Sempre te amei.
67 Trouxas
Notas iniciais
Por Eduarda
"Conta você..."
"Não, eu toco a campainha e você conta..."
"Vamos tirar par ou ímpar!"
"Venci."
Esse foi um diálogo que tivemos em frente a porta do apartamento do meu sogro. Lucas não queria falar, eu também não, estamos com medo da reação dele. O comendador é um homem tão imprevisível...
Felizmente eu ganhei, não serei a portadora da má notícia. Na verdade, até queria estar esperando no carro, mas Lucas não deixou. "Vamos, se ele acabar comigo tu tem que estar lá pra me ajudar..." Ele fez drama.
Toco a campainha e ficamos esperando alguém abrir a porta. Não sei se por causa do nervosismo, mas hoje Silviano parece demorar mais que de costume.
Assim que descobrimos que Fabio, ou melhor, que Fabiano era filho do Merival, corremos pra cá.
"Essa briga não é nossa, o comendador que resolva tudo sozinho." Eu disse a Lucas.
"Tudo que envolve a Império me afeta, e se me afeta, te atinge também, não é?!" Ele me respondeu.
Na minha cabeça, se contássemos a meu sogro, ele resolveria tudo e poderíamos viver nossa vida tranquilamente, sem mais mistérios e coisas pra descobrir, mas já percebi que Lucas não vai sair dessa história antes de resolve-la por completo. Ainda se sente culpado...
S: Master Lucas, Eduarda... — Silviano diz assim que abre a porta e nos encontra — É bom vê-los!
JL: Também é bom te ver! — Lucas ergue a mão e bate na do mordomo. Eles se dão bem. — Meu pai está ai?
S: Sim, está! O comendador se encontra em seus aposentos. — Ele fala, com toda sua calma. — Entrem, vou chama-lo.
Entramos e nos sentamos no sofá.
Meu marido está com o contrato de Fabiano em mãos, ele olha fixamente para todas as informações contidas ali. Tem que mostrar a seu pai, contar quem é o Fábio! Além disso, deve falar sobre os documentos, dizer que foi Fa que vazou as fotos... Ele está tão nervoso! Pego na mão de Lucas e ela está gelada. Não tenho poderes sobrenaturais, mas sei ler o que passa por sua mente: Como dizer tudo aquilo... Espero que encontre a maneira certa e que o Comendador entenda e não nos culpe por nada.
Pelo menos José Alfredo também é culpado, afinal ele que contratou Fabiano, isso é um alívio...
JA: O que estão fazendo aqui? — Meu sogro pergunta, ainda descendo as escadas.
JL: Pai, eu vim falar com você... Assunto sério!
JA: Se for sobre as fotos que vazaram por sua culpa, nem tente. Hoje não quero me estressar mais!
Du: É outro assunto... — Eu digo. — Mas é ruim também!
JA: Shit... É urgente? Se não for me conte amanha!
JL: É sim pai! Você pode sentar?
O Comendador caminha até nós, e se senta a nosso lado.
Há alguns segundo, que parecem minutos, de silêncio.
Lucas me olha e sinto que está pedindo para que eu fale. "Qual é? Eu ganhei no par ou impar..." O encaro, com esse pensamento.
JA: Me chamaram para eu ver vocês dois se olhando? — Ele interrompe nosso diálogo sem palavras.
Du: Não, o Lucas quer te contar uma coisa sobre o Fábio, ou melhor, Fabiano...
JL: É, é sim... — Ele respira fundo. — Primeiro, você sabia que o nome dele era esse?
JA: O que? Fabiano? Claro, sabia sim... Por quê?
JL: E ele te disse o motivo pra querer ser chamado de Fábio?
JA: Falou que odiava o nome, que preferia o apelido. — Ele nos olha aparentando estar começando a ficar curioso.
JL: Pai, eu tenho uma coisa pra te contar!
JA: Fale logo! Você está me deixando nervoso.. O que? Aconteceu alguma coisa com meus netos? O Fabiano fez algo com eles? — Ele parece assustado. — Onde estão os bebes?
Caramba! Meu filhos... Olho no relógio e já se passaram 3 horas desde que saímos da casa de Maria, deveríamos estar buscando eles agora.
JL: Tá tudo bem, os bebes estão ótimos...
JA: Ah, que bom!
Lucas já ia continuar a falar, quando percebo uma das perguntas do Comendador: O Fabiano fez algo com eles?
Du: Você sabe! — Grito. — Filho da mãe, você já sabe né?! Não acredito, até tu fazendo a gente de trouxa...
Lucas me olha sem entender, acho que ainda não se deu conta: Se José Alfredo colocou a possibilidade de Fabiano ter nos feito algum mal, certamente ele sabe quem ele é!
JL: Do que você ta falando Du?
Du: Seu pai já sabe de tudo...
JL: Ta louca? Claro que não, ele nunc...
JA: Sua esposa tem razão! — Ele interrompe meu marido. — Eu sei quem é o Fabiano desde antes de assinar o contrato dele. Não sou burro, liguei os sobrenomes na hora...
JL: O que? — Lucas explode. — Você sabia e me deixou o colocar dentro de casa? Meu Deus, ele podia ter feito algo comigo, contra meu filhos... Você é um louco!
JA: Abaixa esse tom comigo! — Meu sogro diz. — Sei que não foi correto, mas era necessário... E no final, deu tudo certo!
"Tudo certo?" Como assim?
Du: Se você sabia de tudo desde o começo, por que acusou o Lucas? Tu foi lá em casa brigar com ele, o deixou super mal... Tudo isso pra quê?
JA: É, eu devo um pedido de desculpas a você meu filho... — Ele olha para meu marido, que ainda está confuso com a notícia. — Precisei fazer isso, caso contrário Fabiano podia desconfiar que eu já sabia de tudo. Vocês viraram amigos né? Então, imaginei que tu contaria a ele que eu briguei contigo, desse modo ele não desconfiaria de nada...
JL: Eu não tive tempo de conversar com ele, o Fabiano fugiu depois de ter acesso aos documentos da empresa...
JA: Ele conseguiu? Ótimo! Que maravilha... Tudo ocorreu como planejei!
Du: Comendador, eu to boiando, explica essa história desde o começo!
JA: Tá bom... — Ele se ajeita melhor no sofá. — Quando Fabiano me procurou, eu logo coloquei um detetive seguindo seus passos, seja na vida real, como na virtual. O homem que contratei descobriu que ele havia comprado uma conta em um jogo, não estranhei no começo, mas depois quando o vi na festa de aniversário de meus netos logo entendi tudo. Você ama esse joguinhos... Fabiano estava querendo se aproximar de ti, afinal tu é o mais acessível de meus filhos... Ou o mais ingênuo, não sei. Nesse mesmo dia, formei um plano. — Ele faz uma pausa. — Vocês se lembram que pedi a Fábio para caprichar nas fotos dos brincos de pérola e no anel de Tumalina? Fiz questão de dizer que aquelas ficariam no Brasil, sabia que ele tentaria sabotar as vendas delas aqui. Como suspeitei, ele te convenceu a tirar a foto, quando percebi fingi estar bravo, mas logo deixei... Aquelas duas peças não ficarão aqui, são outras! Elas são do lote que vai pro Emirados Árabes — Ele sorri.
Du: Você é um ótimo ator, meus parabéns... — Digo.
JA: Sabia que ele ia desconfiar caso eu não dissesse nada, ou não percebesse as fotos. Merival sabe que sou bom observador, então fui lá e fingi estar bravo pelas fotografias...
JL: Era tudo fingimento, você estava me tratando mal atoa, só pra conseguir o que quer. To me sentindo um idiota... Muito obrigada pai!
JL: Meu filho, se eu te contasse podia estragar o plano!
Du: Você não pensou nos nossos filhos? Ele podia ter feito alguma coisa contra eles, se o pai foi capaz de sequestrar...
JA: Pensei e cheguei a conclusão de que não faria nada. O escritório de advocacia do Merival já está indo a falência, ele não vai correr o risco de afundar de vez. A única coisa que quer é me ver falido, mas não vai conseguir. — Ele ri. — Quando ele vem com o fubá, eu já estou voltando com o bolo! — Meu sogro se gaba.
Du: Mas e os documentos?
JA: Ele teve acesso a eles, certo?
JL: Acho que sim, e ao meu computador também... Há todos os meus e-mails, contatos e documentos lá!
JL: Que bom, saiu mais perfeito do que pensava. Não achei que Fabiano teria acesso, só pensei que você contaria a ele algumas coisas... Meu filho, desde que ele se aproximou de você, só te dei trabalhos fakes. Contatos falsos, documentos sem importância...
Lucas fica chocado.
Du: Ele estava trabalhando atoa? — Pergunto.
JL: Digamos que sim. Os documentos com a referência e os preços das jóias só tinham dados falsos, os clientes eram de mentirinha... Inventei tudo, nunca daria esse serviço a Lucas, eu mesmo faço isso!
JL: Você me usou, me fez de trouxa, colocou minha família em risco, me fez sentir mal, me ofendeu... Tu não me ama, não é possível!
JA: Meu filho, não fale assim... Foi pro bem da empresa!
JL: E é só nisso que tu pensa? Você não imaginou em como eu me sentiria... — Lucas está com lágrimas no rosto. — Tinha ficado feliz porque o meu trabalho estava sendo reconhecido, e no final era tudo mentira. Você não confia na minha capacidade!
JA: E eu estava certo em não confiar... — Ele diz isso com calma, tentando não ser rude. — Se os documentos fossem verdadeiros, a empresa estaria em apuros!
JL: É verdade, eu sou um incompetente mesmo... — Sua voz está embargada, eu coloco a mão em seus ombros e dou um beijo em seu rosto.
Du: Por favor, não fica assim...
JL: Desculpa Du, mas não dá! Acabei de descobrir que todo mundo a minha volta me acha um bocó... De todos da empresa, o Fabio me achou o mais manipulável, meu pai não confia em mim...
Du: Eu confio em você e não te acho um bocó... Só bobo as vezes! — Sorriu. — Já não é o bastante?! — Tento o conformar. Ele sorri, olha pro seu pai e diz.
JL: Não vou trabalhar em um lugar que não acredita no meu potencial! Mesmo que nesse caso você esteja certo, tu tinha que me contar, falar a verdade pra mim...
JA: Foi pro nosso bem, tu não sabe fingir Lucas, o Fabiano ia acabar percebendo que você sabia quem era ele, desse modo eu não poderia engana-lo. — Ele para de falar para respirar. — Pense pelo lado bom, agora eles só estão com informações erradas...
JL: Pai, eu to caindo fora... Não trabalho mais na Império!
JA: O que? — Ele grita. — Não aceito isso, pare de exagero!
Du: Lucas, você tem certeza disso? — Digo no seu ouvido.
Não, ele não tem. Vejo isso em seus olhos!
JL: A partir de hoje já não trabalho na sua empresa... — O Comendador ia dizer alguma coisa, mas Lucas virou as costas e caminhou rumo a porta. Eu o segui...
Quando estávamos saindo, ele diz:
JL: Tu me deve um celular novo, o Fabiano roubou o meu! — Dito isso, encara seu pai de longe por mais alguns segundos e fala. — Irresponsável... — O Comendador o chamou assim hoje mais cedo, trata-se de uma espécie de vingança.
Saímos e ele bate a porta. Lucas caminha em silencio até o elevador e eu o sigo. Quando as portas se fecham ele me olha dizendo:
JL: Eu preciso de um abraço... — Lucas está triste, é nítido.
Du: Nem precisa pedir!
Meus braços enlaçam seu corpo e eu o aperto.
Antes de vir aqui Lucas tinha medo de decepcionar seu pai, agora ele se sente decepcionado...
JL: Eu não sei se fiz o certo... — Ele fala em meu ouvido, ainda estamos abraçados.
Du: Foi o que o seu coração pediu pra fazer? Se for, foi o correto! — Me afasto.
JL: Tá mais pro meu cérebro... Não suporto ser enganado, não por quem eu amo e confio.
Du: Não mesmo, mas fez, e no final deu tudo certo... Não temos mais que nos preocupar, ta tudo resolvido!
JL: Nem tudo, eu ainda tenho que encontrar o Fabiano! Só vou sossegar quando quebrar a cara dele!
Du: Meu amor, esquece isso!
JL: Nem pensar! Fui feito de trouxa, enganado, usado... — Ele pensa um pouco. — Por duas pessoas em que confiei, mas o meu pai teve boa intenção, ele não.
Du: Por hoje, só por hoje, não pensa mais nisso tá? Esquece tudo... — As portas do elevador se abrem.
JL: Esqueço! — Ele me dá um selinho.
Caminhamos até nosso carro, e no caminho não conseguimos mudar de assunto.
JL: Será que minha mãe também sabia? Ela foi com ele brigar comigo...
Du: Talvez... — Paro em um sinal vermelho e pergunto a Lucas: — Você quer que eu não aceite mais desfilar?
JL: Hã? Não, claro que não... Isso não tem nada a ver com você, nem com a empresa em si, só estou triste com meu pai, não quero mais trabalhar para ele... Não por agora!
Du: O Comendador não fez por mal...
JL: Eu sei, mas prefiro que as pessoas confiem em mim! Mas vamos parar, a gente não tinha combinado de esquecer isso por hoje? Então, deixa pra lá!
Dirijo por mais alguns minutos até que finalmente chego na rua de nossa casa... Já está escurecendo, demoramos bastante.
Du: Cara, eu to morrendo de vergonha de ir lá buscar os dois!
JL: Será que tá tudo bem?
Du: Deve estar, ela não me ligou em momento algum...
Colocamos nosso carro na garagem e vamos até nossa vizinha. Está tudo muito silencioso, calmo...
Toco a campainha e a mesma empregada que abriu a porta cedo nos atende.
A: Duas ou três horas... — Ela diz irônica, demoramos muito mais que isso. — Já estávamos achando que vocês tinham abandonado os bebes aqui!
Du: Desculpa, não conseguimos chegar antes... Ta tudo bem?
A: Está sim, entrem...
Somos guiados até a cozinha onde encontramos Maria acabando de dar papinha para meus filhos. Ela sorri ao nos ver.
M: Já voltaram? Ah, estava adorando ficar com deles...
Olho para a empregada e ela desvia seu olhar do meu. Pelo jeito, quem não queria mais nossos filhos ali era a própria.
JL: Foi mal pela demora... — Lucas diz.
M: Que isso, nem vi o tempo passando...
Du: Eles deram muito trabalho?
M: Um pouquinho, mas Alzira me ajudou... Me diverti muito cuidando deles!
A: Está escurecendo, vocês não tem que ir? — Diz a empregada, nos encarando.
M: Ah não, fiquem pro jantar...
Du: Poxa, não vai dar... Prometo que voltamos outro dia, hoje a gente tá bem cansado!
M: Ok, mas voltem logo... Eu levo vocês até a saída!
Pegamos nossos filhos e os colocamos no carrinho, vamos até a porta e Maria se despede.
M: Adorei passar esse tempo com eles, a casa ficou mais animada!
JL: Se quiser, podemos trazer os bebes aqui mais vezes!
M: Jura?
JL: Amanha mesmo, se tu quiser...
Olho Lucas sem entender... Por que amanha?
M: Vou adorar!
JL: Então até amanha...
Caminhamos até nossa casa e eu pergunto.
Du: A gente vai fazer alguma coisa amanha?
JL: Não sei você, mas eu vou...
Du: Posso saber o que?
JL: Claro, acabar com a raça de uma pessoa que tem o nome iniciado com a letra F... To com o contrato ainda, vamos ver se ele deu o endereço verdadeiro!
Du: Cara, eu to sentindo que isso pode dar errado, para! Não vai provocar a irá dele...
JL: Que ira o que, aquele Fabiano é um banana, um molenga...
Du: Isso é o que ele parecia ser, mas será verdade?
JL: Não sei, mas pelo menos conversar com ele eu quero, preciso disso!
Du: Tudo bem...
Entramos em casa e vamos dar um banho nos bebes, após isso descemos para comer. Lucas esquenta uma comida e jantamos juntos.
Lavo a louça com sua ajuda, ele secando e guardando os pratos e talheres, eu ensaboando e enxaguando... Quando acabamos, ele diz:
JL: Acho que vou voltar atrás... Pedir para ficar na Império!
Du: É isso que tu quer?
JL: Não, mas é isso que tenho que fazer... Preciso de dinheiro, do meu salário, tenho dois filhos e uma casa pra sustentar.
Du: Se for só por isso, não se preocupe. Eu ganhei muito bem por fazer a campanha da Império, tenho grana guardada do banco. Posso manter a gente até você arranjar outro emprego...
JL: Até parece... — Ele sorri.
Du: Por que não?
JL: Porque é o seu dinheiro!
Du: Não estou entendendo sua lógica: Quando eu não trabalhava, tu dizia que tudo que era seu, na verdade era nosso, por que com o meu dinheiro não pode funcionar assim? Só por eu ser mulher? Olha o machismo...
JL: Não é machismo. — Ele me puxa pela cintura. — Só acho que você tem que aproveitar esse seu primeiro salário, comprar algo que te faça feliz...
Du: Mas eu vou adorar ser a pessoa que paga as contas. — Sorriu. — Pensa nisso! Só volta pra Império se for o que você realmente quer...
JL: Ok, você me convenceu... Quem sabe eu não faço o meu próprio Império?– Ele me dá um beijo na boca. — Mas sabe o que eu to querendo agora? — Ganho mais um beijo.
Du: Não, nem suspeito... — Brinco. — O que seria?
JL: Você!
Lucas me puxa para mais perto de seu corpo e beija meus lábios com intensidade. Sua língua invade minha boca e a minha a dele.
Coloco minhas mãos por debaixo de sua camisa e fico acariciando suas costas.
JL: Te amo sabia? — Ele fala ao parar de me beijar.
Du: Eu também te amo...
Voltamos a nos agarrar, mas logo paramos, queremos urgentemente chegar no quarto. Desligo as luzes da cozinha, e literalmente corremos até a escada... Pressa de tê-lo, de ama-lo, de ser feliz...
Tudo pode atrapalhar, as pessoas podem tentar nos prejudicar, mas se tivermos um ao outro, nessa casa tudo sempre ficará bem.
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