Sempre te amei.
70 Desfile e delegacia.
Notas iniciais
Por Eduarda
Assim que Lucas foi levado para delegacia, eu fiquei um bom tempo sem saber o que fazer... Correr atrás dele não me pareceu uma boa ideia, ele não quer isso e eu preciso fazer o certo!
O que seria a coisa correta agora? Ser profissional, colocar minha dor de lado, o meu medo e a falta de confiança para fora de meu corpo e desfilar como se nada tivesse acontecido.
Volto para sala da maquiagem, todos percebem que chorei, mas ninguém fala nada. As notícias correm rápido, aposto que alguém já cochichou que Lucas foi levado por policiais! O motivo certamente não sabem, mas tenho certeza que amanhã já estará em todos os jornais...
Me olho no espelho e meu semblante é triste. Me esforço para dar um sorriso, mas ele não parece muito sincero... Como posso desfilar sem tê-lo aqui? Quem vai torcer por mim? Como distribuirei sorrisos se minha única vontade é chorar? Não sei, mas vou ter que descobrir...
JA: Você consegue fazer isso? — Escuto a voz de meu sogro, pelo jeito já ficou sabendo... Todos devem saber, Lucas saiu algemado no meio da festa, os jornalistas devem ter registrado tudo.
Du: Tenho que conseguir! — Respondo a ele.
Antes do desfile começar, José Alfredo terá que discursar. Fico me perguntando se eu não deveria questiona-lo da mesma maneira: Você consegue fazer isso?
Enquanto terminam de prender meu cabelo em um coque, para que ele não tampe as jóias, fico observando o jeito de meu sogro. Ele parece triste, culpado... Será que o Comendador seria capaz de matar alguém? Talvez, não duvido, mas sei que ele não fez isso, não sabendo que a culpa recairia em Lucas.
JA: Assim que der eu corro pra delegacia...
Du: Eu vou com o senhor! — Digo, convicta. Minha voz foi tão imponente, que ele nem pensou em dizer não. Apenas assentiu com a cabeça.
Se antes eu estava nervosa e ansiosa pelo desfile, agora só quero que ele acabe logo. Não tenho mais medo de cair no meio da passarela, já estou no chão, não literalmente, mas é assim que me sinto.
O meu primeiro vestido chega, ao total são 4. Terei que trocar de roupa a cada entrada... Há outras modelos também, mas eu sou a principal, abrirei o desfile e depois o encerrarei e, terei mais duas trocas de roupas entre o começo e o fim do evento.
Com a ajuda da estilista me visto. Percebo quando ela fecha o zíper... Fica mais apertado, sufocante, combina comigo! Também estou assim: Sufocada, com o coração apertado...
"Não! Chega, para com isso Eduarda... Cadê aquela garota forte? Tu vai resolver isso, não deixa a tristeza te pegar de novo." Penso, me encarando no espelho. Realmente estou linda, pelo menos Lucas teve tempo de me ver...
Me trazem as primeiras Jóias. Elas devem custar mais que muitas casas...As coloco, e fica tudo muito bem em mim.
"Vai começar!" Alguém diz.
Caminho até perto da passarela e fico olhando todos as pessoas ali presentes. Não tem jeito deles me verem, só eu consigo os observar.
Acho que essa é a festa mais cheia da Império, há muitas pessoas aqui! Os convidados ainda se acomodam em seus respectivos lugares, tem muitas cadeiras vazias por enquanto, todas pretas e enfileiradas perto de onde vou passar...
Olho no relógio, 3 minutos para começar, as pessoas se apressam para sentar.
Meu sogro sobe no palco, quando ele colocar um ponto final em seu discurso será a minha vez. O nervosismo volta, olho para as cadeiras e agora estão todas cheias, tem apenas uma vazia bem a minha frente. Os irmãos de meu marido estão em volta dela, Lucas sentaria ali.
Será que quando amamos alguém, essa pessoa precisa estar sempre presente? Faz diferença não ver seu sorriso hoje?
Du: Não, não faz... — Digo em voz alta.
Ele está aqui comigo, no meu pensamento. Claro que preferia ter sua presença real, mas tudo bem, meu marido torce por mim de longe, estou certa disso. Ergo minha cabeça e abro um sorriso que dessa vez é sincero.
Imagino Lucas ali na minha frente, sorrindo! Seus dentes brancos e certinhos, como é bonito... Já está gravado na minha mente todos seus traços, seu trejeitos...
Escuto palmas, meu sogro terminou de discursar.
A música toca e essa é a minha deixa para entrar.
Subo um pequeno degrau até a passarela e, de repente todos me olham. Fico parada por alguns segundos... Minhas pernas tremem, será que foi conseguir? Fixo meus olhos para frente e vejo a cadeira preenchida por meu marido. Não, ele não está ali, mas minha mente cria suas ações.
Certamente ele assoviaria, gritaria meu nome... Lucas no fundo, ainda tem um jeito de meninão... Esse pensamento me faz rir e eu começo a dar alguns passos.
Muitos flashs me iluminam e eles não conseguem me intimidar. Estou focada nos meus pensamentos. Nesse momento meu marido bate palmas, ri e diz para seu irmão que estou linda. Ele faria isso...
Dou mais alguns passos e já no fim da passarela olho sedutoramente para Lucas, que no final não está lá, mas quando ver as fotos saberá que foi para ele. Certamente uma câmera registrou isso, deve ter sido uma boa foto.
"Que linda, nem sei se presto atenção nela ou nas jóias" Uma pessoa diz. A música está alta, mas posso escutar.
"O cabelo dela é deslumbrante... Que cor é essa?" Outra pessoa comenta.
Me viro e caminho até a saída, outra modelo já vai entrar no meu lugar.
E: Você arrasou! Que carão foi aquele?! Di-vi-na. — Minha estilista diz, mas rapidamente me puxa para trocar de vestido e também de jóias.
Todas minhas entradas deram certo, senti que as pessoas ficavam vidradas em mim, acho que isso é bom... Meu cabelo vermelho sempre chamou atenção, não foi diferente hoje.
Agora estou com o vestido preto e decotado, o meu vestido favorito... Também uso nesse momento as peças mais caras da coleção. Depois que eu desfilar a Maria Clara subirá na passarela, ela que desenhou todas as jóias.
A modelo que estava na passarela sai e então é minha vez de entrar.
Todos já sabem que está acabando, eles batem palmas assim que apareço, mesmo ainda não sendo o momento de fazerem isso... Acho que agradei!
Mando beijos para todos e as palmas aumentam. Por instantes esqueço de tudo, isso é muito bom, uma sensação estranha, nova, mas incrível... Eles gostaram de mim!
Todas as outras modelos entram, trazendo Clara, e quando ela chega perto me dá a mão e sussurra em meu ouvido:
MC: Foi incrível Du, to apaixonada por você... — Ela brinca.
Os convidados estão de pé agora, eles gritam, tiram fotos e elogiam tudo. Foi um sucesso!
Assim que posso, corro para trocar de roupa. Visto o que cheguei usando e vou procurar meu sogro.
José Alfredo estava num canto, juntamente com Marta, conversando com alguns homens... "Será que eles voltaram?" Penso, mas logo vejo Ísis ao longe.
Du: Vamos na delegacia? — Digo, assim que me aproximo.
Ele me olha assustado, como se eu tivesse feito algo de errado, pede licença a todos e me arrasta pro lado dizendo.
JA: Ta doida menina? Finja que nada aconteceu...
Du: Ta bom, me desculpa... Mas eae? Vamos?
JA: Não agora, temos que conversar com os investidores, clientes... Muitos querem te conhecer!
Du: Você nem parece preocupado com o Lucas! — Digo, brava.
JA: Você também não pareceu quando estava lá desfilando! O nome disso é profissionalismo... Aliais, tu foi incrível!
Sou apresentada a milhares de pessoas, tiro centenas de fotos, e começo a achar que minha vida está prestes a mudar!
Será que virei celebridade? Pelo menos por hoje sim!
A festa está chegando ao fim, as pessoas estão indo embora, o coquetel depois do desfile ocorreu conforme o previsto.
JL: Venha Eduarda, vamos nessa delegacia... — Ele diz, assim que o último investidor vai embora.
Por João Lucas:
Assassino! É isso que as pessoas pensam de mim. Que sou um monstro, louco, psicopata...
Nem tenho uma arma, como poderia matar alguém?
"Há vários assassinos de aluguel!" O delegado me disse quando o questionei.
Fui algemado e levado pro carro da polícia, tudo foi registrado pelas câmeras dos jornalistas, isso nunca vai ser esquecido, mesmo que eu seja inocentado... Se antes as pessoas me achavam um cara desprezível, agora o Brasil inteiro vai pensar que sou a personificação de Hitler. Sinto que estou sendo muito odiado...
Me encontro numa cela com vários outros detentos, eles adoraram mexer comigo. Logo que cheguei fui chamado de mauricinho, playboy, filhinho de papai.
Pelo menos agora é de noite, todos estão dormindo... Menos eu!
Estou sentado no canto da cela, com a cabeça abaixada e pensando em Eduarda.
Será que minha esposa desfilou? Terá ocorrido tudo certo?
Essas são apenas o começo de minhas dúvidas, tenho tantas incertezas agora...
Sairei daqui logo? Como? Quem matou o Fabiano? Talvez meu pai... Ou até mesmo o próprio Merival!
Será? Não, nenhum deles é tão cruel... Não foi um, nem dois tiros, e sim três! Que pai assassinaria seu filho assim? Nenhum! Além do mais, o Comendador também não cometeria uma atrocidade dessas, só se fosse em legítima defesa.
A madrugada está acabando, daqui a pouco amanhece. Uma noite inteira aqui trancafiado... Espero não me acostumar com isso!
Por Eduarda:
Chegamos a delegacia ainda de noite, mas não me deixaram entrar! Tão perto e mesmo assim longes...
José Alfredo disse que voltava amanhã, mas eu me recusei a ir para casa, dormirei aqui.
No meio da noite o Merival saiu da sala do delegado e passou por mim. Ele me olhou com um ódio gigantesco nos olhos, e senti que ali também tinha muita tristeza. Por mais que ele seja mal, nenhuma pessoa consegue ficar indiferente a perda de um filho. Ele está sofrendo, e muito... Isso me esclarece uma coisa: Merival não é o culpado! Depois de me encarar, o ex advogado da família partiu rumo a saída.
Deitei em umas cadeiras e acabei dormindo ali mesmo. Quero que o dia amanheça logo, preciso falar com Lucas.
(no outro dia de manha)
Abro meus olhos lentamente e sorriu quando vejo que amanheceu.
Levanto da cadeira em que estava, e vou falar com o delegado. Ele prometeu que me deixaria entrar para ver meu marido hoje cedo.
D: Você realmente dormiu aqui, não é? — Ele pergunta assim que me vê. — Por que? Gosta de sofrer? Se tivesse ido para casa, pelo menos agora poderia voltar descansada...
Du: Dormindo aqui ou em casa, a minha mente estaria nessa delegacia! Me deixa ver ele, por favor!
D: Eu vou pedir para que um dos policiais te acompanhe até a cela... — Ele sorri. — Você o ama muito, né?!
Não responto, acho que é meio óbvio que sim.
Acompanho um homem com o uniforme da polícia, e enquanto passo pelas celas escuto os detentos me passando cantadas.
"Gostosa"
"Curupira peituda" Esse me fez rir.
"Vem aqui delícia"
P: Eles sempre fazem isso... — O policial diz.
Quando chego na cela de Lucas, o encontro sentado perto da grade com as costas encostadas na parede.
Du: Meu amor... — Digo, me abaixando até ele.
Lucas me olha assustado, como se tivesse ouvido uma voz do além, e se levanta dizendo:
JL: Por que tu veio aqui? Isso não é lugar pra você...
Du: Eu precisava te ver Lucas... — Digo, deixando uma lágrima cair.- Qualquer lugar é o meu, se você estiver lá...
JL: Não chora... — Ele coloca suas mãos para fora da grade e enxuga meu rosto. — Você desfilou?
Du: Sim... — Ele sorri. — Por você!
JL: Eu não estava lá, mas juro que estarei contigo em todos os outros... Porque você vai ver, vão ter muitos!
Du: Talvez, modéstia a parte eu arrasei!
JL: Isso não é uma surpresa pra mim, tu sempre arrasa... — Ele coloca seu rosto entre as grades e nós dois ficamos trocando selinhos.
P:Qual é parceiro?! Divide aí... — Diz um dos companheiros de cela de Lucas.
Nem tinha percebido a presença dos outros, quando estou ao lado de meu marido só ele me importa, apenas sua presença é notada.
JL: Cala a boca cara! — Ele grita.
P: Olha como fala comigo playboy! — Ele responde, bravo.
Du: Foi mal! Como é seu nome? — Pergunto.
P: É Pedrão gatinha...
Du: Então Pedrão, desculpa o meu marido, ele está nervoso... — Sorriu, e jogo charme.
P: Tá bom, mas só porque tu pediu!
JL: Que isso Du? — Lucas sussurra. — Seduzindo o cara na minha frente?
Du: Só para ele não acabar com você!
JL: Deixa ele vir, acabo com ele...
Du: Aham, tá bom macho alfa, Anderson Silva... — Brinco, e ele ri.
JL: Eu queria te abraçar, odeio essas barras de ferro que nos separam... — Lucas diz, passando as mãos por meu rosto. — Pelo menos eu consigo sentir sua pele, seu cheiro...
Du: Que está péssimo! — Eu riu. — Não tomo banho desde ontem.
Lucas dá um passo para trás e olha minhas roupas. Só agora percebeu que são as mesmas de ontem.
JL: Tu dormiu aqui?
Du: Dormi, não ia conseguir voltar para casa e ver a cama vazia...
JL: Você não podia ter feito isso, e as crianças?
Du: Estão com a baba, a gente combinou dela passar a noite lá... Ta tudo bem, nao se preocupa!
JL: Não tá tudo bem... — Ele abaixa a cabeça. — Prefiro que você não passe por isso, não quero que venha aqui mais, por favor!
Du: O que? Não Lucas, ta doido? Amanha mesmo estou aqui e...
JL: Du, daqui a pouco me mandam para um presídio, você imagina como é ir lá? As mulheres passam por revistas rigorosas, tem que tirar a roupa, ficar nuas e...
Du: Tá ok, eu não me importo!
JL: Mas eu sim! Não quero tu passando por essas humilhações... Te amo tanto, que prefiro ter você longe, mas sabendo que está bem!
Du: Meu amor, não vou estar bem sem você! As vezes eu odeio o tanto que te amo... É demais, não dá!
JL: Se me ama mesmo vai entender! Queria ter você por perto, mas se tu for na cadeia me ver, toda vez vou me sentir culpado...
Du: Cara, tu não vai ficar preso muito tempo! Vão acabar descobrindo o culpado... — Penso um pouco. — Já sei, ele foi morto quando?
JL: Acho que na sexta a noite, mas só encontraram o corpo hoje.
Du: Ótimo, nós ficamos em casa o dia todo. As empregadas viram...
JL: Eu pensei nisso, mas aí o delegado insinuou que eu poderia ter contratado alguém pro serviço!
Du: Se ele te conhecesse nunca pensaria isso.. — Digo, e ele sorri.
JL: É verdade, daí ele saberia que eu sou o máximo!
Du: Nem na cadeia tu deixa de ser metido?
JL: Só falo a verdade... — Ele respira fundo. — O café da manha daqui é péssimo, to com saudades até da sua comida.
Du: Para vai, eu to melhorando...
JL: Verdade, de horrível está só ruim! — Ele ri. — Lembra quando nós morávamos só nós dois, na época que eu estava sem dinheiro, tu fez um estrogonofe salgado demais...
Nós dois rimos, aqueles foram bons tempos.
Du: A gente estava sem grana, vivendo numa casa bem menor, mas mesmo assim fomos extremamente felizes...
JL: Acho que aquele lugar trazia mais sorte!
Du: Sorte é ter você, não importa onde... — Dou um selinho nele.
JL: Quando eu sair daqui tudo vai mudar Du!
Du: Aé? Como?
JL: Ainda não vou dizer, mas vai ser tudo diferente... Tu só tem que confiar em mim!
Du: Eu confio, não importa o que você esteja pensando, sei que vai ser o melhor.
Lucas aproxima seus lábios da grade e eu faço o mesmo. Ele abre um sorriso e diz:
JL: É difícil beijar assim...
Du: Vai desistir?
JL: Nunca!
Nós nos beijamos, e sinto que os presos observam a cena. Eles pararam de tirar sarro e caçoar da gente, acho que no fundo todo mundo tem alguém que ama, e sente falta dessa pessoa... Com os detentos não é diferente, com certeza ao nos ver lembraram de alguém que queriam ali.
O policial vem dizer que devo sair dali, e então me despeço de Lucas. Caminho para fora e antes de sair dou uma última olhada. Ele me dá tchauzinho com a mão... Eu retribuo o gesto e então saiu.
Quero ir para minha casa, deitar na minha cama, abraçar o travesseiro de Lucas e dormir sentindo o seu cheiro... Quero apertar meus filhos e olha-los incansavelmente, procurando ver o pai em seus rostos... Quero tanta coisa, mas no final não farei nada disso, tenho que esperar José Alfredo, ele disse que viria pela manhã.
Me sento em uma cadeira e vejo alguém conhecido saindo da sala do delegado. Levanto, e vou até ela.
Du: O que você esta fazendo aqui Alzira?
Ela se assusta ao me ver, mas logo se recompõe.
A: Vim cumprir meu dever de cidadã!
Du: Não entendi...
A: Eu vi o vídeo do Lucas ameaçando o Fabiano, ele falou que caso o mesmo se aproximasse de vocês novamente, ia acabar o matando... Dai o cara foi lá na sua casa e no dia seguinte apareceu morto! Achei que a polícia deveria saber disso!
Du: Você veio aqui para dar mais provas contra meu marido? Qual o seu problema com a gente?
A: Nenhum, só gosto da justiça sendo feita... Agora me dê licença, dona Maria me espera!
Ela dá as contas para mim e eu me controlo para não voar em seu pescoço. Que filha da mãe...
Me sento novamente na cadeira e penso em ir embora. Maria certamente não sabe o que Alzira fez, ela com certeza não permitiria... Estou começando a ficar preocupada, ainda mais! A cada dia que passa a situação piora!
Tento pensar em um culpado, mas ninguém vem a minha mente. Não foi Lucas, nem meu sogro, muito menos Merival... Quem foi então?
F: Filha?
Ergo meus olhos quase incrédula. O que meu pai está fazendo aqui?
Du: Hoje é meu dia de só encontrar gente detestável? — Grito e me levanto da cadeira. — Me dá licença...
F: Espera... — Estava indo em direção a porta, mas há algo em sua voz que me faz parar.
Du: Que foi? Vai rir por que o Lucas está preso?
F: Não, na verdade não... — Ele fica me olhando, como se quisesse me contar algo. — Sabe por que estou aqui?
Du: Não faço ideia...
F: Eu vim pedir para que me prendam!
Du: Hã? — Volto para perto dele, a curiosidade me é grande. — Pirou de vez?
F: Tu sabe que eu mexo com drogas né? Então, to devendo pra gente barra pesada, fui ameaçado de morte, não quero levar 3 tiros no peito... Acho que a prisão é mais segura, vou pedir proteção pro delegado!
Du: Boa sorte... — Respondo. — Mas não entendi, por que esta me contando isso?
F: Tu já imaginou como é todo dia ter medo de morrer? Não poder sair de casa, ficar imaginando seu próprio velório... Faz refletir, sabe?! Eu te vi aqui e pensei que provavelmente tu não iria no meu enterro!
Du: Não mesmo!
F: Eu realmente não te amo, não queria que tu tivesse nascido, mas você nasceu e é a minha filha... Talvez sua presença na delegacia, justo na hora em que vim, seja um sinal!
Du: Não to entendendo onde essa conversa vai chegar!
F: Assisti o vídeo do Fabiano, eu o conheço, já o vi nas quebradas! Ele estava devendo pro Monstro... Com certeza foi ele quem o matou!
De todas as pessoas no mundo, nunca pensei que quem me ajudaria fosse ele.
Será que sentir que vai morrer muda tanto assim uma pessoa? A ponto dela ajudar alguém que sempre odiou?
Dizem que ninguém é totalmente mal, nem inteiramento bom, pela primeira vez enxergo uma coisa boa em meu pai.
Du: Você podia falar isso para a polícia... — Peço a ele.
F: Nem pensar, não vou irritar ainda mais o monstro, em vez de três tiros, levo seis... — Ele ri. — Tu que se vire para provar isso!
Du: É a segunda vez que você fala de 3 tiros, por quê?
F: Ele sempre mata assim, com três tiros... Acho que deve ser alguma coisa de trindade, aquele cara é doido!
Du: Mas como eu acho ele? Me diz pelo menos o nome!
F: A maioria do pessoal o chama de Monstro, por causa de uma tatuagem que ele tem na cabeça... É fácil de acha-lo, é só ir na boate mais cara do Rio de Janeiro!
Tatuagem na cabeça: Carlão.
É lógico, como não me lembrei disso antes?! Eu o vi discutindo com Fabiano no barzinho, aquele homem parecia ser super barra pesada...
Meu pai se vira e vai andando até a sala do delegado, eu o observo caminhar... Torci para nunca mais vê-lo, e hoje estou sorrindo por ter o encontrado.
Du: Obrigada! — Grito, quando ele já estava longe. — De verdade, me ajudou muito!
F: Não pense que fiz isso por você... — Ele diz, voltando a me olhar. — Foi por mim, quando eu morrer quero muitas coroas de flores no meu enterro em?! E me mande uma comida descente enquanto eu estiver preso!
Du: Ok, pode deixar... — Algumas lágrimas descem de meus olhos, nem sei explicar o porquê.
F: Acho velório uma coisa bonita sabe? Aquele tanto de gente emocionada, as flores... Quero o meu assim!
Ele entra na sala do delegado e eu começo a rir. Que diálogo foi esse? Que tipo de pessoa gosta de velórios?
Prefiro acreditar que ele só quis me ajudar, mas não deu o braço a torcer... Afinal, ele ainda é meu pai, talvez eu tenha puxado toda sua marra. Sei que nunca vamos nos dar bem, mesmo que ele vire boa pessoa, nada apaga o passado. Porém agora posso pelo menos pensar em uma coisa boa que ele fez por mim. Talvez a única...
Eu vou achar esse Carlão com a ajuda de meu sogro, não sei como mas o farei confessar, tirarei Lucas da cadeia e então vamos poder viver o "tudo diferente" que meu marido disse...
É tão bom sentir esperanças, saber que as coisas vão melhorar...
Vejo uma senhorinha rindo, e riu também. Nem a conheço mas fico feliz por ela estar feliz. Acho que isso significa que meu estado de espírito está bom... E se depender de mim, só vai melhorar!
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