Notas iniciais
Passamos de 200 mil palavras, ual! Obrigada a todos que embarcaram comigo nessa doideira que é a minha mente! Pensei em Paola, na Priscila, na mãe da Du, na Ísis, na Ana ou a Alzira, e quem apareceu foi...

Por Eduarda

Deixamos nossos filhos no quarto e descemos juntos até a sala, eu e meu marido estamos curiosos para saber quem é essa visita misteriosa... Sinceramente, não faço ideia de quem seja!

Sentamos do sofá e depois de alguns minutos a campainha toca. Silviano vai atender a porta e de repente surge uma mulher super bem vestida na nossa frente. Por alguns segundos não a reconheço, mas depois percebo quem é! Lucas me olha, também demostrando surpresa, e dizemos juntos:

Você?
A: Estavam com saudades? — Nunca tinha visto Alzira tão arrumada, com roupas tão caras, de onde ela tirou dinheiro?

A ex-empregada de Maria sempre detestou a gente e nunca fez questão de esconder isso, então o que fez ela vir aqui?
JL: Saudades não é a palavra certa, mas agora estamos bem curiosos! O que te trouxe a nossa casa? Pensei que ficaria mais tempo nos Estados Unidos, já que não veio pro enterro...
A: Falando nisso... — Ela se senta a nosso lado no sofá. — Como foi? Muita gente chorando? — Acho que Alzira fez uma "piada", pois sabe muito bem que Maria não tinha muitos amigos que chorariam por ela.
Du: Foi triste como todo enterro! — Respondo. — Mas você não nos respondeu, desde quando somos amigos? Veio fazer o que aqui?
A: Nossa, como vocês são chatos! Vim fazer uma visita, não pode? — Ela começa a olhar toda casa, prestando atenção nos mínimos detalhes e depois nos diz: — A vida é injusta mesmo, uns com tantos e outros sem nada...
JL: Meu pai trabalhou muito pra ter tudo isso, e eu também pra fazer minha fortuna...
A: Aham, sei bem como ele trabalhou! — Alzira nos encara. — Deixando de pagar impostos, fazendo as coisas por debaixo dos panos... Mas eu o entendo, todo mundo faz o que pode para chegar ao topo!

Fico prestando atenção nas roupas que ela usa, todas são de marcas caríssimas... Maria a pagava tão bem assim? Me sinto tentada a perguntar, mas nem preciso, ela percebe meus olhos em suas vestimentas e diz:
A: Gostou? Comprei antes de vir pra cá, tinha bastante dinheiro guardado no cofre e como eu sabia a senha e a dona não iria reclamar...
JL: Tu roubou pra você? E ainda tem a cara de pau de falar?
A: Roubar de uma pessoa morta? Tem certeza que isso é possível? Não há gavetas dentro do caixão, ninguém leva nada pro túmulo! Eu não podia deixar aqueles milhares de dólares mofando lá... Outra coisa, eu estou no testamento dela, assim como vocês, então só peguei um adiantamento! E pra falar a verdade, foi isso que me trouxe aqui! O advogado da minha ex patroa iria procurar os dois, mas preferi vir eu mesma dar a notícia! Daqui 3 dias saberemos pra quem Maria deixou os seus bens, e é meio óbvio que eu e seus filhos seremos beneficiados, né?! A abertura será na antiga casa dela, eu ligo avisando o horário, estejam lá e nem pensem em se atrasar! Quanto antes eu souber que estou rica, melhor!
Du: Cara, ela mal morreu e você já está pensando nisso?
A: É fácil não pensar em dinheiro quando já se tem muito!

Sua pele morena, seus cabelos encaracolados e seus olhos castanhos escuros, nunca tinham deixado tão claro o quão ambiciosa ela é.
JL: Nós estaremos lá, pode ficar tranquila! — Lucas responde. — Acho que hoje mesmo vou mandar dar uma geral na nossa casa, e então voltaremos a ser vizinhos daquela residência...
A: Eu estou morando lá, vai ser um prazer viver perto de você, porém agora serei a proprietária, não apenas a empregadinha! — Ela se levanta do sofá, e diz: — Já que não vão me oferecer nem uma água, vou indo embora! Passar bem...

Alzira caminha até a saída e nenhum de nós a segue, ela que abra a porta sozinha... Acho que a aura dessa mulher é pesada, o clima da casa fica ruim mesmo depois dela ir embora! Tenho pena de pessoas assim, que valorizam mais os bens materiais que a vida. Será que um dia ela vai se dar conta de que tudo que o dinheiro dá, tudo que ele oferece, quebra, não dura, enferruja e apodrece.
Du: É sério que a gente vai voltar a morar lá?
JL: Eu pretendia, mas se você não quiser...
Du: É claro que eu quero, aquela casa trás boas recordações, aquele quarto então... — Sorriu.

Ele também abre um sorriso, e diz:
JL: E ainda vão ter muitas mais!
Du: Acho que seu pai vai ficar chateado de sairmos daqui...
JL: É, mais uma hora teríamos que fazer isso, não podemos morar aqui pra sempre!
Du: Falando nisso, até quando ficaremos no Brasil?
JL: O tempo que você quiser... Olha, vou te contar um segredo! — Ele se aproxima de minha orelha e sussurra. — To adorando essa vida de não fazer nada, já tinha me esquecido que era tão bom!
Du: Que saudades do Lucas preguiçoso! — Nós rimos e eu pulo em seus braços para abraça-lo.
JL: É, mas também não vou virar vagabundo... Estava pensando em comandar a empresa daqui, abrir uma nova sede no rio e fechar a de lá! Mas isso não vai ser por agora, só depois que a nossa filha nascer... — Ele coloca a mão sobre minha barriga.
Du: Lucas, a gente tá criando muita expectativa, e se não for menina?
JL: Vai ser, eu sinto! É instinto paterno... — Ele se deita no sofá e coloca a cabeça em meu colo. Começo a fazer cafuné em seus cabelos, que agora está um pouco maior do que era no passado, e ele parece ficar sonolento.

Eu continuo pensando na nossa visita, tentando entender o motivo da sua vinda aqui, ela podia simplesmente ligar... Mas não, fez questão de vir até nós! Talvez para mostrar que agora está no "mesmo nível" que o nosso, como se isso existisse... Há várias formas de preconceito, contra negros, deficientes, gays e até mesmo pobres... Acho que ela tem isso, mesmo nunca tendo dinheiro, Alzira sentia vergonha de si, da sua classe social, e acha que todos são iguais! Dói o coração saber que existem pessoas assim, que se envergonham do que são.

Lucas estava quase cochilando quando escutamos passos descendo as escadas correndo, viro minha cabeça em direção aos degraus, e vejo que são meus filhos.
Du: Não corram na escada, é perigoso! — Dou bronca, com um tom de voz bravo.
A: Desculpa mamãe, mas é que tá tendo bliga lá em cima...
JL: Briga? — Meu marido tira a cabeça do meu colo e encara as crianças. — De quem? Todos estão na empresa...
M: É o tio Pedro, ele deve ter chegado... — Minha filha diz. — Papi, what é prostituta?
Du: Oi? O que é o que? — Me assusto com sua pergunta.
A: Plostituta, o Pedlo tava chamando a tia Amanda assim...
JL: Que horror! — Lucas se levanta do sofá e fala: — Vou lá conversar com esses dois, eles não podem ficar falando essas coisas com meus filhos por perto!

Meu marido ia começar a caminhar rumo a escada, mas eu o puxo para se sentar novamente. Ele cai de bunda no sofá e eu digo:
Du: Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher! Deixa eles lá resolvendo os problemas deles, enquanto isso a gente liga pra Ana e pede pra ela dar uma geral na nossa casa! Melhor sair daqui logo..
M: Mamãe, você não respondeu, o que é pros...
Du: Para de dizer isso! — A repreendo. — É uma palavra muito feia, não quero ouvir vocês falando uma coisa dessas! Ok?

Eles pedem desculpas e se sentam conosco no sofá. Pelo jeito o clima está ruim entre meus cunhados, mas isso não diz respeito a nós.

( 3 dias depois)

Ainda bem que assim que Lucas ligou para Ana, ela já se comprometeu a arrumar nossa casa o mais rápido possível! Se ainda estivéssemos morando com meus sogros, seria insuportável. José Pedro e Amanda se separaram, parece que ele descobriu que ela o traia com um amigo, um tal de Léo... Há suspeitas de que o bebe que minha cunhada espera, nem seja do irmão de Lucas, o clima lá está péssimo! Minha sogra está se sentindo culpada, afinal foi ela quem insistiu nessa relação, e José Pedro está meio pirado... Apesar de tudo, os dois continuam morando no mesmo lugar, jantando na mesma mesa, tomando café juntos. Deve haver 1 briga por minuto!

Assim que chegamos na nossa casa, quem nos recebeu foi Ana! Nós nos abraçamos e ficamos horas conversando! Tudo está igual como eu deixei desde a última vez que vim aqui, os móveis impecavelmente limpos, não sei o que faria sem sua ajuda...

Agora bastante gente sabe que estamos no Brasil, um paparazzi me fotografou e logo em seguida minha foto estava em milhares de blogs de fofoca, as vezes esqueço que sou famosa...

Quando estávamos arrumando nossas coisas, a ex babá das crianças veio nos visitar, a quanto tempo não a via... Acho que quase 5 anos! Carmem ficou conversando com meus filhos, lhes contando como ela cuidava deles e por alguns momentos senti que havíamos voltado ao passado, e isso não foi uma sensação ruim! Conquistamos muita coisa pelo mundo, mas meu lar é esse, sempre será! As pessoas que estão a minha volta, realmente me querem bem e torcem por meu sucesso, sentia falta delas do meu lado.

Hoje, mais precisamente daqui alguns minutos, o testamento será aberto... Estou ansiosa, não por um desejo de ficar ainda mais rica, mas pra saber quais foram as últimas decisões de minha amiga.
JL: To bonitão? — Lucas me pergunta, assim que abotoa o último botão de sua camisa social.
Du: Como sempre... — Respondo e dou um abraço nele por trás. Escoro minhas mãos em seu ombro, e ficamos nos olhando no espelho.
JL: Amanha você tem consulta no ginecologista, vamos ver se tá tudo bem com nosso filhote...
Du: É, espero que esteja!
JL: Você não parece muito animada... — Ele diz, se virando para olhar em meus olhos. — É por causa dessa abertura de testamento?
Du: Sim, sei lá... Não queria estar indo na casa dela pra isso, é difícil!

Lucas me dá um abraço, e beija o topo da minha cabeça. Gosto quando ele faz isso, me sinto protegida.
JL: A vida é assim Du, um dia será nossos filhos que vão abrir nosso testamento, depois nossos netos... Falando neles, os dois ainda estão brincando com a Carmem?
Du: Sim, estão! Acho que ela veio disposta a recuperar seu emprego, e por mim já conseguiu... Era a Maria quem me ajudava com as crianças, e agora com mais um bebe vindo, vai ser bom ter uma baba novamente!
JL: Eu acho uma ótima ideia, super concordo...

Descemos as escadas, essas que também foram testemunhas de muita coisa, e pedimos para que Ana fique de olho em nossos filhos, afinal por enquanto ela é a única que ainda trabalha pra nós. Caminhamos de mãos dadas até a antiga casa de Maria, e ao tocarmos a campainha Alzira nos atende, dizendo:
A: Essa é a ultima vez que abro a porta pra vocês, assim que o inventário sair vou ter a minha própria empregada...
Du: Boa tarde pra você também! — Respondo, irônica.

Entramos e o advogado já está lá, com alguns documentos e pastas em mãos.
A: Já que todos os beneficiados estão aqui, podemos começar a leitura do testamento?
Ad: Claro, vamos sim... Aqui tem algum escritório? Seria melhor!
A: Tem sim, me acompanhe!

Seguimos Alzira até uma porta e quando ela abre há uma imensa sala, cheia de livros e com mesas e cadeiras invejáveis... Nem o escritória da minha casa em NY era assim! O Advogado se senta à mesa e nós nos dirigimos até um sofá que fica a sua frente.
Ad: Há um testamento escrito, mas dona Maria também deixou um vídeo falando de suas últimas vontades...
A: Oba, filminho...

Lucas e eu a olhamos e, ela desfaz o sorriso que havia formado em seu rosto. Nunca vi alguém tão feliz depois da morte de alguém. Esperamos ele tirar um notebook de sua maleta, e depois o advogado da play em um vídeo. Logo Maria aparece na tela e começa a dizer:

"Se vocês estão vendo isso, quer dizer que eu morri... Desculpas! — Ela sorri. — Sei que os poucos que me cercam, vão sentir minha falta. Eu sempre tive muito dinheiro, mas mesmo assim fui infeliz na maior parte da minha existência... Levava uma vida com muito, e ao mesmo tempo com pouco! Tinha escassez de amor, de carinho, de amizade, de ânimo para viver... Um dia, porém, tive a sorte de conhecer 4 pessoas muito especiais: Eduarda, João Lucas, Alfredinho e Marta. Vocês me deram vontade de viver..."

Eu estou emocionada, não esperava vê-la novamente, muito menos hoje... É tão bom chorar de emoção, de alegria! Lucas pega na minha mão e a aperta, ele está tão mexido quando eu.

"Ter dinheiro é muito bom, confesso, mas a melhor parte é o que fazemos com ele... E eu acho, que para ser feliz, é preciso fazer alguém feliz! Desse modo, deixo 50% da minha fortuna para caridade, para que outras pessoas menos favorecidas possam comer, beber, ter uma vida melhor e cheia de alegria. No meu testamento está especificado quais obras beneficiarei!"
JL: Essa é a Maria que conhecemos, sempre pensando no bem do próximo! — Lucas fala, passando seu braço por cima de meus ombros.
A: Eu não acredito, que velha filha da mãe... Pra que 50%? Não podia ser 5?
Du: Faz um favor pra mim? Cala a sua boca, é melhor...
A: Cala boca você, cabelo de menstruação!
JL: Respeita minha esposa! — Ele me defende.
Ad: Ei, silêncio! — O advogado grita, dando pause no vídeo. — Já estou acostumado a ver brigas causadas por herança, mas vamos pelo menos terminar de assistir o vídeo?

Fazemos silêncio, então o play é novamente acionado.

"Para meus netos, é isso que eles são, deixo os outros 50% pra serem divididos igualmente entre os dois, só não minha casa no Rio e nem a de Nova York, essa eu dou de presente para minha querida empregada Alzira, que sempre me ajudou!

Então é isso, espero que nenhum de vocês se esqueça de mim, pois eu nunca vou me esquecer de vocês... Não importa onde eu esteja, sempre os amarei! Obrigada por fazerem parte da minha vida!"

A tela fica preta e então o silêncio continua por mais alguns segundos... Olho para Alzira, ela está chorando, mas não de emoção e sim por estar extremamente frustrada.
A: Como assim os 50% vão ser divididos entre os dois? Isso não pode acontecer, esse dinheiro é meu, me pertence! Eu que cuidei dessa velha durante anos, tudo isso pra nada? — Ela grita. — Não aceito, vou contratar um advogado, acabar com esse testamento.
Ad: Você pode até tentar, mas duvido que consiga ganho de causa... Tu nem é parente da falecida!

Ela achava que estaria milionária agora, mas no fim só herdou dois imóveis.. Se bem que, daria pra viver confortavelmente o resto da vida com os alugueis.
JL: Você pode vender o apartamento em Nova York e viver com a grana, não vai precisar trabalhar nunca! — Lucas deve ter pensado o mesmo que eu.
A: Eu quero ser rica, milionária, não bem de vida... Quero gastar até não poder mais e, nunca me preocupar com dinheiro!
Du: Sinto muito, mas não vai rolar! — Me levanto do sofá e a encaro. Fiquei feliz por ela não ter o que queria, Alzira não merece.
Ad: O inventário vai começar e pode ser que demore um bom tempo até ficar tudo pronto, mas quando ficar, como vocês dois são os pais das crianças, a fortuna deles ficará sob suas responsabilidades! — O advogado nos diz.
A: Quer saber?! Já que eu herdei essa bosta de casa e posso dizer que ela é minha, fora daqui! — A ex empregada grita, e nos empurra até a saída.

Saímos de sua casa e meu marido me olha assustado.
JL: Já perdi as contas de quantas pessoas malucas cruzaram na nossa vida! — Depois de dizer isso, Lucas ri.
Du: Loucas, psicopatas, gente barra pesada... — Eu riu também. — O que temos de dinheiro, temos também de azar pra atrair gente ruim!

Nós devíamos estar preocupados, mas ao invés disso, rimos juntos.
JL: Você não tá com medo?
Du: Medo de que? Da Alzira? Eu não! Você está?
JL: Talvez, tudo que ameaça tirar nossa paz me da um certo receio...

Nós damos as mãos e caminhamos juntos até nossa casa.

Estou tranquila, sei que ela não fará nada, se tentasse algo contra nós poderia ser presa e perder sua pouca herança, mas Lucas continua desconfiado... Quem de nós está certo?

Notas finais
Mais 9 capítulos, e vai chegar o FIM..