Sempre te amei.
56 Capítulo 56: Volta.
Notas iniciais
Por João Lucas
Já é de noite e, eu e Eduarda estamos no aeroporto. Du vai embarcar daqui a pouco. O dia de hoje foi complicado, os enjoos persistiram fortíssimos. Fiquei o tempo todo ao lado dela. Vi que ela não estava mal só por estar enjoada, mas também por sentir que estava estragando os nossos planos.
Eu deveria voltar com Eduarda, porém estou super curioso para conhecer essa cidade, e ela insistiu para que eu fique.
JL: Você vai ficar bem sozinha?
Du: Como assim sozinha? — Ela sorri. — Vai ter nossos filhos, as empregadas, sua família...
JL: Eles vão te encher de perguntas. O que você vai falar?
Du: A verdade. — Ela começa a rir. — "Voltei porque não gostei do cheiro..."
JL: Que desastre essas férias né?
Du: É... — Ela fica triste. — Desculpa, tá?
JL: Não precisa pedir desculpas, eu te entendo. Não é facil ficar passando mal do outro lado do mundo. Ta tudo bem, não to chateado.
Du: É que eu queria tanto curtir com você...
JL: A gente é novo ainda, vamos ter muito tempo pra viajar juntos! E na próxima trazemos os 3! — Falo, acariciando a barriga de minha esposa. — Vou levar eles pra Disney!
Du: Oba! — Diz me dando um selinho. — Vou ficar com saudades!
JL: Também! A gente vai se falar todo dia tá? Todos os lugares que eu for, vou te mandar fotos!
Du: Ok... Eu também. Cada risada e cada brincadeira que nossos filhos fizerem, vou mandar pra você!
Eduarda precisa ir para sala de embarque, então nos despedimos.
JL: Eu te amo. — Digo, a abraçando. — Vou voltar logo...
Du: Também te amo! Muito...
Somos dois bobões, estamos chorando no meio do aeroporto. Quem vê, pensa que essa é uma despedida definitiva, quando na verdade só vamos ficar separados por alguns dias.
JL: Cuida bem dos nossos filhos! Se alimenta direitinho tá? — Grito, quando ela já está um pouco longe.
Ela se vira pra mim com um sorriso no rosto, e acariciando sua barriga responde.
Du: Vou cuidar... Juro!
Ela me dá tchau e eu fico a observando partir. Não sei porque, mas essa cena mexe comigo. Algumas lágrimas descem de meus olhos. Virei um cara chorão. Mas há razão, despedidas são tristes mesmo, até quando sabemos que a pessoa vai voltar.
Pego um táxi aquático e volto pro hotel. Ele fica tão vazio sem Eduarda.
Vou até minhas malas e procuro uma máquina fotográfica, quero registrar tudo para poder mostrar a Du depois. Organizo minhas coisas e vou dormir. Amanha quero acordar cedo, quanto antes conhecer a cidade, mais rápido voltarei para casa.
Assim que amanhece, eu já estou acordado. Na verdade eu nem dormi, é difícil pegar no sono sem Eduarda a meu lado.
Tomo um banho, para espantar o sono, e desço pra tomar café da manha.
Me sento sozinho em uma mesa, e um casal se senta a alguns metros de mim. Eles parecem estar em lua de mel. Não entendo sua língua, mas o sorriso em seus lábios já diz tudo.
Confesso que sinto um pouco de inveja, também queria estar com a minha esposa aqui.
Termino meu desjejum e ao passar pela recepção, digo:
JL: Buona giornata — Bom dia. Uma das poucas coisas que aprendi a falar.
R: Anche tu! — Responde a recepcionista. Eu apenas sorriu e sigo meu caminho.
Pego um vaporetto, uma espécie de ônibus flutuante, e começo a conhecer a cidade.
Tudo é fascinante até consigo me divertir no começo, mas esse lugar é romântico demais, há vários casais por toda parte. Me sinto carente.
Vou visitar a Basílica de São Marcos, e enquanto tiro algumas fotos, sinto meu telefone vibrar.
Eduarda me mandou uma foto.
Abro imediatamente: É ela e nossos filhos. Eles parecem estar na casa de meus pais. Du deve ter chegado a pouco.
Logo ela manda uma mensagem de texto: "Papai, mamãe já chegou... haha"
Fico sorrindo para tela do celular, e responto: "Papai já está morrendo de saudades."
"Se diverte aí, nós quatro vamos para casa agora... Sua mãe realmente me encheu de perguntas, mas já nos entendemos. "
Guardo o celular e volto a tirar minhas fotos. No fundo só estou registrando para mostrar a Eduarda. Quero que ela sinta que também esteve aqui...
Fico cansado e me sento num banco. Abro novamente a foto, e fico a olhando. Minutos depois, uma bonita e jovem mulher se senta a meu lado.
L: Ciao, come stai?
JL: Oi? — Olho assustado.
L: Você é brasileiro? — Ela sorri. A moça tem um forte sotaque Italiano, mas a compreendo muito bem.
JL: Sou sim...
L: Prazer, eu sou Luana. — Ela estende a mão.
JL: João Lucas. — Digo, retribuindo o gesto. — É bom encontrar alguém que fale português...
L: É, minha mãe é brasileira... Mas me fala, por que está triste?
JL: Triste? Não, eu to bem..
L: Não parece. Estava te olhando de longe, parecia tão chateado...
JL: To com saudades da minha esposa, dos meus filhos...
L: Ual, você é casado? — Ela olha minha mão esquerda. — Parece tão novo! Tem quantos filhos?
JL: 2... Quer dizer, agora 3! Ela tá grávida de novo. — Ao falar isso, abro um sorriso gigantesco.
Quando Luana veio falar comigo, achei que ela queria algo, já estou acostumado com as mulheres se jogando em cima de mim. Mas agora percebo que não. Ela não parece interessada em mim...
L: Mas por que tua esposa não está aqui? Você veio a trabalho?
JL: Não, não... Viemos juntos, tipo lua de mel! Mas ela acabou ficando mal. Não gostou do lugar, achou a cidade fedida, começou a ter enjoos muito fortes... Preferiu ir embora!
L: Nessa época do ano nem cheira tão mal assim... — Ela ri. — Você tem que ver no verão...
Movido pela curiosidade, eu lhe pergunto:
JL: E você, mora aqui?
L: Eu não moro em Veneza, só venho de vez enquanto visitar meus pais!
JL: Saiu de casa por que? Faculdade, casamento...
L: Casamento, mas com Deus. Eu sou freira, quer dizer, ainda não... Mas vou ser um dia! Vivo em um convento.
JL: Não é só eu que me casei novo. — Ela sorri.
Conversamos mais e eu lhe conto toda minha vida. Falamos principalmente de Eduarda, na verdade esse é meu assunto favorito. Luana me apresenta alguns lugares na cidade que eu ainda não tinha visto e então eu a convido para navegar pelos canais de Veneza comigo. Sinceramente, é muito bom ter uma tradutora.
L: Você tira fotos o tempo todo...
JL: Quero mostrar tudo para Du!
L: Isso é lindo. O seu amor por ela... É tão difícil hoje em dia, as pessoas estão se amando cada vez menos.
JL: Eu amo a Eduarda como nunca amei ninguém. É até difícil de explicar!
L: Posso te dar um conselho? — Ela pega na minha mão. Não de um jeito malicioso, mas com carinho de irmã. — Você não está se divertindo... Essa cidade não tem graça estando sozinho. Volte para casa. Mesmo que a sua mulher não diga, ela está precisando de você! — Ela ri. — E você também precisa dela. Vejo em seus olhos!
JL: Tu tem razão... Tudo fica preto e branco sem ela! — Lhe dou um abraço e nesse momento escuto alguém rindo. Olho pro lado e vejo um homem em um barco tirando fotos nossas. — Que isso?
L: Sei lá! Devem ter achado que somos um casal, as pessoas tiram fotos... Acham isso fofo!
JL: É, mas não é nada legal tirar fotos sem permissão.
L: Concordo... Mas então, você vai embora?
JL: Vou no primeiro voo que conseguir! Espero que já seja amanha.
L: Boa sorte meu filho...
JL: Ah, qual é? Você tem a minha idade, não me chama de "meu filho!"
L: É o costume... — Ela ri. — Arrivederci! Espero que tenha te ajudado...
Sim, ela realmente me ajudou.
Estava tentando me enganar, achar que consigo me divertir sem Du. Mas não, nunca conseguirei isso.
Volto pro hotel, e mando uma mensagem para Eduarda. Pergunto se já está melhor.
Minutos depois, Du me responde: "Mais ou menos... Vou marcar uma consulta no médico, to enjoando muito dessa vez."
"Ok.. Vou procurar uma passagem, amanha já to voltando. " — Respondo.
"Não precisa. Eu vou ficar bem... Tirou muitas fotos? Me manda algumas, quero ver!"
Estou enviando as fotografias, quando vejo uma com Luana. Ela é uma mulher muito bonita, e estamos abraçados na foto. Não foi nada de mais, só que não preciso deixar Du cabreira sem motivo. Desse modo, só envio imagens de paisagens e as que tirei sozinho.
Eduarda diz que vai dar banho em nossos filhos, e nós nos despedimos: "Beijoos. Eu te amo." Foi a última mensagem que ela me mandou...
Me deito na cama e penso no que a simpática freira falou: "Mesmo que a sua mulher não diga, ela está precisando de você!" Eduarda não vai admitir que está mal, que me quer ao seu lado... Ela acha que quero estar aqui! Nunca me pediria pra voltar...
Pego meu notebook e procuro por uma passagem. O próximo voo é para amanha a tarde. As 5 horas. Segundo minhas contas, se o avião não atrasar, só chegarei no outro dia, quando estiver amanhecendo...
Não irei contar para Eduarda que estou voltando, quero fazer uma surpresa.
Começo a arrumar minhas malas, e é incrível como nada cabe dentro delas.
JL: Você veio aí, tem que voltar no mesmo lugar... — Digo para minhas roupas.
Isso que me irrita em viajar. As coisas que vieram na mala, nunca querem caber novamente. Talvez eu devesse dobra-las melhor, mas estou sem paciência pra isso.
Quando finalmente consigo arrumar toda minha bagagem, percebo que não tirei uma roupa para vestir manha.
JL: Cacete... — Digo. — Não sirvo pra nada mesmo em?! Cade a Eduarda para me lembrar das coisas...
Abro novamente minhas malas, e tiro as roupas que usarei amanha. As fecho com dificuldade, e quando olho no relógio vejo que é hora de dormir.
Vou acordar cedo amanha. Não para ir viajar, já que meu voo é só a tarde, mas sim para me despedir desse lugar.
Pego meu celular e mando uma mensagem dizendo: "Boa noite." Espero alguns minutos e ela não responde. É madrugada lá, Du certamente está dormindo... Devo fazer o mesmo!
No outro dia, acordo cedinho. Desço até a recepção, pago a conta, e pego um táxi aquático. Esse é um meio de trasporte bem caro aqui, mas como é o último dia me permito gastar além da conta.
O motorista, se é que posso chama-lo assim, passeia comigo por toda Veneza.
Quando sinto fome, peço para que ele me leve a um restaurante, e depois de paga-lo, me despeço.
Pego meu celular, e Eduarda ainda não respondeu. "Será que está bem?"
Ligo para casa, e Ana atende. Ela diz que Du está dormindo.
JL: Até essa hora? — Pergunto. Aqui são 13h, mas lá deve ser bem mais tarde. — Ela ta bem?
A: Acho que sim, só não dormiu bem a noite...
Desligo o telefone e vou comer.
Fico matando o tempo com o wi-fi do restaurante, quando descido ir pro aeroporto. Está cedo, faltam algumas horas, mas não quero me atrasar.
Quando chego lá, fico passeando por algum tempo, até que finalmente posso fazer o check in.
Espero na sala vip, e felizmente o tempo passa rápido.
Mando outra mensagem para Eduarda, mesmo ela não tendo respondendo a última. Vou ficar 13 horas num avião, tenho que dar um motivo: "To indo fazer um passeio num lugar que não pega celular, não sei quando volto. A gente se fala amanha, tá?" Essa foi a única coisa que consegui inventar.
Entro no avião, e sento na minha poltrona super confortável. Estou na primeira classe agora, não tem ninguém sentado a meu lado. Não tenho motivos para querer companhia, a única pessoa com que quero conversar está a milhares de quilômetros de distância.
As portas estão abertas, meu celular ainda está pegando. Algumas pessoas embarcam, quando escuto meu telefone tocando. É meu pai:
JL: Eai coroa?
JA: "Eai"? — Ele me imita. — Que shit é essa no blog do Téo em? Tu não cansa de escandalos? — Ele grita.
JL: Como assim pai? Que história é essa de Téo?
JA: Ele já voltou a perseguir nossa família. Afinal, nós rendemos cliques. Eu morri e voltei, virei uma celebridade, consequentemente você também. As pessoas te reconhecem!
JL: Pai, o que aconteceu? Me explica logo! — Grito.
JA: Tiraram uma foto sua abraçado a uma mulher e mandaram para ele. Depois o Téo ainda atualizou o blog com uma foto enviada por um leitor, na qual a Eduarda aparecia chegando sozinha no aeroporto aqui do Rio. Imagina a manchete né? "Esposa traida chega ao aeroporto sozinha."
JL: Meu Deus, é por isso que ela não me responde...
JA: A Eduarda não merecia isso meu filho. Estou decepcionado com você!
JL: Pai, não é nada do que você está pensando...
Nesse momento o sinal começa a falhar. Não estou mais escutando o que o comendador diz. A comissária de bordo vem falar comigo, e pede para que eu desligue o celular: "Vamos decolar daqui a pouco.." Sinto raiva por ela falar português, gostaria de manda-la tomar naquele lugar. Claro que a culpa não é dela, mas eu não posso simplesmente desligar o celular após uma notícias dessa.
C: Senhor, por favor.. — Ela tem um sorriso nos lábios.
JL: Ok, me desculpa... — Desligo o telefone e coloco o cinto.
Essa vai ser uma longa viagem!
Depois de 13 horas exaustivas de voo, finalmente chego ao Rio de Janeiro. Não consegui dormi um minuto sequer. Du deve estar pensando o pior de mim... Ela confiou na minha fidelidade, e agora deve estar decepcionada.
As vezes eu me sinto cansado. Parece que os problemas só existem em minha vida. Mas acho que é apenas o ditado popular se mostrando verdadeiro: "A grama do vizinho sempre parece mais verde." Pois é, a vida dos outros sempre parece mais fácil...
Depois de desembarcar, passar pela polícia federal e pegar minhas malas, corro em busca de um táxi. Acho rapidamente um, dou o endereço e mando correr.
Quando chego, tudo está calmo. Os empregados ainda não chegaram, são 6:30 da manha, Du deve estar dormindo.
JL: Quem vai abrir a porta pra mim... — Penso em voz alta.
Vou apertar a campainha, quando vejo que a porta está entreaberta.
Fico preocupado.
Deixo as malas na porta, e subo as escadas correndo.
Escuto o choro de meus filhos.
Quando chego em seu quartinho, não encontro ninguém. Vou até eles, e vejo que estão com as fraldas sujas, os dois. Eu os troco e logo coloco no berço. Não há tempo para matar a saudades.
Corro pro meu quarto, e vejo uma trilha de sangue no chão.
Quando entro na minha suite encontro a cama vazia, chego perto dos lençóis e ele também está manchado de sangue.
MC: Lucas. — Me viro, e vejo minha irmã. — Assim que a mãe me pediu vim correndo cuidar dos bebes. O que ta fazendo aqui?
Não respondo.
JL: A Eduarda, cadê ela?
MC: No hospital, a nossa mãe ta com ela...
JL: Que inferno! — Grito. — No mesmo da última vez?
MC: Sim, mas..
Não deixo Clara terminar de falar.
Corro para procurar as chaves do carro. Felizmente estão no lugar de sempre, minha mãe deve ter vindo buscar Eduarda.
Entro no automóvel e dirijo o mais rápido que posso. Milhares de coisas estão passando por minha cabeça. Todas ruins.
Quando isso vai acabar? O que fizemos de tão errado para passar por tantas provações?
Chego no hospital, o lugar que infelizmente venho frequentado muito, e entro correndo.
Passo pela recepção, e ninguém me impede. Já sou mais que conhecido aqui.
Procuro minha mãe pelos corredores, até que a vejo sentada em um banco
JL: Cadê a Du?
MM: Fazendo uns exames... Por que já voltou?
Não respondo.
Entro em uma sala, e vejo Eduarda sendo examinada por um médico.
Dr: Você não pode entrar aqui.
Du: Lucas... — Ela está pálida. Seus olhos vermelhos. — O que tá fazendo aqui? — Ela não parece feliz em me ver.
JL: Era pra isso que você queria que eu ficasse? — Grito.
Du: O que? Como assim? — Ela diz, sem entender nada.
JL: Você me fez voltar para matar o nosso filho. Assassina, egoísta!
Du: O que? Larga de ser louco garoto! — Ela aumenta o tom de voz.
Iria falar mais algumas coisas, porém sou arrastado pra fora do quarto por uns enfermeiros. Eu estou irado!
Eduarda não podia ter feito isso, não sei se conseguirei perdoa-la...
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