo depositado em cima do seu de forma esparramada. Também não demorou para a mulher que estava em contato com o seu corpo olhá-lo de forma tão assustada quanto ele.

Em qualquer situação, seria estranho e incomum uma moça cair de uma árvore direto em seu colo, mas aquilo pareceu natural perto da sensação que sentiu ao encará-la.

Uma onda energética pareceu passar por o seu corpo quando os olhos verdes da moça pediram para se misturar com os seus, quase como uma ordem. Darcy não conseguiu parar de mira-la de forma intensa e perguntou-se quase inconscientemente se seus olhos estavam tão dilatados como os dela pareciam estar. Examinando o rosto, sem sequer se mexer, percebeu as maçãs rosadas do rosto sobressaltadas, elas combinavam perfeitamente com a cor de sua boca e contrastava de forma hipnotizante com a pele extremamente branca que pintava o seu rosto. Ela era linda.

Mas em um movimento rápido, o seu frenesi foi interrompido pelo vazio que sentiu quando a mulher desconhecida saiu dele. Sua expressão assustada mudou da água para o vinho. Ela parecia furiosa.

— Tire as mãos de mim, seu abusado. — Tinha uma bela voz se não fosse a petulância em um tom reconhecível. Darcy percebeu que estava com as mãos dispostas no quadril da menina, provavelmente por uma reação inconsciente para protegê-la da queda.

— Eu não estava com as mãos em você propositalmente, senhorita. — Darcy tentou ser educado.

— Ora, claro que estava! Não faça o desentendido. — A mulher o acusou, mantinha um olhar firme e um voz um tanto duro.

— Você quem pulou em cima de mim! E, aliás, eu era quem deveria estar apresentando um tom de voz como o seu. — argumentou, começando a perder um pouco de sua paciência por a grosseira da moça.

— Eu não pulei em cima de você. — A moça ignorou totalmente o comentário de Darcy.

— Há uma nova forma de exemplificar uma pessoa que pula em cima de seu corpo? — Darcy perguntou de forma cínica, como se aquilo fosse uma obviedade. Estava certo que despertaria ainda mais a fúria da bela moça raivosa a sua frente, e sua expressão a impedia de mentir.

— Você realmente acha que eu me jogaria em cima do senhor? — Ela perguntou, completamente incrédula.

— Não seria a primeira. — deu de ombros, fingindo naturalidade.

— Ora seu… — enfezou. Seu olhar poderia ser comparado ao fuzil.

— Seu? — levantou uma das sobrancelhas, cruzando os braços na frente do peito. Percebeu a menina mudar sua expressão.

— Melhor não. — mostrou os dentes, em um quase riso descontrolado. Ela ficou séria um segundo depois e falou de forma demorada: — Não irei gastar ofensa alguma com você. Um homem, se é que posso chamá-lo assim, como o senhor, não merece nem mais um “A” de meu alfabeto. — Seu olhar era desafiador. Darcy já não entendia o motivo do diálogo, mas de imediato, sentiu uma vontade incontrolável de irritar ainda mais aquela estranha descontrolada.

— Pois deveria agradecer-me por ser o seu apoio ao cair. Se eu não estivesse aqui, com certeza estaria com um nariz quebrado. — Tentou despertar um ar convencido e quase riu com as bochechas ainda mais vermelhas da moça.

— Mas por favor! Não lhe devo nada a partir do momento que não tirou as mãos de mim.

— Faça-me o favor você! Eu mal havia percebido, não há motivos para surtos.

— Está me chamando de surtada? — Ela indignou-se. E Darcy revirou os olhos ao ouvi-la continuar: — Agora mesmo que não lhe agradecerei por nada.

— Educação não é bem o seu forte, como posso presumir. — Não aguentou segurar a provocação, tamanha a brabeza na expressão daquela mulher.

Darcy a viu balançar a cabeça continuamente, em um rosto indignado, provavelmente resolvera ignora-lo. Ele a observou arrumar as vestes, que pareciam finas, pôde presumir que provavelmente a moça a sua frente teria um bom dote, se já não fosse casada. Ela começou a apanhar algumas cartas avulsas no chão, as juntando dentro do caderno, que pegou próximo a um galho de árvore. Era possível que estivesse escrevendo alguma coisa antes de cair em seus braços.

Darcy a observou começar a se afastar, mas não conseguiu evitar a vontade imensa que teve de gritar:

— Não vai me dar tchau? — Seu sorriso era irônico ao encará-la.

— Espero nunca mais te ver, imbecil. — Ela gritou, já subindo em um cavalo que ele, até então, não reparou estar próximo dali ao chegar.

Darcy viu a moça sumir de sua visão pouco depois que começou a trotar em seu cavalo rumo ao norte do Vale do Café. Ele franziu o cenho ao sentir de forma estranha uma sensação de déjà vu ao vê-la se afastar. Parecia que já tinha visualizado aquilo antes, apesar da impossibilidade de já tê-la visto em algum lugar. Mas Darcy não conseguiu dar muita atenção àquela improbabilidade, já que um brilho incomum chamou a atenção de seu olhar entre as folhas caídas, fazendo-o agachar-se no chão. Era um caneta preta e dourada.

Elisabeta não teve cuidado algum ao entrar em casa e bater a porta com força no começo daquela tarde, sua expressão era furiosa ao pisar fundo no piso da grande sala e enxergar Mariana.

— Ihhhh, Elisabeta. — A irmã encarou Elisa. — Mas que bicho a mordeu?

— Bicho algum. — respirou fundo. — Se fosse algum animal, eu estaria mais calma neste momento. Seres humanos tendem a ser mais perturbadores. — Ela justificou enquanto sentava no sofá, apoiando o cotovelo nas pernas e passando as mãos nos cabelos, os jogando para trás.

— E o que houve? — Mariana perguntou, franzindo a testa.

— Encontrei um homem completamente grosso enquanto cavalgava pelo Vale. Eu estou com o sangue na cabeça, minha irmã. — Disse Elisabeta. E ela realmente não precisaria dizer a última frase, aquilo era nítido em seu olhar faiscante.

— Mas o que ele fez?

— Me chamou de mal educada e insinuou que eu pulei em seus braços.

— Pulou em que? — A expressão de Mariana era de pura confusão. — Você pulou nos braços dele?

— Claro que não, Mariana. — Elisabeta revirou os olhos. — Estava finalmente escrevendo uma carta para Darcy no alto de uma árvore, já que presumo que ele chegará por esses dias na cidade e não havia mais a possibilidade de enviá-las para Londres. Então, quando já estava absorta em meu amor e minha ansiedade, absolutamente do nada, o galho da árvore rompe e me atira ao chão. — Ela olha para Mariana vacilante. — Bom, me atira no corpo deste estranho.

— Você pulou no corpo de um estranho? — Mariana tentou não rir, mas a tarefa fora inútil.

— Eu não pulei, Mariana. — respondeu impaciente. — Eu caí em cima dele.

— Tecnicamente, você pulou. — Mariana provocou, recebendo mais um olhar raivoso de Elisa. — Tudo bem, tudo bem. — ela se rendeu, colocando as mãos pra cima, mas se pôs a examinar: — Mas eu não encontrei a parte em que ele é um ser humano horrível.

— Ele ficou com as mãos em mim. — Lembrou, adotando a mesma expressão que fez ao estranho.

— Para te segurar, talvez? — Mariana levantou uma das sobrancelhas.

— Não amenize a culpa do infeliz! — balançou a cabeça em indignação. — Mariana, eu odeio lhe contar qualquer coisa.

— Será que isso se deve ao fato de eu ser ponderada e sempre colocar a sua razão no lugar que deveria estar quando seus nervos não estão lá essas coisas?

— Dessa vez você está errada! — Elisabeta jogou as próprias costas no sofá, tentando visualizar a cena patética daquele dia. — Ele teve a audácia de dizer que eu não seria a primeira a querer pular em cima dele.

Mariana colocou a mão na boca, em uma expressão surpresa. Mas não demorou nada para a gargalhada ecoar de sua garganta.

— Já adorei este senhor! Ele era bonito?

— Mariana! — chamou a atenção da irmã, incredúla. Mas não pôde deixar de pensar na imagem do homem, ela tinha que admitir que ele era indiscutivelmente bonito e viril — e bonito novamente. Um tipo raro no Vale do Café. A certeza que não mais o veria advinha justamente de sua beleza incomum do lugar. Provavelmente era um forasteiro.

— Não tem nada demais nessa pergunta. Humor divertido normalmente vem acompanhado de faces duvidosas.

— Não posso mentir que ele era realmente um homem extremamente bonito. — Mariana estreitou os olhos, sorrindo atrevidamente com eles, Elisabeta não costumava achar muitos homens bonitos. — Mas isso não o deixa menos desagradável.

— Elisabeta, eu tenho certeza que ele estava brincando, ou no máximo te provocando. Eu tenho convicção que você começou essa briga sem motivos. Inclusive, uma das razões é justamente o outro homem. — Encarou a irmã, Elisabeta no fundo sabia que estava certa.

— Tudo bem, posso ter exagerado, mas não minimize o meu stress e nem meus motivos. Tenho pretextos para isso.

— Eu sei, minha irmã. Mas poderia levar em consideração o fato de que o seu amor, como você diz, está chegando ao Vale. Se já não estiver aqui.

Um frio arrepiou todos os pelos do braço de Elisabeta.

— Meu deus! Eu não consigo visualizar a possibilidade de ele já estar aqui, Mariana. Eu estou surtando. Eu preciso falar com ele, já faz tanto tempo e nem pude enviar a minha carta. — Elisabeta fez bico, colocando a cabeça no ombro da irmã. Mariana imediatamente abraçou seu corpo.

— Não se frustre, minha irmã. — O tom de voz era compreensível. — Olhe pelo lado bom, o casamento está chegando e finalmente poderá vê-lo. — Mariana mordeu o lábio, e olhou cúmplice para Elisa: — E tê-lo.

Elisabeta não conseguiu esconder o sorriso aberto.

— E quem disse que esperarei até o casamento?

Mariana abriu a boca, em choque. Mas logo seus olhos brilharam com um divertimento atrevido.

— Eu estou até com medo do que está passando por a sua cabeça nesse exato momento.

— Bom, eu ainda não sei, na verdade. — Riu. — Mas minha irmã, eu preciso vê-lo ou ao menos enviar uma carta à ele. Já estou nervosa de saudade e não sei se aguento a expectativa de estar sobre o mesmo céu que o meu Darcy sem poder tocá-lo. Minhas pernas tremem sempre que o imagino aqui.

— Eu não compreendo, pois sempre tive Brandão. Mas imagino que deve ser sufocante.

— Sufocante é algo mínimo perto do que sinto. E não sei como farei para vê-lo. De certo ele não conhece nenhum canto do Vale do Café que seja longe dos olhares curiosos das pessoas no centro da cidade. E, segundo papai, estou proibida de andar por essas bandas. E nem quero arriscar, vai que arrisco o meu casamento. Felisberto e Archiebald são loucos que se combinam. — Soltou o ar, emburrada. — E como eu marcaria com Darcy em meio aos campos se ele, provavelmente, não conhece nada do Vale? Estou estressada!

— É perceptível. — Mariana concluiu, com o rosto pensativo. Tentava bolar algo para ajudar a irmã.

— Mas pelo menos as cartas eu conseguirei escrever. — Elisabeta abriu um sorriso perspicaz.

— E como?

— Subornei o seu Oswaldo, o nosso cocheiro. — A menina tinha um olhar traiçoeiro, mas logo riu ao ver a expressão da irmã.

— Elisabeta! — Mariana exclamou, caindo na risada também.

— Na realidade, não será um suborno. Eu tentei dar uma gorjeta a mais, que ele de pronto recusou, você o conhece. Mas com o meu drama consegui que ele enviasse as cartas e ele me prometeu ficar de boca calada. — Explicou detalhadamente.

— Como diz Jane, você é completamente doida, Elisabeta.

— E completamente apaixonada. — Mandou língua pra irmã, rindo logo em seguida.

Mariana sentia seu coração aquecer ao ver a irmã feliz da forma que estava, sempre pesou em seu peito o fato de Elisabeta ser destinada a casar compulsoriamente com alguém. Ela só esperava que Darcy fosse uma boa pessoa e aquele sentimento fosse recíproco.

— Minha irmã, eu sei que o nosso papo está ótimo e posso lhe garantir que me acalmou bastante, até esqueci do infeliz encontro que tive. — ressaltou. — Mas agora irei escrever ao meu amor de dois metros de altura. — fez pose, convencida.

— Dois metros de altura? — Mariana perguntou, lançando um olhar de curiosidade a Elisabeta, que não compreendeu de imediato. — Imagina só se tudo for proporcional?

— Mariana! — Elisabeta arregalou os olhos, mas não conteve a imaginação. — Eu não tinha pensado nisso.

— Mas devia. — Riu.

— Eu acho que seria maravilhoso. — Mordeu o lábio, soltando uma gargalhada rápida. — Você não deveria ter me dito isso, agora não pararei mais de pensar.

— Quando tornou-se pervertida? — perguntou baixo.

— Quando conheci o meu desejo em forma de cartas. — Agora foi a vez de Mariana abrir a boca em surpresa.

— Eu não quero nem pensar no teor dos conteúdos. — Ela quase não poderia acreditar, mas adorou a criatividade. Mariana e Elisabeta eram muito parecidas.

— Não queira, Mariana. Não queira. — Concluiu, olhando-a sugestivamente e divertindo-se com o assunto.

Elisabeta levantou-se e continuou:

— Por isso vou indo me isolar em meu quarto para escrever e enviar a minha paixão quando souber de sua chegada. — Elisabeta olhou para o lado, procurando algo que estava faltando em suas coisas. — Que estranho, onde está minha caneta?

— Caneta? — Mariana também começou a olhar entre as almofadas. — Aqui provavelmente não está.

— Mas eu estava escrevendo na árvore, eu estava com ela. — disse, franzindo a testa.

— Então — examinou-, é possível que você tenha esquecido quando pulou nos braços do seu estranho bonitão. — Foi impossível não provocar.

— Eu não pulei. — Balançou a cabeça com a tentativa nítida de sua irmã irritá-la. — Mas pode ter sido isso. — respirou fundo. — Eu tenho um apego naquela caneta, sempre escrevi a Darcy com ela. Eu não acredito que além de roubar minha paz e minhas palavras, aquele energúmeno também fez eu perder a minha caneta.

Elisabeta fechou os olhos e abriu rapidamente ao perceber que proferiu a palavra que pertencia a Darcy no começo de suas cartas. Nunca havia chamado alguém de energúmeno além de Darcy, mas saira de forma quase natural quando pensou naquele desconhecido. Um arrepio percorreu a sua espinha, mas logo afastou aquele pensamento. Era certo também que nunca havia se irritado tanto com duas pessoas quanto com os dois, mas claro que com o Darcy ela agradeceria eternamente a troca de farpas.

Vale do Café, fevereiro de 1911.

Meu bebê,

Eu estou ansiosa para receber a carta em que sua localidade é a mesma que a minha. E eu sei que será a próxima. Será que irei resistir a toda essa graciosidade?

Você não consegue ter noção alguma da ansiedade que se instalou dentro de mim e nunca mais quis sair daqui. Acho que me tornei a sua hospedeira preferida, já que se fosse medir os níveis existentes em meu interior, a louca quantidade quebraria o termômetro.

Você vai receber minha carta aqui, Darcy! Você vai recebê-la no mesmo pedaço de céu que eu, pisando na mesma terra que eu e respirando as mesmas flores que eu. Eu acho que você vai adorar o ar do Vale do Café, já que a maioria dos meus suspiros foram a partir deste oxigênio. E eles sempre gritaram seu nome.

Mas, me diga, eu quero que me fale o que achou daqui: qual foi o seu primeiro pensamento ao adentrar minhas terras, o que encontrou, o que fez, o que comeu? Eu não consigo parar de te imaginar cruzando a linha que separava nos dois. Eu sou apaixonada pela ideia de que essa linha não existe mais.

Meu Deus, Darcy! Eu estava louca de saudade de te escrever, você não deveria ter demorado tanto. Foram muitos e muitos e muitos escritos no calor de meu quarto — e do pensamento em nós dois — e guardados para um dia lhe mostrar.

Aliás, este conteúdo foi escrito em meu quarto também, mas meus planos não eram estes. Hoje, dia em que escrevo essa carta, tentei produzi-la te imaginando chegando ao Vale do Café, por isso fui pra um local que gosto e que, provavelmente, você passou para chegar até mim. Eu queria ser poética até para o local de minha escrita. Só que meus planos foram frustrados por um indivíduo que interrompeu meu desejo.

Por isso, para amenizar a minha frustração, queria te pedir para imaginar-me escrevendo para você ao mesmo tempo que guio seus passos. Eu quero verdadeiramente guiá-los daqui para sempre.

PS: Não se assuste com essa carta. Meu cocheiro irá transportá-las enquanto você estiver aqui. Enviarei a você em alguma parte do dia e, em outra, ele tratá sua carta de volta a mim.

PS: Eu quero te ver. Quebre as regras comigo, Darcy Williamson!