Sen no Yoru Wo Koete
1 Capítulo 1
Fanfic escrita para o FFSOL 100 Temas – Desafio Miss Sunshine 2009: O RETORNO!
Tema 88 – Semente
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Há certos momentos que acreditamos que não darão frutos. Encontros casuais, conversas breves... Mas o que não sabemos é que flores belíssimas nascem de pequenas sementes...
Em um prestigiado evento da alta sociedade da Soul Society, era previsível a presença do futuro líder da família Kuchiki. Byakuya já beirava a idade adulta, onde estaria apto a assumir o posto que agora pertencia a seu avô. Seguindo os conselhos deste, Byakuya aprendera a controlar seu temperamento. Um homem de tantas responsabilidades deveria manter-se firme como uma montanha, que não se deixava dobrar pelo vento... Ou por comentários idiotas, de pessoas idiotas, como aquela gata idiota...
Não. Não pensaria em Shihouin Yoruichi. Mesmo que ela estivesse presente naquele evento. Mesmo que, ao chegar, ela tivesse apertado suas bochechas e dito o quão bonitinho ele ficava vestido igual a um homenzinho. Mesmo que ela estivesse invadindo seu campo de visão com...
Caham. Enfim. Ignorar Shihouin Yoruichi se tornara seu hobby mais recente. Era muito fácil. Nenhum esforço.
Naquela tarde, Byakuya fora convencido por seu avô a participar do jogo de tocha¹, o qual, tendo herdado o gosto refinado dos Kuchiki pelo melhor chá, ele vencera. Sentara-se próximo de uma das portas decoradas da sukiya² e apreciava as pinturas do local enquanto sorvia seu matcha³ lentamente.
Tudo isso enquanto ignorava os comentários de Yoruichi. “Como está crescidinho o seu neto, Kuchiki-san! Ah, já não parecesse mais uma menina magrela! Logo começa a parecer um garoto!”
Ignorá-la era muito fácil.
“Oh, Byakuya-bou, por que essa carinha?”
MUITO fácil.
“Vamos, alegre-se!”
MUITO MUITO MUITO MUITO FÁCIL.
“Eu brinco de casinha com você!”
“Sua... GATA MALDITA!” – e junto com a compostura de Byakuya foi-se também o cha-ire que segurava, atirado na direção de Yoruichi, que acabou escapando (mas o utensílio de porcelana e seu conteúdo ridiculamente caro e escaldante acertaram um transeunte desavisado).
Yoruichi não perdeu tempo em sair do recinto o mais rápido possível usando seu shunpo – obviamente que antes ela gritara que Byakuya era uma menina muito estressada quando estava ‘naqueles dias’ e fez uma careta antes de desaparecer. Byakuya não perdeu tempo em segui-la, bradando em alto e bom som coisas não muito dignas de um nobre Kuchiki.
Byakuya perseguira a outra shinigami por toda a mansão, por algumas ruas, seguindo por caminhos até então desconhecidos e parando em um lugar muito distinto da Seireitei. Xingando baixo, percebeu que Yoruichi o atraíra até Rukongai, a parte mais humilde da Soul Society. Perdera a mulher de vista e, ofegante, começou a olhar ao seu redor. Muitos o encaravam, mas aquilo não era surpresa. Não era todo dia que um nobre aparecia nas ruas de Rukongai. Muito menos um nobre desarrumado, ofegante e profundamente irritado.
Subira em um muro para procurar melhor. Ah, como Yoruichi ia sofrer antes de morrer, sendo torturada por Byakuya horas a fio... talvez ele até conseguisse alguns cães...
Foi então que avistou a silhueta da shinigami escorregadia. Sorriu triunfante; agora ela não escapava! Colocara toda sua velocidade naquele shunpo, saltando do muro e atirando-se na direção daquela mulher. Byakuya podia sentir o gosto da vitória...!
“AGORA TE PEGUEI, SUA GATA MONSTR-” – ...Isso antes de colidir com alguém da multidão e sair rolando pelas ruas poeirentas do lugar, derrubando pessoas e bancas, perdendo de vez a chance de uma desforra contra Yoruichi.
Byakuya amaldiçoara Yoruichi por sua má sorte. Lá estava ele, calmo, concentrado, a síntese da honra e do orgulho dos Kuchiki; até que Shihouin Yoruichi, enviada das trevas para importuná-lo, fizera o bastante para despertar nele um instinto assassino, o levara para longe de sua casa e, no momento de glória do garoto – praticamente um homem! -, quando ele conseguiria liberar toda sua fúria sobre seu desafeto ele trombara...
...Em uma moça que agora se encontrava debaixo dele, seus braços apoiados cada um de um lado da cabeça da pobre, comprimida ao chão pelo peso dele. Outra posição não muito digna de um Kuchiki. Principalmente em público.
A garota apertava um pacote minúsculo contra seu peito, como se algo precioso estivesse guardado ali. Mas pelas roupas que usava, era óbvio que se tratava de alguém muito pobre. Uma das mãos de Byakuya aproximou-se do pacote, tentando sentir o que-
“Kuchiki Byakuya!”
“SUA-!”
Levantou o olhar gélido para a dona daquela voz odiosa, pronto para sair novamente atrás dela, mas o olhar reprovador de Yoruichi o surpreendera.
“E eu achando que você não tinha idade para essas coisas...” – disse a mulher, olhando dele para a moça, sorrindo debochada.
Seguindo o olhar da gata, Byakuya não notou nada demais, a não ser sua mão...
...Pressionada contra o peito da garota.
A moça o olhava assustada, obviamente envergonhada e corada. Byakuya levantou-se de um salto, provavelmente tão ou mais vermelho que ela, puxando a garota para ficar de pé novamente.
“SÓ VOCÊ MESMO PARA PENSAR BESTEIRA NUMA SITUAÇÃO DESSAS, BAKENEKO!!”
“Ah, você desonrou a moça e a culpa é minha?” – Yoruichi colocara a mão na frente da boca em sinal de falsa descrença – “Byakuya-bou, seu taradinho...”
Se Byakuya queria matar Yoruichi antes...
“Agora vai ter que casar.”
...O desejo assassino agora estava próximo de tornar-se realidade.
E Byakuya realmente teria voado no pescoço de Yoruichi, ignorando as várias testemunhas e a pobre garota cujo sangue parecia ter se concentrado todo no rosto... Não fosse sua má sorte (só podia ser obra daquela maldita gata!):
“EI! Que bagunça é essa?!”
“Minha barraca! Olha o que fizeram com minha barraca!”
“Quem vai pagar por tudo isso, hein?!”
Yoruichi, OBVIAMENTE, aproveitara a distração do herdeiro Kuchiki para fugir da cena. Byakuya realmente odiava aquela mulher, ah, se ele pudesse matá-la sem manchar a reputação de sua família...
Virou quando ouviu um grito. Um dos comerciantes agarrara o braço da garota em que esbarrara, cobrando pelos estragos a sua venda.
“M-me desculpe senhor... Eu-eu...não tenho dinheiro, eu...”
“E como fica a minha venda? Como fica meu prejuízo, hein?!”
“Solte-a. Imediatamente.” – Byakuya lançou um olhar gélido ao homem, que hesitou por um momento.
“S-senhor, essa mulher, minha venda, eu...!”
Suspirou pesadamente, tirando de suas vestes uma carteira e atirando-a na direção do outro homem.
“Isso deve cobrir seus prejuízos. Agora deixe a moça ir.”
Virou-se para voltar a Seireitei, certificando-se de que o homem havia soltado a moça. Seus olhos se encontraram rapidamente, o suficiente para Byakuya perceber que os olhos dela eram azuis, como os seus.
De todas as desgraças que haviam acontecido naquele dia, aquela definitivamente era a pior de todas. Um nobre, futuro líder da família Kuchiki, considerado um talento entre os demais shinigamis...
...Estava perdido.
“Gata maldita.”
Já havia escurecido e, lamentavelmente, Byakuya estava cansado por ter utilizado seu shunpo para correr atrás de Yoruichi. Seu avô estava certo, precisava tentar se concentrar mais para melhorar seu temperamento. Já podia ouvir o sermão que ele lhe daria...
“Eu sei que está me seguindo. Mostre-se.”
Parou no meio da estrada, esperando que o estranho se revelasse e ficou surpreso ao ver a garota de antes andando timidamente em sua direção. Ela não o encarou quando falou.
“Perdoe-me senhor... eu não estava seguindo-“
“Hunf, seguir tem outro nome agora?”
A garota ficou em silencio por alguns momentos e depois a ouviu fungar. Ótimo. Depois de tudo ainda fazia uma garota chorar. Muito cavalheiro, Kuchiki Byakuya!
“Ei... Hum... Não precisa chorar...” – aproximou-se da mulher, que quase atingira seu rosto ao oferecer alguns onigiris.
“Eu-eu não tenho como pagar o senhor... Pelo que fez hoje, p-por mim... então, por favor...”
“Ah...” – Byakuya respirou fundo ao dar as costas à garota – “Eu não preciso disso. Pode ficar...” – e teria sido a saída perfeita de um heroí-andarilho de um clássico filme japonês...
...Se seu estomago não tivesse roncado, o som ecoado pela estrada vazia e fracamente iluminada.
“Hum... S-se” – tossiu, tentando esconder o rosto corado – “Se não for incomodo, eu aceito um...”
Sentaram-se a beira da estrada e Byakuya comeu apressadamente (leia-se devorou) quase três onigiris inteiros. A garota esperou que ele terminasse para comer os que restaram e ele estranhou o tratamento.
“Não precisa fazer isso só porque sou nobre...”
A garota o encarou pela primeira vez depois da confusão no mercado, mas logo desviou o olhar.
“O senhor é muito gentil, mas...”
“Não é questão de gentileza... é um costume bobo. Como me chamar de ‘senhor’. Me faz parecer um velho.”
A garota escondeu um riso com a mão e logo desculpou-se.
“Eu é que tenho que pedir desculpas...”
“O senh-”
“É. Por ter... hum... ‘tocado’ em você.” – ambos desviaram os rostos corados para direções opostas.
“Tudo bem... F-foi sem querer... não é?”
“MAS É CLARO QUE FOI SEM QU-, quer dizer, caham... Sim, foi sem querer.” – ah, parecendo um completo idiota, quão honroso, Kuchiki Byakuya!
Explicou a garota o porquê de não ter percebido que ela passava no momento em que saltara atrás de Yoruichi (sim, a culpa era completamente dela). Logo ela terminou de comer e então Byakuya levantou-se, batendo a poeira das roupas e despedindo-se, tomando a estrada novamente.
“Senhor, espere!”
“Não me chame de senhor, já disse. Meu nome é Byakuya.”
Ela tirou o mesmo pacotinho que segurava com tanta força no momento em que trombaram. Estendeu-o, fazendo uma reverencia.
“Byakuya-sama, por favor, aceite isso como sinal de agradecimento.”
“Byakuya-sama? E eu pensei que os onigiris fossem o agradecimento...”
Sua curiosidade foi maior e ele pegou o pacote, abrindo-o para revelar...
“Sementes?”
“Sementes de Ameixeira. São para proteção...”
Byakuya piscou algumas vezes, olhando as pequenas sementes em sua mão. Tentou recusar novamente, mas a garota insistiu para que ele as guardasse. Ela levantara seus olhos azuis novamente e havia uma força tão grande neles que Byakuya rendeu-se (mesmo que isso soasse totalmente desonroso) e guardou as sementes.
“Plante em um lugar próximo ao senhor, Byakuya-sama... Quando a Ameixeira crescer vai proteger o senhor com certeza! E espero que o senhor lembre que é um sinal de agradecimento, o único que esta pobre Hiisana pode lhe dar...”
Byakuya suspirou e deu um de seus raros sorrisos a garota antes de retornar a estrada...
“Senhor?”
“O que foi agora?”
“É que... A Seireitei é para o outro lado.”
Byakuya era realmente uma visão quando chegou na mansão, mas não pelos motivos que gostaria. Estava com as roupas de festa sujas, suado e com olheiras. Mas feliz por ter retornado. Aquele lugar cheio de regras era seu lar, afinal.
Um banho fora preparado para ele e pensou no dia que tivera enquanto mergulhava o corpo cansado na água quente. Ah, mataria Yoruichi um dia desses... mas se perguntava se ainda veria aquela garota de Rukongai novamente. Fora um encontro repentino e, cético como era, duvidava que veria Hisana novamente.
Enquanto se vestia viu o pequeno pacote com as sementes de ameixeira que ela lhe dera. Seguiu do banho para seu aposento, mas parou no jardim próximo ao muro. Olhou ao redor para que nenhum servo o visse e cavou um pequeno buraco com as mãos nuas. Olhou as sementes em sua mão e pensou novamente na garota.
“Hisana...” – suspirou enquanto cobria as sementes com terra.
Voltou para seu quarto, onde limpou as mãos em uma toalha antes de se deitar. Fechou os olhos cansados e riu de sua própria tolice...
“Aquelas sementes estavam tão secas... duvido que germinem.” – virou-se no futon e logo adormeceu.
Quase 50 anos depois, antes da primeira flor de ameixeira abrir, Kuchiki Byakuya perdeu sua esposa, Hisana.
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